Guilherme Carvalhal — O dono do tempo

Carvalhal 03-11-16

 

 

As lembranças em torno do Maduim não remetiam a grande coisa. Sujeito franzino, desprezível, insignificante. Muita gente nem dava conta da sua existência. Tanto que quando sumiu, ninguém sentiu falta. Quando voltou (ninguém lembrava há quanto tempo partiu) não parecia muito mudado. Permanecia magro, baixinho, não assustava ninguém. O mesmo aspecto de sempre.

De diferente, só o relógio. Trazia no bolso do casaco e o sacava exibido a um ou outro, explicando sobre essa magnífica invenção que permitia saber com precisão as horas, minutos e segundos. A geringonça causou assombro, mas de início ninguém deu muita importância.

A primeira a procurá-lo foi uma mãe. Após a recomendação médica de dar um remédio ao filho de doze em doze horas, pediu para que lhe informasse o horário exato. Ele concordou em notificá-la, mas cobrou. E assim as pessoas enfermas compuseram em peso sua clientela.

Aos poucos muita gente começou a pagar pelos serviços de tempo com diversas finalidades. Queriam saber a hora de embarcar no trem, de rezar a novena das três da tarde, de iniciar uma festa. O padre mesmo lhe pagava para que o sino badalasse exatamente no horário das funções religiosas.

O lucro de Maduim extrapolou e ele formou uma rede de funcionários, a maioria meninos trabalhando como estafetas. Corriam na casa de um para informar a hora da colherada de xarope, corriam ao sacristão para convocar o povo para a missa. E todos se tornaram dependentes do tempo de Maduim.

O ápice de sua influência se deu quando o coronel Clemente o procurou. O homem mais rico e poderoso da cidade desejava implantar em sua fazenda um sistema de controle mais funcional e o pretendia determinando todos os horários. Estabeleceria hora de entrada, a duração do almoço, hora de saída, e para isso precisava dos ponteiros a seu favor.

Maduim se tornou o segundo mais rico da cidade e assumiu o comando de todo funcionamento da fazenda. O começo da labuta na lavoura e os quinze minutos de refeições dependiam de seu aval, estendendo a duração para além do que os funcionários imaginavam. Os trabalhadores reclamavam e o capataz justificava, todos trabalham oito horas por dia e cumprem uma hora de almoço. Indignados, mas sem argumentos, se calaram e não mais protestaram.

Como não havia mais quem dispensasse seus serviços, Maduim decidiu ampliar seu predomínio. Lentamente, começou a sabotar os horários. Bebês choravam de fome e casais se desencontravam por conta das diferenças impostas por ele. O marido chegava em casa e a comida estava fria, gerando briga com a esposa. Pouco a pouco, conseguiu implantar o caos entre os moradores, que se queixavam sobre sua prestação de serviços.

Assim, ele lançou sua proposta: caso o aclamassem prefeito, o serviço do tempo se tornaria de utilidade pública, contanto que ele dispusesse de plenos direitos. O povo assustado e ao mesmo tempo embasbacado o aplaudiu e carregou nos braços. Demoveram o prefeito e o colocaram no lugar.

Com sua influência, lançou os lavradores contra o coronel, contando sobre as falcatruas envolvendo as jornadas de trabalho e alegando que com seu relógio seriam capaz de gerar produções mais satisfatórios e melhorar as condições gerais, até aumentando os ganhos dos colonos. Um grupo de revoltados insurgiu-se contra Clemente e o enforcou. Logo o tabelião passou a propriedade para o  nome de Maduim e o delegado se pôs a seu serviço para quaisquer necessidades.

Dominando as horas, o novo prefeito teve poder absoluto naquela cidade pelo restante de seus dias. Ele andava pelas ruas com seus fardão e sua cartola de peito empinado, com todas as pompas possíveis. Muitos chegavam perto e perguntavam as horas. Ele sorria e respondia, oferecendo a esses pobres coitados uma migalha de sua fortuna.

 

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