Joe Frazier — “Baixinho” à altura do maior

 

Frazier cruza a canhota e diz a Ali: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”
Frazier cruza a canhota e diz a Ali: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Nova York, Madison Square Garden, noite fria de 8 de março de 1971. Dentro da mais lendária casa de espetáculos e eventos esportivos dos EUA, absolutamente lotada, com direito a Frank Sinatra contratado pela revista Life como fotógrafo do evento, transmitido ao vivo pela tv para 300 milhões de pessoas, o clima era quente. Embora muitos pelejas de boxe, antes e depois, tenham sido igualmente alcunhadas de “luta do século”, aquela foi a primeira e única disputada entre dois campeões invictos de todos os pesos. Não por outro motivo, o combate correu equilibrado até o décimo quinto e último assalto.

Mártir de uma causa nobre, Muhammad Ali contava com generosa torcida nos quatro cantos do mundo, em sua tentativa de reconquistar o título que lhe fora roubado pelo governo do seu país, após ter se recusado a lutar na impopular Guerra do Vietnã (1959/75). Neste hiato, campeão olímpico em Tóquio (1964) e sem ter nada a ver com isso, Joe Frazier se tornou campeão mundial dos pesos pesados em 1970, após derrotar Jimmy Ellis, ex-sparring de Ali — este, por sua vez, ouro na Olimpíada de Roma, em 1960.

Convertido ao islamismo, fé pela qual abandonou o nome cristão de Cassius Marcellus Clay e que representava a ala mais radical na luta pelo direitos civis dos negros nos EUA, além de incurável falastrão, Ali tinha seu nome gritado pela multidão no Garden, enquanto vociferava para Frazier. Round a round, buscava nocautear o psicológico do adversário, antes de fazê-lo com o açoite rápido e preciso dos seus punhos: “Caia, idiota! Caia! Não sabe que Deus quer que eu seja o campeão? Deus quer que você caia!”

Com a guarda sempre baixa, na mesma demonstração de superioridade técnica (e de certa arrogância) que o brasileiro Anderson Silva hoje desfila nos octogons do MMA, Ali deixou espaço para o gancho de canhota, golpe mais letal de Frazier, que o lançou à lona e ao plano dos mortais. Antes de encontrar forças para se levantar e consumar por pontos, em decisão unânime, sua primeira derrota, Ali teve que ouvir (e engolir) a resposta de Frazier: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Os dois se reencontrariam dentro do ringue mais duas vezes. Na revanche, em 1974, novamente no Madison Square Garden, Ali venceu por pontos e empatou o placar geral. No ano seguinte, o tira teima seria bancado pelo ditador filipino Ferdinando Marcos, no combate conhecido como “Thrilla in Manilla”. Tanto pela definição de uma rivalidade tão acirrada e igual, quanto pelo clima quente e úmido da capital do arquipélago asiático, a luta é até hoje considerada entre as mais violentas da história do boxe. 

No intervalo do último assalto, Eddie Futch, treinador de Frazier, jogou a toalha, já que seu lutador estava com o olho direito completamente fechado, em consequência dos incessantes jabs de esquerda de Ali. Smokin Joe, com era conhecido, queria continuar a lutar. Ali, após o anúncio da sua vitória, confessou completamente exausto e amparado por seus segundos: “Nunca cheguei tão perto da morte!”

Ambos passaram os dias seguintes no hospital. E há quem diga que levaram consequências neurológicas desse último combate pelo resto de suas vidas.

A de Frazier se encerrou hoje, aos 67 anos, na sua Filadélfia natal, em um nocaute rápido e  fulminante, como aqueles que gostava de aplicar, imposto por um câncer de fígado descoberto há apenas um mês. Enquanto pôde bater de volta, foram 32 vitórias, 27 por nocaute, com apenas quatro derrotas. Perderia outras duas para o também legendário George Foreman, campeão olímpico (em 1968, no México) e dono do direto de direita mais devastador da história do boxe, com o qual tirou de Frazier (em 1973, na Jamaica) o cinturão dos profissionais que cederia a Ali (em 1974, no Zaire) em outra “luta do século”.

Para muitos fãs leigos conquistados na esteira da militância política e da técnica exuberante de Ali, Frazier fazia jus, enquanto lutador, ao apelido pouco lisonjeiro de “gorila” dado por aquele. Quem entende um pouco de boxe, no entanto, sabe que o estilo elegante e plástico do primeiro, baseado no combate à distância segura dos jabs e diretos, era também necessidade da sua longa estatura e envergadura.

Baixo para um peso pesado, o atarracado Frazier preciava fintar o primeiro golpe dos braços geralmente mais longos do oponente, para então entrar em seu raio de ação com uma sucessão impiedosa de golpes diagonais em cruzados e ganchos. Pelos mesmos motivos, o estilo encontra analogia ao de outros dois gigantescos “baixinhos”, campeões de antes e depois: Rocky Marciano (1923/69) e Mike Tyson.

Sim, Muhammad Ali foi o maior pugilista peso pesado de todos os tempos. E, cara a cara dentro de um ringue, ninguém esteve à sua altura como Joe Frazier.

 

 

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Opiniões de poesia — José de Anchieta

 

O momento mais prazerozo das quartas, quando a política cede espaço neste blog à poesia, não poderia falhar justamente hoje, quando termina a reprodução, neste “Opiniões”, dos textos escritos para o hoje extinto “Cantos”, do qual participei ao lado do professor Adriano Moura e da antropóloga Fernanda Huguenin, ambos também poetas. Não por motivo diverso, chegou a vez  do artigo que, mesmo no “Cantos”, já se tratara de republicação, posto ter sido originalmente escrito a Folha Letras, página semanal dedicada à Literatura que este misto mal ajambrado de blogueiro, jornalista e poeta inaugurou nas contracapas de sexta da Folha Dois.

Se, como HAL nos ensina em “2001 — Uma Odisséia no Espaço”, para renascer, é preciso morrer, nada mais apropriado que terminar aqui essa série de republicações com aquilo que deu início à poesia brasileira…

José de Anchieta — Primeira poesia

“Semeador de esperanças e quimeras,

Bandeirante de entradas mais suaves,

Nos espinhos a carne dilaceras:

 

E por que as almas e os sertões desbravares,

Cantas: Orfeu humanizando as feras,

São Francisco de Assis pregando às aves…”

(Do soneto “Anchieta”, de Olavo Bilac)

Anchieta escreve o poema “Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus” na areia da praia, quando era refém dos índios tamoios, óleo sobre tela de Benedito Calixto

 

Página semanal dedicada à Literatura, sempre na contracapa das edições de sexta da Folha Dois, a primeira edição da Folha Letras apresentava suas armas com alça e massa de mira alinhadas para “nunca perder de vista a necessidade das pontes entre você, leitor, e os grandes escritores e obras, do Brasil e do mundo — ‘os mais fortes heróis que na terra viveram’, como evocou o grego Nestor em outra planície, a de Tróia”. Opção influenciada pelos versos com que Homero (séc. 8 a.C.) fundou a Literatura, este espaço a ela dedicado inicia hoje, em publicações alternadas, o contato direto com os maiores poetas brasileiros, herdeiros do pioneiro grego, mas com certidão de nascimento lavrada na prosa de Pero Vaz de Caminha (1450/1500), em sua carta a El Rey de Portugal, narrando o achamento da Terra de Vera Cruz (mais tarde Brasil) pela expedição de Pedro Álvares Cabral (1467 ou 1468/1520 ou 1526), a 22 de abril de 1500.

Em que pesem manifestações autóctones, anteriores e paralelas ao descobrimento e à colonização pelos portugueses, o marco zero para nossa cronologia da poesia brasileira será determinado pela introdução e gradual prevalência da língua de Luís de Camões (1517 a 1524/1580), que nos bate ao palato há meio milênio. Foi com Camões, aliás, que debutaria em versos nosso país, ainda com seu primeiro nome, mas tendo já citada a madeira nativa que depois o batizaria em definitivo:

 

Mas cá onde mais se alarga, ali tereis

Parte também, co’o pau vermelho se nota;

De Santa Cruz o nome lhe poreis;

Descobri-lo-á a primeira vossa frota.

(“Os Lusíadas”, Canto X, 140 a 144)

 

A língua portuguesa e sua (talvez até hoje mais alta) expressão em poesia não se fundamentariam sem o Brasil na argamassa.

Na nação (a brasileira) que ainda engatinhava, os primeiros passos da poesia seriam dados pelo jesuíta José de Anchieta (1534/1597). Nascido na ilha de Tenerife, maior do arquipélago das Canárias, era espanhol, com linhagem paterna na nobre família basca Antxeta (Anchieta), e de cristãos-novos (judeus convertidos) por parte de mãe, o que o levou a estudar em Coimbra, já que a Inquisição Católica, na Espanha, era menos tolerante do que a de Portugal quanto a origens hebréias. Com 20 anos incompletos, veio como missionário ao Brasil, onde morreria 43 anos depois, não em antes ser um dos fundadores da cidade de São Paulo e desempenhar papel fundamental na pacificação e catequese dos índios em todo litoral da nova colônia portuguesa, papel que os historiadores até hoje se dividem se de proteção ou dominação.

Dúvida também há sobre a veracidade de uma passagem narrada pela tradição. Deixando-se fazer refém da Confederação dos Tamoios, para pôr fim à guerra destes contra os portugueses, Anchieta teria escrito com um galho, na areia de uma praia do litoral sul paulista, os versos do seu “Poema à Virgem”, memorizando-os no cativeiro para, depois de liberto, repassá-los ao papel. Talvez nunca se saiba se o amor à palavra mereceu o impressionante esforço, ou se habitou apenas a imaginação de quem criou a estória e daqueles que a repetem há cinco séculos. Mas traçada na areia da praia ou na lenda sobre a areia do tempo, a poesia transita em mão dupla na ponte entre os gestos.

Mais atentos à obra do que ao mito, Antonio Cândido e Aderaldo Castelo, em “Presença da Literatura Brasileira”, consideraram Anchieta “exemplo significativo do século XVI, da realização de uma expressão literária que correspondesse às novas condições do homem na paisagem americana”. Na dúvida se este “homem” se tratava do colonizador d’além mar ou do índio que aqui já vivia, o indicativo da primeira opção se dá quando analisada sua “expressão literária”, construída sobre a sólida base latina do jesuíta “zeloso leitor de Virgílio (70 a.C. a 19 a.C.) e Ovídio (43 a.C. a 17 d.C.)”, como definiu Alfredo Bosi, em “História concisa da Literatura Brasileira”.

No Brasil, Anchieta escreveu em português e latim, mas, sobretudo, em castelhano (sua língua materna) e tupi, que adotou a ponto de dedicar-lhe uma de suas mais importantes obras: “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”. Em sua composição, ao notar a inexistência dos sons F, L e R entre os índios, ele deduziu que um povo “com tal deficiência em sua fonologia no podia ter nem Fé, nem Leyes, nem Rei”. Conclusão que a professora Marisa Lajolo completou: “contando-se entre os lucros da colonização a Fé que os jesuítas traziam, o Rei trazido pelos portugueses, e as Leis que vinham na bagagem de ambos”.

Em poesia, a obra mais famosa de Anchieta foi “De gestis Mendi de Saa” (“Os feitos de Mem de Sá”), primeiro poema épico das Américas e primeiro escrito no Brasil a ser publicado, que descreve a batalha do nosso terceiro governador geral, na Baía de Guanabara, contra os franceses comandados por Nicolas de Villegagnon, fundador da França Antártica no Rio de Janeiro. Editada em Coimbra, em 1563, a epopéia renascentista veio a público antes de “Os Lusíadas”, que só seria publicado em 1572, mesmo tendo sido concluído por Camões, provavelmente, desde 1556.

Além do já citado “Poema à Virgem”, Anchieta escreveu também outros poemas religiosos, como essas redondilhas dedicadas a Santa Inês, concebidas numa singeleza que, segundo o poeta e tradutor Alexei Bueno, “talvez só tenha vindo a repetir-se em alguns momentos do nosso Romantismo”, três séculos depois:

Cordeirinha linda,

 como folga o povo

porque vossa vinda

lhe dá lume novo.

 

(…)

 

Por isso vos canta,

com prazer, o povo,

porque vossa vinda

lhe dá lume novo.

 

Não é d’Alentejo

este vosso trigo,

mas Jesus amigo

é vosso desejo.

 

(…)

 

Santa padeirinha,

morta com cutelo,

sem nenhum farelo

é vossa farinha.

 

Ela é mezinha

com que sara o povo,

que, com vossa vinda,

terá trigo novo.

 

O pão que amassastes

dentro em vosso peito

é o amor perfeito

com que a Deus amastes.

 

Deste vos fartastes,

deste dais ao povo,

porque deixe o velho

polo trigo novo.

 

Não se vende em praça

este pão de vida,

porque é comida

que se dá de graça.

 

Ó preciosa massa!

Ó que pão tão novo

que, com vossa vinda,

quer Deus dar ao povo!

 

(…)

Fácil vislumbrar a metáfora do lume, do trigo novo, como a novidade da fé cristã diante da nova terra, o Brasil, à densa sombra da selva ainda virgem. Ecoado desta, no lugar do “horror” sentenciado pela prosa inglesa do polonês Joseph Conrad (1857/1924), o espanhol quinhentista tinha ouvidos de escutar, na colônia portuguesa, o rugido de fome espiritual da imensa maioria pagã (os índios), que estudou e compreendeu como poucos europeus do seu tempo.

Talvez não sem motivo, um Chico brasileiro de Holanda, também grande entendedor do povo desta Terra de Santa Cruz, tenha cantado as boas novas no eufemismo de 500 anos depois:

 

A novidade

Quem tem no Brejo da Cruz

É a criançada

Se alimentar de luz

 

(…)

Meio milênio driblado, como um João de Mané, na tabela de Zé a Francisco, de Chico a José, o método antes proposto à conversão ganha contraste em outros versos do jesuíta:

 

Como, vem guerreira

a morte espantosa!

Como vem guerreira

E temerosa!

 

Suas armas são doença,

com que a todos acomete.

Por qualquer lugar se mete,

sem nunca pedir licença.

Tanto que se dá sentença

da morte espantosa.

como vem guerreira

e temerosa!

 

(…)

 

A primeira morte mata

o corpo, com quanto tem.

A segunda, quando vem,

a alma e o corpo rapa.

Co’o o inferno se contrata

a morte espantosa.

Como vem guerreira

E temerosa!

Se antes expõe a oferta aparentemente livre (“quer Deus dar ao povo”), cuja aceitação é sugerida no realce às possibilidades de luz e alimento da fé cristã, nos versos seguintes o autor age como os pastores evangélicos de hoje, protestantes tão odiados e combatidos pelo padre jesuíta. A analogia se dá na prevalência do apelo dramático e, sobretudo, quando o “mal” é ressaltado para se tentar vender o “bem”, não só com a morte terrena pela peste (trazida à América pela cristandade católica e protestante), mas com a danação eterna do inferno, que, na mão inversa a Conrad, tanto horror deve ter causado aos índios.

A Literatura parece confirmar as dúvidas da História sobre Anchieta. Parida no dualismo, na dialética fundamentada pelos gregos antigos, a poesia surge, no Brasil e no mundo, para refletir as contradições do homem de sempre.

 

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Opiniões de poesia — João Cabral de Melo Neto

Na transição da política à poesia, momento sempre mais prazeroso das quartas-feiras, segue a reprodução neste “Opiniões” de textos originalmente escritos pelo blogueiro para o “Cantos” (aqui), inativo há algum tempo. Precisa como na tacada de sinuca ou no passe de Zidane, a bola da vez é…

João Cabral de Melo Neto — Poeta diamante

Por aluysio, em 07-11-2009 – 2h49

 

 

João Cabral de Melo Neto

 

Cronologicamente, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920/1999) pertenceu à Geração de 45, ano do fim da II Guerra Mundial e inicial da Guerra Fria. A ela, coube a difícil missão de suceder à Geração de 30, talvez a mais profícua na história da poesia brasileira, com valores como um Carlos Drummond de Andrade (1902/1987), um Murilo Mendes (1901/1975), um Mário Quintana (1906/1994), uma Cecília Meireles (1901/1964), um Augusto Frederico Schmidt (1906/1965), um Emílio Moura (1902/1971), um Jorge de Lima (1895/1953) e um Vinícius de Moraes (1913/1980). Por sua vez, foi a qualidade destes autores que solidificou o Modernismo no Brasil, inaugurado pela transgressora Geração de 22, de Mário de Andrade (1893/1945), Oswald de Andrade (1890/1953), Cassiano Ricardo (1895/1974), Raul Bopp (1898/1984), Ribeiro Couto (1898/1963) e do maior poeta entre estes pioneiros, ainda que modernista tardio: Manuel Bandeira (1886/1968), que, aliás, era primo de João Cabral.

Todavia, todo esse preâmbulo geracional, talvez didático e certamente enfadonho, se desvanece diante da afirmação do próprio Cabral: “Eu não sou de 45”. Cronologias à parte, não afirmava isso desprovido de razão, posto ter inaugurado uma póetica diametralmente oposta ao confessionalismo e à metafísica que marcaram seus contemporâneos.

Curiosamente, é uma toada de claras cores surreais, influência certamente do amigo Murilo Mendes, que vai ditar o primeiro livro de João Cabral, “Pedra do sono”, de 1942. A direção inicial, no entanto, seria realinhada pelo compasso e esquadro com os quais acabaria por sedimentar sua obra, tomados de empréstimo não de um poeta, mas de um arquiteto, o francês de origem suíça Le Corbusier (1887/1965):

— Quem mais influência exerceu sobre mim, teoricamente, foi o arquiteto Le Corbusier. Por muitos anos, ele significou para mim lucidez, claridade, construtivismo. Em resumo: o predomínio da inteligência sobre o instinto — admitiria o próprio Cabral.

Essa influência das artes visuais não se restringiria ao grande arquiteto, se espraiando também sob os traços do pintores holandês Piet Mondrian (1872/1944), do francês André Masson (1896/1987) e dos espanhóis Pablo Picasso (1881/1973) e Joan Miró (1893/1983), sobre quem chegou a escrever um livro em prosa e com quem chegou a conviver em sua carreira diplomática na Espanha — cuja Andaluzia, como seu Nordeste natal, está tão impressa em seus versos. Na poesia em si, ironicamente, quem mais marcou o vate pouco afeito ao canto das musas foi uma mulher: a estadunidense Marianne Moore (1887/1972), que “em vez de lápis,/ emprega quando escreve/ instrumento cortante:/ bisturi, simples canivete”, como ele descreve logo à estrofe inicial de “O sim contra o sim”,  poema do livro “Serial”, de 1961.

Identificados na gênese do “verso cicatriz” de Moore, a analogia óbvia desse “bisturi” e desse “canivete” com a “faca” e a “lâmina” que rasgam presença em boa parte da obra cabralina evidencia bem o autor marcado a fio de navalha pela imagem, auto-destinado à coisificação da poesia. Afinal, como diagnosticou nos versos de “Psicologia da composição”, poema que batiza o livro publicado em 1947: “São minerais/as flores e as plantas,/as frutas, os bichos/quando em estado de palavra.”

Poeta da concisão e da contenção, do “seco”, avesso ao lirismo fácil, ao derramamento sentimental que o grande público costuma associar aos poetas,  João Cabral está para a poesia brasileira como Graciliano Ramos (1892/1953) para a prosa. Elevado pelos concretistas a ponto de partida de uma nova estética, é o principal referencial ao fazer poético de lá ao Brasil dos nossos dias, mais que qualquer outro poeta do Modernismo, incluindo Drummond.

Atual inimigo público nº 1 do Concretismo, o poeta Alexei Bueno sequer considera os concretistas como pares, mas “artistas gráficos”, e denuncia ruidosamente o monopólio que os seguidores do movimento passaram a exercer no eixo Rio/São Paulo, a partir dos anos 1950 e do encastelamento nas universidades, sobre a produção e crítica da poesia brasileira. Mas ao radiografar esta numa obra de fôlego, “Uma história da poesia brasileira” (de 2007), ele ainda assim não se furtou em classificar Cabral “entre seus maiores criadores”.  Ou seja, embora critique o que chama de “seita” — o Concretismo e os neo-concretistas —, Bueno reverencia o “messias”.

Para o bem ou para o mal dos olhos de quem lê, a “pedra” que Cabral atirou no leito da poesia brasileira tem suas ondas de impacto refletidas até hoje. E sem margem ainda à vista…

Vários são os poemas que poderiam ser escolhidos para tentar sintetizar sua obra neste blog. “O cão sem plumas”, “Uma faca só lâmina”, “A educação pela pedra” e “Morte e vida severina” certamente estão entre eles. Todos pertencem a livros homônimos, publicados, respectivamente, em 1950, 1955 e, os dois últimos, em 1966. Para muitos, sua grande obra seria “Estudos para uma bailadora andaluza”, que abre “Quaderna”, de 1960. Também deste livro, a escolha, no entanto, acabou recaindo sobre outro poema:“‘Cante a palo seco’”.

O título do livro, pela etimologia, remete ao latim quaterna: “que são em número de quatro; que são quatro a quatro”, na definição do Houaiss. Muitas vezes pelos motivos errados, considerado um poeta complexo, o fato do pernambucano ter a quadra como sua estrofe de eleição é  fruto da influência direta que assumidamente sofreu da poesia popular nordestina. No poema “O número quatro”, do livro “Museu de tudo”, de 1975, ele dá sua razão: “O número quatro feito coisa/ ou a coisa pelo quatro quadrada,/ seja espaço, quadrúpede, mesa,/ está racional em suas patas”.

Se todos os poemas de “Quaderna” são compostos em estrofes de quatro versos, é em “‘Cante a palo seco’” que a exatidão da forma vem na numeração exata: quatro movimentos, cada um de quatro conjuntos com o divisor do quatro (dois) por número de estrofes. E, ao quadrado ou vezes quatro, quatro é conta sempre precisa de 16.

Dedicado ao poeta espanhol Rafael Santos Torroella — que apresentou a Drummond e que traduziu este ao castelhano —, o poema é também onde Cabral mais brilhantemente rascunha, em versos, o seu próprio fazer poético, onde o anti-confessional melhor confessa sua arte diante de si e do leitor, nesse difícil “ser-se ao meio-dia”. Entre os maiores imagéticos da poesia brasileira e universal, ele faz isso utilizando metáforas de musicalidade, despindo-a em suas rimas toantes ao quase silêncio; mas só quase, como  “esse fio/ quando sem qualquer pássaro/ dá o seu assovio”.

A música, que costumava chamar de “menos desagradável dos ruídos”, foi a sua chave para negá-la.

Poeta mais apolíneo da Literatura brasileira, João Cabral de Melo Neto foi pintado em “Retrato, à sua maneira”, por Vinícius de Moraes, nosso maior dionisíaco: “Adiante Ave/ Camarada diamante!”

Bem sabia o Poetinha que a pedra mais dura é também a que mais brilha.

 

“A Palo Seco”

A R. Santos Torroella

 

1.1

Se diz a palo seco

o cante sem guitarra;

o cante sem; o cante;

o cante sem mais nada;

 

se diz a palo seco

a esse cante despido:

ao cante que se canta

sob o silêncio a pino.

 

1.2

O cante a palo seco

é o cante mais só:

é cantar num deserto

devassado de sol;

 

é o mesmo que cantar

num deserto sem sombra

em que a voz só dispõe

do que ela mesma ponha.

 

1.3

O cante a palo seco

é um cante desarmado:

só a lâmina da voz

sem a arma do braço;

 

que o cante a palo seco

sem tempero ou ajuda

tem de abrir o silêncio

com sua chama nua.

 

1.4

O cante a palo seco

não é um cante a esmo:

exige ser cantado

com todo ser aberto;

 

é um cante que exige

o ser-se ao meio-dia,

que é quando a sombra foge

e não medra a magia.

 

2.1

O silêncio é um metal

de epiderme gelada,

sempre incapaz das ondas

imediatas da água;

 

a pele do silêncio

pouca coisa arrepia:

o cante a palo seco

de diamante precisa.

 

2.2

Ou o silêncio é pesado,

é um líquido denso,

que jamais colabora

nem ajuda com ecos;

 

mais bem esmaga o cante

e afoga-o, se indefeso:

a palo seco é um cante

submarino ao silêncio.

 

2.3

Ou o silêncio é levíssimo,

é líquido sutil

que se coa nas frestas

que no cante sentiu;

 

o silêncio paciente

vagaroso se infiltra,

apodrecendo o cante

de dentro, pela espinha.

 

2.4

Ou o silêncio é uma tela

que difícil se rasga

e que quando se rasga

não demora rasgada;

 

quando a voz cessa, a tela

se apressa em se emendar:

tela que fosse de água,

ou como tela de ar.

 

3.1

A palo seco é o cante

de todos mais lacônico,

mesmo quando pareça

estirar-se um quilômetro:

 

enfrentar o silêncio

assim despido e pouco

tem de forçosamente

deixar mais curto o fôlego.

 

3.2

A palo seco é o cante

de grito mais extremo:

tem de subir mais alto

que onde sobe o silêncio;

 

é cantar contra a queda,

é um cante para cima,

em que se há de subir

cortando, e contra a fibra.

 

3.3

A palo seco é o cante

de caminhar mais lento:

por ser a contrapelo,

por ser a contravento;

 

é cante que caminha

com passo paciente:

o vento do silêncio

tem a fibra do dente.

 

3.4

A palo seco é o cante

que mostra mais soberba;

e que não se oferece:

que se toma ou se deixa;

 

cante que não se enfeita,

que tanto se lhe dá;

é cante que não canta,

cante que aí está.

 

4.1

A palo seco canta

o pássaro sem bosque,

por exemplo: pousado

sobre um fio de cobre;

 

a palo seco canta

ainda melhor esse fio

quando sem qualquer pássaro

dá o seu assovio.

 

4.2

A palo seco cantam

a bigorna e o martelo,

o ferro sobre a pedra,

o ferro contra o ferro;

 

a palo seco canta

aquele outro ferreiro:

o pássaro araponga

que inventa o próprio ferro.

 

4.3

A palo seco existem

situações e objetos:

Graciliano Ramos,

desenho de arquiteto,

 

as paredes caiadas,

a elegância dos pregos,

a cidade de Córdoba,

o arame dos insetos.

 

4.4

Eis uns poucos exemplos

de ser a palo seco,

dos quais se retirar

higiene ou conselho:

 

não o de aceitar o seco

por resignadamente,

mas de empregar o seco

porque é mais contundente.

 

João Cabral de Melo Neto, em João Cabral de Melo Neto — Obra completa (1994), Editora Nova Aguilar, Quinta reimpressão da 1ª edição (2006), págs. 247 a 251

 

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Sirkis: Denúncias contra o PT partem do PT

O “ex-companheiro” Alfredo Sirkis (foto de Antonio Cruz)
O “ex-companheiro” Alfredo Sirkis (foto de Antonio Cruz)

“Uma atitude fascistóide”. Foi assim que o vereador carioca e candidato a deputado federal pelo PV, Alfredo Sirkis, em visita de campanha a Campos, classificou a manifestação programada para hoje, em São Paulo, contra a chamada “grande imprensa”. Além de PT, CUT e UNE, segundo definiu e denunciou o jornalista Merval Pereira, em sua coluna publicada hoje em O Globo, o evento é também organizado pelos “que se intitulam ‘blogueiros independentes’, todos, sem exceção, financiados pelo dinheiro público”. Irônico que, nesta terra de planície, quem se arroga de título idêntico, até pouco tempo se ufanava por ter conseguido emplacar um e-mail na mesmíssima coluna do Merval — um dos tantos que, pelo “crime” da exposição do contraditório, passou a ser encarado como inimigo figadal por essa espécie de SS virtual.

Com a bagagem de quem integrou a luta armada contra a ditadura, junto com vários “companheiros” hoje no comando do PT, Sirkis não tem dúvidas de quem está por trás deste movimento de “inteligência” do partido: José Dirceu, mentor do Mensalão.  Em conversa com o blogueiro, o verde revelou, inclusive, que enquanto estava reunido, ontem, com a cúpula da campanha de Marina Silva à presidência, chegou a informação de que todas as denúncias contra o governo federal, repercutidas pela imprensa, teriam origem dentro do próprio PT. Seriam facções não apenas insatisfeitas com a iminente ocupação do PMDB no governo Dilma, como por oposição interna ao grupo palaciano nas diputas sempre intestinas do partido — nítidas e bem reproduzidas, por exemplo, em Campos.

Para Sirkis, além do “fantasma do PMDB”, um possível governo Dilma ainda teria outro grave problema: Lula. Não bastasse Zé Dirceu dando as cartas novamente sob a mesa do PT,  o verde indagou qual seria o papel do popularíssimo presidente quando finalmente deixar a cadeira: “tutor de Dilma?” Se não se ateve à postura de magistrado que caberia à presidência da República, evidenciando total ausência de limites para tentar eleger sua candidata, a qualquer custo, ainda no primeiro turno, o que garante que Lula irá aprender a fazê-lo, depois que se tornar ex?

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