
Na noite da última quarta-feira (29), Lula (PT) sofreu a maior derrota política dos seus três governos. O Senado presidido por Davi Alcolumbre (União/AP) recusou (confira aqui) a indicação do presidente da República, do seu Advogado-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O que não acontecia no Brasil República desde o séc. 19.
Messias chegou a ter sua indicação ao STF aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, por 16 votos a 11. Mas não foi recebido pelo presidente da Casa, praxe quebrada que anunciava o porvir. No plenário da Câmara Alta da República, a indicação de Lula foi recusada por 42 votos contra, 34 a favor e uma abstenção.
Histórico é um adjetivo muito vulgarizado. Mas classificar como histórico o que aconteceu na noite de quarta, independe de simpatia política. Seu contexto e possibilidade foram antecipados na coluna Ponto Final (confira aqui) em 22 de novembro de 2025; portanto, exatos cinco meses e uma semana antes do fato:
“Em seu auge, nos dois primeiros governos, entre 2003 e 2010, Lula dificilmente cometeria o erro pragmático de perder as duas Casas Legislativas da República. A última vez que o Senado rejeitou uma indicação presidencial ao STF foi em 1894, há 131 anos (132 em 2026), no governo Floriano Peixoto. É um peso histórico relevante. Como Davi Alcolumbre é um relevante contrapeso presente.
Hoje improvável, a rejeição do Senado à indicação de Messias ao STF seria catastrófica a Lula na busca da reeleição (…)
Messias é o ‘Bessias’ que a divulgação da ligação da então presidente Dilma Rousseff (PT) e Lula, para tentar livrar este da Lava Jato, tornou famoso em 2016. O fato de o indicado de hoje ao STF ser tão ‘terrivelmente evangélico’ quanto André Mendonça por Jair Bolsonaro (PL) em 2021, pode ter pragmatismo eleitoral. Se mais ou menos que a pauta do Senado, o tempo dirá (…)
No mundo dos homens, parece prevalecer hoje em Lula o trauma da prisão. Pelo qual ter nomes da sua confiança pessoal no STF parece garantir um sono mais tranquilo. Às portas da cadeia, Bolsonaro (seria encarcerado horas depois, naquele mesmo dia 22 de novembro) que o diga. Mas perder o apoio do Senado, com a Câmara já perdida, pode gerar muita intranquilidade até 2026 ao atual ocupante do Palácio do Planalto. A ver.”
Pelo visto na quarta, já em 2026, logo após as duas pesquisas eleitorais divulgadas esta semana, Atlas e Nexus, indicarem que Flávio Bolsonaro (PL) tinha (confira aqui) batido no teto de intenção de voto a presidente, enquanto Lula começava, ainda que timidamente, a recuperar aprovação de governo, o Senado desceu a marreta sobre a cabeça do petista. E não faria isso com o presidente da República se projetasse a sua reeleição.
Em aliança com Flávio, entre bolsonarismo e Centrão, Alcolumbre agiu por preferir que o indicado ao STF fosse o aliado e ex-presidente do mesmo Senado, Rodrigo Pacheco (PSB/MG). Que, por incrível que pareça, é também aliado de Lula. Que trabalha para lançar o ex-senador a governador em Minas. E ter um palanque no estado em que o último que perdeu lá e conseguiu se eleger presidente foi Getúlio Vargas, em 1950.
A derrota histórica de Lula no Senado não tem só as digitais de Alcolumbre e Flávio. Por incrível que pareça, segundo os próprios governistas, o ministro do STF Alexandre de Moraes também trabalhou pela recusa de Messias. Porque este se aliou ao também ministro do STF André Mendonça, indicado por Bolsonaro e que trabalhou abertamente para tentar virar votos de senadores evangélicos de direita a favor do AGU de Lula.
Além de evidenciar o racha dentro do STF, no qual Mendonça é visto como antagonista por Moraes, ficou a didática lição à esquerda que aclamava o último como “herói da democracia”. Por quê? Porque foi vítima e algoz, na transposição do limite entre justiça e justiçamento, da tentativa de golpe de Estado de Bolsonaro. A despeito de Moraes ter sido indicado ao STF pelo ex-presidente “golpista” Michel Temer (MDB).
E por que Mendonça é visto como opositor por Moraes na mais alta Corte da República? Porque o primeiro assumiu no STF a relatoria do escândalo do Banco Master. No qual estão enfiados até o pescoço não só Moraes, cuja esposa recebeu módicos R$ 80,2 milhões do Master por supostos serviços de advocacia, como seu colega de toga Dias Toffoli.
Reprovado duas vezes em concurso para juiz de primeira instância em São Paulo, Toffoli foi indicado ao STF por Lula em 2009. Por quê? Porque também tinha sido antes seu AGU. Antes de Toffoli ter sido expelido da relatoria do caso Master no STF pela opinião pública em fevereiro deste ano, o resort Tayayá, da sua família, no Paraná, teve uma parte adquirida por um fundo ligado ao Master, por também módicos R$ 35 milhões.
Como meia Brasília, de ministros do STF a grandes nomes do Centrão ao PT, Alcolumbre também está ligado ao Master. Presidido em 2024 por seu aliado e ex-tesoureiro de campanha, Jocildo Lemos, e com seu irmão Alberto Alcolumbre no Conselho Fiscal, o Amapá Previdência (Amprev) investiu também módicos R$ 400 milhões do dinheiro dos seus servidores estaduais no hoje falido Master.
Noves fora qualquer juízo moral, foi o Master, estúpido!
Lula sempre foi conhecido pela inteligência política. E sua insistência com Messias ao STF pode ter sido tudo, menos inteligente. Atributo que, em seu desfecho histórico na quarta, não faltou a Alcolumbre, a Flávio e, quem diria, ao “herói da democracia” Moraes. Com novo episódio no Congresso na quinta (30), que derrubou (confiar aqui) o veto de Lula ao PL da Dosimetria, a favor dos condenados no STF por tentativa de golpe de Estado.
O Senado encomendou o funeral de um Lula 4 com o Lula 3 ainda vivo. Como fez em 1894, quando recusou a indicação de Barata Ribeiro, hoje nome de rua em Copacabana, ao STF e sedimentou naquele mesmo ano o fim do governo do “Marechal de Ferro” Floriano Peixoto. No Brasil de 132 anos depois? Saberemos nos próximos cinco meses e poucos dias, até o voto popular de outubro.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
