20 anos da pós em Literatura do IFF têm programação nos dias 16 e 23

 

(Arte: Curso de Letras, Português e Literaturas do IFF)

 

“Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado”. Como nesses versos de Paulinho da Viola, servidores e estudantes do Instituto Federal Fluminense se preparam para comemorar os 20 anos da pós-graduação lato sensu em Literatura, Memória Cultural e Sociedade, no dia 23 de outubro, a partir das 13h30, no auditório Miguel Ramalho, no Campus Campos Centro.

O evento, que é aberto a toda a população, alia o conhecimento acadêmico, com palestra e minicurso, aos festejos, que contarão com a presença de quem construiu esta história com afinco e dedicação. As inscrições podem ser feitas no site: https://eventos.iff.edu.br/20anos-poslmcs

Sem deixar as memórias caírem no esquecimento e sem interromper a oferta nesses 20 anos de existência, o curso em Literatura, Memória Cultural e Sociedade, um dos mais antigos do IFFluminense, quando se trata de pós lato sensu, já deixou um legado importante para a cidade: foi responsável por registrar as paisagens de Campos dos Goytacazes, passando pelo rio Paraíba do Sul até chegar ao Bar Doce Bar, que existiu nos idos de 1970, e encontrando vários nomes que fincaram suas histórias na cidade, como Antônio Roberto Kapi, poeta, dramaturgo e ator, e a professora e poeta Ruth Maria Chaves Martins.

E não se pode falar sobre a especialização sem mencionar a professora Rita Maria de Abreu Maia, idealizadora da especialização, que germinou esse sonho em uma instituição, à época, majoritariamente tecnicista. Ela abriu caminhos para tantas outras e tantos outros tecerem manhãs e amanhãs.

Para a atual coordenadora da pós, professora Érica Luciana de Souza e Silva, o curso é um marco para os estudos ligados à literatura e à memória. Além disso, ela destaca a relevância das pesquisas desenvolvidas na especialização que contribuem para o conhecimento dos saberes de Campos e região: “O curso atua na formação de profissionais de diversas áreas, mas também forma cidadãos que queiram e estejam dispostos a pensar a memória cultural, a sociedade e a própria cultura do nosso país, especialmente a de Campos dos Goytacazes e região”.

Já o diretor de Pesquisa, Pós-graduação e Extensão do Campus Campos Centro, professor Pedro de Azevedo Castelo Branco, ressalta a contribuição da especialização ao longo das últimas duas décadas, principalmente para o Ensino, ao afirmar que “durante esses 20 anos, formamos muitos profissionais que atuam hoje em várias áreas na nossa cidade e na nossa região, mas eu diria que a maior parte atua no ensino. Então, muitos desses profissionais estão ministrando aulas para a comunidade acadêmica de Campos e região”.

A pós-graduação lato sensu em Literatura, Memória Cultural e Sociedade é uma especialização com programa de caráter interdisciplinar que articula as áreas de Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas e Linguística, Letras e Artes. A especialização tem como objetivo formar profissionais críticos e reflexivos, capazes de analisar e compreender os diálogos entre literatura, memória cultural e sociedade no contexto contemporâneo. O público-alvo são profissionais graduados nessas áreas. Todos os anos, são disponibilizadas 30 vagas, e o ingresso se dá por meio de processo seletivo. Ao final do curso, depois da defesa pública de uma monografia, os estudantes recebem o título de Especialista em Literatura, Memória Cultural e Sociedade.

Com carga horária total de 360 horas, o curso é oferecido na modalidade presencial, com duração de 12 meses. As aulas acontecem às quintas-feiras, nos turnos da tarde e da noite, no IFFluminense Campus Campos Centro. A pós-graduação em Literatura, Memória Cultural e Sociedade reafirma o compromisso do Instituto Federal Fluminense em oferecer formação gratuita e de qualidade, integrando ensino, pesquisa e extensão em diálogo com a realidade cultural e social da região.

 

20 ANOS DA PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU “LITERATURA, MEMÓRIA CULTURAL E SOCIEDADE”

 

PROGRAMAÇÃO

 

16/10/2025

16h00: “A engraçada língua de preto – da colonialidade da linguagem ao racismo linguístico”

(Minicurso)

Carlos Eugênio Soares de Lemos (UFF)

 

23/10/2025

13h30: Abertura

14h00: “A memória e a cultura na construção das identidades em sociedades contemporâneas”

Júlio Menezes (Ipeafro-RJ)

Natalino da Silva de Oliveira (IF Sudeste Mineiro -Muriaé)

Mediação: Raquel Fernandes (IFF)

 

15h00: Sessão de autógrafos

16h00: Intervalo

16h30: “Vale quanto pesa: nossas memórias”

Helvia Pereira Pinto Bastos

Renata Ribeiro Gomes de Queiroz Soares

Vânia Cristina Alexandrino Bernardo

Sílvia Lúcia dos Santos Barreto

Mediação: Analice de Oliveira Martins (IFF)

18h30: Intervalo

 

19h00: “A análise da imagem fotográfica como construção da memória”

Leonardo de Vasconcellos Silva

 

20h00: “Fernandos” em busca de Pessoa (Apresentação cultural)

21h00: Encerramento

 

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Edmundo Siqueira — Presidente da FCJOL questiona RJ no FDP!

 

 

Edmundo Siqueira, servidor federal, jornalista e blogueiro do Folha1

Por Edmundo Siqueira

 

“A informação passada pelo Governo do Estado (confira aqui) de que a Fundação Cultural não teria anexado a declaração de patrocínio é improcedente, visto que assim fizemos na data de 22 de agosto, tão logo obtivemos importante e fundamental documento em mãos, encaminhado pelo grupo Dom. É imperioso que o Governo do Estado, via Secec, aprove o projeto submetido na Plataforma Desenvolve Cultura, a fim de podermos entregar para a sociedade campista um FDP! ainda melhor”.

Foi o que disse a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Fernanda Campos, contestando a informação divulgada pelo Governo do Estado de que o projeto do Festival Doces Palavras (FDP!) ainda não teria anexado a declaração de patrocínio — documento obrigatório para a liberação de recursos via Sistema Desenvolve Cultura.

O esclarecimento da presidente da FCJOL surge após o Estado do Rio de Janeiro afirmar, por meio de nota oficial, que o projeto foi submetido ao sistema em 29 de agosto e que será analisado pela Comissão Avaliadora de Projetos (CAP) no dia 9 de outubro. Segundo o comunicado estadual, “o proponente ainda não anexou ao sistema a declaração de patrocínio, documento obrigatório para a liberação do recurso”.

O valor solicitado para o festival é de R$ 210.000,04. De acordo com o estado, mesmo que o projeto seja aprovado pela CAP, a liberação dos recursos só poderá ocorrer após a apresentação da declaração.

 

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Historiador Arthur Soffiati faz 50 anos na imprensa de Campos

 

Com Cláudio Nogueira e Gabriel Torres

 

Em 5 de outubro de 1975, o então jovem professor e historiador Arthur Soffiati estreou como articulista na imprensa de Campos. Neste domingo (5), 50 anos depois, o já experiente professor e historiador, além de ambientalista e escritor, completará suas bodas de ouro na imprensa goitacá. Para saudar a data, ele foi o entrevistado na manhã de ontem (3) no programa Folha no Ar, na Folha FM 98,3. No qual falou do seu começo como articulista, no hoje extinto jornal A Notícia, onde começou e escreveu por três anos. Como o faz nos últimos 47 anos na Folha da Manhã. Onde escreve desde a fundação do jornal em 1978.

Dos conselhos que recebeu do jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, fundador da Folha e falecido em 2012, à inspiração na prosa que o poeta Carlos Drummond de Andrade desfilava como cronista no hoje também extinto Jornal do Brasil, Soffiati contou que chegou a ser processado sete vezes por seus textos. Mas não foi condenado em nenhuma ação. Seu tempo mais difícil enquanto articulista, no entanto, foi na última ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1975. Durante ela, chegou a cobrado por seus escritos diante de cinco coronéis do Exército. O historiador também analisou o julgamento e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), três generais e um almirante, com outros três réus, por tentativa de golpe de Estado. E falou do ineditismo dessa responsabilização na História do Brasil.

 

Porfessor e historiador Arthur Soffiati completa 50 anos como articulista na imprensa de Campos (Foto: Folha da Manhã)

 

Início na imprensa –  A minha intenção não era escrever para a imprensa. Quando eu comecei, a minha intenção era simplesmente ter um artigo meu apreciado por um professor, meu colega na Faculdade de Filosofia (hoje, Uniflu). E eu gostaria que ele me desse a opinião sobre aquilo”.

Orientação – “Eu escrevi sobre política brasileira durante a última ditadura. Ainda peguei o final disso. Escrevi alguns artigos e o Aluysio Cardoso não me censurou, mas me orientou: ‘Olha, pensa bem aqui o caminho que está seguindo’. Mas ele publicava depois de fazer assim. Não era uma censura, era assim um caminho que pudesse ser mais palatável, que pudesse ser mais compreendido. E me acolheu sempre nessas críticas”.

Academia – “A gente vai aprendendo a escrever para o leitor médio, para aquele leitor do dia a dia, e não para o leitor acadêmico. Porque, na verdade, nós da academia escrevemos para nós mesmos e isso não me agradava muito. Escrever para o meu colega, e não para a população do modo geral, não me agradava e até hoje não me agrada”.

Escrita – “Eu aprendi mais com jornalismo do que com os artigos acadêmicos, que acabam circulando num meio muito restrito. A minha intenção no jornalismo, na escrita, é contribuir, é trazer alguma contribuição. Não importa se boa ou se ruim, não importa que todo mundo concorde com ela. É trazer uma contribuição de estudo, de reflexão”.

Primeiros textos – “Quando eu comecei a escrever, eu fazia textos que hoje mesmo acho insuportáveis. Eu leio aquilo e falo: ‘Poxa vida! Isso aí devia ser muito chato!’ Se alguém leu, deve ter chegado a essa conclusão que eu cheguei a respeito de mim mesmo. Mas o que me inspirou muito foram os escritores do passado que eram, por exemplo, romancistas, poetas de renome nacional e até mundial, mas que escreviam para a imprensa”.

Inspiração em Drummond – “Como é que pode o Drummond estar vendo coisas que a gente entra num bonde, numa lotação e não vê; mas ele via. Então, essas pessoas me inspiraram muito. Eu gosto muito dos intelectuais que fazem essa ponte, que conseguem escrever tanto de uma maneira mais específica para um público mais voltado para literatura, como conseguem escrever também para o público de um modo geral. Não vou dizer que eu imitei essas pessoas, mas eu me inspirei nesse tipo de escrita”.

Posição – “A gente tem que ter uma posição diante do mundo. Eu entendo que devo ter e procuro expressar essa posição, que para mim foi uma posição que causou estranheza tanto para um lado quanto parra o outro nos anos 1970”.

Esquerda e liberais – “Esperavam os meus colegas mais à esquerda uma opinião mais firme, mais sólida como esquerda, e os colegas mais liberais esperavam que eu fosse mais liberal. E eu desagradei a todo mundo. Eu desagradei um lado e o outro nesse aspecto. Porque me inspirei mais em autores novos e autores que estavam falando sobre o nosso mundo contemporâneo e não examinando o nosso mundo a partir do século 19”.

Final da ditadura — “O tempo mais difícil como articulista foi, de fato, no final da ditadura militar. A gente tinha que ter muito tato. Eu não escrevi muito a respeito de política, não, mas mesmo assim precisei da orientação do seu pai (Aluysio Cardoso Barbosa, pai de Aluysio Abreu Barbosa), bastante da orientação dele de como escrever, de como me inserir. Eu que não tinha experiência ainda de como me inserir de uma maneira tal que não me comprometesse”.

Processado sete vezes – “Quando comecei a tratar da questão ambiental, isso me causou problema. Causou tanto que eu fui processado sete vezes. Por quatro prefeitos, pela Cedae, por uma juíza e por um procurador do Estado. Por conta de quê? Por conta de artigos. Artigos que não eram tão incisivos, mas causaram problemas”.

Desagrado e saber escrever – “Sei que a gente desagrada muitas pessoas quando escreve, mas essas pessoas não se manifestavam. Quando se manifestaram foi no sentido de se sentirem ofendidas ou retrucarem através de um artigo. Isso daí também é outra coisa a ser observada. As pessoas se sentem ofendidas, mas não sabem escrever. Quer dizer, quando eu digo que não sabem escrever, não é que não saibam mais ou menos as regras da gramática. Saber escrever é diferente de saber escrever, vamos dizer assim”.

Diante dos coronéis — “Enfrentei dificuldades grandes que não chegaram a processo. Por exemplo, eu ser chamado ao Rio de Janeiro para prestar esclarecimentos e entrar num gabinete, no tempo ainda da ditadura militar, com cinco coronéis aposentados trabalhando no serviço público e mais um indivíduo que se sentiu ofendido. E eu tendo que explicar aquilo. Você imagina o que é estar ali no meio de um meio militar e lidando com um indivíduo que se sentiu ofendido com o que eu falei”.

Histórico de golpes de Estado e tentativas na História do Brasil – “Nós nos assemelhamos muito aos países da América do Sul, como aos da América Latina de modo geral. Essa questão de tentar derrubar um governo não pelas urnas, mas pelo golpe armado de alguma maneira. Então a gente tem essa tradição”.

Lição aos Estados Unidos – “Um primo meu que é chileno, mas mora em Lisboa, me disse que o Brasil deu uma lição para o mundo. É assim que os democratas na Europa estão vendo. A Europa também está dividida entre extremos, ou pelo menos um extremo, que é o da extrema direita. Ele (o primo) disse: ‘Deu uma aula para nós todos. E deu uma aula inclusive para a pátria da democracia, que são os Estados Unidos’. Não sei se aceitaram a lição, mas (o Brasil) deu uma demonstração de que foi possível fazer alguma coisa nesse sentido”.

Penas dos condenados – “Eu fico muito temeroso com o futuro com relação a isso. Porque acho que as penas acabam sendo, não vou nem dizer através de uma lei de anistia, mesmo sem a lei de anistia, que anistie todo mundo com um relaxamento, um afrouxamento das penas”.

Moraes vítima e juiz – “Os pares dele dizem que ele está legitimado para cumprir esse papel de relator e da figura mais expressiva no julgamento. Foi o que falaram. Eu gosto muito do Flávio Dino com aquele jeito dele de se expressar, colocando humor com expressão, quer dizer, com fundamentação para julgamento e tudo mais. Mas acabou com ele (a relatoria do processo a Moraes). Aí cabe questionamento, mas esse questionamento nosso vai adiantar o que agora? Será que rende alguma coisa mais no futuro? Um questionamento de que o indivíduo mais envolvido ou um indivíduo muito envolvido seja o relator do processo?”

Condução do julgamento — “Acho que se o Moraes extrapolou, ele foi respaldado por três juízes (ministros da 1ª Turma do STF também favoráveis à condenação de Bolsonaro e outros sete réus do chamado ‘núcleo crucial’ da tentativa de golpe: Flávio Dino, Cristiano Zanin e Carmén Lúcia). Acho que (no plenário) seria respaldado pelos demais juízes, menos três (além do ministro Luiz Fux, que votou contra a condenação de Bolsonaro, os ministros indicados por este na 2ª Turma: André Mendonça e Kássio Nunes Marques). Acho que o voto de Fux foi bastante caótico. Eu, mesmo não sendo jurista, achei que foi uma coisa meio confusa, muito longo e muito contraditório. Acho que mais três juízes referendando o que o Moraes falou, isso de alguma maneira dá um respaldo muito grande a ele. Se fosse para o pleno eu acho que ele não contaria com mais dois votos, mas a maioria votaria com ele também. Não vou invalidar, acho que o julgamento existiu e foi válido”.

Possibilidade de revisão da condenação, como foi com Lula – “Acho que esse julgamento não vai para o pleno não. Acho que são crimes diferentes, acusações diferentes, tanto para o Lula (que passou 580 dias preso, após ser condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com condenação anulada depois pelo STF) quanto para o Bolsonaro. São coisas diferentes. Acho que vai se manter assim mesmo. Refiro-me mais a esse processo lento de esquecimento, a gente vai perdoando, vai caindo naquela história da Débora do Batom: ‘Não foi tão grave assim. A pessoa está idosa, está doente’”.

Legado da condenação – “Nesse caso eu acho que vai ficar a pecha da culpa, a pecha de ter sido um golpista, de tentar um golpe e não ter conseguido. De um golpe que ficou meio esfarrapado com aquela manifestação do 8 de janeiro e tudo mais, vai ficar essa pecha aí. O que a História dirá disso? A História não vai dizer nada. A História, quem faz, quem diz, são os historiadores. A História não existe enquanto uma personalidade independente. Então, nós é que falamos. A gente vai encontrar historiadores de um lado e de outro. Mais de um lado do que do outro. Acho que mais historiadores democratas do que historiadores conservadores”.

Tentativas de golpe – “A questão dessa sequência de tentativas de golpe que o Brasil passou, isso tudo tem um substrato que vai nos falar a respeito da nossa política. Eu não dou garantia de que a nossa política não sofra mais um ataque como esse. Mas, pelo menos, nesse caso, o Brasil deu uma resposta. Uma resposta consistente para a tentativa de golpe, inclusive para os Estados Unidos, em que o Trump fez alguma coisa parecida e está impune”.

Forças Armadas – “Nesse momento acho que as Forças Armadas deram um exemplo muito significativo com os comandantes gerais do Exército e da Aeronáutica. Que disseram: ‘Não, a gente não apoia isso aí’. Então isso mostrou independência de, pelo menos, duas Forças Armadas. A terceira, eu não sei se o Estado Maior da Marinha daria esse apoio (ex-comandante da Marinha, o almirante Almir Garnier foi condenado por ter posto a Força à disposição para uma tentativa de golpe por Bolsonaro). Mas, de qualquer maneira, acho que foi um exemplo. Isso foi ressaltado. As Forças Armadas entenderam que elas não exercem o poder moderador (que era o 4º Poder, do imperador, sobre Executivo, Legislativo e Judiciário no Brasil Império). Elas (as Forças Armadas) são um poder de Estado e que tem um chefe maior, que é o presidente da República. Isso, para mim, foi muito significativo”.

Condenação é “basta” aos militares do Brasil quanto a tentativas de golpe – “As Forças Armadas estão divididas. Mas esse ‘não’, esse ‘basta’, esse ‘chega’ dos dois comandantes das Forças (do Exército e da Aeronáutica), para mim, foi bastante significativo. Espero que se fortaleça mais: “A gente (militares) não é golpista, não está aqui como poder moderador que dá golpe. A gente está aqui como poder de Estado, que apoia as decisões do nosso chefe maior, que é aquele eleito pelo povo”.

Participação no debate público de Campos – “Sinto-me muito feliz de ter participado da vida campista durante 50 anos. Assim, dessa maneira, não dentro da academia, atrás dos muros da academia, nem totalmente do lado de fora. Mas levando para o lado de fora alguma coisa que me pareceu interessante. Porque, na verdade, pelo menos a minha vida na imprensa campista foi pautada por ideias. Eu não entrei na vida jornalística para atacar uma pessoa ou outra”.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Confira no vídeo abaixo a íntegra da entrevista de Soffiati no Folha no Ar de ontem:

 

 

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Após 27 anos como juiz, Elias Sader fala da carreira, Campos, STF e fé

 

Aposentado (confira aqui) na última terça (30), após 27 anos de magistratura, os últimos 18 como titular da 3ª Vara de Família de Campos, Elias Pedro Sader Neto é natural de Niterói, onde também trabalhou como juiz, mas se considera cidadão campista. “Dois dos meus três filhos nasceram aqui. Minha mulher também é natural de Campos”, disse em entrevista à Folha. Na qual falou dos casos que mais o marcaram como magistrado e do seu juízo sobre a cidade que adotou: “A maior do interior, com boa qualidade de vida, mas com pouca perspectiva para os mais jovens”.

Formado também em teologia e ordenado pastor batista, embora não exerça o ministério, Elias falou da possibilidade de abraçar essa carreira após sua aposentadoria como juiz. E estabeleceu paralelos teóricos entre as duas áreas. Com quase 30 anos dedicados à magistratura, deu juízo severo à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado: “O STF condenou o Bolsonaro pelo desejo do golpe, por uma realidade psíquica e não por um fato minimamente idôneo. A fidedigna expressão ‘trama golpista’ só foi adotada em razão de desconhecimento jurídico daqueles que torciam pela condenação do Bolsonaro”.

 

Juiz Elias Pedro Sader Neto (Foto: Divulgação)

 

Folha da Manhã – Do início na magistratura em 1998 até a aposentadoria em 30 de setembro de 2025, quais foram suas experiências e casos mais marcantes? Por quê?

Elias Pedro Sader Neto – Não haveria espaço aqui para relatar, ainda que sucintamente, tantas experiências marcantes e diferentes. Algumas muito dramáticas, como um júri em SFI, envolvendo um homicídio de um bebê de 10 meses. O réu, com raiva da mãe, partiu o bebê ao meio. Por outro lado, trago na memória, com terna lembrança, o caso de um registro tardio requerido por um lavrador, de 76 anos, que precisando tirar seus documentos para se aposentar, buscou o Poder Judiciário. Partiu meu coração vê-lo entrar descalço na sala de audiências de SFI. Dizia ele que tinha 76 anos, mas aparentava mais. Dias depois voltou trazendo um queijo numa sacola plástica, como gesto simples de gratidão. Eu, que sempre orientei o pessoal do cartório para não aceitar presentes, vi-me na contingência insuperável de ter que aceitar o queijinho daquele senhor. A pureza da imagem e do gesto daquele homem me atingiu em cheio.

 

Folha – Natural de Niterói e juiz titular de São Francisco de Itabapoana de 2000 a 2004, da 2º Vara de São João da Barra de 2004 a 2007 e da 3ª Vara da Família de 2007 a 2025, considera que já se tornou campista? Como magistrado e cidadão residente, que juízo formou sobre Campos e região?

Elias — Sim, considero-me cidadão campista. Dois dos meus três filhos nasceram aqui. Minha mulher também é natural de Campos. Vejo Campos como uma cidade com grande potencial, situada entre duas capitais brasileiras e favorecida por recursos da exploração do petróleo, mas que, lamentavelmente, não tem conseguido atrair ou promover atividades produtivas na proporção do seu porte populacional e geográfico. É a maior cidade do interior, com boa qualidade de vida, mas com pouca perspectiva para os mais jovens. Espero que esse cenário possa mudar em breve.

 

Folha – Antes de São Francisco, atuou como juiz também no Rio de Janeiro, em Niterói, Itaperuna, no Noroeste, e Conceição de Macabu, já no Norte Fluminense. Da zona metropolitana da capital ao interior, que visão formou do povo fluminense em relação ao cumprimento da lei?

Elias – Nenhuma peculiaridade vi que pudesse destacar no que tange ao cumprimento da lei, mas posso afirmar que a sociedade, de um modo geral, sofreu profundas transformações nos últimos anos, o que afetou as práticas sociais, nos valores e costumes, e a ciência do Direito. Nesse tempo, vi o ocaso do positivismo jurídico, que limitava a atividade do juiz à mera subsunção do fato à norma, e o surgimento do neoconstitucionalismo, do pós-positivismo e do ativismo judicial.

 

Folha – Formado em 1989, trabalhando como advogado de 1990 a 1993 e como oficial de Justiça em Belo Horizonte de 1993 a 1997, o que levou dessas experiências aos seus 27 anos de exercício da magistratura? Considera ter sido um juiz mais completo a partir delas?

Elias – Boa pergunta. Creio que toda experiência profissional é sempre proveitosa àquele que é zeloso com a tarefa que lhe foi confiada e cuidadoso com as pessoas com quem tem que se relacionar. “Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas” (verso da Irmã Judith Junqueira Villela, em seu poema “Um pouco de perfume”, musicado pela Irmã Irene Gomes). Nossas experiências têm sempre a nos ensinar, não podemos desprezá-las, nem mesmo aquelas que reputamos mais simples. Tem um hino do Cantor Cristão (hinário das Igrejas Batistas do Brasil) que diz: “Não somente pra fazer um feito singular é mister agir com muito ardor. Mas as coisas mais humildes por executar, deves fazê-las com fervor”.

 

Folha – Do julgamento do Mensalão do PT em 2005, passando pela prisão de Lula em 2018 após ser condenado por corrupção na Lava Jato, à condenação de Bolsonaro (confira aqui e aqui) em 2025 por tentativa de golpe de Estado, o protagonismo do STF e do Judiciário se tornou uma questão que divide opiniões no Brasil. Como vê?

Elias – Essa é a pergunta do milhão. Creio não ter aqui espaço para respondê-la como gostaria. Por uma questão de brevidade, acho que só uma nova Constituinte seria capaz de dar conta de tantas distorções. A começar pela forma de constituição do STF, totalmente anacrônica para esse novo tempo. Não é possível que alguém pretenda ser o juiz do caso em que sua mãe é a ré e ainda pretender ser respeitado. É como vejo o STF hoje, apenas por percepção objetiva dos fatos, sem querer desmerecer a quem quer que seja. Pessoas nomeadas para um cargo vitalício de ministro passaram a julgar, sem constrangimento algum, questões políticas do maior interesse daquele que as nomeou. Isso não pode continuar assim. Sobre o Bolsonaro, também tenho opinião objetiva e técnica, livre de paixão política ou ideológica: ele só não deu o golpe porque não teve condições. E, por isso mesmo, por insuficiência de meios, não iniciou sua execução. Não consigo superar o fato de que, em 8 de janeiro de 2023, o presidente Bolsonaro já havia nomeado os ministros militares indicados pelo presidente Lula, e se encontrava fora do país. Esse é o fato; o resto é vontade de condenar, ativismo judicial indevido. Querer praticar um crime é algo impunível enquanto sua execução não tiver início. Não é possível, tecnicamente, num crime de consumação antecipada, antecipar-se também o seu início de execução para a etapa da cogitação. No entanto, o STF condenou o Bolsonaro pelo desejo do golpe, por uma realidade psíquica e não por um fato minimamente idôneo. A fidedigna expressão “trama golpista” só foi adotada em razão de desconhecimento jurídico daqueles que torciam pela condenação do Bolsonaro. Tramar é impunível, até que a lei, de modo expresso, diga o contrário. Juiz não pode ter vontade de condenar. Quando isso acontece, a imparcialidade, base do julgamento justo, foi para o ralo. Daí em diante, o melhor que o juiz pode fazer é deixar o caso.

 

Folha – Além do Direito, tem formação também como teólogo. Na Antiguidade, sobretudo no Velho Testamento da Bíblia, a teologia funcionava também como códigos civil e penal. E legou a moral que orienta os códigos modernos que hoje vigoram em países laicos. Como vê essa influência na história do Direito ocidental e em sua carreira de magistrado?

Elias – Até certo momento, quando ainda vigorava o positivismo jurídico e a força normativa dos princípios era mais contida, as regras de interpretação do Direito se cambiavam com muitas regras de interpretação bíblica. De 20 anos para cá o laço social, o compromisso entre as pessoas, antes verticalizado, com causa em Deus e representação no patriarcado, se horizontalizou, passando a mitigar o poder religioso até então conhecido. Em seguida, o mundo dos irmãos passou a postular a justiça social como a nova religião civil e a suprimir a “igualdade material” de Aristóteles pela “igualdade caótica”, que se confunde com indistinção, com isonomia pela indistinção. Passamos a ser todos iguais porque não pode haver distinção, como se isso fosse possível e como se a desigualdade fosse sempre um mal, quando muitas das vezes é da ordem do fenômeno, como a lei da gravidade. Toda escolha que fazemos é meritocrática: ninguém escolhe o pior quando pode ficar com o melhor, salvo por ato de amor. Portanto, toda escolha promove uma distinção.

 

Folha – Ordenado pastor batista, não exerce ministério atualmente. É uma carreira que pretende seguir a partir da aposentadoria como juiz? Como vê o avanço das religiões evangélicas no Brasil e a perspectiva weberiana dessa influência na população, sobretudo as de classe média baixa e baixa, na cultura do empreendedorismo?

Elias – Essa questão pastoral está em aberto. Não tenho nada em vista no momento, mas estou sempre pronto a obedecer a voz de Deus, com um sonoro “Eis-me aqui” (Abraão a Deus em Gênesis 22:1). Sobre o avanço das religiões evangélicas tenho a dizer que nunca me impressiono com números e que prefiro a qualidade. Fico triste quando vejo irmãos rompendo relacionamentos por polarização política. Acho que todo cristão precisa ser um fundamentalista bíblico, isto é, conhecer as Escrituras e, sobretudo, praticá-las em amor. A palavra de Deus é plena de princípios capazes de trazer prosperidade material, existencial e espiritual. Como disse o Padre Antônio Vieira em seu “Sermão da Sexagésima”, o problema da falta de germinação nunca é da semente, que é a Palavra de Deus, mas do solo, que é nosso coração. Mesmo quando ela não frutifica, por causa do solo ou do ambiente, continua com potencial para germinar.

 

Página 6 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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Ao Senado, Castro fala em desistir e PT de Bené lança Neguinho

 

Flávio Bolsonaro, Cláudio Castro, Rodrdrigo Bacellar, Washington Quaquá, Neguinho da Beija-Flor e Benedita da Silva (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Quem ao Senado com Flávio?

Em todas as pesquisas (confira aqui e aqui), o senador Flávio Bolsonaro (REP) é favorito à reeleição pelo estado do Rio em 2026. Pela segunda cadeira que os fluminenses também elegerão ao Senado, a disputa nas intenções de voto é mais acirrada. Entre nomes como o do governador Cláudio Castro (PL) e da deputada federal Benedita da Silva (PT).

 

Castro desistiu?

O que as pesquisas não são capazes de projetar são as movimentações do tabuleiro político. Dentro disso, surpreendeu a posição de Castro revelada na quinta (2) pelo jornalista Thiago Prado, editor de política de O Globo. Segundo ele, desde segunda (29), o governador do RJ (confira aqui ou aqui) está desistindo de disputar uma cadeira ao Senado pelo PL em dobrada com Flávio.

 

Com Alcolumbre na posse de Fachin

A desistência de Castro teria sido revelada por ele ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP), na última segunda. Quando o governador, mesmo sendo bolsonarista de ocasião, esteve em Brasília para a posse do ministro Edson Fachin como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Governador até o fim?

“Se fosse hoje o dia da tomada da minha decisão, não seria mais candidato ao Senado. Completaria o meu mandato até o dia 31 de dezembro de 2026”. Foi o que afirmou Castro na terça (30), em almoço na Zona Sul do Rio.

 

E Bacellar na história?

Caso cumpra o mandato de governador até o fim, Castro poderia inviabilizar a pré-candidatura a governador do presidente campista da Alerj, Rodrigo Bacellar (União). Que precisaria concorrer no cargo para ter chance contra o favoritismo do prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) em todas as pesquisas, até aqui, ao Palácio Guanabara.

 

Folha na quarta, Globo na quinta

“Castro e Bacelar estão completando 90 dias sem se falar. Nesse período, o presidente da Alerj se fechou, deu a entender que também desistiria da candidatura a governador, mas a manteve viva. Aconselhado pelo ex-governador Sérgio Cabral, aprovou um pacote de Segurança Pública no Legislativo”, disse O Globo na quinta. Como esta coluna havia adiantado (confira aqui) desde quarta (1º).

 

Quaquá lança Neguinho

Além de Castro, quem também pode ter complicações para manter sua candidatura ao Senado é Benedita. Dentro do seu próprio partido, o voluntarioso Washington Quaquá, prefeito de Maricá, lançou o popular puxador de samba Neguinho da Beija-Flor pré-candidato a senador pelo PT do RJ.

 

Amigo de Bené que dispensa inimigos

“Vamos construir um projeto de desenvolvimento econômico para o estado do Rio que saia da ‘zona sulzinha’, da Praça São Salvador. Neguinho vai ser o primeiro cara do samba a entrar no Congresso Nacional. Vai ter gente de favela no Senado”, defendeu Quaquá. Com um amigo como ele no PT, Benedita não precisa de inimigos na direita. Nem fora do seu partido.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Wladimir fica prefeito até 2028 e lança Tassiana a federal em 2026?

 

Caso Wladimir fique prefeito até 2028 para lançar a esposa, Tassiana, a deputada federal em 2026, o que hoje é o mais provável, espelhará Macaé, onde o prefeito Welbert cumprirá o mandato até o fim e deve lançar o irmão Márcio à Câmara dos Deputados (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Wladimir fica prefeito com Tassiana a federal

“Não falta combinar só com os russos, mas com o russo aqui também. Acho que não vou sair e Tassiana (PL) será candidata a federal”. Foi o que disse à coluna o prefeito Wladimir Garotinho (PP) sobre a possibilidade de antecipar a eleição a presidente da Câmara Municipal a fevereiro, visando sua saída da Prefeitura até 4 de abril para se candidatar em outubro de 2026.

 

Após Prefeitura, secretaria estadual?

Cogitado para se lançar a deputado federal ou a vice-governador, na chapa do prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) ou do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis (MDB), a possibilidade mais forte, hoje, é que Wladimir conclua seu mandato de prefeito até 2028. Com a possiblidade de depois ser secretário de estadual, caso se eleja governador Paes ou Reis.

 

Pré-candidaturas de Wladimir

Se ficar como prefeito até o final do mandato, Wladimir lançaria sua esposa, Tassiana, a deputada federal. E dividiria seu apoio às pré-candidaturas à Alerj de Bruno Dauaire (União), deputado estadual licenciado e secretário estadual de Habitação; do hoje deputado federal Caio Vianna (PSD) e de Thiago Virgílo (Podemos), presidente da Codemca.

 

Sem antecipar mesa diretora

Caso não saia a nada, Wladimir não precisaria antecipar a eleição da mesa diretora da Câmara de Campos, que pode ocorrer até dezembro de 2026. Nem pela reeleição do atual presidente, Frederico Rangel (PP), nem para outro nome do grupo “na cerca” pelo cargo. Como os edis Wainer Teireira (PP), hoje secretário de Administração e RH, e Juninho Virgílio (Podemos).

 

“Já combinou com os russos?”

Todos esses planos, como a coluna advertiu (confira aqui) na quarta (1º), esbarram na ressalva do gênio do futebol Mané Garrincha ao técnico Vicente Feola, antes de pegar a União Soviética na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, primeira das cinco do Brasil: “O senhor já combinou com os russos?” Segundo Wladimir, aloirado e de olhos claros, não combinaram nem com ele.

 

Wladimir espelha Welberth

Caso decida concluir o mandato de prefeito, Wladimir seguirá o exemplo de outro alcaide da região, Welberth Rezende (Cidadana), de Macaé. Também cogitado a 2026 como vice numa chapa a governador encabeçada por Eduardo Paes, ou como possível candidato a deputado federal, Welberth decidiu seguir como prefeito macaense até o final de 2028.

 

Esposa em Campos, irmão em Macaé

As pré-candidaturas de Tassiana a federal e de Bruno, Caio e Thiago a estadual, também lembram o arranjo de Welberth em Macaé para 2026. Que, como Wladimir com a esposa, deve lançar o irmão, Márcio Rezende (Cidadania), à Câmara dos Deputados.

 

Nomes de Welberth à Alerj

Além de Márcio a federal, como a coluna adiantou (confira aqui) em 17 de setembro, Welberth deve apoiar quatro nomes à Alerj em 2026. Hoje, seriam o presidente da Câmara Municipal, Alan Mansur (Cidadania); o também edil Cesinha (Cidadania), o secretário municipal de Saúde Dr. Lucas (Cidadania) e a secretária de Ensino Superior de Macaé, a ex-vereadora Iza Vicente (Rede).

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Edmundo Siqueira — Um FDP! doce, mas travado em impasse

 

Reunião na quarta (1º) sobre o FDP!, no Museu Histórico de Campos, contou com representante da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, mas não com a sua presidente, Fernanda Campos (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

 

Edmundo Siqueira, servidor federal, jornalista e blogueiro do Folha1

Um FDP! doce, mas travado: o impasse de um festival genuinamente campista

Por Edmundo Siqueira

 

O Festival Doces Palavras (FDP!) nasceu em Campos dos Goytacazes com a pretensão de ser mais que uma feira literária: uma praça pública ocupada por livros, doces, música, debates, oficinas e vozes em uma cidade que carece de entendimento próprio, que permitiu o apagamento de vários de seus patrimônios históricos — materiais e imateriais. O FDP! deu certo.

Em edições anteriores, o FDP! conseguiu levar o público para a arena literária e provou que Campos pode se reunir em torno de algo além de campanhas eleitorais, procissões religiosas e crises pelas oscilações do preço do petróleo.

Criado em 2015, o Festival Doces Palavras (FDP!) firmou-se no calendário de eventos de Campos como uma alternativa cultural, inicialmente nos anos em que a Bienal do Livro não era realizada. A responsável pelo evento é da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), sempre com a participação da sociedade civil.  Em todas suas edições até aqui, a curadoria é por conta da Associação de Imprensa Campista (AIC) e da Academia Campista de Letras (ACL). E participam diversas outras entidades literárias e culturais da cidade, sempre de forma voluntária e gratuita.

Na edição de 2019, a Prefeitura não participou. Para que o FDP! não morresse, a sociedade civil abraçou o evento e o realizou com uma programação descentralizada, ocorrendo durante um mês, em vários espaços culturais  de Campos. Já em 2021, foi retomada a realização por parte do poder público, que precisou planejar atrações híbridas por conta da pandemia da Covid-19.

 

O FDP! atual

Neste ano, o FDP! encontra uma situação semelhante à de 2019. Embora a Prefeitura, através da FCJOL, não se negue a promover o evento, alega dificuldades orçamentárias para sua execução.

Inicialmente marcado para o período de 24 a 28 de setembro, foi adiado por decisão da municipalidade para novembro, de 5 a 9. A curadoria do evento já havia convidado os palestrantes e demais participantes para o evento, atendendo a uma programação já feita, e precisou remarcar. Muitos desistiram de participar, alegando problemas de agenda.

No último dia 22 de setembro, uma reunião na ACL com a participação da presidência da FCJOL, foi dito que havia um pedido de recursos junto à secretaria estadual de Cultura e Economia Criativa. Através da plataforma Desenvolve Cultura, ela apoia iniciativas dessa natureza em todo o estado.

Segundo informações da presidente da FCJOL, Fernanda Campos, o projeto número 74.088 estava pronto para aprovação junto ao estado. E aguardava a liberação dos recursos após análise da secretaria. A plataforma estadual é estruturada em lei de incentivo fiscal, onde empresas aportam recursos que seriam usados no pagamento de impostos. Apoiando o FDP! estaria a empresa “Dom Atacadista”, segundo informações do prefeito de Campos Wladimir Garotinho.

— Já temos o recurso incentivado, pelo Dom Atacadista, o Estado não está liberando a fruição (continuidade e liberação). Já temos a carta de patrocínio, o projeto não está parado e o estado libera caso a caso. Eu não quero ser leviano, mas parece ter gente travando recursos (do estado) para Campos.

O interior do Rio, historicamente, tem dificuldades em receber eventos culturais relevantes e incluir os criados pelas cidades no calendário estadual. Embora as leis de incentivo nacionais como a Paulo Gustavo e Aldir Blanc tenham mudado um pouco esse cenário, os labirintos burocráticos e as disputas políticas entre capital e interior no Rio de Janeiro parecem continuar atravancando o avanço de projetos.

Na última semana, a Câmara de Vereadores foi procurada para que apoiasse o evento. Em reunião com participação do vereador Dudu Azevedo (REP), que possui experiência em realização de eventos, o presidente da Câmara, Fred Rangel (PP), foi taxativo: não há como apoiar financeiramente o FDP!. Segundo Rangel, o Legislativo não teria caminho orçamentário para aplicar os recursos na realização do Festival.

Em ato contínuo, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi instada a apoiar o evento. A reitora Rosana Rodrigues e o diretor de Cultura, Giovani Gomes, mostraram imediata disposição em ajudar, mas paira no ar o receio de “atropelar” a FCJOL, órgão oficial da Prefeitura.

Enquanto isso, em resposta oficial através da Secom, o estado disse que “o projeto Festival Doces Palavras foi submetido ao Sistema Desenvolve Cultura em 29 de agosto (…) o valor solicitado é de R$ 210.000,04”. E continua, em dado alarmante para a realização do evento em tempo hábil:

— Será (o projeto) analisado pela Comissão Avaliadora de Projetos (CAP) no dia 9 de outubro, conforme prazo estabelecido pela Resolução 89/2020. No entanto, o proponente ainda não anexou ao sistema a declaração de patrocínio, documento obrigatório para a liberação do recurso. Assim, mesmo que o projeto seja aprovado pela CAP, sua fruição só poderá ocorrer após a apresentação da referida declaração.

Procurado, o prefeito de Campos disse “não ser verdade” que o documento não foi entregue.  E que ele próprio havia buscado o documento com o representante do Dom Atacadista, que teria sido encaminhado ao estado há cerca de 30 dias.

 

Dilemas do interior do Rio

No fim, o Festival está diante de um dilema clássico: entre vontade de apoio e a prática da execução, quem segura a caneta? A cidade já viu outras iniciativas culturais morrerem na praia, e caso essa seja uma edição interrompida do FDP!, ficará ainda mais difícil transformar evento em tradição.

O FDP! já mostrou que não é invenção de meia dúzia de idealistas. É um direito de Campos, e produziu resultados não apenas artísticos e literários, como turísticos e de movimentação econômica. Em um festival genuinamente campista, o embate político entre estado e Prefeitura parece afetar sua realização.

Se a burocracia vencer a palavra, teremos mais uma história campista que termina em silêncio. E o silêncio, em Campos e em todo interior do estado, nunca foi doce.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Juiz Elias Sader Neto se aposenta em Campos e é homenageado

 

Ao centro dos colegas juízes da comarca de Campos, com paletó bege e camisa azul clara, juiz Elias Pedro Sader Neto (Foto: Intagram da Amaerj)

Natural de Niterói e titular da 3ª Vara da Família de Campos entre 2007 e  2025, Elias Pedro Sader Neto foi homenageado pelos colegas juízes da comarca e da Associação de Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj) em sua aposentadoria da magistratura, na última terça (30).

Antes de Campos, Elias já tinha atuado como juiz titular nos municípios vizinhos de São Francisco de Itabapoana, São João da Barra, Conceição de Macabu e, no Noroeste Fluminense, em Itaperuna. Ingresso na magistratura em 1998, com 27 anos de carreira, atuou também como juiz na cidade do Rio de Janeiro e em sua Niterói natal.

Além do direito e da carreira de juiz, Elias é também formado em teologia. E ordenado pastor da Igreja Batista de Campos, embora não exerça atualmente o ministério.

 

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50 anos na imprensa de Campos no Folha no Ar desta sexta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Professor, historiador, ambientalista e escritor, Arthur Soffiati fecha a semana do Folha no Ar nesta sexta (3), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Ele falará sobre seus 50 anos de colaboração como articulista com a imprensa de Campos, que se completa neste domingo (5). Também falará sobre o papel da academia e do jornalismo no tempo da pós-verdade e da disputa de “narrativas” nas redes sociais.

Por fim, Soffiati analisará o ineditismo na História do Brasil da condenação (confira aqui) de um ex-presidente, três generais do Exército e um almirante da Marinha por tentativa de golpe de Estado.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

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Incrições abertas para curso de oratória com Andral Tavares Filho

 

(Arte: JCI Campos dos Goytacazes)

 

A JCI Campos dos Goytacazes (antiga Câmara Júnior de Campos) está com inscrições abertas para um curso de oratória ministrado pelo advogado Andral Tavares Filho. Que é professor da área nos cursos de direito e jornalismo do Centro Universitário Fluminense (Uniflu) e ex-presidente da OAB-Campos.

O curso será realizado presencialmente das 8h às 18h de 11 de setembro, um sábado, no prédio do Uniflu (antiga FDC), na rua Marechal Deodoro, nº 53-1, Centro. Serão 20 vagas, no valor é de R$ 159,50 por participante, com parcelamento em até 12x e recursos revertidos à JCI. Abertas até o dia 9, as inscrições podem ser feitas aqui.

— Trata-se de um curso de oratória voltado para ajudar as pessoas a encararem com naturalidade o ato de falar em público. Através de uma metodologia participativa que inclui exercícios, dinâmicas de grupo, trocas de experiências e debates, o curso tem foco em dicas práticas, como aprimorar a dicção e saber usar a tribuna e o microfone, que ajudam bastante a melhorar a performance de quem fala em público — explicou Andral Tavares Filho.

 

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Pós-Trump e pró-anistia a Bolsonaro, Tarcísio vive dilema a presidente

 

Donald Trump, Lula da Silva, Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro, Edson Fachin, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Eduardo Leite (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Tarcísio antes de Trump

Na eleição que puxará todas as outras em 2026, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), pintava como favorito a presidente nas pesquisas de 2025. Até o turning point (“ponto de virada”) de 9 de julho, com a carta do presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçando taxar o Brasil por conta do julgamento de Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Lula antes de Trump (I)

Até a carta de Trump, o presidente Lula (PT) vinha em queda gradativa de aprovação de governo e de intenção de voto em todas as pesquisas. A partir da Quaest do início de junho, o jornalista Thomas Traumann, ex-ministro da Comunicação do governo Dilma Rousseff (PT), chegou a afirmar (confira aqui): “A pesquisa mostra que Lula deixou de ser favorito para a eleição de 2026”.

 

Lula antes de Trump (II)

Naquela Quaest de junho, Lula não ia além do empate numérico ou técnico, dentro da margem de erro, nas projeções de 2º turno com cinco adversários. Além de Tarcísio e de um Bolsonaro já inelegível, também contra a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e os governadores do Paraná, Ratinho Jr. (PSD); e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD).

 

Cego em tiroteio

A partir da carta com as ameaças de Trump e a defesa do interesse nacional jogada no colo de Lula, a direita brasileira ficou mais perdida que cega em tiroteio. Seu nome mais forte, Tarcísio passou a ser tachado não só de entreguista pela esquerda, como atacado também pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), nos EUA para trabalhar por sanções contra o Brasil.

 

Fiel da balança em 2018 e 2022

Além de governar o principal estado da União, econômica e eleitoralmente, Tarcísio era considerado o nome mais competitivo da direita pela capacidade de atrair os votos do centro. Os mesmos que, em 2018, penderam para Bolsonaro no 2º turno e o elegeram presidente. E que, em 2022, penderam para Lula no 2º turno, elegendo-o para o 3º mandato de presidente.

 

Pela anistia e contra a maioria

Pressionado pela condenação de Bolsonaro em 11 de setembro (confira aqui) a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, a pecha de “moderado” de Tarcísio começou a desmoronar com a defesa do governador por uma anistia ao ex-presidente. À qual, segundo as quatro pesquisas nacionais de setembro, a maioria da população brasileira (confira aqui) é contrária.

 

Perto de Bolsonaro e longe do STF

Após ter chamado o ministro Alexandre de Moraes de “tirano” e o STF de “poder ditador” nas manifestações bolsonaristas de 7 de setembro em São Paulo, Tarcísio foi segunda (29) à Brasília. Onde se encontrou com Bolsonaro em prisão domiciliar. E optou por se ausentar da posse do ministro Edson Fachin como novo presidente do STF, com Moraes de vice.

 

Apostas daqui a 1 ano e 3 dias

Enquanto Lula recupera popularidade nas pesquisas (confira aqui, aqui e aqui) e Tarcísio preferiu visitar Bolsonaro, foram à posse de Fachin outros governadores presidenciáveis: o de Goiás, Ronaldo Caiado (União); o de Minas, Romeu Zema (Novo); e o gaúcho Leite. Ratinho Jr. não foi, mas mandou seu vice-governador. São apostas. Cujas fichas serão tocadas por voto, ou não, daqui a 1 ano e 3 dias.

 

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Sem apoio de Bolsonaro, Bacellar tem pauta bolsonarista na Segurança

 

Rodrigo Bacellar, Cláudio Castro e Carlos Portinho (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Bacellar mira na Segurança

No outro grupo político mais forte de Campos, o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, (União), mirou na Segurança Pública para manter acesa sua pré-candidatura a governador. Área na qual tem batido no governador Cláudio Castro (PL). De quem o campista se afastou após exonerar (confira aqui e aqui) o ex-prefeito de Duque Caxias Washington Reis (MDB) da pasta estadual de Transporte.

 

Exonerou Reis e perdeu Bolsonaro

Após abrir seu caminho na linha sucessória de Castro, com o ex-vice-governador Thiago Pampolha (MDB) indo (confira aqui e aqui) para o TCE-RJ em 19 de maio, Bacellar exonerou Washington em 3 de julho. E, por não ter aceitado o pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL) para reconduzi-lo, acabou perdendo (confira aqui) a promessa de apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a governador.

 

Afastamento de Castro

A pedido dos Bolsonaro, Castro tentou reconduzir Washington quando voltou da viagem em que Bacellar assumiu como governador. Mas, pressionado pela tropa de choque do presidente da Alerj, acabou confirmando a exoneração (confira aqui) em 10 de julho. Só que, a partir dali, se afastou de Rodrigo. E afastou deste a possibilidade de assumir como governador ainda em 2025.

 

Sem Bolsonaro, pauta bolsonarista

Daí a posição recente de Bacellar de focar na Segurança Pública. Para fazer a Alerj aprovar no dia 23 a reforma da Polícia Civil e a chamada “gratificação faroeste”, gratificação em dinheiro aos policiais civis que matarem bandidos. E, no dia 23, aprovar o projeto que endurece a regra para a saída temporária de presos, a popular “saidinha”.

 

Movimento coordenado com Portinho?

Com o apoio de Bolsonaro perdido pela exoneração de Washington, Bacellar exerce seu domínio da Alerj na busca das pautas bolsonaristas para se manter no jogo eleitoral de 2026. No que tem conseguido, em movimento aparentemente coordenado, o apoio do senador bolsonarista Carlos Portinho (PL).

 

Mira no Senado para atirar em Castro

Junto com Bacellar, o senador passou a mirar a questão da Segurança Pública do RJ na gestão Castro. Não por coincidência, Portinho disputa com o atual governador uma vaga para se candidatar ao Senado em 2026, numa segunda cadeira que seria puxada pelo favoritismo da reeleição de Flávio (confira aqui e aqui) em todas as pesquisas.

 

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