Igor Franco — A guerra que fingimos não ver

 

 

Igor Franco, especialista em finanças e professor do Uniflu

A guerra que fingimos não ver

Por Igor Franco

 

Os acontecimentos dos últimos dias reacenderam a discussão sobre a existência — ou não — de uma guerra irregular travada pelo Estado brasileiro contra as facções criminosas. A dúvida, nesse caso, é legítima. Já quanto ao conflito aberto entre as próprias facções e entre estas e as milícias no Rio de Janeiro, não há espaço para hesitação: é guerra declarada.

Nessa disputa, a barbárie é regra, não exceção. Decapitações, esquartejamentos de adversários, expulsão de famílias e a imposição de regras draconianas de convivência nos territórios ocupados fazem parte do cotidiano dos moradores das comunidades tomadas. Qualquer usuário do X (antigo Twitter) pode, em poucos cliques, acessar páginas repletas de registros gráficos para constatar a brutalidade que se tornou rotina nesses locais.

Na última segunda-feira (3), o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro concluiu a perícia nos mortos da Operação Contenção. Para desespero de parte expressiva do arco progressista, os dados são eloquentes: até o momento, 97 dos 115 identificados possuíam histórico criminal, enquanto 12 dos 18 sem informações oficiais exibiam registros de envolvimento com o tráfico em suas próprias redes sociais.

Em que pese o luto das famílias dos quatro policiais mortos, a ausência de inocentes entre as vítimas indica que a operação atingiu resultados legítimos e importantes: neutralizou mais de uma centena de criminosos fortemente armados, apreendeu dezenas de fuzis e impôs ao Comando Vermelho uma desarticulação temporária em seu domínio sobre o Complexo do Alemão.

O impacto, porém, foi além das estatísticas policiais. A megaoperação atingiu em cheio a narrativa de parte da esquerda e, de modo particular, o Governo Federal. Há muito desconectado de qualquer senso de realidade sobre Segurança Pública, os discursos que se seguiram oscilaram entre o patético e o lamentável.

O outrora loquaz presidente Lula, inebriado pelos recentes acertos políticos, submergiu. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, criticou a ação e nos contou que os responsáveis pelo tráfico vivem fora do Brasil. Aparentemente, o ministro sabe de algo que nós — e a Polícia — não sabemos. Só nos resta torcer para que encontre alguma autoridade responsável. Guilherme Boulos, de quem não se espera nada, segue sua sina de decepcionar: durante a posse como ministro, pediu um minuto de silêncio pelos mortos na operação, colocando no mesmo balaio os narcotraficantes e os policiais assassinados no cumprimento de suas atividades.

Já Ricardo Lewandowski, titular da Justiça, que assumiu o cargo prometendo desencarcerar presos e denunciando um suposto excesso de prisões, foi rápido em condenar a operação e alegar desconhecimento prévio. Desmentido ao vivo pelo chefe da Polícia Federal e confrontado por pesquisas de opinião que apontaram apoio maciço à ação, recuou, tentando expressar algum tipo de “apoio condicionado” ao governo estadual, apenas para evitar uma derrota mais ruidosa.

Apoio mesmo, ministro Lewandowski, teria sido enviar os veículos blindados requisitados no início do ano. Aqueles que, por ter esteiras no lugar das rodas do Caveirão do Bope, são capazes de derrubar as barricadas. Que não apenas impedem a progressão das ações policiais, mas diariamente infernizam a vida dos moradores das comunidades, restringindo o direito constitucional de ir e vir.

E, por falar em direito constitucional, o papel do Supremo Tribunal Federal não pode ser ignorado. Quase metade dos traficantes mortos era oriunda de outros estados. A um estrangeiro recém-chegado, esse dado pareceria absurdo; a qualquer brasileiro sensato, porém, ele soa previsível. Foi o desfecho natural da “ADPF das Favelas”, decisão do STF que, em plena pandemia, impôs severas restrições às operações policiais no Rio.

O resultado foi a migração em massa de faccionados de todo o país, justamente convencidos de que estarem encastelados nas favelas cariocas era uma garantia de integridade muito maior que permanecerem em seus estados de origem. Os alertas das forças de segurança não encontraram eco no tribunal, muito ocupado que estava intervindo sobre os demais Poderes e reabilitando condenados confessos por corrupção. Coincidência ou não, a sensação de impunidade e o fortalecimento do crime organizado avançaram no mesmo compasso.

O Brasil enfrenta uma longa lista de urgências: equilibrar as contas públicas, reformar a máquina administrativa, melhorar a educação e ampliar o acesso à saúde. Mas nenhuma é tão imediata quanto a Segurança Pública. Sem segurança, não há economia estável, política social efetiva ou cidadania possível. Boa parte da esquerda tem razão ao lembrar que ações policiais isoladas não são suficientes para acabar com o problema. Mas reconhecer tal limitação é completamente diferente de afirmar que ações policiais são um problema. Pelo contrário, parte fundamental da solução está em retomar os territórios perdidos ao longo de décadas.

São áreas onde as facções exploram economicamente a população, impõem tribunais de exceção e punem com crueldade qualquer tentativa de insubordinação. De meninas esquartejadas por recusarem relações com chefes do tráfico a crianças assassinadas a sangue-frio apenas por pertencerem a bairros vizinhos, a rotina é de horror permanente. O apoio maciço das comunidades à operação da semana passada, demonstrado insuspeito (confira aqui) pelo instituto AtlasIntel, é a evidência mais clara de que são justamente essas pessoas as principais vítimas da tragédia.

É compreensível lamentar que o país precise recorrer a operações tão letais para recuperar o controle de seu território. Mas é preocupante — e sintomático — lamentar a morte de criminosos que escolheram empunhar fuzis contra a sociedade. A tragédia não está na ação do Estado, mas na omissão que a tornou inevitável. Enquanto insistirmos em confundir vítimas e algozes, o Brasil continuará oscilando entre a hipocrisia política e a covardia moral. Que fingem não ver a guerra há muito tempo às nossas portas.

 

Operação no Rio, Lô Borges e futebol no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.

 

Os jornalistas e blogueiros do Folha1 Edmundo Siqueira e Matheus Berriel são os convidados para o Folha no Ar desta terça (04), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Edmundo falará sobre a megaoperação policial do dia 28 nos complexos cariocas de favelas do Alemão e Penha, com 121 mortos. Como das reuniões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para tratar do tema hoje (03) com autoridades fluminenses (confira aqui) e sobre o reflexo disso (confira aqui, aquiaqui e aqui) nas pesquisas e nas eleições de 2026.

Matheus falará sobre o legado do músico, cantor e compositor mineiro Lô Borges (confira aqui), falecido hoje (confira aqui) aos 73 anos, e de Palmeiras e Flamengo na briga pelo Brasileirão e a Libertadores da América.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

Johnatan França de Assis — Chacina sob aplausos

 

“Três de Maio de 1808 em Madrid — Os fuzilamentos da montanha do Príncipe Pío”, óleo sobre tela de Francisco de Goya, de 1814, que denuncia o fuzilamento de espanhóis pelas tropas de Napoleão Bonaparte durante o ocupação francesa da Espanha (Museu do Prado, Madri)

 

Johnatan França de Assis, profissional de psicologia, estudante de ciências econômicas, militante antifascista e do RUA Juventude Anticapitalista e membro da executiva municipal do Psol em Campos

Chacina sob aplausos: aonde vai o Brasil disparado da ponta do fuzil?

Por Johnatan França de Assis

 

Marielle perguntou, eu também vou perguntar:

Quantos mais têm que morrer pra essa guerra acabar?

 

O choro de uma mãe pelo suplício de um filho é uma imagem que atravessa o espírito humano, pirronicamente, suspende os juízos morais, de quem é mocinho, quem é bandido, porque no fim, com suas imperfeições, é todo mundo gente. Mas diferentemente do que pretende o sábio de Eléia, ninguém sai em ataraxia, os corpos amontoados na praça debaixo do pranto dos entes queridos não é algo que traz ausência de perturbação, é a própria perturbação, o Rio de Janeiro não é para amadores.

Sinto-me Goya retratando Napoleão enquanto a maioria da população, como Hegel, lhe planta uma árvore em homenagem. Talvez esse seja o momento de, como Magritte, colocar Hegel de férias, e de cabeça pra baixo (como fez certo filósofo), para conseguir lidar com a contradição dialética evidente. A Weltseele de hoje não vem montada a cavalo, e nem sobe o morro num camburão, a imagem da Alma do Mundo hoje é o corpo de um rapaz de 19 anos decapitado na Serra da Misericórdia.

Onde se quer chegar com isso? Sabemos de 121 histórias que nunca mais poderão ter um traçado melhor. Em menos de um dia se tem de volta todo prejuízo econômico, e nenhuma vida volta. Não sei quantas vezes o Estado falhou com Ravel, que projeções e horizontes ele tinha, mas tenho certeza que se alguém é torturado e morto pelo Bope depois de se entregar, o Estado falhou aí. Há dois meses ele tinha entrado pro tráfico e ano que vem poderia estar convertido numa igreja, ou se tornado MC, ou outra qualquer coisa que não fosse o que ele era ali. Devir interrompido.

Operações devem usar inteligência e diminuir a letalidade, não existe pena de morte legalizada no Brasil. Mas há como que legalizada aqui a espetacularização da violência e justificação do massacre. E contra a maré estão os que apontam a patente inefetividade desse tipo de ação, as facções vão recrutar mais jovens para fazer esse moedor de carne incessante. É tão difícil perceber que matar o irmão de alguém recruta um novo membro de facção aqui, ou um novo terrorista lá em Gaza? O Haiti é aqui, Gaza também é aqui.

Será que é uma posição tão radical e assustadora defender o direito à vida e um combate ao crime que reintegre, não aniquile? Por que esse gozo sádico do extermínio? Você se sente mais seguro hoje? Eu também não.

Que nesse dia de Finados, todas as pessoas que amam alguém que se foi encontrem consolo, e respeito.

Paz.

 

Operação no Rio pode ser à direita o que Trump foi a Lula?

 

No último domingo (26), Trump e Lula na Malásia (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

 

 

Apoio à operação ou voto em Lula?

Ainda não há pesquisas para avaliar o reflexo eleitoral a 2026 do maciço apoio popular (confira aqui) à operação policial no Rio. Sobretudo entre quem tem lugar de fala da vida das favelas. Que são, tradicionalmente, grandes eleitores do presidente Lula (PT). Mas não de uma esquerda identitária que pesquisas e urnas, no Brasil e no mundo, revelam cada vez mais elitizada.

 

A partir de julho, efeito Trump

Desde dezembro de 2024, Lula vinha em queda de aprovação de governo e de intenção de votos em todas as pesquisas. Reagiu a partir da carta de 9 de julho do presidente dos EUA, Donald Trump. Que ameaçou taxar o Brasil por conta do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Setembro desastroso à direita

Lula seguiu sua recuperação no setembro desastroso (confira aqui) ao bolsonarismo. Com a condenação de Jair (confira aqui) no STF, a atuação contra o Brasil do seu filho Eduardo nos EUA, a adoção da bandeira deste país por uma anistia natimorta, os tropeços de Tarcísio de Freitas (REP), governador de SP e presidenciável mais competitivo da direita, e o afago (confira aqui) de Trump a Lula na ONU.

 

Pesquisas antes da operação

Em outubro, na virada do calendário eleitoral de ano para meses, as pesquisas Quaest (confira aqui) e AtlasIntel (confira aqui) revelaram um quadro muito promissor à reeleição Lula. Até que a pesquisa do instituto Paraná, feita até o último dia 24, passou a apontar (confira aqui) cenários mais apertados, com três empates técnicos na margem de erro, em um eventual 2º turno.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Usuários e traficantes

Como a coluna registrou na quarta, a pesquisa Paraná pode ter pegado os reflexos da declaração desastrada de Lula, em Jacarta, na Indonésia, no mesmo dia 24: “Toda vez que a gente fala de combater drogas, possivelmente, fosse mais fácil combater os nossos viciados. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também”.

 

O mesmo peso de Trump?

Sobre o mesmo tema, o dito de Lula na Ásia foi só quatro dias antes da ação policial no Rio contra o Comando Vermelho. Cujo poder de fogo e ousadia contra o Estado mostram que a operação era necessária, a despeito dos questionamentos legítimos à sua condução. Se terá o mesmo peso favorável à direita que Trump teve a Lula, só as próximas pesquisas dirão.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Operação fortalece Castro para disputar Senado com Flávio

 

Cláudio Castro, Flávio Bolsonaro e Carlos Portinho (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Direita acha discurso e Castro empoderado

Com a opinião popular, a direita achou um discurso nacional. E o governador Cláudio Castro (PL) saiu empoderado no RJ. Se falava em desistir de tentar o Senado (confira aqui) em 2026, a partir da ação de terça e apoiado por outros nove governadores na quinta, passou a nome certo do PL pela 2ª cadeira ao Senado. Junto ao senador Flávio Bolsonaro, favorito (confira aqui, aqui e aqui) à reeleição.

 

Após cobranças de Bacellar na Segurança

Como a coluna registrou em 1º de outubro, após se afastar do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), por conta da exoneração do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis (MDB) da secretaria estadual de Transportes, Castro era alvo (confira aqui) de cobranças do político de Campos. Cujas estocadas no governador eram sempre na área de Segurança Pública.

 

Portinho perde espaço ao Senado

Para criticar Castro na área da Segurança, Bacellar fazia dobrada com o senador Carlos Portinho (PL). Que, eleito suplente ao cargo em 2018, assumiu com a morte de Arolde de Oliveira em 2020, vítima da Covid. Com o enfraquecimento do governador, Portinho também o atacava na Segurança para tentar disputar a reeleição ao Senado a reboque de Flávio.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Voz da favela: mais de 8 entre cada 10 apoia operação do Rio

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Favela: mais de 8 em cada 10 a favor da Polícia

Mais de oito entre cada 10 brasileiros das favelas apoiam a megaoperação policial de terça (28), contra a facção Comando Vermelho, nas comunidades cariocas do Alemão e Penha. Foi a mais letal da história do estado do Rio, com 121 mortos, entre eles quatro policiais. Mas foi institucional: para cumprimento de mandados judiciais e coordenada pelo Ministério Público.

 

Pesquisa derruba guerra de narrativas

O que se tornou mais uma disputa de narrativas entre esquerda e direita caiu por terra com a pesquisa AtlasIntel divulgada ontem (31). Feita na quarta (29) e quinta (30), revelou que 55,2% dos brasileiros apoiam a operação de terça, maioria que chega a 62,2% na cidade do Rio.

 

Da minoria relevante à maioria esmagadora

Os 42,3% que desaprovam a ação policial são uma minoria relevante no país. Que cai a 34,2% na cidade do Rio. Todos dizem falar em nome dos moradores das favelas. Mas estes, falando por si, deram aprovação de 80,9% no Brasil à operação — 19,1% desaprovam. Entre as favelas cariocas, é ainda mais esmagador: só 12,1% desaprovam, contra 87,6% que aprovam.

 

Execuções por motivo pessoal?

Há suspeita de que mortes na mata entre as duas comunidades tenham sido execuções. Que foram reforçadas pela proibição inconstitucional da Defensoria Pública em acompanhar a perícia dos corpos. Frutos de um confronto que teria virado pessoal com a morte dos quatro policiais pelos 91 fuzis apreendidos e bombardeio com drones do Comando Vermelho.

 

Maioria acha violência policial adequada

As suspeitas têm que ser investigadas. E uma perícia independente das Forças de Segurança do RJ envolvidas seria necessária. No entanto, a pesquisa AtlasIntel revelou que o nível de violência empregado pelas polícias foi adequado para 52,5% dos brasileiros. E excessivo a 45,8%. A maioria favorável sobe entre os cariocas: 62,3% a 34,4%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

William Passos — Megaoperação no Rio e Palácio do Planalto

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE

Megaoperação no Rio e Palácio do Planalto

Por William Passos

 

No Ponto Final da quarta-feira (29), repercutimos (confira aqui) outra pesquisa do instituto Paraná, que traçou quatro projeções de 1º e de 2° turno. Com 2.020 eleitores entrevistados e margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos, a Paraná confirmou, em parte, a boa fase de Lula (PT), que venceu as quatro projeções de 1º turno acima da margem de erro.

No entanto, a Paraná acendeu o sinal amarelo nas simulações de 2° turno. Isso porque, dos quatro cenários projetados, Lula não passou do empate técnico em três. Numericamente, o atual presidente bateria Bolsonaro por 3,1 pontos (44,9% a 41,6%), Michelle por 3,1 pontos (44,7% a 41,6%) e Tarcísio por 4,0 pontos (44,9% a 40,9%). Com isso, a reeleição de Lula só estaria garantida caso o oponente fosse Flávio Bolsonaro, contra quem o atual incumbente abriria 9,7 pontos (46,7% a 37,0%). Flávio, como sabemos, provavelmente virá senador pelo Rio de Janeiro.

Outro resultado da Paraná de outubro de 2025 que gostaríamos de chamar a atenção é a preferência de voto do eleitorado na ausência do ex-presidente Jair Bolsonaro. Nesse momento, Bolsonaro está inelegível até 2060. No entanto, dentro do intervalo de 2,2 pontos da margem de erro, a Paraná mostra que, na ausência de Jair, o eleitorado se divide entre Tarcísio, Michelle e nenhuma das opções apresentadas, que contam ainda com os nomes de Ratinho Júnior, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Flávio Bolsonaro, como dito, deve concorrer ao Senado pelo Rio de Janeiro.

Tarcísio, Caiado e Zema, por sua vez, em encontro no Palácio Guanabara com Cláudio Castro, na quinta-feira (30), anunciaram (confira aqui) a formação do que chamaram de “consórcio da paz” para combater o crime organizado de forma coletiva. A reunião dos governadores do campo da direita, que antagoniza com Lula, contou ainda com Jorginho Melo (Santa Catarina), Eduardo Riedel (Mato Grosso do Sul) e Celina Leão (vice-governadora do Distrito Federal).

Na prática, o encontro foi uma resposta à megaoperação de terça-feira (28) contra o Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão. Deflagrada pela Polícia Militar e pela Polícia Civil, a incursão deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais. Na última pesquisa estadual que divulgamos (confira aqui e aqui), a Real Time Big Data de outubro de 2025, Cláudio Castro encontra-se bem posicionado na disputa pela segunda cadeira de senador (22% de intenção), somente atrás de Flávio Bolsonaro (29% de intenção).

Já na disputa ao Palácio do Planalto, há poucos dias da megaoperação, a AtlasIntel de outubro de 2025, com margem de erro de 1 ponto percentual, havia projetado (confira aqui) reeleição de Lula em 1º turno em três cenários. Contra Tarcísio, o petista abriria 51,3% a 30,4%. Contra Michelle, 51,0% a 26,2%. E sem Tarcísio e Michelle, Lula sacramentaria sua reeleição contra Caiado: 51,0% a 15,3%. Os bons números da economia, o tarifaço de Trump e a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil estariam por trás da provável reeleição de Lula projetada pela AtlasIntel com base numa sofisticada metodologia que usa coleta de informação pela internet e cálculo baseado em ferramentas de ciência de dados.

Por sua vez, essa mesma metodologia está sendo utilizada neste exato momento pela Quaest no levantamento da opinião pública sobre as recentes operações policiais nos complexos do Rio de Janeiro. Os resultados dessa pesquisa estão previstos para os próximos dias e poderão favorecer o campo da direita. Que, de acordo com o cientista político Felipe Nunes, CEO do instituto, caso venha unida, fortalecerá uma possível reeleição de Lula em 1º turno. Mas caso venha fragmentada, poderá garantir uma acirrada disputa de segundo turno num país ainda bastante polarizado.

No levantamento da Quaest de outubro de 2025, a cerca de um ano da urna de outubro de 2026, Lula se reelegeria (confira aqui) contra nove adversários, com Ciro Gomes se colocando como o oponente mais competitivo. No 2º turno, a diferença entre Lula e Ciro foi apurada em apenas 9 pontos percentuais com margem de dois. Recordamos que os nomes de Jair, Tarcísio, Michelle, Ratinho, Zema, Caiado e Eduardo Bolsonaro também foram testados.

A diferença entre Lula e Tarcísio, subiu de 8 pontos, na pesquisa de setembro (confira aqui), para 12 pontos, na pesquisa de outubro. Entre os integrantes da família Bolsonaro, a Quaest projetou Michelle como a mais competitiva, com diferença de apenas 8 pontos no 2º turno. Parte dessa diferença, que era de 15 pontos na pesquisa de setembro, pode ser atribuída ao recall de Jair Bolsonaro, que, mesmo inelegível até 2060, segue com o nome testado pelos institutos. Na Quaest de setembro, a diferença entre Lula e Jair era de 13 pontos no 2º turno. Na Quaest de outubro, caiu para 10 pontos.

A Quaest de outubro de 2025 também apontou a violência como a maior preocupação dos brasileiros (30%). A corrução, por sua vez, aparece apenas na quarta colocação, atrás de problema sociais (18%) e economia (16%). Em contraste, AtlasIntel registrou a corrupção (60% da população) como o maior problema do Brasil, seguido pela criminalidade e tráfico de drogas (57,3%). Nesse sentido, na Quaest dos próximos dias, podemos projetar sobre a opinião pública, ainda sob a comoção das operações policiais nos complexos do Rio de Janeiro, um impacto suficientemente capaz de colocar a questão da segurança pública de volta ao centro do debate nacional, o que tende a favorecer o campo da direita, pelo menos, por duas razões.

A primeira razão é a falta de proposta e a dificuldade de construção de uma agenda sobre a segurança pública no campo da esquerda, o que colocava Marcelo Freixo, até a eleição para governador do Rio de Janeiro de 2022, como uma isolada exceção. Freixo se projetou na política fluminense com uma sofisticada discussão acadêmica sobre a violência e, em 2008, já como deputado estadual, presidiu a CPI das Milícias na Alerj. Com a derrota para Cláudio Castro em 2022 ainda no 1º turno (27,38% a 58,67% dos votos válidos), Freixo foi acomodado na presidência da Embratur, deixando a esquerda brasileira órfã de conteúdo e de referência na discussão sobre a maior preocupação da população fluminense.

Nesse contexto emerge a segunda razão, isto é, o bolsonarismo, que passou a monopolizar o debate pelo viés do “bandido bom é bandido morto” e do enfrentamento do crime organizado única e exclusivamente pela via da militarização e da “guerra aos criminosos”. No entanto, trata-se de um debate apoiado em uma forte retórica moral e esvaziado de conteúdo científico, que se diferencia, por exemplo, daquele que originou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a partir de 2008, mesmo ano da CPI das Milícias na Alerj.

No plano eleitoral, por outro lado, cabe observar a reação do governo federal e do presidente Lula, que, neste momento, lidera ou empata tecnicamente dentro da margem de erro dos principais institutos de pesquisa que projetam a corrida presidencial de outubro de 2026. A depender do resultado, diferentemente do céu de brigadeiro retratado pela AtlasIntel de outubro de 2025, há poucos dias da megaoperação na cidade do Rio de Janeiro, a câmera da Quaest de novembro deste ano já poderá fotografar as primeiras nuvens no céu de Brasília, cuja formação tem origem na antiga capital nacional e poderá ser motivo de preocupação no Palácio do Planalto. A conferir.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.