Aos pais de Nelinho pelos pais de Carozão: “Boa noite, doces príncipes!”

 

Criança de redação e piloto de avião na vida adulta, Nélio Maria Batista Pessanha (Foto: Arquivo de família)

 

(A Nélio, Ícaro, Jô, Luiz e Dora)

 

Numa aula do curso de comunicação da Fafic, me lembro de um professor falando da magia do ambiente de uma redação de jornal. E do fascínio de quem entra nela pela primeira vez. Lógico, falava de si próprio e da grande maioria que só conhece empiricamente numa redação no início da juventude e da carreira profissional de jornalista. Mas não falava sobre a experiência mais restrita das crianças de redação.

São os filhos de pais jornalistas. Por isso criados, desde a infância, em contato direto com aquele ambiente fervilhante de informações e discussões de pauta, de êxitos e frustrações diárias na função primeva de contar as histórias da tribo em torno de uma fogueira. Aos quais, na Idade Contemporânea e sob luz elétrica, uma redação de jornal acaba virando, pelo convívio, só mais um cômodo da casa, como sala, cozinha ou quarto.

Nelio Maria Batista Pessanha, o Nelinho, filho único da jornalista Jô Siqueira e do jornalista Luiz Costa, que teria mais dois filhos em outro casamento, foi uma dessas crianças de redação. Que conheci ainda bem pequeno na redação da Folha da Manhã. Na qual Jô e Luiz foram crias entre os anos 1980 e 1990 do grande jornalista Aluysio Barbosa, o bom, meu homônimo e pai.

Apesar da forte ligação com os pais, sobretudo com a mãe, que o criou exemplarmente, após a separação de Luiz, Nelinho nunca quis ser jornalista. Desde a criança de redação que foi, falava em ser piloto de avião. Mas, diferente de outras crianças, de redação ou não, que abandonam os sonhos iniciais no caminho natural dos anos, Nelinho investiu a vida no seu primeiro e único sonho. E o fez realidade.

Infelizmente, essa conquista de Nelinho do qual sua mãe, seu pai, e seus dois irmãos, Ana Luíza e Adriano, tanto se orgulhavam, numa fatalidade, custou-lhe a vida, aos 30 anos, na queda do avião de pequeno porte que pilotava, na última sexta-feira (3), na cidade de Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul. E no qual também morreram os empresários Déborah Belanda Ortolani, Luis Antonio Ortolani e Renan Saes.

Eu, como meu irmão Christiano, também fomos crianças de redação. Como meu único filho, Ícaro, com mãe também jornalista da Folha, Dora Paula. Desde que ele nasceu, em 15 de julho de 1999, retracei o plano de voo da minha própria vida: não mais o do sol, em torno do qual, em nossos delírios de ego, orbita o universo; mas o de lua, passando a orbitar devotamente em torno de algo muito maior.

 

Ícaro Paes Pasco Abreu Barbosa, no pôr do sol de 31 de dezembro de 2022, no Arpoador, no que seria o seu último réveillon (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Contra minha vontade, Ícaro seguiu meus passos: uma criança de redação que se tornou jornalista. Desde que morreu com apenas 23 anos, em 13 de maio de 2023, ele é a primeira coisa que penso, toda vez que acordo, e a última, antes de dormir e vir “brincar com meu sonhos”, como o Menino Jesus de Alberto Caeiro, heterônimo do luso Fernando Pessoa. Será assim, tenho certeza, com Nelinho. A aplacar a mais indizível das dores humanas em Jô e Luiz.

Recentemente, assisti ao filme “Hamnet: A Vida Ante de Hamlet” (2025), da diretora chinesa Chloé Zhao, que concorreu aos Oscar de melhor filme este ano e teve mais sete indicações, mas só levou o merecido prêmio de melhor atriz, com irlandesa Jessie Buckley. Que interpreta Agnes, esposa do dramaturgo William Shakespeare, e dá à luz seus três filhos: Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet.

Cena da peça “Hamlet” encenada no filme “Hamnet”

Com apenas 11 anos, Hamnet morre, provavelmente de peste bubônica, em 1596. Não por coincidência de datas, tema e da homonímia quase exata, Shakespeare escreve “Hamlet” entre 1599 e 1601. A tragédia definitiva do maior dramaturgo da literatura ocidental é encenada pela primeira vez em 1602 e tem sua primeira versão publicada em 1603.

No filme “Hamnet”, quando sai da sua interiorana Stratford-upon-Avon, junto de seu irmão, onde a família de Shakespeare sempre residiu e o próprio viria a falecer anos depois, para assistir essa primeira encenação de “Hamlet” em Londres, Agnes de início não entende e até se revolta. Porque é o filho, de nome quase idêntico ao que perdera na vida real, que sobrevive após a morte do pai na peça, também chamado Hamlet.

Uma lua e um Atlântico banhado de prata, em Atafona, na Sexta-Feira da Paixão, para Nelinho e Carozão (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Só no desenrolar da trama, onde o próprio Shakespeare (interpretado por outro irlandês, Paul Mescal) encarna o fantasma do Hamlet pai, é que Agnes entende: Na arte que o marido criou não para imitar a vida, mas para reinventá-la, é o pai que morre antes, não o filho.

Embora Jô, Luiz, Dora e eu trabalhemos com a escrita, certamente, nenhum de nós tem o talento de Shakespeare. Mas, também certamente, temos o mesmo lancinante desejo. Sem poder mais ter Nelinho e Carozão ao lado, poder abraçá-los, beijá-los, sentir seus cheiros, nos resta o plural da saudação de Horácio, melhor amigo de Hamlet, após o filho também morrer ao final da tragédia: “Boa noite, doces príncipes!”

 

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