
Bolsonaro é desinteligente?
Dentro da esquerda, passando pelo centro, chegando até mesmo a setores da direita, convencionou-se dizer que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a despeito do seu inquestionável carisma popular, padece de desinteligência. Característica cognitiva que, pelo mesmo juízo, marcaria também a média dos bolsonaristas.
Estereótipo da estupidez
Em relação aos bolsonaristas, atos como tentar reverter na marra a eleição presidencial perdida no voto em 2022, acampar na frente de quartéis militares, orar em roda para um pneu, se agarrar à frente de um caminhão em movimento ou pedir a intervenção de ETs com luzes de celular sobre a cabeça reforçaram esse estereótipo de estupidez.
Inteligência de Jair com Flávio
No entanto, ao contrário do lulopetismo e seus erros sucessivos nos últimos meses, os Bolsonaros têm se marcado pela inteligência política dos movimentos no mesmo período. Primeiro, em 5 de dezembro, quando, mesmo da cadeia, Jair lançou o senador Flávio, seu filho 01, como sucessor e pré-candidato a presidente em outubro.
Flávio tira 10 pontos de Lula
Na série de pesquisas Quaest, na simulação de segundo turno presidencial entre Lula (PT) e Flávio em dezembro, o petista venceria por 46% a 36%. Em março, apenas três meses depois, essa vantagem de 10 pontos, considerável em qualquer pesquisa do mundo, evaporou. Hoje, o segundo turno entre os dois seria Lula 41% a 41% Flávio.

Qual eleitor define?
A Quaest divide o eleitor brasileiro ideologicamente em três grupos quase iguais em tamanho: 33% de esquerda (19% de lulistas + 14% não lulistas), 33% de direita (21% não bolsonaristas + 12% bolsonaristas) e 32% de independentes. Estes são o centro, que migrou a Bolsonaro em 2018 e a Lula em 2022, elegendo ambos presidentes.
Centro migra a Flávio
Nesse voto de centro, Flávio cresceu 9 pontos dos 23% de dezembro aos 32% de março em um segundo turno com Lula. Entre o mesmo eleitor independente e no mesmo cenário de segundo turno, Lula caiu 10 pontos dos 37% de dezembro aos 27% de março. Foi do centro que saíram os 10 pontos a favor de Flávio nos últimos três meses.

Em dezembro: Jair errou com Flávio?
Em dezembro, logo após o capitão ungir o filho senador seu sucessor, a Quest perguntou: “Na sua opinião, Jair Bolsonaro acertou ou errou ao indicar seu filho Flávio como candidato à Presidência?” Os que responderam que tinha errado eram a maioria de 54%, 18 pontos a mais que os 36% que disseram ter acertado.
Em março: Jair acertou com Flávio?
Neste mês de março, à mesma pergunta da Quaest entre acerto ou erro de Jair com Flávio, 47% acham em março que o pai acertou na escolha. São 11 pontos a mais em apenas três meses. Enquanto os que hoje acham que a decisão foi errada são 39%, ou 15 pontos a menos que dezembro.

Mais inteligente que Kassab
Com Flávio rapidamente consolidado como presidenciável competitivo, a decisão de Jair não só isolou o aliado Tarcísio de Freitas (REP), que teve que se contentar em buscar a reeleição a governador de São Paulo. Bolsonaro foi também mais inteligente que alguém conhecido por essa característica na política brasileira: Gilberto Kassab.
Bolsonaro usou Tarcísio
Presidente nacional do PSD e secretário estadual de Governo de Tarcísio, Kassab apostava neste, junto da Faria Lima e de boa parte da direita, como candidato mais viável a presidente para tentar derrotar Lula. Enquanto Bolsonaro, da cadeia, só usou Tarcísio para esquentar o lugar do filho Flávio.
Reação de Kassab?
Só 53 dias após Jair lançar Flávio a presidente, Kassab tentou reagir. Em 27 de janeiro, ele apresentou três presidenciáveis do seu PSD: os governadores do Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul, respectivamente, Ratinho Jr., Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. E, dois dias depois, chamou Tarcísio de “submisso” em relação a Bolsonaro.
Ratinho Jr. era o menos distante
Mesmo bem atrás dos líderes Lula e Flávio, Ratinho Jr. era quem menos distante estava dos dois em todas as pesquisas ao primeiro turno presidencial. Na última pesquisa Quaest, ele teve 7% de intenção, contra 37% de Lula e 30% de Flávio. Na última pesquisa Ideia, Ratinho teve 9%, contra 40% de Lula e 34,7% de Flávio.
Flávio a Ratinho: “Pede pra sair!”
Ainda assim, na última segunda-feira (23), Ratinho Jr. desistiu da pré-candidatura a presidente para terminar o mandato de governador do Paraná. Por quê? Porque ontem (24), em outro movimento muito inteligente, Flávio filiou o senador e ex-juiz federal Sergio Moro ao PL e o lançou a governador do Paraná, onde lidera todas as pesquisas.
Bolsonaro em prisão domiciliar
Flávio isolou Ratinho no Paraná com Moro, como Jair isolou Tarcísio como candidato a presidente e Kassab como articulador de uma 3ª via da direita não bolsonarista. Para completar, também ontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes relaxou a prisão de Bolsonaro, por motivo de saúde, para regime domiciliar.
Lado certo da história?
Seguir taxando os Bolsonaros de “burros” pode falar mais de si do que daqueles aos quais se opõe. Na Folha de S.Paulo, o jornalista Wilson Gomes advertiu (confira aqui) em artigo no último dia 4: “A previsão de que Lula vencerá a eleição integra um conjunto de certezas identitárias: somos maioria, o povo está conosco, a história está do nosso lado.”
Realidade x juízo moral
“Talvez a esquerda tenha regredido na capacidade de inflamar a imaginação das pessoas, de se comunicar com novos públicos e novas agendas sociais, de revisar a própria leitura do país. Muito mais fácil viver da crença de que, como o outro lado não merece vencer, nós ganharemos”, concluiu seu artigo o jornalista.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
