Fabio Bottrel — O silêncio de quem parte

 

Sugestão para escutar enquanto lê: SacredSpirits- Ly O Lay Ale Loya

 

 

 

 

(Reprodução)
(Reprodução)

 

 

“A terra é profunda e a sua sabedoria é grande. Escute as pedras e escute o vento. Se todos fizessem algo pelos outros, não haveria ninguém necessitado em todo o mundo.” — Palavras de um índio Lakota registrada no livro Nem Lobo, Nem Cão — Por caminhos esquecidos com um índio ancião de Kent Nerburn.

 

O silêncio de quem parte é tão doloroso, que ecoa dentro d’a gente e faz pensar o sentido da vida. Nesse momento estou sentado num banco frio, com os pés sobre a grama úmida, tentando tragar os sentimentos do mundo enquanto olho a fumaça do cigarro se esvair pela noite acima de mim, ao lado meus amigos Marcelo Sampaio e Yoná Alves escutam o silêncio de um homem que caminha para a eternidade. Agora, estamos longe dos que confundem riqueza e alma.

A amizade é o que possuo de mais valioso na vida, procuro nelas alguém para chamar de família,por isso pude sentir o odor da dor de meus amigos ao velar o corpo de quem lhes é querido, Geraldo Gamboa. Por mais valente que desejamos ser, esse será o fim mesmo da vida mais bela, mas na minha breve existência percebi, ninguém viveu a vida que desejou viver. Reflita sobre isso e me diga, se não é indubitável o maior bem da vida estar no intocável? “O mesmo homem que passa tantos dias e tantas noites cheio de cólera e de desespero por ter perdido um cargo, ou por alguma ofensa imaginária à sua honra, sabe também que vai perder tudo com a morte, sem que por isso se inquiete ou se comova. É uma coisa monstruosa ver, num mesmo coração e ao mesmo tempo, essa sensibilidade pelas menores coisas e essa estranha insensibilidade para as maiores.” Já observava Blaise Pascal no século XVII.Amontoados de escravos modernos trabalham sem o direito de perguntar qual o sentido, sem direito ao desejo, fazendo da sua vida o encosto de outrem, disputando a maior relevância quanto mais explora o próximo, passando pela vida como um sopro: parafusos de uma engrenagem enferrujada.

Com o abraço do vento pelo tempo cheguei à casa com a esperança banhada em lágrima. Havia uma vida na geladeira, a ser bebida em goles esparsos na eterna calma dos seus lábios, em palavras aladas que buscam o sentido de uma alma preenchida de vazios. Usando da loucura como antídoto de uma sociedade doente, a solidão se torna a multidão mais densa, gritando a voz rouca de quem já nasceu velho, enganando a mim mesmo como se enganasse o destino, fingindo não saber ser apenas um instante na eternidade, um piscar de olhos entre a vida e a morte. Sentei em frente ao papel e escrevo agora esse texto, minhas mãos dormentes de frio desenhamsem vida os cuspes do meu peito, a cada palavra que sai, sai também uma parte de mim. Ao lado, meus ouvidos respiram as músicas sacras dos indígenas enquanto meus olhos esbarram em alguns dizeres em espanhol do livro de Kent Nerburn, Ni LoboNi Perro – Por Senderos Olvidados con un Anciano Indio, expressando a sabedoria dos índios Lakotas sobre o silêncio, amputada pela engrenagem enferrujada e jamais percebida pelos escravos modernos.

“WakanTanka, Grande Mistério,

Ensina-me a confiar em meu coração, em minha mente, em minha intuição, em minha sabedoria interna, nos sentidos do meu corpo, nas bênçãos do meu espírito. Ensina-me a confiar nessas coisas para que eu possa entrar no meu espaço sagrado e amar além do meu medo, e assim caminhar em equilíbrio com o passo de cada glorioso sol e gloriosa lua.”

(Traduzido do espanhol para português por Fabio Bottrel)

Lá embaixo, o som de funk disputa uma menina para uma selvageria sexual com os berros de um pastor para uma fiel temerosa de um julgamento celestial, se consigo escutá-lo desse lado do rio, penso que Deus deve ser mais surdo que eu. Lá embaixo não há silêncio, não há paz, não há liberdade. Sinto cada vez menos vontade de descer, mas a pureza de Tango, meu cachorro, espera o sol nascer todos os dias para correr atrás dele e o sol se pôr para correr atrás da lua.

Continuo escutando a música sacra, em uma língua que não consigo entender, mas posso sentir perfeitamente. Minhas mãos pararam de escrever por um instante e de novo me veio o pensamento de quando a natureza humana foi corrompida, olho para Campos e pergunto quando a cultura deixou de criar vida e dar espaço para a máquina criar o cimento oco humano. Teatros vazios, cineclubes vazios, mentes vazias, ruas lotadas de bêbados, de badernas, de estupidez.  Se a cultura é a mãe de todas as instituições, mas somente a política pode salvá-la dela própria, ao olhar para os nossos políticos, não preciso terminar essa frase.

Observando a ganância dos homens pelo poder a ponto de arruinar toda uma sociedade, me veio de imediato a carta do chefe dos índios Duwamish, que habitavam a região onde se encontra hoje o estado americano Washington, endereçada ao presidente dos Estados Unidos Franklin Pierce, em 1854, quando este tentava comprar as terras onde habitava sua tribo.

“O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.

Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.

Minha palavra é como as estrelas – elas não empalidecem.

Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.

O homem branco esquece a sua terra natal, quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem – todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d’água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe – a terra – e seu irmão – o céu – como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.

Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.

Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou rescendendo a pinheiro.

O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum – os animais, as árvores, o homem.

O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.

Assim, pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.

Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós – os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.

Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra – fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias – eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques sobrará para chorar sobre os túmulos um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos.

Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.

Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.

Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. “Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse”: E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração – conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”*

Após ler a carta, decidi plantar minhas palavras nesse texto como sementes na alma e permiti crescerem na voz soberana, além do nosso alcance… a voz do silêncio de quem parte banhado nas mudas lágrimas dos que ficaram no caos da engrenagem enferrujada.

 

 

* traduzido da publicação americana original do Dr.Henry Smith-1887. Fonte: http://www.geocities.com/rainforest/andes/8032/page16.html

 

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