José Cunha Filho — Dos ramos às cinzas, ontem e hoje

 

Cristo saudado com ramos, como Messias, em sua entrada em Jerusalém, em pintura afresco do pré-renascentista Pietro Lorezenzetti (1280/1348) na Igreja de Assis

 

José Cunha Filho, jornalista e escritor

Ramos

Por José Cunha Filho

 

A eterna namorada custa a se preparar para surgir, cheia, plena, invadindo o meu escritório, o meu quarto, o céu inteiro, não faltará ao encontro. Desde os primórdios é testemunha fiel dos acontecidos nesta bola de gude azul hoje habitada por quase nove bilhões de humanos — ainda que a dúvida paire quando se sabe que a limpeza étnica está em processo na chamada Terra Santa. Com os judeus copiando os nazistas e exterminando a população palestina a pretexto de matar terroristas que nunca estão onde caem os mísseis e bombas.

A mesma lua observou, curiosa, talvez, os israelitas saudando o jovem de Nazaré, montado em um burrico, cercado por poucos discípulos, a passar pelos portões de Jerusalém, coisa de uns dois mil e poucos anos passados. Saudado pela população com ramos e flores e gritos de louvor ao Messias. Pouco menos de uma semana depois testemunharia o cumprimento da profecia com o Messias sendo sacrificado em uma cruz romana.

Indiferente ela. Testemunha das tolices da humanidade e do destino do planetinha azul hoje ameaçado por sociopatas como o Trump e os nossos conhecidos e ditos sábios que idolatram a inteligência artificial, mas não conseguem impedir a ação deletéria do clima distorcido por gigatoneladas de poluentes, por mares onde os plásticos e o lixo já superam os peixes e outros seres marinhos. Sobram ainda praias onde se pode olhar as meninas de fio dental e vendedores de mate gelado. Mas, é por pouco tempo, parece insinuar o clarão da lua. Há que reverenciar nos templos o Domingo, dia do Senhor, com os ramos a serem queimados e cujas cinzas servirão para abençoar os fiéis na Quarta-Feira pós Carnaval. Até lá, é aproveitar enquanto ainda se pode.

O resto é silêncio, já nos ensinou Shakespeare através de Hamlet.

 

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