Lívia Nunes — Eternamente em três textos de prosa poética

 

Mariana Lima bailarina em Atafona (Foto: Lívia Nunes)

 

 

Líva Nunes, jornalista

Eternamente

Por Lívia Nunes

 

Quem sabe um dia

Era tão cedo quando acordei. Nem sei se cheguei a dormir. Tão logo abri os olhos, busquei o chão com os pés. Corri para ser só, minha. Ainda assim, não me tive e nunca me dei. Essas emoções ainda gritam no silêncio. Não decifrei meu querer, nem meu sonho. Nunca os encarei nos olhos. Tudo que eu quis e não consegui foi “ser”. Para então, quem sabe, me “dar”.

 

Olhe para trás

Inclina o pescoço, contorcendo-o como roupa molhada nas mãos da lavadeira. Os olhos voltados ao chão e o ar possuindo-a pela boca. Escorre os dedos entre os cachos do cabelo e, discretamente, olha para trás. O passado é sedutor, mas a ele cabe apenas uma troca de olhares levemente embriagados. A cada passo à frente: memórias, pessoas e eternidades se desfazem, deixando rastro, como cauda de cometa. Ontem, ao lado do seu homem, ergueu-se na cama para ver melhor a luz dourada que entrava pela janela e pensou: esse momento é eterno.

 

Eternamente presente

Quais imagens ficam com tantos sóis que nascem, tantos sóis que morrem nos dias que vão em frente? Quantos mares podem ser eternos se a cada novo olhar serão outras as retinas? Outra será a mulher; outro será o mar. Quantas eternidades podem se guardar num ser infinito de tempo findo?

 

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