O que dá para dizer de Bolsonaro denunciado pelo PGR

 

Passei boa parte da madrugada lendo as 272 páginas da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros 33 suspeitos de envolvimento na tentativa de golpe de Estado no Brasil, a partir da vitória eleitoral apertada de Lula (PT) no 2º turno presidencial de 2022. Como passei parte da manhã e início da tarde de hoje conversando sobre ela com juristas independentes e capacitados.

É certo que muita água ainda passará sob a ponte. Mas, sobre as denúncias da PGR dos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, formação de organização criminosa armada, dano qualificado sobre o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado, o que dá para dizer desde já:

 

Ex-presidente Jair Bolsonaro, procurador-geral da República Paulo Gonet, ministro do STF Alexandre de Moraes e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

1 – O procurador-geral da República, Paulo Gonet, fez uma costura eficiente entre os fatos a partir de julho de 2021, dentro da perspectiva de planejamento e execução da tentativa de golpe. Que veio sustentada em evidências aparentemente robustas, colhidas no inquérito da Polícia Federal e muito além da mera delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.

 

2 – Cumprido todo o processo legal, tudo até aqui parece indicar que Bolsonaro será julgado, condenado e, se não fugir do país, preso. Se o mesmo acontecer também com os generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Mário Fernandes, Estevam Theophilo e Nilton Diniz Rodrigues, além do almirante Almir Garnier, será algo inédito e didaticamente necessário aos golpistas que se sucedem, geração após geração, na mais alta cúpula militar do Brasil. Pelo menos desde 1889, no primeiro golpe de Estado no país promovido pelos militares, quando derrubaram o Império para inaugurar a República. E nela se arvoraram, numa pretensiosa exceção da nossa caserna à tripartição de Poderes preconizada por Montesquieu, em assumir o antigo Poder Moderador dos imperadores.

 

3 – Alvo de um plano de sequestro, assassinato e até exposição pública do seu corpo, no qual chegou a ter sua rotina pessoal campanada, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes não tem impessoalidade para ser relator do caso ou julgar Bolsonaro e seus supostos cúmplices. Em qualquer Estado Democrático de Direito do mundo, Moraes deveria se considerar impedido de julgar Bolsonaro. Como Sergio Moro deveria ter se declarado suspeito para julgar Lula. Os dois magistrados se transformaram em parte nos casos. E perderam qualquer capacidade de isenção para julgar. Essa corrupção passional do juízo tende a cobrar o mesmo preço: corromper a condenação.

 

4 – Lula vive o pior momento de aprovação popular dos seus três governos. Que é atestado pelas mesmas pesquisas que anteciparam sua eleição em 2022. Como o jornalista Elio Gaspari registrou hoje em sua coluna: “um conhecedor de Brasília e de Lula dizia: ‘ele não sabe governar com pouco dinheiro’. Na sexta veio o Datafolha com o tombo de sua popularidade. Em seguida, chegou o Ipec informando que 62% dos entrevistados preferem que ele não dispute a reeleição. A erosão da popularidade do governo deu-se até mesmo no segmento de seus eleitores. Desde os tempos da Lava Jato, Lula não tinha uma semana tão amarga”.

 

5 – O péssimo momento político de Lula, a menos de 1 ano e 8 meses das urnas presidenciais de 2026, é melhor definido até por aliados históricos. Como o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Que revelou em carta aberta: “o Lula do 3° mandato, por circunstâncias diversas, políticas e principalmente pessoais, é outro. Não faz política. Está isolado. Capturado. Não tem, ao seu lado, pessoas com capacidade de falar o que ele teria que ouvir. Não recebe mais os velhos amigos políticos e perdeu o que tinha de melhor: sua inigualável capacidade de seduzir, de ouvir, de olhar a cena política”.

 

6 – Lula foi condenado e preso em 2018 por uma Lava Jato com amplo apoio popular. Bolsonaro pode ser condenado e preso, ainda em 2025, por um STF com ampla reprovação popular. Noves fora as questões jurídicas e éticas, como a parcialidade autoevidente de Moraes e Moro, há a questão política: o espantalho do capitão pode só não bastar, como atirar pela culatra. A partir do entendimento popular de um conluio entre Judiciário e Executivo “progressistas” para contornar um Legislativo tão conservador quanto parte considerável do eleitorado. Sobretudo se a carestia dos alimentos, com um governo que prometeu picanha para entregar pé de galinha, não for revertida no carrinho de compras. A ver.

 

Este post tem 8 comentários

  1. Odisseia Carvalho

    O procurador-geral da República, Paulo Gonet, denunciou Bolsonaro e mais 33 aliados ao Supremo Tribunal Federal (STF) na noite desta terça-feira (18), pelos crimes de organização criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Essa denúncia histórica leva o Partido dos Trabalhadores a fazer, mais uma vez, a defesa enfática da democracia, do Estado Democrático de Direito e a colocar um ponto final em qualquer tentativa de anistia aos golpistas. A denúncia apresentada por Gonet mostra com muita habilidade como o golpe começou a ser tramado desde 2021, quando Bolsonaro ameaça não reconhecer os resultados eleitorais de 2022 e usa o desfile de 7 de setembro para atacar o STF. Além do já conhecido plano que envolveria o assassinato de Alexandre de Moraes, Geraldo Alckmin e do presidente Lula.

    O nosso país não pode ser refém do golpismo que já desrespeitou resultados eleitorais tantas vezes ao longo da nossa história. Esse é um passo importante e didático para todos aqueles que ousarem desafiar a democracia brasileira. Sem anistia! Cadeia Já!

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Cara Odisséia,

      Até para não repetir o erro institucional cometido com Lula: cadeia, só se condenado.

      Abç e obrigado pelo comentário!

      Aluysio

  2. Odisseia Carvalho

    Com certeza ,tem que ser julgado e se for condenado terá a cadeia que merece.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Cara Odisseia,

      O problema, com Bolsonaro, Lula ou qualquer outro cidadão, é presupor o merecimento da cadeia. Que só pode passar a existir após e em caso de condenação.

      Grato pela participação!

      Aluysio

  3. Sidney Siqueira

    As provas são robustas, os setores progressistas e democraticas e civilizados, estavam até desconfiando da demora da PGR e da postura do Paulo Gonet, seu passado conservador, o jantar na semana passada com pessoas ligadas ao bolsonarismo e atual advogado e antigo procurador e deputado caçado Demostenes Torres, estavam achado que no final haveria uma passada de pano. Ocorre que a demora do procurador foi justamente para fazer uma peça tecnica repleta de provas contundentes. A única postura politica foi a rasgar seda para a postura do Exercito falando de sua postura a impedir o golpe mas omitindo que durante 2 meses os golpistas ficaram acampados em frente aos quartéis.

  4. MARCIO

    Somente torcedor fanático por políticos , esquerdistas doentes podem concordar com essa denúncia esdrúxula sem nenhum fundamento baseado no ordenamento jurídico brasileiro. Não existe crime impossível, mesmo que comprovasse a real intenção de Bolsonaro ou de qualquer pessoa em derrubar o governo atual, prender ministros do STF ou quem quer que seja, o simples fato de pensar nisso não é crime, para existir crime tem que ter atitudes reais, atos preparatórios… e nada disso existe na denúncia… QUEM está torcendo para a prisão do Bolsonaro baseado nessa peça de teatro (trecho excluído pela moderação) do consórcio STF/PT não tem a mínima noção de país, de democracia, são coitados alienados…

  5. Walter Biancardine

    Tal matéria expõe claramente o viés arcaico, quase um stalinista dos anos 60, de seu editor.
    O autor da mesma não fica atrás, buscando apenas sentar nos colos de seus pares e agradar os poucos leitores que ainda se dão ao trabalho de acompanhar esta publicação (trecho excluído pela moderação)
    Apenas o desejo de aparecer.
    Ambos – o Folha dos Lagos e o autor – apenas merecem o oblívio.
    (Trecho exlcuído pela moderação)

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro Walter Biancardine (IP:160.20.169.74), comentarista da madrugada:

      1 – Ex-líder da extinta URSS, Josef Stalin morreu em 5 de março de 1953. E seus crimes contra seu próprio povo foram denunciados por seu sucessor, Nikita Khrushchev, em 25 de fevereiro de 1956, no 20º Congresso do Partido Comunista da URSS. Até para os anos 1960, vc já estaria defasado no tempo. Seis décadas depois, tanto mais.

      2 – Embora tenha alcançado boa repercussão e engajamento, seja neste blog, seja nas redes sociais, infelizmente, entre “os poucos leitores que ainda se dão ao trabalho de acompanhar esta publicação”, esteve vc. Em comentário tão prolixo quanto pedante, que teve boa parte dos seus delírios moderada.

      3 – Sim, seu desejo de aparecer não será satisfeito novamente aqui.

      4 – A despeito do seu aparente “oblívio”, o texto foi escrito e publicado na Folha da Manhã, com sede em Campos dos Goytacazes, não na Folha Lagos. Experimente tentar saber onde está e quem é o seu interlocutor. Como um bom psiquiatra, pode ajudar.

      Grato pela chance dos esclarecimentos!

      Aluysio

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