Ditadura da Guiné cai no samba e na mira do MPF brasileiro

 

Filho do ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, seu filho e vice-presidente Teodoro Nguema Obiang Mangue. o Tedoroín (de camisa azul), prestigiando o desfile da beija Flor num camarote vip da Sapucaí  (foto de Márcia Foletto - Agência O Globo)
Filho do ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, seu filho e vice-presidente Teodoro Nguema Obiang Mangue. o Tedoroín (de camisa azul), prestigiando o desfile da beija Flor num camarote vip da Sapucaí (foto de Márcia Foletto – Agência O Globo)

 

Por Vera Araújo

 

RIO — A doação de R$ 10 milhões para a Beija-Flor, que teria sido feita pelo ditador Teodoro Obiang, presidente da Guiné Equatorial, está sendo investigada pelo Ministério Público Federal (MPF). As novas versões dão conta de que o dinheiro teria vindo de empreiteiras brasileiras ou de empresas do país africano. O vice-presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Nguema Obiang Mangue, conhecido como Teodorín, de 45 anos, filho do presidente, também é alvo de investigação do Procurador da República Orlando Monteiro da Cunha desde 2013. Em procedimento criminal instaurado pelo MPF para apurar crime de lavagem de dinheiro por parte de Teodorín, foi possível identificar que o filho do ditador tem pelo menos oito veículos de luxo no Brasil, entre eles um Lamborghini Aventador, um Maserati e um Porsche Cayenne, totalizando cerca de R$ 30 milhões, além de imóveis de luxo no país.

— A suposta doação destinada à Beija-Flor será analisada dentro do contexto deste procedimento criminal iniciado em 2013, em colaboração com as Justiças dos Estados Unidos e da França. Descobrimos que Teodorín adquiriu bens imóveis e móveis de altíssimo valor em território nacional, o que sugere uma situação típica de lavagem de dinheiro no Brasil, ou seja, ocultação de bens provenientes de recursos ilícitos. A investigação encontra-se sob sigilo, pois estamos aguardando documentos oriundos de países que já confiscaram os bens dele, para poder pedir medidas judiciais mais severas — disse o procurador.

 

Apartamento de luxo em SP

Na realidade, o filho do ditador leva no Brasil o mesmo estilo de ostentação que tem na França e nos Estados Unidos. O MPF descobriu que ele tem imóveis de luxo, como uma cobertura de 1.500 metros quadrados no edifício L’Essence, no bairro dos Jardins, em São Paulo, cujo valor estaria em torno de R$ 56 milhões, além de um apartamento de luxo no Rio.

 

Edifício nos Jardins, em São Paulo, de Teodorín, filho e vice-presidente do ditador da Guiné Equatorial, avaliada em R$ 56 milhões (foto: MPF - divulgação)
Edifício nos Jardins, em São Paulo, no qual Teodorín, filho e vice-presidente do ditador da Guiné Equatorial, possui uma cobertura avaliada em R$ 56 milhões (foto: MPF – divulgação)

 

A partir dos documentos de confisco de bens de Teodorín na França e nos Estados Unidos, o procurador da República pode pedir o sequestro e arresto dos carros e apartamentos do filho do ditador e até a prisão dele. Nesta quinta-feira, Orlando Cunha mandou ofícios à Polícia Federal e à Justiça francesa para saber se havia alguma ordem de captura contra Teodorín, mas soube que não havia qualquer pedido desta natureza:

— A Polícia Federal informou que Teodorín não está inserido no Sistema Nacional de Procurados e Impedidos. Já a Justiça francesa explicou que desistiu, por ora, da ordem de captura por extradição — explicou Orlando Cunha.

Foi a partir do pedido de cooperação da França e dos Estados Unidos, solicitando o confisco de uma aeronave Gulfstream G-V de Teodorín — comprada, em 2006, por R$ 38 milhões, supostamente adquirida pela prática de corrupção na Guiné Equatorial —, que a investigação começou no Brasil. Havia a informação de que o vice-presidente viria para o Rio, no período de 18 a 21 de fevereiro de 2012, durante o carnaval, o que acabou ocorrendo. Segundo o procurador da República, o avião foi apreendido por decisão da 10ª Vara Criminal Federal e, no ano seguinte, instaurado o procedimento criminal para apurar o crime de lavagem de dinheiro. Nos Estados Unidos, segundo Orlando Cunha, Teodorín acaba de perder para a Justiça americana uma mansão em Malibu avaliada em US$ 30 milhões. Em 2013, o filho do ditador ganhava 3.300 euros mensais, como Ministro das Florestas e Agricultura da Guiné Equatorial, salário insuficiente para o patrimônio que possui.

O procedimento investigatório no Brasil lista os 11 carros de luxo que a Justiça francesa confiscou, como um Rolls-Royce Phantom conversível, um Aston Martin Le Mans, entre outros, além de um relógio Piaget Polo decorado com 498 diamantes, avaliado em 598 mil euros, e um prédio de 5 mil metros quadrados em Paris. Nos Estados Unidos, segundo as investigações, ele e a família acumularam US$ 700 milhões em apenas uma das nove instituições financeiras americanas (Riggs Bank), entre 1998 e 2004.

Durante sua estada no Rio, entre sábado e quarta-feira, Teodorín só deixou o Copacabana Palace por algumas horas, para ir ao Sambódromo nas noites de domingo e segunda, e para o jantar no restaurante Mariu’s, na terça. O filho do ditador passou a maior parte do tempo em sua suíte da cobertura do hotel.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

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Lula foi abre-alas de Dilma para empreiteiras do Petrolão na ditadura da Guiné Equatorial

Jornalista e escritor Merval Pereira
Jornalista e escritor Merval Pereira

Tudo a ver

Por Merval Pereira

 

O fato de “empresas (leia-se empreiteiras) brasileiras” com negócios na Guiné Equatorial terem financiado a escola de Samba Beija-Flor, campeã do Carnaval carioca, é apenas um dos pontos de contato entre esse escândalo e aquele outro, o petrolão. Segundo delações premiadas de dirigentes de empreiteiras presos, parte do dinheiro desviado da Petrobras voltava para o PT em forma de doações legais.

Essa maneira de lavar o dinheiro foi utilizada pelas empreiteiras que atuam na Guiné Equatorial para financiar a Beija-Flor em R$ 10 milhões, na tentativa de tornar o apoio da ditadura daquele país mais palatável à opinião pública.

A Odebrecht negou que tenha participado dessa vaquinha, e informou que não tem obras na Guiné Equatorial, de onde saiu em 2014. No entanto, após a visita de Lula em 2011, como representante da presidente Dilma, a empreiteira brasileira entrou no mercado de obras públicas na Guiné Equatorial e chegou a ser considerada favorita para a construção de uma capital administrativa.

Na ocasião, Lula levou na comitiva oficial o diretor de novos negócios da Odebrecht, Alexandrino Alencar, que, (não) por acaso, também está envolvido no petrolão. O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa contou ter recebido US$ 23 milhões da Odebrecht numa conta aberta na Suíça. Alexandrino Alencar tinha contato constante com o doleiro Rafael Angulo Lopez, que trabalhava com Yousseff, e a polícia suspeita que o intermediário do suborno a Costa tenha sido Alencar.

A Operação Lava Jato está investigando as diversas empresas da Odebrecht pelo mundo e os procuradores acreditam que elas foram utilizadas para o pagamento de subornos, sem que o dinheiro possa ser traçado nos bancos brasileiros.

As estripulias da família Obiang no Brasil não são poucas. Além das festas que o filho do ditador Teodorin promove em seus apartamentos no Rio ou em São Paulo, ele parece receber tratamento especial no Brasil. Conseguiu escapar da Polícia Francesa em 2013 quando estava em Salvador e o tradicional bloco Ilê Aiyê homenageou a Guiné Equatorial, antecipando-se à Beija-Flor.

O vice-presidente Teodorin Nguema Obiang Mange teve mandado de prisão expedido pelo governo da França por lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos estrangeiros, mas fugiu no avião oficial de seu país antes que a Polícia baiana cumprisse o mandato de prisão.

O pai, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, é o ditador africano mais antigo. A riqueza em petróleo contrasta com a miséria de seu povo: sete de cada dez habitantes (600 mil) sobrevivem com renda inferior a US$ 2 por dia, segundo o Banco Mundial. A desnutrição domina 39% das crianças com menos de 5 anos, mas o ditador é dos 10 governantes mais ricos do mundo segundo a revista Forbes.

Mas o Brasil não ajudou Guiné Equatorial a montar uma espécie de Fome Zero por lá. Foi a este país que o Brasil de Dilma concedeu anistia de 80% da dívida de R$ 27 milhões. A explicação oficial é que o fluxo comercial entre o Brasil e a Guiné Equatorial saltou de US$ 3 milhões em 2003 para cerca de US$ 700 milhões atualmente. A anistia, na verdade, foi um gesto político, por que a dívida não representa grande coisa para os dois países.

Especialmente para os Obiang, cujo herdeiro Teodorin gastou o dobro dessa soma em uma única noite na Christie’s, em Paris, em 2009, durante o leilão da coleção de arte de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé. A relação da Guiné Equatorial com o Brasil vem se estreitando tanto desde o governo Lula que o ditador Obiang deseja tornar o português língua oficial no país, que foi colonizado pela Espanha. E o Brasil apóia essa palhaçada querendo que a Guiné Equatorial faça parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Segundo definição do jornal espanhol El País, baseado em notícias oficiais da chancelaria espanhola, fazer negócios com o clã familiar de Teodoro Obiang é arriscado. “O pagamento de comissões é obrigatório e as disputas comerciais, muitas vezes fictícias, derivam, às vezes, em extorsão, ameaças e em perda do investimento para salvar a vida. (…) Este sistema corrupto impregna até o último rincão da administração guineana”.

Com todo esse histórico de truculência com corrupção, não é de espantar que o escândalo da Guiné Equatorial tenha correlação com o do petrolão em algum momento, e que “empreiteiras brasileiras” tenham decidido homenagear ditadores tão reconhecidos internacionalmente. Sob a benção dos governos petistas.

 

Publicado aqui, no Blog do Merval

 

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Porta bandeira e mestre sala

“O Brasil não existe. Nosso carnaval virou uma indústria, uma plataforma para gerar celebrizações. Vivemos num mundo em que as pessoas se tornaram celebridades antes dos feitos. A Beija-Flor vendeu seu prestígio para um ditador africano”

(Roberto da Matta, antropólogo)

 

Em 2008, Lula estendeu a mão para receber o ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema. Segundo Fran Ségio, carnavalesco da Beija-Flor, os R$ 10 milhões para patrocinar  carnaval campeão da escola de Nilópolis, tendo a Guiné Equatorial como tema, vieram de empreiteiras brasileiras que atuam junto à ditadura africana, como Odebrecht e Quieroz Galvão, envolvidas até a medula no Petrolão. Obiang, que tem seu filho como vice-presidente, está há 35 anos no poder
Em 2008, Lula estendeu a mão para receber o ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema. Segundo Fran Ségio, carnavalesco da Beija-Flor, os R$ 10 milhões que patrocinaram o desfile da escola de Nilópolis em 2015, campeão com a Guiné Equatorial como tema, vieram de empreiteiras brasileiras que atuam junto à ditadura africana, como Odebrecht e Queiroz Galvão, envolvidas até à medula no Petrolão. Obiang, que tem seu filho como vice-presidente, está há 35 anos no poder

 

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