Opiniões

Ocinei Trindade — A urgência do tempo devorador

 

“Saturno” (1636), de Peter Paul Rubens, Museu do Prado, Madri

 

 

Começo a escrever este texto às 9 horas e 22 minutos do dia 22 de fevereiro de 2017. Me propus escrever em no máximo 30 minutos apenas 30 linhas de texto. É a lauda tradicional de uma matéria de jornal este tamanho. Costumo sofrer, e muito, para não ultrapassar o tempo e o espaço, além de me contorcer para preencher 30 linhas de palavras. Há momentos (são muitos) que as palavras simplesmente escafedem-se.

É que estou cheio de compromissos para este mês de março. Pensei em abandonar por um tempo esta coluna com minha contribuição quinzenal. Porém, reconsiderei, pois para mim é uma oportunidade tão boa estar neste espaço virtual interagindo com as pessoas, fazendo duas das coisas que eu gosto mais: pensar e escrever. Então, na busca de um tema, resolvi falar desse meu tempo angustiado e escasso para dar conta de tanta coisa.

Tenho uma tia adorável, mas cheia de manias. Ela sempre foi motivo de comentários jocosos na família por estar sempre repetindo uma frase que virou espécie de bordão: “Eu não tenho tempo”. Toda vez que perguntávamos por alguma novidade, atividade, se tinha visitado algum parente, realizado alguma tarefa, e se isso não pudesse ser feito por qualquer motivo, lá vinha ela com a famosa frase: “Eu não tenho tempo”.

Se não me engano, astrologicamente sou regido por Saturno, deus romano e planeta de nosso sistema por ser do signo de capricórnio. O tempo é muito importante para os capricornianos, mas nos iludimos nas armadilhas de Cronos (deus grego que corresponde ao deus latino Saturno – sim, o sincretismo já existia na Antiguidade), filho do Céu e da Terra. “O tempo é muito longo para os que esperam”, já versava Shakespeare.

Olho para o relógio e percebo que meu tempo vai avançando para o limite. São 9h39 e ainda faltam algumas linhas para dar conta de uma lauda. Este texto só será publicado/postado dentro de duas semanas. Talvez, ele faça algum sentido, talvez não. Mesmo quando escrevemos coisas datadas, temos a chance de fazer do texto algo atemporal. Embora esta autonomia do texto não caiba ao seu autor. A palavra vinga.

O capítulo 3 de Eclesiastes sempre me provocou, pois se trata do tempo para todas as coisas. Há uma lista bastante significativa das ocupações que o tempo nos dá. Sempre gostei da ideia de não me preocupar com tempo. Às vezes consigo. Todavia, sou punido depois por ter desperdiçado demais. Há uma música do Louis Armstrong,“We have all the time in the world” que amo. Nós temos todo o tempo do mundo? Ele canta. 9h46.

 

fb-share-icon0
20
Pin Share20

Este post tem um comentário

  1. “Fotografei o perdão”
    (Manoel de Barros)

    Negativos

    (Em parceria com Sthevo Damaceno)

    Os olhos de esferas e vitrais;
    De natureza morta, verde musgo
    Com brilho de primaveras e cristais,
    Da pincelada de Goya no escuro
    (Com toda força de um muro)
    Resiste a visão mecânica, futuro
    Que devora o próprio filho,
    Com a saliva de um louco,
    Entre os dentes de Saturno.

    Num gemido mudo,
    O sol semeia o ventre dos vitrais:
    Que mergulha nesse verde flóreo,
    Parecendo corte de faca ao caule.

    E como na pintura
    O verde e o amarelo geram o azul
    Como um céu de sertão,
    Os caminhos de Ulisses,
    Ou o perdão nos olhos de um mendigo
    — Pincéis de uma só tintura.

    Nesse momento, não lúcido,
    Os olhos de esferas e vitrais esgarçam o azul
    Até que as lágrimas brotem, como ondas,
    Umedecendo a realidade que apavora

    E quando o sol se esvai
    A natureza morta renasce de um cais,
    Mas fica o corte do caule, na pele e na alma;

    o resto é imagem.

    Campos, 01/12/06

Deixe uma resposta

Fechar Menu