Opiniões

Fabio Bottrel — Reflexões de um Extraterrestre

 

Sugestão para escutar após a leitura: Tom Waits – No VisitorsAfterMidnight

 

 

 

 

Bottrel 22-10-16

 

 

Paris, Londres, Atenas… dentre tantos lugares Japelão foi se perder em Macaé, fruto de um erro do GPS da sua nave. Estava em uma missão de pesquisa sobre a Terra e os humanos, comandada pelo alto escalão de seu planeta. Diante da grandiosidade da tarefa fora designado quando ainda não havia nascido, passou a vida estudando e de tanto analisar já pensava como um ser humano, na teoria. Graças ao seu preparo conseguia discernir sua localização pelo desenho do continente, sabia estar em um país não selecionado como parâmetro de pesquisa.

Enquanto rondava a orla de Macaé tentando reprogramar suas máquinas a fim de acertar a rota, logo foi descoberto pela população e espantou-se com o destaque das notícias em jornais e revistas. Não demoroupara a cidade encher de ufanistas procurando Japelão incansavelmente dia e noite. Armaram barraca na praia, acenderam incenso com cheiro de E.T, meditavam nas vozes dos anjos, à noite acendiam luzes verdes e gritavam: “Vem E.T! Vem E.T! Vem E.T!”. Japelão preocupado com a repercussão de sua estada decidiu partir o quanto antes. Colocou a velocidade de sua nave no máximo, tão rápida quanto a luz, nem ele mesmo podia acompanhar, era guiada por um piloto automático, pois a rapidez só era acompanhada por uma inteligência artificial. Não se precaveu quanto ao destino que seguiria, queria sair dali o quanto antes. Devido à estrutura de sua nave estar avariada, no calor do momento não lhe ocorreu que o piloto automático poderia não funcionar perfeitamente, e foi o que aconteceu. A nave bateu em 16 árvores antes de quebrar por completoe cair numa estrada de Campos dos Goytacazes.

Quando Japelão acordou saiu da nave ainda cambaleante pelo acidente, percebeu sua nave faltando peças, nenhuma das rodas estavam ali e se assustou, sem as peças não conseguiria consertá-la para voltar ao seu planeta. Estava num abismo, e quando olhou para a ribanceira tapando os olhos da claridade forte do sol, viu as rodas indo embora na caçamba de uma caminhonete. Logo em frente ao acidente, lá na ribanceira, havia um homem encostado na cerca analisando a cena. Caminhou até o humano com dificuldade, pois seu corpo não era apropriado para enfrentar o mato seco e nem os carrapatos. Antes mesmo de Japelão se aproximar o homem já gritava com os olhos fixos na nave:

— É sua essa coisa aí?!

— Binadamu, kunisaidiakwameliyangu.

— Oi?!

— Kunisaidiakwameliyangu.

— Que que cêtá falando, cabrunco?!

Japelão percebeu que houvera um erro de planejamento da sua missão, passou a vida inteira estudando suaíle como língua universal da Terra e o homem não conseguia entender uma palavra. Usou a mímica, outro dos artifícios estudados, apontando a caminhonete que levara suas peças e imitando a forma das rodas enquanto olhava para a nave.

— Ah, aqui é assim mesmo, se cair um carro e não tiver ninguém por perto levam tudo. Se der mole, leva até ocê que tá dentro.

O homem analisa Japelão com estranheza, a gravidade no planeta de onde veio é diferente e fez com que o corpo se deformasse para baixo em relação ao humano, não havia pelos no corpo e era feio de dar dó. Logo chegou a polícia e enquanto enfiavam a criatura feia de dar dó no carro ela resmungava em suaíle, mas ninguém entendia.

Ao contrário do que havia imaginado fora muito bem recebido pelas autoridades da cidade, construíram uma casa para ele, onde receberia tratamento e treinamento adequado para se inserir socialmente e trocar conhecimentos com os terráqueos. Todas as mordomias foram providenciadas para o extraterrestre, mas tudo o que ele queria era encontrar as rodas da sua nave para voltar à sua casa. Japelão tentava um diálogo, dizia: “Suaíle”, para comunicar qual o idioma falava, mas ninguém ali tinha conhecimento que era um idioma. Logo o governo federal criou um material didático para o E.T aprender a se tornar um cidadão, mas os políticos locais decidiram gastar milhões para fazer outro material e Japelão não entendeu.Contrataram um professor de português para ensinar as idiossincrasias regionais e a se comunicar nessa sociedade, mas surgiam mais dúvidas em vez de diminuir em cada correção que o professor fazia:

— ‘Mais pequena’ não pode, tem de ser ‘menor’.

— Por quê?

— Porque alguém escreveu isso aqui na gramática… — Disse o professor com o livro aberto.

— Mas se eu quiser usar, não pode?

— Não pode.

— Por quê?

— Porque tá escrito aqui na gramática…

O E.T se encantou com a capacidade limitada de raciocinar daquele povo, era como os cachorros do seu planeta. Diante da docilidade e aparente ingenuidade do extraterrestre logo surgiram programas para ajudá-lo a reerguer a máquina e voltar para casa. Japelão era uma espécie de antropólogo do seu planeta e não entendia muito bem a tecnologia, mas um grupo de cientistas terráqueos fora designado para projetar o conserto da nave com as devidas instruções. O projeto foi avaliado em cinquenta mil reais para ser entregue em três meses, mas já se passaram anos e o valor ultrapassou a casa dos milhões, Japelão não entendeu.Sem a perspectiva de ficar pronto, começou a perder as esperanças de voltar para o seu planeta.Fecharam um contrato de valor exorbitante com uma empresa que faria água para E.T beber, mas Japelão não entendeu, ele nem mesmo bebia água. Enquanto ele espera inventaram a construção de um bairro “E.T Alegre” para abrigar mais extraterrestres, por mais que alertasse que ninguém viria, foram construídas centenas de casas incompletas e gastos milhões, Japelão não entendeu, só queria as rodas da sua nave de volta para ligar a máquina e voltar pra casa. Enquanto caminhava pela cidade para conhecer mais sobre a cultura humana, Japelão viu pessoas morrendo em hospitais carentes de cuidados, pessoas em estado precário tentando ganhar seu pão e enquanto isso gastavammilhões para pintar o chão da rua e asfaltar sem parâmetro. O E.T viu que não conseguia entender aquele povo e ao perguntar por que isso? Ninguém respondeu.

Diante de tantas dúvidas, o E.T começou a estudar filosofia para entender melhor a vida, Nietzsche, Hegel, Spinoza, Platão, Rousseau… mas não entendia, as dúvidas só aumentavam cada vez mais. Anos se passaram, bilhões foram gastoscom sua estada na Terra, o extraterrestre se tornou safo, sabia que não consertariam sua nave e não iria mais embora, Japelão deixou a barba descer, a barriga crescer, comprou charutos e virou filósofo.

 

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