Fabio Bottrel — Um conto em três atos (parte dois)

 

Sugestão para escutar enquanto lê: AntonínDvořák–Requiem

 

 

 

 

(Ilustração de Sebastian Eriksson)
(Ilustração de Sebastian Eriksson)

 

 

Primeiro Ato

 

Nas palavras está o meu sangue, e dele você há de beber

Vermelho

Verme

Ver

.

.

.

O ar estava morto quando Vicente abriu a grande porta emperrada da igreja, sentia pelo cheiro de mofo e poeira, nenhuma vida pisara ali durante muito tempo. As sombras varrendo o chão cinzento lentamente deram lugar a luz vindo de fora, esquentando o frio do ambiente. Logo o silêncio gelado voltou quando ele fechou a porta novamente, ficando só, naquele pequeno espaço de arquitetura pobre com algumas tentativas barrocas, mas sem requinte. Respirou fundo, ouvia seu coração bater forte e o olhar umedecer.

A escuridão camuflou-se com o alaranjado das velas acendidas por Vicente a cada passo dado até chegar ao altar. Atrás da mesa havia uma espécie de banheira com água benta, d’onde recolhiam pequenos baldes para benzerem todo o entorno da prisão. As velas eram maiores nas bordas do tanque e ele acendeu cada uma. Conseguia enxergar o fundo onde pequenos reflexos dourados davam a ideia de moedas no fundo do poço. Acima da banheira, pendurado na escura parede com contornos de madeira, jazia o pesado cálice dourado recheado de vinho dito sangue de Cristo. Ao lado, um quadro com o símbolo imponente da penitenciária e suas palavras de ordem sustentadas por cordas grossas pendentes de ganchos pouco acima. Puxou uma das cordas e ao desatarraxá-la da moldura o quadro caiu tilintando todo o vidro que se quebrou ao encontrar o chão. Olhou para o cálice numa posição ainda mais alta e pensou em como alcançá-lo. Observou todo o espaço e encontrou uma cadeira, arrastou até a frente da banheira, subiu.

O cálice era muito pesado, feito de ferro fundido com pedras ao seu pé. Nem mesmo se mexeu enquanto Vicente amarrava a corda dando dois nós apertados para não se soltar. Desceu da cadeira e a empurrou para o lado. Puxou a corda com força, mas o cálice ainda não se mexia. Com dificuldade, pois a corda não era muito grande, amarrou-a em volta do pescoço e puxou com esmero para se certificar de que não soltaria. Pôs as duas mãos na corda, à frente de seu pescoço, e puxou com toda a força que possuía, o cálice deu um ligeiro movimento à frente. Mais uma vez e de novo, o cálice andava alguns centímetros sobre o suporte de madeira cada vez que ele arrancava com a corda. Já estava ofegante e perdendo as forças quando o percebeu na beirada do suporte, prestes a cair, precisava apenas de mais um puxão. Respirou forte pela última vez e puxou a morte para si. O cálice caiu direto na banheira, puxando consigo o pescoço de Vicente água abaixo. O sangue de Cristo coloriu toda a água de vermelho e ajudou a sufocar sua respiração. Em seu pescoço rapidamente apareceram traços de hematomas, o sangue se prendia na corda enquanto a apneia o torturava. Não aguentou muito tempo, já estava cansado e ofegante. Logo o vermelho se tornou escuridão e o líquido santo lhe coloriu o pulmão com agonia, medo e dor.

Com a cabeça banhada em água segura pelo cálice e metade de seu corpo dentro do tanque, suspirou pela última vez dentro das borbulhas preenchidas de pavor, deixando a escuridão o abraçar e a morte levar.

 

***

 

 

Dois dias atrás…

 

Um agudo e estrondoso ruído decepa o sono de Vicente enquanto cochilava tranquilamente em sua pequena cama feita de concreto velho e pedras pontiagudas, as quais sempre espetavam suas costas sobre o fino colchão. A parede estava úmida de mofo decorrente de um vazamento no cano que ligava o vaso sem tampa à parte externa da cela. Espreguiçando, virou a cabeça para o lado, seus olhos mal conseguiam discernir imagens em meio a tantas cores e traços inerentes a rostos, roupas e objetos nos pôsteres e fotos de família do seu companheiro. A cama ao lado estava vazia, ainda desarrumada, fazia uma semana que João, seu amigo de cela, estava fora, cumprindo castigo em uma solitária por ter esfaqueado um homem no pátio, sofrendo com a dor de ser um condenado.

A estada de Vicente ali não era antiga, mas o suficiente para perceber: três dias numa solitária, nas condições tortuosas, impostas, colocava abaixo qualquer estrutura psicológica. Imaginava como o seu companheiro retornaria, um sorriso vazio com a pele tremendo de estresse ao adentrar a cela. Geralmente os detentos voltavam apáticos, mal conseguiam enxergar a luz do sol por um tempo e não tinham vontade de vida nem gosto pelos pequenos prazeres oferecidos, tais como comer, ler e banhar-se. Às vezes lhes permitiam assistir um filme, mas tal recreação fora proibida após a tentativa de assassinato de um guarda logo depois das luzes se apagarem. A comida também não era muito boa, mas quando se vive com o resquício do nada, se aprende a encontrar beleza onde não tinha.

A prisão tem algumas regras e Vicente já havia se inteirado delas. Sabia quem eram os intocáveis – protegidos pelos guardas e diretor – sabia qual era o lugar errado, na hora errada para estar, aprendeu com sangue os lugares arriscados, quais eram os perigosos, as gangues e os corruptos. Aprendeu a se defender com diplomacia e política. Não era um rapaz franzino, mas tinha ciência que a força física de um homem só, por maior que fosse, não seria páreo para o conjunto de homens representados por qualquer gangue dentro daquela prisão. Andava sempre alerta, o mundo inteiro aparentava estar à sua cola, esperando um passo em falso para matá-lo.

Logo após escutar o ruído agudo e incômodo emitidopelo sinal de onze horas da manhã, as grades de todas as celas se abriram, provocando um barulho ainda mais irritante com a ferrugem raspando sobre os trilhos sem óleo no chão. Ruídos do tempo, de vida sem tino, sentido sem vida.

Era a hora do almoço. Como no refeitório não havia espaço para a superlotação de presidiários, uma fila ia para o pátio banhar-se de sol enquanto outra fila se dirigia para o refeitório, onde comeria e logo após daria espaço para os outros condenados comerem, ocupando seus lugares ao sol no pátio.

Vicente pôs-se de pé, ajeitou seu uniforme constituído de uma camiseta folgada mesmo seus braços sendo musculosos e uma calça cinza desbotada. Do seu ombro partiam linhas pretas e vermelhas cingindo frases pelos seus braços e costas.

“Morro de pé, mas não vivo de joelhos”

Era uma das frases que desciam pelo seu tríceps.

Colocou o pé fora da cela e entrou na enorme fila de presos caminhando pelo lado direito indo ao encontro do exterior do complexo de celas enquanto do lado esquerdo, rente à fila em que estava, outra enorme fila caminhava em direção oposta, ao encontro do centro do complexo, onde se localizava o refeitório. Podia sentir o odor fétido de alguns detentos impossibilitados de fazer sua higiene adequadamente devido à falta de estrutura e superlotação das celas. Enxergava nos traços de seus rostos o ódio pelas circunstâncias que se encontravam. Era difícil de caminhar com tanta gente imprensada, uma pessoa empurrada lá na frente refletia em esbarrões e apertos na parte de trás. Quando o calor é grande, o local se torna abafado e tantos homens imprensados em um estreito corredor causa agonia e excitação dos ânimos em alguns presidiários, resultando em brigas e confusões só acalmadas quando um dos expoentes era derrubado, desmaiado ou morto.

Enquanto andava Vicente sentiu uma dolorosa picada no braço, logo percebeu o sangue derramando pelo seu cotovelo e antebraço. Tomou cuidado ao apalpar o local, havia um prego bem fino enfiado na sua carne, segurando um bilhete, e podia machucá-lo ainda mais caso ele tocasse de mau jeito. Retirou o bilhete marcado com o próprio sangue e o abriu.

“Suicide-se em 48horas ou sua esposa morrerá. ”

 

***

 

Vicente não tinha dúvidas de onde partira aquela mensagem. Dentro de dois dias testemunhará sobre o maior esquema de corrupção já visto em Campos dos Goytacazes, sua cabeça vale ouro nesse momento. Em menos de duas semanas da sua chegada à prisão já tinha sofrido três tentativas de homicídio. Pelas estatísticas, era o jurado de morte mais desejado de todos os tempos da Prisão de Bangu, no Rio de Janeiro. As autoridades se apressaram a oferecê-lo anistia e proteção em troca de informação e testemunho no caso ao qual estava atrelado. O novo presidiário aceitou de imediato, sabia, não tinha muito tempo de vida ali caso os agentes penitenciários não lhe dessem cobertura. Firmado o acordo, tornou-se um dos intocáveis. Havia outros dentro da penitenciária, peças-chave em casos de grande nome. A maioria era morta logo após, por vingança ou queima de arquivo. Não seria diferente com ele, por isso exigiu uma passagemcom a companhia da sua esposa para fora do país, e uma segurança financeira para começar a vida em local desconhecido.

Era vigiado o tempo inteiro e todos que tentavam se aproximar eram abordados e reprimidos pelos guardas. Tornara-se a peça principal do quebra-cabeça, quem tinha o poder de decidir sobre um dos maiores escândalos de corrupção do país, não permitiriam que nada o afetasse. Assim sendo, as gangues contratadas para matá-lo se tornaram ineficazes, nada dentro daquela prisão poderia atingi-lo, a não ser ele mesmo. A única solução encontrada foi forçá-lo ao suicídio.

Quando Vicente saiu do corredor e entrou no pátio, foi direto a um canto onde ficava um tipo de arquibancada para os detentos sentarem e conversarem, mas era raro encontrar alguém ali. Sentou no último andar e desatarraxou um parafuso suavemente, para ninguém, nem mesmo os guardas fazendo a ronda, perceber. Foi até uma pequena placa na parede, tapando um buraco, um tipo de bueiro. O parafuso era a medida certa para desatarraxaras duas peças principais que colavam a placa ao muro. Feito isso, enfiou o braço pelo buraco escuro e tirou lá de dentro um celular sujo e velho. Ligou, a luz acendeu e a bateria estava prestes a acabar, não daria para falar muito, concentrou todo o seu desejo para do outro lado da linha atenderem sua ligação. Sentiu o odor do esgoto tapando a tela do telefone e banhando a sua mão trêmula, uma gota de suor frio escorreu no canto da testa enrugada de tensão. Na agenda do celular só havia um contato sem nome. Apertou sobre ele e discou.

O telefone

tocou

uma,

duas,

três

vezes.

Sentiu mais uma gota de suor escorrer pela sua testa, o vento frio fazia seu corpo tremular.

Na quinta vez,

alguém atende.

Vicente sentiu seus nervos se extasiarem, sua mente experimentava um turbilhão caótico de pensamentos dos mais variados tipos. Sua pressão baixou e um ligeiro adormecer dos sentidos percorreu sua pele.

Houve silêncio, mas a voz do outro lado da linha não se pronunciou.

Após ouvir Vicente gaguejar, a tensão na voz do homem do outro lado ao dizer as próximas palavras era perceptível:

– Sua esposa foi sequestrada.

 

***

 

Cada hora que passava levava junto consigo as esperanças de Vicente, a calma e a sanidade. Passara um dia bolando planos para reverter a situação sem a necessidade do suicídio, mas nenhum deles surtiu resultados. Os bandidos haviam encontrado seu contato no outro lado da prisão, quem cuidaria de sua família e negócios caso houvesse algum problema como esse. Procurou os investigadores, os quais fez o acordo, pressionou-os chantageando, mas não adiantou. Eles próprios não podiam fazer nada, ninguém sabia onde ela estava, muito menos quem era o grupo articulando as mensagens do sequestro e ordenando o suicídio de Vicente dentro da prisão. Não havia outra saída, nem mesmo a certeza que sua morte salvaria a vida de Luísa, mas no momento era a única esperança.

Enquanto Vicente se martirizava pensando no que fazer, olhava para João, que voltou à cela naquele dia, apático como imaginara. Viu os ombros curvos por carregar o peso de uma vida que nada valia e o olhar sem brilho para a foto da esposa, Amanda, com o filho, colada em frente à escrivaninha. Às vezes dormia e quando acordava João ainda estava olhando para a foto, como uma estátua humana, sua posição aparentava não mudar. João era um homem impressionante aos olhos de Vicente, não entendia como fora parar ali, ao seu lado. Nas poucas conversas que tiveram sentia um ar de honestidade, mas por mais que ele dissesse ser inocente Vicente não acreditava. Ali, raramente algum dos presidiários diziam algo diferente. Olhava as mãos estufadas de João, calejadas pelo tempo e também não entendia como ele fora um grande executivo enquanto Vicente havia sido apenas laranja de político corrupto. João era convincente quando afirmava ter sido incriminado injustamente, era um homem com cacife para criar projetos a levar cultura à população e com ela diminuir a desigualdade e concentração de renda. Logo os outros empresários sentiam dificuldades em explorar, a vender algo que ele doava. Homem bom não tem lugar nessa sociedade, dizia ele. Arrumaram uma maneira de colocar todos os seus projetos buraco abaixo, acabaram com a sua empresa e o levaram à cadeia plantando provas de irregularidades fiscais. Vicente continuou a analisar a postura derrotada pela vida do amigo na escrivaninha e teve uma grande ideia.

– João, posso te tirar daqui.

 

***

 

Vicente ouviu o barulho estrondoso do sinal das onze horas martelar no seu ouvido enquanto dirigia o último olhar ao companheiro de cela com um pequeno balançar de cabeça, que firmaria o acordado já com uma despedida. Logo em seguida o ruir enferrujado das celas se abrindo permeou a sua pele e arrepiou seus pelos por gastura. Pôs o pé afora a cela e caminhou em direção ao pátio pelo corredor apertado, amontoado de presidiários e vozes incógnitas ecoando e se esvaindo pela ferrugem das janelas de vidro quebradoperto do teto.

Sentiu algo na nuca, como um tapa.

Olhou para trás, mas não podia saber quem era o autor do imprevisto, havia inúmeras pessoas empurrando umas às outras ao lado. Pôs a mão sobre as costas e percebeu um pedaço de papel por baixo da camisa, pegou e leu:

“Faltam dez minutos para o prazo terminar. Cortaremos a cabeça da sua esposa.”

Naquele dia à noite começaria o julgamento do caso e Vicente estava prestes a depor, colocando abaixo um império de bilionários horrorizando o país com suas informações.

Sentiu o sangue percorrer com força todas as suas veias, seu coração acelerou. Tinha medo de que não desse tempo de sair da fila. Por sorte, chegou ao pátio faltando quatro minutos. Dirigiu-se rapidamente para a frente da pequena igreja e gritou para todos, mas somente quem lhe enviou o recado entenderia:

– Eu cumprirei!!!

Dito isso, empurrou a porta principal.

… O ar estava morto quando Vicente abriu a grande porta emperrada da igreja. O cheiro de mofo e poeira dava a sensação de que nenhuma vida pisara ali durante muito tempo…

 

 

Segundo Ato

 

 

Uma semana depois…

 

João sentia a gota de suor frio escorrer na pele tensa, amarrado ao corpo estava todo o material escrito e alguns documentos importantes escondidos por Vicente. Havia acordado em ser a testemunha que seu amigo não pôde ser e certificar-se de que Luísa tivesse uma vida pela frente, em troca Vicente negociou com os guardas e a diretoria da prisão todos os recursos que não levaria para o além, e ajeitou a fuga de João para uma semana após sua morte, tempo que não poderia pagar para ver.

À meia-noite, João ouviu passos no corredor, esparsos, lentos, se juntavam ao silêncio de tão discretos. Estava escuro e não conseguiu olhar para o rosto do guarda abrindo a sua cela, não prestava atenção em mais nada além da sua fuga. Com uma capa preta, camuflando-se na escuridão, correu pelo corredor tropeçando com tremedeira nos pés enquanto sentia seus lábios dando tremeliques, pensou que enfartaria, nunca havia sentido tanta pressão no peito antes. Chegou até o final do corredor bloqueado por um portão, abriu com as chaves entregues pelo guarda e passou pela guarita vazia. Ao sair no pátio, havia uma escada para subir o enorme muro dividindo a penitenciária da cidade afora, subiu e teve uma vertigem quando em cima do muro manobrou para colocar o primeiro pé na outra escada, esperando do lado de fora.

O pé escorregou.

João ficou pendurado.

Seu corpo estava pesado.

Sentia que ia cair.

Suportou até o último momento, com os pés conseguiu puxar a escada para si novamente, enquanto uma das mãos estava segura no muro, ajeitou seu corpo na escada de madeira e desceu.

Estava livre.

Fora da prisão.

Correu, correu, correu no meio da mata em frente, olhou para trás e viu todo o seu pesadelo desaparecer aos poucos. Sentia o rosto quente e inchado dos mosquitos que o assolavam, coçava, coçava, até sangrar. Estava tudo muito escuro e não enxergava onde pisava, se machucou nos pequenos gravetos das árvores cortando a sua pele, teve medo de não achar o caminho. Quando cansou já estava perto da rua deserta, um carro o aguardava com a chave dentro, rente onde terminava a mata. Ao entrar no veículo e fechar a porta, saboreou o silêncio, o vapor da respiração no vidro, curvou sua cabeça para trás do banco e gemeu de alivio. Sentiu o coração na garganta, o peito bater forte como se pudesse escutar todo o seu interior. Desamarrou do corpo os papéis e documentos, junto havia um envelope com uma quantia suficiente para que ele conseguisse cumprir o objetivo e uma foto de Amanda com o filho no colo. Colocou a foto no painel, acendeu a luz do carro e folheou os papéis. Com letras do próprio punho, Vicente destrinchou todo o esquema de corrupção com alguns documentos como comprovação. Atuava em uma das empresas que serviram como laranja numa imensa obra em Campos dos Goytacazes, roubando bilhões dos campistas, enquanto o povo morria na fila do hospital sem recursos e as mentes se petrificavam na extinção da cultura. Tanta injustiça não poderia passar em branco, conseguiram abrir uma CPI para investigação, mas eram muito poucos, os bandidos haviam comprado a maior parte dos vereadores, manobraram e conseguiram empurrar a investigação para o final da fila, com perspectiva de nunca ser aberta. Com o povo alienado, nem mesmo entenderiam que estavam sendo roubados e enganados, os eventos levando quase meio milhão de reais para bandas que cantam asneiras, deixando assim as mentes vazias tais como os eventos culturais, eram uma benção para qualquer político corrupto. João dobrou os papéis e escondeu debaixo do banco do carona, ligou os faróis e acelerou cortando a neblina noite adentro em direção a Campos dos Goytacazes.

 

***

 

João viu flores numa grande floricultura à beira da estrada enquanto viajava, flores de espinhos vivos, parou o carro e foi encontrar as flores que perfuram a pele dos que se entregam à sua beleza. Flores vermelhas brilhando sem luz, pegou flores sob a luz que a aquecia e viu a cor da flor se ofuscar ao chegar perto da escuridão do balcão, onde a pagou. Embrulhou num papel cor de rosa e guardou na parte de trás do carro com tanto carinho como se colocasse uma criança na cama. As flores, que logo morreriam por enfeitar a casa de uma pessoa desejosa de sua beleza, acompanharam-no pela viagem afora. Ainda faltava muito para voltar à casa e encontrar sua esposa. Caminho árduo pela distância da pessoa amada.

Viajou pelas estradas e pensamentos adentro, conseguiu chegar com o resquício doce da escuridão. Eram três horas da manhã quando João bateu à porta de Amanda com as flores em seu colo, o céu estava estrelado, uma noite de nuvens brandas, saudades e desejos. Noite de lágrimas, boca, lábios, dente e língua.

À medida que a porta se abria os olhos se emocionavam, e por ele a alma transbordava através das pálpebras, cílios e íris. Os ouvidos sedentos pelos gritos de saudade transmitidos pelo silêncio, tornavam-se surdos d’aurícula, orelha ao tímpano. Os lábios respiravam o desejo de serem preenchidos. Os olhos se beijaram em perfeita escuridão enquanto as bocas se abraçavam. Escuridão de diamante negro, de nuvens carregadas, de terra molhada. Como um dançarino de tango, João deixou seu braço caminhar pelas costas nuas de sua amada até tomá-la por completo. E ao tomar, apertou com força, peito contra peito, rosto contra rosto, amor contra dor. Como coreografia, fechou a porta com a ponta dos pés e com passos próximos a levou até a cama.

João a penetrou com todo o amor que existia em si. A pele beijou os pequenos mamilos se enrijecendo enquanto sentia a respiração ofegante de Amanda lhe arrepiar o pescoço. Os gemidos dos espíritos se abraçando com os corpos se conectando ecoaram pelos órgãos. Prazer, supremo, Amanda, contorcia, cabeça, peso, João, corpo,colante. Os movimentos rítmicos como as ondas do mar em calmaria subiam e desciam estouravam como as espumas do mar o mesmo som das conchas o mesmo sabor salgado amor, dor, or, r, donos do mundo. Enquanto a flor jogada no chão perdia sua pétala, João a amou como nunca houvera amado, beijou como nunca houvera beijado, desejou, como nunca houvera.

Instantes depois, escuta-se batidas firmes na porta. A pétala se perdeu, a vida emudeceu, amanheceu, a realidade, com ela, o dia. João não precisava abrir a porta para saber o que se encontrava do outro lado. Deu um beijo firme em Amanda e se vestiu. Foi o tempo de ouvir um grande barulho. A porta foi arrombada e policiais lhe apontavam armas enquanto gritavam para ele se deitar. A reação apática de sua esposa surpreendeu-o. Amanda sabia, ele não cumprira seu tempo de pena. Com o coração apertado, ela lhe disse enquanto era levado algemado:

“Volte para casa, meu bem.”

 

***

 

João entrou na parte de trás da viatura enquanto observava uma lágrima escorrer do rosto de sua esposa na porta de casa, aos poucos viu toda a imagem se esvair enquanto o carro se distanciava em direção a delegacia onde prestaria os depoimentos e cumpriria sua parte no acordo. Enquanto Amanda olhava os documentos e orientações deixado pelo seu esposo debaixo da cama ligava insistentemente para Rafael, que se escondia na casa de uma amiga, mas ninguém atendia e o desespero ocupou todo o espaço dentro de si. Não imaginava o mundo sem o filho, suas vidas corriam perigo desde agora e tinham de chegar o quanto antes ao aeroporto para partir com as passagens já deixadas por João no envelope com as orientações.

Mal se arrumou e correu para a garagem onde tirou o carro às pressas, o celular já marcava 16 ligações e ninguém atendia. Amanda tremia, as lágrimas simplesmente desciam sem perceber e banhavam os cortes nos lábios mordidos enquanto continuava tentando falar com seu filho.

Chegou à casa da amiga no bairro Flamboyant, estava toda escura, as luzes apagadas como se não houvesse ninguém. Saiu de um impulso do carro, largou aberto e ligado, correu, correu, correu, empurrou a porta da entrada com o ombro e entrou. Chamava por Rafael, mas ninguém atendia e quando estava prestes a perder a cabeça, sua amiga Letícia apareceu, escondendo parte do seu corpo na quina da cozinha. As duas se abraçaram, Letícia estava amedrontada e Rafael escondido na despensa, o celular não havia funcionado e não recebeu nenhuma ligação, como era comum pela área ruim daquela região. Sua amiga já estava pronta para partir também, mas não queria deixar a cidade, já tinha destino para ir naquele momento mesmo.

Amanda deu um abraço forte em Rafael e juntos correram até o automóvel, percebeu um farol no final da rua e teve medo de talvez já ser tarde demais. Teve dificuldade para dar a partida com as mãos trêmulas, acelerou o máximo que pôde sem sentir a força pela perna adormecida. Olhou no retrovisor, o carro continuava atrás mesmo com toda a velocidade e teve certeza de estar sendo perseguida. Dois minutos depois o celular toca com uma ligação de João.

– Não vá para o aeroporto! Estão esperando vocês lá!

Mas não havia solução, já estavam sendo perseguidos e a única maneira de se salvarem era no aeroporto, onde pegariam o voo para longe. Não sentia mais seu corpo enquanto acelerava, estava todo dormente e o rosto banhado em lágrimas. Pensou rápido, talvez já fosse tarde demais para se salvar, mas poderia salvar Rafael.

 

Terceiro Ato

 

Estavam próximos do aeroporto, e ao dobrar em uma rua escura gritou para Rafael saltar e se esconder num grande buraco de bueiro, onde o garoto ficou agachado esperando o tempo combinado. Amanda acelerou o máximo que pôde, numa rua movimentada atravessou o sinal e jogou o carro contra outro que passava. Parecia câmera lenta quando percebeu estar sem o cinto, seu corpo levitou, olhou, seu rosto rachou o vidro e se rasgou. Formou-se um corte até o nariz e o sangue tapou sua vista.Logo toda a rua se encheu, policiais e bombeiros.

Amanda saiu do carro todo quebrado do acidente, conseguiu perceber, de longe os seus caçadores observavam. Ajoelhou com a porta aberta, sentiu as pedrinhas do asfalto alfinetarem sua carne e começou a chorar pela morte de seu filho, mas não havia ninguém no carro. Algumas pessoas no entorno diziam, deus o levou antes do acidente, enquanto outras diziam ser um delírio, que já não havia ninguém mesmo. Mas Amanda sabia exatamente o que fazia. Com os bandidos observando a mãe chorando a morte do filho, acionaram para que todos os outros saíssem do aeroporto e se dirigissem para aquela região, onde estava Amanda.

Rafael, quando observou o movimento suspeito dos homens deixando o aeroporto rapidamente, não perdeu tempo e correu, correu, correu, com todas as forças do mundo, chegou ao aeroporto e pediu abrigo em uma sala até o seu voo estar preparado para partir.

João na porta da delegacia, enquanto se preocupava com o destino da sua família e o testemunho sobre Vicente, nem mesmo adentrou o espaço. Um atirador em um prédio distante acertou em cheio a sua nuca, espalhando sangue por toda a parede da entrada. Campos dos Goytacazes permaneceria sem conhecer seus maiores usurpadores.

Amanda estava feliz, deitada na ambulância, acabara de receber uma mensagem de Rafael dentro do avião, mas sabia, sua ambulância não chegaria ao hospital. Não demorou para ouvir uma freada brusca no meio da estrada e a porta de trás do carro se abrir.

Mas estava feliz, a sua melhor parte viveria.

 

FIM

 

***

 

Quando Daniel digitou a última palavra “FIM” e suas mãos pararam de se movimentar, sentiu o vazio de novo lhe preencher. Não escutava mais as vozes de João e Amanda. Havia matado mais dois amigos como tantos outros, sentia-se morrer a cada obra, mas estava orgulhoso de seu trabalho. Sentia-se feliz, pois a cada texto concluído era como se aproximasse mais de seu sonho. Mesmo as críticas sem fundamento o animavam, como se sentisse vivo para ir cada vez mais longe. Acendeu um cigarro e quando olhou para o relógio assustou-se, já eram quatro horas da madrugada, Balzac dormia ao seu lado, e Daniel já sonhava com os próximos amigos.

 

FIM

 

***

 

Continuo esse texto, na esperança de não perder Daniel, mas assim como as pessoas na vida, os personagens têm seu tempo de existência. Mas é dolorosa a partida, o pior é não ter despedida, simplesmente se vão, junto com a história. É muda uma vida feita de encontros e desencontros tão breves. Não aguento mais escrever contos pequenos e vivê-los tão pouco tempo.

Continuo escrevendo na esperança de não o deixar partir, mas como todos na vida, ele tem de ir…

É difícil escrever essa última palavra…

 

FIM

 

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