Trump, Maduro, Doutrina Monroe, grande porrete e imperialismo

 

Nicolás Maduro, com olhos e ouvidos cobertos e mãos algemadas, após ser capturado pelas forças militares dos EUA com a esposa dentro de complexo militar da Venezuela em Caracas

“Tudo remonta à Doutrina Monroe. Ela é muito importante, mas nós a superamos por muito. Muito mesmo. Agora eles a chamam de ‘Documento Donroe’ (mistura de Donald Trump e James Monroe). É a doutrina que havíamos esquecido”. Foi o que o lembrou ontem (3) o presidente dos EUA, Donald Trump, em sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida. Onde falou da sua ação militar na Venezuela e (confira aqui) da captura do presidente do país, Nicolás Maduro.

 

James Monroe

Doutrina Monroe

James Monroe foi presidente dos EUA entre 1817 e 1825. Contra a possibilidade de intervenção da Europa nas Américas, assumindo-as como área de influência dos EUA, ele anunciou sua doutrina em 1823, resumida no lema “América para os americanos”.

Na América Latina, sobretudo a partir das intervenções dos EUA desde o final o século 19, o lema de Monroe sempre foi corrigido: “para os norte-americanos”. Ou estadunidenses, a quem sabe que sabe México e Canadá também compõem a América do Norte. E sabe que Américo Vespúcio era um italiano numa missão portuguesa — latino duas vezes, portanto.

 

Grande porrete

Além da Doutrina Monroe, Trump reeditou outra política estadunidense do passado em relação às Américas: a do Big Stich (“grande porrete”), de Theodore Roosevelt, presidente dos EUA entre 1901 e 1909. Que, para reforçar a Doutrina Monroe e a prevalência dos EUA sobre o continente, nasceu curiosamente de um provérbio africano: “Fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete” (“Speak softly and carry a big stick”).

 

Charge de Theodore Roosevelt e seu “grande porrete” no mesmo Mar do Caribe, nas costas da Venezuela, onde hoje está a esquadra de guerra dos EUA de Trump

 

Pelo visto na madrugada do 3ª dia de 2026, Trump foi além de Teddy Roosevelt. Numa ação militar perfeita, sem nenhuma baixa ou perda de equipamento, a Força Delta, tropa de elite do Exército dos EUA, entrou e saiu como quis do complexo militar Forte Tiuna, em Caracas. De onde levaram prisioneiros Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Foi só o grande porrete, sem nenhuma fala suave.

 

Destino de Maduro, hipocrisia de Trump

O casal foi primeiro transportado de helicóptero ao navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima, que compõe a frota de guerra dos EUA estacionada no Caribe, nas costas da Venezuela. E, depois, de avião a Nova York, onde foi levado ao Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn. Segundo a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, Maduro será julgado numa corte de Nova York por narcoterrorismo.

Curiosamente, em novembro de 2025, Trump deu indulto total e incondicional ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández. Que havia sido condenado a 45 anos de prisão, em março de 2024, pela mesma Justiça de Nova York e por facilitar o envio de centenas de toneladas de cocaína aos Estados Unidos.

 

É o petróleo, estúpido!

A causa real da captura e prisão de Maduro foi admitida pelo próprio Trump, antes mesmo de o ex-presidente da Venezuela, país com as maiores reservas de petróleo do mundo, chegar algemado aos EUA:

— Também conseguimos apreender o petróleo venezuelano para trazer para o solo americano porque eles retiraram isso, eles fizeram, eles roubaram bilhões de dólares no nosso petróleo (…) nós que construímos a indústria petrolífera na Venezuela com o nosso talento, o nosso trabalho, deixamos que um exílio socialista roubasse durante esses governos anteriores e roubassem usando a força.

Presidente da Venezuela Carlos Andrés Pérez nacionalizou o petróleo do país desde 1976

O petróleo na Venezuela não foi nacionalizado por Maduro. Nem por seu antecessor, Hugo Chávez, que governou de 1999 até morrer em 2013. Quem nacionalizou o petróleo na Venezuela foi o então presidente de centro-esquerda Carlos Andrés Pérez, em 1976. No vizinho Brasil, o mesmo ocorreu desde 1953, quando Getúlio Vargas criou a Petrobras.

Após usar seu grande porrete, Trump reafirmou e rebatizou a Doutrina Monroe. Mas não deu uma palavra sobre a restauração da democracia na Venezuela. Que foi golpeada desde que Maduro se manteve ilegalmente no poder após perder no voto popular a eleição presidencial em julho de 2024, com o injustificável apoio de parte da esquerda latino-americana. Por sua vez, o presidente dos EUA deu mais detalhes dos seus interesses econômicos:

— Nossas gigantescas companhias petrolíferas dos EUA, as maiores do mundo, vão entrar (na Venezuela), gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera que está em péssimo estado e começar a gerar lucro para o país.

 

EUA vão administrar a Venezuela?

Trump também falou abertamente que os EUA passarão a administrar a Venezuela:

— Nós estamos lá e ficaremos até que uma transição adequada aconteça. Nós vamos basicamente executar, administrar o país até que uma transição apropriada aconteça.

Delcy Rodríguez, vice de Maduro e presidente interina da Venezuela

O presidente dos EUA só não explicou como fará isso. Se, de fato, capturaram sem grande trabalho Maduro e a esposa, os EUA não invadiram nem ocupam a Venezuela. Cuja vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu interinamente. E disse ontem na posse: “A Venezuela só tem um presidente: Nicolás Maduro (…) Nunca seremos colônia de outro país”.

 

China pede liberdade de Maduro, mas quer Taiwan

A China, que recebia 80% da exportação de petróleo da Venezuela com Maduro, se manifestou hoje sobre o caso: “A China pede aos EUA que garantam a segurança pessoal do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, que os libertem imediatamente e que cessem as ações para derrubar o governo da Venezuela”.

Em guerra comercial com os EUA, a China também tem interesse óbvio no petróleo da Venezuela. Por outro lado, a ação de Trump contra Maduro pode ser recebida como um sinal verde para o presidente Xi Jinping também usar seu grande porrete sobre Taiwan, país insular independente cuja posse Pequim reivindica. Como para a Rússia de Vladimir Putin sobre a Ucrânia e outras ex-repúblicas da extinta União Soviética, ou o Israel de Benjamin Netanyahu sobre a Palestina e outros vizinhos árabes.

 

Vladimir Putin, Benjamin Netanyahu e Xi Jinping

 

Francis Fukuyama

Imperialismo reinaugurado como ordem mundial

Após a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991, o mundo multilateral criado a partir dali não parece ter vingado até 2026. Se chegou a ser classificado de “fim da História”, em seu nascimento, pelo filósofo e economista nipo-estadunidense Francis Fukuyama, esse período dos últimos 35 anos parece ter sido só um hiato breve da História.

Com base no poder militar e econômico, o imperialismo parece ser a ordem mundial reinaugurada neste início do segundo quarto do século 21. Dos EUA nas Américas, da China na Ásia, da Rússia no Leste Europeu e de Israel no Oriente Médio. Todos sem constrangimento em usar falicamente seus grandes porretes sobre o que considerarem suas áreas de influência.

Jean-Paul Sartre

Noves fora o direito internacional e o juízo moral, quem se opuser com palavras suaves, mas sem nenhum grande porrete, pode ser remetido, em termos de consequência prática, ao filósofo Jean-Paul Sartre. Que, quando testemunhou as tropas nazistas da Alemanha de Adolf Hitler ocupando sua França em junho de 1940, questionou: “O que tínhamos a opor-lhes?”

 

 

Adolf Hitler após conquistar Paris

 

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