
— E aí, quer começar por onde? Bruno Henrique no STJD, Bolsonaro e o barata voa da defesa do general Paulo Sérgio no STF ou tentativa de anistia no Congresso com Tarcísio de porta-bandeira? — indagou Manoel, já sentado, copo de cerveja na mão, à mesa do boteco.
— Como diria um amigo, cada assunto dá uma série da Netflix — respondeu Aníbal, enquanto puxou a cadeira, se sentou e pediu um copo ao garçom.
— Vamos começar por Bruno Henrique? Sei o quanto você gosta dele.
— Para mim, BH é o maior ídolo do Flamengo desde Zico, Leandro e Júnior.
— Você acha que ele jogou mais que Romário ou Sávio nos anos 90, ou que Adriano ou Petković nos anos 2000?
— A questão não é essa. É no sentido daquele que não treme diante de nenhum adversário, que sempre aparece nos jogos grandes e nos momentos mais difíceis, que Bruno Henrique tem sua condição de maior ídolo rubro-negro desde aquele mítico Flamengo dos anos 1980.
— Em 2019, Bruno Henrique foi eleito melhor jogador da Libertadores, que o Flamengo não ganhava desde 1981. Muito embora, na final dura contra o River Plate, tenha sido Gabigol que achou os dois gols, no final do jogo, para virar e levar o caneco.
— Ninguém pode tirar esse feito histórico dele. Mas é um moleque da mesma escola de Neymar: os “meninos do Santos” que nunca crescem. Gabigol é um atacante razoável que teve uma grande fase. Mas não evoluiu seu jogo, não se cuidou fisicamente, aprontou um bando de imundas, foi embora do Flamengo com a graça de Deus e hoje esquenta banco no Cruzeiro.
— Naquele mesmo 2019, Gabigol foi colocado no bolso pelo zagueiraço holandês Van Dijk e se escondeu na final do Mundial. Assim como Arrascaeta e Gérson. O próprio técnico Jorge Jesus disse isso na entrevista coletiva após a derrota, por 1 a 0, na prorrogação.
— E BH foi o único craque daquele Flamengo que não tremeu diante do Liverpool. Partiu para dentro e tirou o excelente lateral-direito Alexander-Arnold, hoje no Real Madrid, para nada.
— E contra o Chelsea na Copa do Mundo de Clubes deste ano, que depois seria o campeão?
— Bruno Henrique empatou contra o Chelsea e comandou a virada rubro-negra por 3 a 1. Com a qual, 44 anos depois de 1981, “botou os ingleses na roda”. E se tivesse marcado na chance que teve de empatar contra o Bayern, quando este vencia o Flamengo por 3 a 2, a história daquele jogo teria sido outra.
— Mas não foi por nada disso que Bruno Henrique foi condenado e suspenso por 12 jogos no STJD. Foi porque forçou um cartão amarelo contra o Santos em 2023 para beneficiar apostadores. E está tudo nas mensagens entre ele e o irmão, capturadas pela Polícia Federal.
— Não há dúvida de que BH forçou o cartão para manipular resultado de apostas. Mas não prejudicou o Flamengo, que ficou e está ao seu lado. E não levou dinheiro de nenhuma quadrilha de apostas. Como ocorreu com todos os outros jogadores brasileiros que tiveram punições mais severas. E que por isso foram denunciados por seus próprios clubes.
— Mas Bruno Henrique também é réu na Justiça comum. Ele agora responde criminalmente por fraude em esquema de apostas. E a pena é de 2 a 6 anos de prisão.
— O filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia que “o homem é ele e suas circunstâncias”. Mesmo dotado de grande talento e capacidade de decisão no futebol, BH é um homem simples. E café muito pequeno diante das maracutaias financeiras na cartolagem de um Textor, Eurico da terra de Trump. Ou das circunstâncias nacionais: um ex-presidente da República, três generais do Exército e um almirante da Marinha julgados por tentativa de golpe de Estado no STF, em cinco crimes com penas que podem exceder 40 anos de prisão.
— Enfim, invertemos o jogo. E o Andrews Farias no STF, advogado do general Paulo Sérgio Nogueira, jurando de pés juntos, cinco vezes, que seu cliente tentou “demover o presidente”.
— No que a ministra Cármen Lúcia, na sua mineirice sutil e precisa, tomou a bola: “Demover de quê?”
— E o advogado de Paulo Sérgio não hesitou: “De qualquer medida de exceção”. Ou seja, rifou Bolsonaro e jogou no seu colo toda a responsabilidade do golpe.
— Pois é. Não é mais só Mauro Cid. No desespero do navio afundando, agora foi seu próprio ex-ministro da Defesa que entregou Bolsonaro. Juridicamente, não há salvação para ele.
— O que nos leva à última pergunta que fiz umas cervejas atrás: E a anistia no Congresso com Tarcísio de porta-bandeira?
— Quem melhor classificou a proposta de anistia que o PL passou a circular na Câmara foi a jornalista Vera Magalhães: “pornográfica”! A pretexto de anistiar Bolsonaro, anistiariam qualquer outra quadrilha armada que tenha atuado criminalmente no Brasil desde 2019.
— E olha que é a patota do “bandido bom é bandido morto”. Mas a pergunta é: passará?
— Como diz a menininha do comercial da Sadia: “Nem a pau, Juvenal!” Pode até ser colocado em pauta na Câmara pela presidência enfraquecida de Hugo Motta. Mas, certamente, sucumbirá. Se não por falta de voto, pelo veto de Lula. Que, mesmo se o Congresso derrubar, será considerado inconstitucional pelo STF.
— Mas há também a possibilidade do Alcolumbre, presidente mais esperto e empoderado do Senado, tentar costurar uma alternativa com o STF.
— Que só passaria na redução das penas excessivas dos bois de piranha presos pela invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro, não para os tubarões da tentativa de golpe. E Tarcísio, que já foi definido pelo Centrão como adversário de Lula em 2026, sabe muito bem disso.
— Então por que ele virou porta-bandeira da anistia?
— O Centrão, como a Faria Lima, o agro e o empresariado, alvos do tarifaço de Trump, nem querem mais Bolsonaro elegível. Candidato precificado dos quatro, Tarcísio vive o dilema: não perder os votos bolsonaristas para conseguir chegar ao 2º turno. E, lá chegando, não perder os votos do centro que definiram a vitória de Bolsonaro em 2018 e de Lula em 2022.
— Para tentar negociar as tarifas contra o Brasil, o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, estava até ontem em Washington. Onde fugiu de Dudu Bananinha como o diabo da cruz. Enquanto aqui, Tarcísio rasgou a pose de “moderado” e deixou São Paulo para virar capacho dos Bolsonaro em Brasília.
— De novo, é como o futebol: Tarcísio corre pela anistia para não chegar. Até 2026, veremos se não levará bola nas costas — advertiu Aníbal, enquanto via no iPhone o ex-botafoguense Luiz Henrique, investigado na Espanha por manipulação de resultado, entrar no 2º tempo para incendiar o jogo contra o Chile no Maracanã. E definir, no final daquela noite de quinta, a vitória de 3 a 0 do Brasil de Ancelotti.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
