O jornalista Guilherme Belido está nos retoques finais do livro que pretende lançar sobre aspectos gerais de um período da imprensa de Campos, englobando as últimas décadas do século 20 até tempos mais recentes. De forma acessória, pinceladas sobre os jornais cariocas também entram.
Com o título ‘Tinturas da imprensa de Campos’, Guilherme brinca dizendo que está cometendo um “atentado à literatura”, com esforço para fazer o que outros, incomparavelmente tão melhores, poderiam ter feito.
— Com quem mais insisti para escrever foi com o jornalista Aluysio Barbosa. Falei com ele umas três ou quatro vezes, mas sorria e tangenciava. Da última vez, com o refinamento que lhe era próprio, disse preferir não escrever, alertando que ou teria que cometer certas omissões, ou ferir suscetibilidades. E concluiu enfatizando que ambas as opções não o agradavam. Também apelei para o jornalista Vivaldo Belido de Almeida, que enrolo, enrolou e acabou lançando livro sobre política – disse Belido.
O livro
Com orelha do desembargador Paulo Assed Estefan e ‘Sobre o Autor’ assinado pelo empresário e colunista da Folha, Murillo Dieguez, Belido ressalva que o livro está atrasado, de tantas vezes que ele altera um determinado trecho, e acaba refletindo em outro.
Explica que busca retratar os principais órgãos da imprensa de Campos, trata de generalidades, bem como bastidores dos dois únicos que atuou ativamente: os extintos A Cidade, onde ingressou ainda muito jovem, e O Diário
— Nasci na década de 60. Logo, não presenciei nada daquela época. Por outro lado, como frequento o ‘ambiente’ desde criança… já fui absorvendo. De mais a mais, sempre curioso, ‘perseguia’ uns e outros com intermináveis perguntas sobre essa espinhosa, difícil, fascinante e nada convencional atividade. Em meados de 70, já estava lá. Sem qualquer pretensão, se você não tiver isso de berço ou profunda vocação, não funciona. Não dá para cair de paraquedas ou ficar de olho no relógio torcendo para não ter notícia e poder voltar para casa. Daí a vocação — concluiu.
Administrador público, ex-candidato a prefeito de oposição em São João da Barra e pré-candidato a deputado federal, Danilo Barreto (Novo) é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar, ao vivo, a partir das 7h da manhã desta sexta (7), na Folha FM 98,3.
Ele falará da previsão de quase R$ 1 bilhão de orçamento (confira aqui) para SJB em 2026, assim como do projeto do novo hospital (confira aqui) e da privatização do serviço de água no município.
Danilo também analisará (confira aqui) o tabuleiro de SJB, Campos e região para deputado federal e estadual. E, com base nas pesquisas, tentará projetar as eleições a senador (confira aqui, aqui e aqui), governador (confira aqui, aqui, aqui e aqui) e presidente (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) em 4 de outubro de 2026, daqui a pouco mais de 10 meses.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
William Knifis, advogado, comerciante e ex-presidente da antiga Câmara Júnior de Campos, atual JCI
Ontem (5), morreu aos 81 anos e foi sepultado (confira aqui) o advogado e comerciante William Knifis, campista de nascimento e atafonense por adoção. Hoje, a JCI Campos, antiga Câmara Júnior de Campos, se manifestou (confira aqui) sobre a história de vida de William no comando da entidade:
A JCI Campos dos Goytacazes lamenta profundamente o falecimento, ocorrido ontem, do advogado e comerciante William Knifis, aos 81 anos, vítima de um câncer.
Ex-presidente da então Câmara Júnior de Campos (hoje JCI), William Knifis liderou a organização em 1982, deixando uma marca indelével de comprometimento, ética e espírito de serviço. Seu exemplo inspirou gerações de jovens cidadãos a acreditarem no poder da ação individual em prol da comunidade.
Anos mais tarde, teve seu legado reconhecido e foi homenageado pela JCI Campos pelos relevantes serviços prestados à instituição e à sociedade campista. Sua trajetória, pautada pela discrição, sabedoria e dedicação, é lembrada com imenso respeito e gratidão.
Hoje nos despedimos deste grande líder, mas nossos corações se enchem de gratidão, pois ele acendeu a tocha do propósito que seguimos carregando. Que os mais jovens mantenham viva essa chama de liderança e altruísmo que ele tão bem representou.
À família, amigos e admiradores, nossos mais sinceros sentimentos.
A JCI Campos se despede de um grande líder, cujo legado permanecerá sempre vivo.
“Servir à Humanidade é a melhor obra de uma vida.”
No dia 29, na praça de São Lucas, na Penha, familiares choram sobre corpos dos mortos na operação policial do dia 28 nos complexos da Penha e Alemão contra a facção criminosa Comando Vermelho (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
José Luis Vianna da Cruz, sociólogo e professor da UFF-Campos
Um círculo vicioso — O caso do Alemão e da Penha
José Luis Vianna da Cruz
De início, já me posiciono afirmando que considero o que houve nos complexos do Alemão e da Penha um massacre, ou chacina. E, como foi em favela, sabemos que foi um massacre de jovens pobres negros, em sua maioria.
Por que um massacre, ou chacina?
Pelo número de pessoas mortas, alguma com tiros na nuca, outras desarmadas, outras à queima-roupa, outras em situação nada identificadas com qualquer suspeição, como um morador de rua e uma mulher numa academia.
Porque tanto o número de pessoas mortas quanto suas identidades não correspondem ao número de mandatos nem aos nomes procurados. Mais mortos do que o número de procurados, numerosas identidades diferentes das que constam nos mandatos.
Porque mandatos de detenção e apreensão não são salvo-condutos para matar; pelo contrário, o protocolo é de detenção sem letalidade, a não ser sob ataque. O que não foi o caso de grande parte dos corpos encontrados, claramente em situação de fuga sem armamento ou resistência.
Também não há norma, protocolo ou legislação que autorize a destruição dos bens existentes nas residências invadidas. Como todos sabemos a polícia quebra tudo do pouco que a gente pobre possui em casa. E usa de violência contra todos que encontra pela frente.
Não bastasse isso, precisamos recordar e reforçar certos princípios éticos, legais e de legitimidade. A velha prática da polícia do Rio de matar suspeitos não encontra respaldo legal, nem ético, nem legítimo. Suspeito não é condenado; nem um condenado pode ser fuzilado, porque a lei prevê penas. Portanto, em princípio e por todas essas razões, matar é imoral, ilegal e antiético.
Mas, dizem: houve reação bélica intensa por parte dos criminosos! Pois bem, a uma ação corresponde uma reação. A ação foi realizada por 2.500 homens armados até os dentes, invadindo as favelas com armamento pesado e com histórico de matar quem encontra pela frente, esteja armado ou não. Portanto, a dos criminosos foi uma reação a uma ação de prática típica e sistemática de assassinato indiscriminado por parte da polícia. Entregar-se nunca foi garantia de vida para suspeitos ou culpados. Os familiares dos mortos foram humilhados, tratados com agressividade, sem nenhuma compaixão, empatia ou solidariedade das autoridades, que só se pronunciaram dessa forma com relação aos policiais mortos, ignorando a dor dos familiares dos demais 120 assassinados.
Tem algo muito grave nesses fatos, que deveria ser constituir os principais temas de discussão sobre essa chacina. Para além do fato de que a maioria das pessoas entrevistadas por mais de um instituto de pesquisa terem aprovado o ocorrido.
Ações contra criminosos em localidades onde a maioria é de trabalhadores, famílias e pessoas honestas, não pode ser de varejo, impedindo a livre circulação, o acesso ao trabalho, à educação ou a qualquer atividade do cotidiano dos moradores e das atividades econômicas locais e ameaçando suas vidas. A prática de ações armadas, belicosas e letais nas condições praticadas pela polícia do Rio é incompatível com o direito à vida, com os direitos humanos, com a democracia, com o direito à sociabilidade em clima de paz, harmonia, convivência, solidariedade, alegria, usufruto, lazer.
As forças e autoridades de Segurança Pública são as principais responsáveis pelo clima de terror e medo que impera nessas áreas. Os criminosos mantem controle e um clima de medo e terror nessas comunidades? Até certo ponto, sim. Mas, o que fazer, então? Isto basta para justificar essa forma de enfrentamento do problema do tráfico de drogas?
Aí é que fica escancarada a hipocrisia, o cinismo, a má fé, a crueldade e a desumanização que permeiam as posições a favor da ação policial de boa parte das autoridades do Executivo, do Legislativo e, até mesmo, do Judiciário. Há quase um século que já se sabe, no mundo inteiro, que só se acaba com o crime organizado, com milícias, máfias, facções e afins quando se adota o “follow the money” (“siga o dinheiro”). Ou seja, quando se asfixia financeiramente as organizações e grupos criminosos.
Lembremo-nos de Al Capone, que só foi barrado quando investigaram seu imposto de renda. As ações da Polícia Federal estão revelando que empresas das finanças, do comércio, dos serviços e da indústria estão imiscuídas na circulação e lavagem do dinheiro que sustenta as máquinas do crime organizado.
Em suma, não há um só caso registrado no mundo em que a ação exclusiva e principal na ponta do varejo, contra os peixes pequenos, tenha acabado com as atividades desses grupos. Podem matar 100 ou mil ou 10 mil. O dinheiro dos milionários donos dessas organizações, que vivem em condomínios de luxo, contratará novos exércitos, fabricará mais drogas, comercializará o suficiente para manter suas máquinas e o dinheiro lavado aplicado renderá muito além das perdas. E, sabe-se, também, que há autoridades e políticos envolvidos.
Dito tudo isso, como é possível apoiar essa “solução macabra e criminosa” das autoridades da Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro?
Digo mais: se isso fosse apresentado à população, tenho absoluta certeza de que se inverteriam as respostas (confira aqui, aquie aqui) às pesquisas. Por quê? Porque por trás da maioria dessas aprovações está uma crença, alimentada pelas autoridades e instituições, em geral, de que a postura da segurança do Rio é a única maneira de resolver o problema. E, mais ainda, porque, como grande parte sabe que os grandes não serão pegos, só resta mesmo eliminar o varejo, para, pelo menos, mitigar a ação desses criminosos.
E, para terminar, vem a questão eleitoral: além desses agentes oficiais dessa postura criminosa existem os omissos, pragmáticos, resignados e aproveitadores que não tratam a questão da maneira que aqui abordei, embora saibam que eu tenho razão, para não arriscar o desempenho eleitoral de si e dos seus candidatos. Ao invés de esclarecer, aproveitam-se da obscuridade.
Esse é o círculo vicioso que alimenta essa prática equivocada e sabidamente ineficiente. Mas, como do outro lado, estão pobres, pretos, favelados, é só manter a postura de indiferença e opressão com que esses sempre foram tratados, não só na questão da violência, uma vez que é só mais um ângulo da desigualdade e da violência social, étnico-racial, de gênero que os trabalhadores pobres, principalmente, sofrem desde sempre.
A abertura do 6º Festival Doces Palavras (FDP!) e a reinauguração do Palácio da Cultura de Campos (confira aqui), após 11 anos fechado à população.
O julgamento (confira aqui) do governador Cláudio Castro (PL) e do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), pelo escândalo Ceperj; a operação policial do dia 28 (confira aqui, aqui, aqui e aqui) contra a facção criminosa Comando Vermelho no Rio, com 121 mortos; e as consequências dos dois casos às eleições de 4 de outubro de 2026.
Flamengo, que joga hoje, e Palmeiras, que joga amanhã, cabeça a cabeça na reta final da disputa pelo Brasileiro e a Libertadores da América.
Estes serão os temas abordados, no Folha no Ar desta quinta (6), ao vivo, a partir das 7h da manhã, pelo radialista Cláudio Nogueira e o jornalista Aluysio Abreu Barbosa, na Folha FM 98,3.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
“Estamos tentando ver se é possível os legistas da Polícia Federal participarem do processo de investigação da morte (…) Até agora nós temos uma versão contada pela polícia, contada pelo governo do estado e tem gente que quer saber se tudo aquilo aconteceu do jeito que eles falam ou se teve alguma coisa mais delicada na operação”, disse Lula ontem em Belém.
Por mais operações, 73% no RJ
Na pesquisa estadual Quaest, perguntados se deveria ter outras operações policiais como a do dia 28 em comunidades, uma relevante maioria de 73% dos fluminenses respondeu que deveria. Os que acham que não deveria formam uma minoria de 22%.
Por mais operações, 67% no Rio
Na pesquisa Paraná na cidade do Rio, perguntados sobre a posição sobre mais operações como a do dia 28, outra relevante maioria de 67,9% dos cariocas se disse a favor. Os que são contra formam uma minoria de 26,6%.
Contra fuzil, prender ou atirar de cara?
Na Quaest estadual, perguntados qual deveria ser a reação do policial que está trabalhando e se depara com uma pessoa com um fuzil na mão, 50% dos fluminenses disseram: “Buscar prender sem atirar”. Na margem de erro de 3 pontos para mais ou menos do levantamento, é um empate técnico com os 45% que responderam: “Atirar logo de cara”.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Combate ao tráfico no Rio: Castro 33% x 14% Lula
Na comparação direta entre os trabalhos de Castro e Lula no combate ao tráfico de drogas, a pesquisa Paraná na cidade do Rio revelou que o governador, hoje, tem aprovação de 33,4% dos cariocas (14,0% de ótimo e 19,4% de bom). São 19,2 pontos acima de Lula, hoje aprovado por apenas 14,2% dos cariocas (5,9% de ótimo e 8,3% de bom) no combate ao tráfico.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Lula assume lado e tenta reanimar sua base
Ao dizer que a operação do dia 28 contra o Comando Vermelho foi “uma matança”, Lula assumiu um lado na guerra de narrativas sobre a questão da Segurança, que terá novos fatos e versões até as urnas de 6 de outubro de 2026, daqui a 11 meses e 1 dia. E tenta reanimar sua base, atordoada pelos números de aprovação popular à ação policial em todas as pesquisas.
“O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortes, as pessoas podem considerar um sucesso, mas do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa”, disse Lula ontem em Belém. Foi a primeira vez que ele se manifestou pessoalmente sobre a operação.
Castro sobre operação: “Foi um sucesso”
Embora não tenha nominado o destinatário, a declaração de Lula foi uma resposta direta ao governador Cláudio Castro (PL). Que, no dia 29, declarou: “Tirando a vida dos policiais (quatro morreram na ação), a operação foi um sucesso”.
Violência adequada a 52% no Brasil e 62% no RJ
No entanto, na pesquisa AtlasIntel, o nível de violência empregado pelas polícias foi adequado (confira aqui) para a maioria de 52,5% dos brasileiros, enquanto foi excessivo para 45,8%. A maioria na aprovação nacional da violência policial empregada sobe para 62,3% entre os habitantes da cidade do Rio de Janeiro, com 34,4% achando que foi excessiva.
Quaest: sucesso para 58% no RJ
Na pesquisa estadual Quaest, perguntados como classificariam a operação, a maioria de 58% dos fluminenses parece concordar com Castro: acha que foi um sucesso. Os que acham que foi um fracasso, em aparente concordância com Lula, são a minoria de 32%. Outros 6% responderam que depende e 4% não souberam opinar.
Paraná: sem exagero para 60% no Rio
Na pesquisa Paraná na cidade do Rio, perguntados se houve exagero por parte das forças policiais na operação, a maioria de 60,1% dos cariocas respondeu que não, contra a minoria de 29,4% que disse sim. Outros 7,0% responderam que houve exagero em partes, enquanto 3,5% não opinaram.
“A ordem do juiz era uma ordem de prisão, não uma ordem de matança, e houve uma matança”. Foi o que o presidente Lula disse ontem (4), em Belém (PA), sobre a operação policial no dia 28, contra a facção Comando Vermelho, nos complexos de favelas cariocas do Alemão e Penha. Que, com 121 mortos, foi a mais letal da história do estado do Rio de Janeiro.
Nas favelas, 8 em cada 10 aprovam operação
No sábado (1º), esta coluna divulgou (confira aqui) os principais números da pesquisa AtlasIntel. Entre os moradores de favelas no Brasil, 80,9% aprovam a operação, desaprovada por 19,1%. Entre os moradores de favela na cidade do Rio, essa maioria pela aprovação chega a esmagadores 87,6%, com apenas 12,1% de desaprovação.
Quaest: 64% no RJ aprovam operação
Divulgadas no final de semana, outras pesquisas. Feita apenas entre os eleitores do Estado do Rio, mas sem o recorte específico das favelas, a Quaest confirmou a maioria de 64% dos fluminenses aprova a operação. Que é desaprovada pela minoria de 27%, com 6% que nem aprovam, nem desaprovam.
Paraná: 69% do Rio a favor da operação
Por sua vez, feita apenas na cidade do Rio de Janeiro e também sem o recorte das favelas, a pesquisa do instituto Paraná registrou o apoio de uma maioria ainda maior à operação: 69,6% estão a favor. Os que são contra formam uma minoria de 25,8%.
Fernanda Campos, Ronaldo Junior, Vitor Menezes e Wellington Cordeiro são os convidados do Folha no Ar desta quarta (5), ao vivo, a partir das 7 da manhã, na Folha FM 98,3.
Fernanda é professora e presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Ronaldo é professor e presidente da Academia Campista de Letras (ACL), Wellington é jornalista e presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC), enquanto Vitor é jornalista, professor e membro da AIC e da ACL.
A pauta com os quatro será a 6º Festival Doces Palavras (FDP!), cuja programação, após adiamentos e incertezas (confira aqui e aqui), será aberta na própria quarta. E segue até o domingo (9), marcando a reinauguração do Palácio da Cultura, fechado para reforma desde 2020.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Igor Franco, especialista em finanças e professor do Uniflu
A guerra que fingimos não ver
Por Igor Franco
Os acontecimentos dos últimos dias reacenderam a discussão sobre a existência — ou não — de uma guerra irregular travada pelo Estado brasileiro contra as facções criminosas. A dúvida, nesse caso, é legítima. Já quanto ao conflito aberto entre as próprias facções e entre estas e as milícias no Rio de Janeiro, não há espaço para hesitação: é guerra declarada.
Nessa disputa, a barbárie é regra, não exceção. Decapitações, esquartejamentos de adversários, expulsão de famílias e a imposição de regras draconianas de convivência nos territórios ocupados fazem parte do cotidiano dos moradores das comunidades tomadas. Qualquer usuário do X (antigo Twitter) pode, em poucos cliques, acessar páginas repletas de registros gráficos para constatar a brutalidade que se tornou rotina nesses locais.
Na última segunda-feira (3), o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro concluiu a perícia nos mortos da Operação Contenção. Para desespero de parte expressiva do arco progressista, os dados são eloquentes: até o momento, 97 dos 115 identificados possuíam histórico criminal, enquanto 12 dos 18 sem informações oficiais exibiam registros de envolvimento com o tráfico em suas próprias redes sociais.
Em que pese o luto das famílias dos quatro policiais mortos, a ausência de inocentes entre as vítimas indica que a operação atingiu resultados legítimos e importantes: neutralizou mais de uma centena de criminosos fortemente armados, apreendeu dezenas de fuzis e impôs ao Comando Vermelho uma desarticulação temporária em seu domínio sobre o Complexo do Alemão.
O impacto, porém, foi além das estatísticas policiais. A megaoperação atingiu em cheio a narrativa de parte da esquerda e, de modo particular, o Governo Federal. Há muito desconectado de qualquer senso de realidade sobre Segurança Pública, os discursos que se seguiram oscilaram entre o patético e o lamentável.
O outrora loquaz presidente Lula, inebriado pelos recentes acertos políticos, submergiu. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, criticou a ação e nos contou que os responsáveis pelo tráfico vivem fora do Brasil. Aparentemente, o ministro sabe de algo que nós — e a Polícia — não sabemos. Só nos resta torcer para que encontre alguma autoridade responsável. Guilherme Boulos, de quem não se espera nada, segue sua sina de decepcionar: durante a posse como ministro, pediu um minuto de silêncio pelos mortos na operação, colocando no mesmo balaio os narcotraficantes e os policiais assassinados no cumprimento de suas atividades.
Já Ricardo Lewandowski, titular da Justiça, que assumiu o cargo prometendo desencarcerar presos e denunciando um suposto excesso de prisões, foi rápido em condenar a operação e alegar desconhecimento prévio. Desmentido ao vivo pelo chefe da Polícia Federal e confrontado por pesquisas de opinião que apontaram apoio maciço à ação, recuou, tentando expressar algum tipo de “apoio condicionado” ao governo estadual, apenas para evitar uma derrota mais ruidosa.
Apoio mesmo, ministro Lewandowski, teria sido enviar os veículos blindados requisitados no início do ano. Aqueles que, por ter esteiras no lugar das rodas do Caveirão do Bope, são capazes de derrubar as barricadas. Que não apenas impedem a progressão das ações policiais, mas diariamente infernizam a vida dos moradores das comunidades, restringindo o direito constitucional de ir e vir.
E, por falar em direito constitucional, o papel do Supremo Tribunal Federal não pode ser ignorado. Quase metade dos traficantes mortos era oriunda de outros estados. A um estrangeiro recém-chegado, esse dado pareceria absurdo; a qualquer brasileiro sensato, porém, ele soa previsível. Foi o desfecho natural da “ADPF das Favelas”, decisão do STF que, em plena pandemia, impôs severas restrições às operações policiais no Rio.
O resultado foi a migração em massa de faccionados de todo o país, justamente convencidos de que estarem encastelados nas favelas cariocas era uma garantia de integridade muito maior que permanecerem em seus estados de origem. Os alertas das forças de segurança não encontraram eco no tribunal, muito ocupado que estava intervindo sobre os demais Poderes e reabilitando condenados confessos por corrupção. Coincidência ou não, a sensação de impunidade e o fortalecimento do crime organizado avançaram no mesmo compasso.
O Brasil enfrenta uma longa lista de urgências: equilibrar as contas públicas, reformar a máquina administrativa, melhorar a educação e ampliar o acesso à saúde. Mas nenhuma é tão imediata quanto a Segurança Pública. Sem segurança, não há economia estável, política social efetiva ou cidadania possível. Boa parte da esquerda tem razão ao lembrar que ações policiais isoladas não são suficientes para acabar com o problema. Mas reconhecer tal limitação é completamente diferente de afirmar que ações policiais são um problema. Pelo contrário, parte fundamental da solução está em retomar os territórios perdidos ao longo de décadas.
São áreas onde as facções exploram economicamente a população, impõem tribunais de exceção e punem com crueldade qualquer tentativa de insubordinação. De meninas esquartejadas por recusarem relações com chefes do tráfico a crianças assassinadas a sangue-frio apenas por pertencerem a bairros vizinhos, a rotina é de horror permanente. O apoio maciço das comunidades à operação da semana passada, demonstrado insuspeito (confira aqui) pelo instituto AtlasIntel, é a evidência mais clara de que são justamente essas pessoas as principais vítimas da tragédia.
É compreensível lamentar que o país precise recorrer a operações tão letais para recuperar o controle de seu território. Mas é preocupante — e sintomático — lamentar a morte de criminosos que escolheram empunhar fuzis contra a sociedade. A tragédia não está na ação do Estado, mas na omissão que a tornou inevitável. Enquanto insistirmos em confundir vítimas e algozes, o Brasil continuará oscilando entre a hipocrisia política e a covardia moral. Que fingem não ver a guerra há muito tempo às nossas portas.
Os jornalistas e blogueiros do Folha1 Edmundo Siqueira e Matheus Berriel são os convidados para o Folha no Ar desta terça (04), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.
Edmundo falará sobre a megaoperação policial do dia 28 nos complexos cariocas de favelas do Alemão e Penha, com 121 mortos. Como das reuniões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para tratar do tema hoje (03) com autoridades fluminenses (confira aqui) e sobre o reflexo disso (confira aqui, aqui, aqui e aqui) nas pesquisas e nas eleições de 2026.
Matheus falará sobre o legado do músico, cantor e compositor mineiro Lô Borges (confira aqui), falecido hoje (confira aqui) aos 73 anos, e de Palmeiras e Flamengo na briga pelo Brasileirão e a Libertadores da América.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
“Três de Maio de 1808 em Madrid — Os fuzilamentos da montanha do Príncipe Pío”, óleo sobre tela de Francisco de Goya, de 1814, que denuncia o fuzilamento de espanhóis pelas tropas de Napoleão Bonaparte durante o ocupação francesa da Espanha (Museu do Prado, Madri)
Johnatan França de Assis, profissional de psicologia, estudante de ciências econômicas, militante antifascista e do RUA Juventude Anticapitalista e membro da executiva municipal do Psol em Campos
Chacina sob aplausos: aonde vai o Brasil disparado da ponta do fuzil?
Por Johnatan França de Assis
Marielle perguntou, eu também vou perguntar:
Quantos mais têm que morrer pra essa guerra acabar?
O choro de uma mãe pelo suplício de um filho é uma imagem que atravessa o espírito humano, pirronicamente, suspende os juízos morais, de quem é mocinho, quem é bandido, porque no fim, com suas imperfeições, é todo mundo gente. Mas diferentemente do que pretende o sábio de Eléia, ninguém sai em ataraxia, os corpos amontoados na praça debaixo do pranto dos entes queridos não é algo que traz ausência de perturbação, é a própria perturbação, o Rio de Janeiro não é para amadores.
Sinto-me Goya retratando Napoleão enquanto a maioria da população, como Hegel, lhe planta uma árvore em homenagem. Talvez esse seja o momento de, como Magritte, colocar Hegel de férias, e de cabeça pra baixo (como fez certo filósofo), para conseguir lidar com a contradição dialética evidente. A Weltseele de hoje não vem montada a cavalo, e nem sobe o morro num camburão, a imagem da Alma do Mundo hoje é o corpo de um rapaz de 19 anos decapitado na Serra da Misericórdia.
Onde se quer chegar com isso? Sabemos de 121 histórias que nunca mais poderão ter um traçado melhor. Em menos de um dia se tem de volta todo prejuízo econômico, e nenhuma vida volta. Não sei quantas vezes o Estado falhou com Ravel, que projeções e horizontes ele tinha, mas tenho certeza que se alguém é torturado e morto pelo Bope depois de se entregar, o Estado falhou aí. Há dois meses ele tinha entrado pro tráfico e ano que vem poderia estar convertido numa igreja, ou se tornado MC, ou outra qualquer coisa que não fosse o que ele era ali. Devir interrompido.
Operações devem usar inteligência e diminuir a letalidade, não existe pena de morte legalizada no Brasil. Mas há como que legalizada aqui a espetacularização da violência e justificação do massacre. E contra a maré estão os que apontam a patente inefetividade desse tipo de ação, as facções vão recrutar mais jovens para fazer esse moedor de carne incessante. É tão difícil perceber que matar o irmão de alguém recruta um novo membro de facção aqui, ou um novo terrorista lá em Gaza? O Haiti é aqui, Gaza também é aqui.
Será que é uma posição tão radical e assustadora defender o direito à vida e um combate ao crime que reintegre, não aniquile? Por que esse gozo sádico do extermínio? Você se sente mais seguro hoje? Eu também não.
Que nesse dia de Finados, todas as pessoas que amam alguém que se foi encontrem consolo, e respeito.