Felipe Fernandes — “Zootopia 2”: animação para adultos e crianças

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

“Zootopia 2”: animação para adultos e crianças

Por Felipe Fernandes

 

Lançado em 2016, “Zootopia” é um filme policial. Divertido, colorido, estrelado por animais, mas ainda assim um policial em sua essência. A Disney acertou a mão ao investir na criação de todo um universo criativo no qual presas e predadores aprenderam a conviver em harmonia em uma metrópole.

O longa utiliza aspectos sociais devidamente adaptados para a relação entre as espécies e cativa com personagens muito interessantes, visual caprichado, boas piadas e uma metáfora social instigante sobre preconceito e aceitação. Tudo na medida certa, tendo como trama central uma investigação repleta de elementos e clichês do gênero policial, aqui trabalhados de forma orgânica.

Lançado quase 10 anos depois, “Zootopia 2” é uma continuação tardia que parte logo após os acontecimentos do primeiro filme. Seguindo a cartilha das continuações de policiais, o longa trabalha um conflito entre a dupla de protagonistas, que passam a ser desacreditados por toda a força policial em meio a uma trama de corrupção ligada à criação da metrópole dos animais.

Sem a necessidade de reapresentar esse universo, o filme já se inicia estabelecendo as consequências dos eventos do primeiro longa, com a agora famosa dupla de protagonistas precisando lidar com a exposição e a pressão da fama.

O filme repete a dinâmica clássica do gênero buddy cop: após alguns casos que não saem como esperado, os personagens precisam repensar sua relação profissional. O conflito de personalidades e de origens passa a ter papel central, afetando a confiança entre os dois enquanto parceiros.

Assim como no original, o filme abraça os clichês do gênero de forma eficiente. A história é bem redondinha, não chega a surpreender, mas também não decepciona. Os personagens coadjuvantes são divertidos e funcionais; até mesmo aqueles que surgem apenas como referência a outros filmes ou para introduzir uma piada conseguem se destacar e manter o ritmo da narrativa.

O design de produção de “Zootopia 2” é um show à parte. Ao dividir a cidade em diferentes tipos de habitats naturais, o longa transforma a metrópole em uma grande amálgama de climas e ambientes, permitindo o acesso e a interação de todas as espécies. O design é inventivo ao adaptar diferentes momentos do cotidiano a animais de variados estilos e tamanhos. Essa mistura de elementos é bem explorada, conferindo dinamismo visual ao projeto.

A metáfora social, mais uma vez, utiliza animais antropomorfizados para representar grupos sociais humanos. Predadores e presas simbolizam minorias, estigmas sociais e preconceitos estruturais. Neste filme, porém, essa metáfora se torna mais difusa.

O foco deixa de ser apenas quem sofre a discriminação e passa a abordar temas como desinformação, manipulação do medo e da história em benefício de uma elite construída sobre mentiras. Trata-se da ideia de uma igualdade estabelecida por quem controla a narrativa: uma cidade erguida por uma espécie historicamente excluída, mas cuja história foi distorcida.

Apesar de ser uma continuação tardia, “Zootopia 2” mantém as principais características do original: uma história bem estruturada, bons personagens, humor que funciona tanto para adultos quanto para crianças e uma animação de alto nível. Um acerto da Disney Studios que, a julgar por sua bilheteria e indicação ao Oscar, consolida mais uma franquia em seu já interminável catálogo.

 

Publicado na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer do filme:

 

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