Ricardo André esclarece os esclarecimentos da presidente da FCJOL

CARAPUÇA VESTIDA

Por Ricardo André Vasconcelos, em 26-08-13 – 18h04

Ainda sobre a entrevista da presidente da Fundação Cultural, o Blog veste a carapuça e, antes de comentar, destaca uma resposta de Patrícia Cordeiro:

“Tem coisas que quando eu leio vejo que a pessoa está totalmente desinformada. Tem gente que lê, por exemplo, o Diário Oficial, não interpreta o que está escrito e, mesmo assim, omite opinião. E, aí, claro, de forma equivocada. Vou dar um exemplo: Publicação de licitação na modalidade de registro de preço, que é interpretado como se fosse para um único evento e que não é. E quem entende desse mecanismo, sabe como funciona”.

Este blogueiro tem por hábito antigo ler o Diário Oficial e, com o advento da Internet e suas facilidades, acha importante multiplicar as informações ali contidas como forma de dar aos leitores elementos para formação de juízo de valores. E assim o faz: Acho fundamental que o morador de  Morro do Coco, por exemplo, que tem dificuldade de acesso aos serviços de saúde, saiba quanto custa o aluguel do palco para a realização da festa de sua comunidade. Assim como qualquer munícipe precisa ser informado sobre quanto custo o calçamento da sua rua, a reforma da escola da comunidade e por aí vai. Assim, quem sabe um dia, o cidadão possa escolher entre gastar R$ 53.108,00 num show de Neguinho da Beija Flor (aqui), R$ 158 mil num show de Michel Teló (aqui), ou R$ 501 mil para aluguel de palco (aqui) ou ter remédio no Posto de Saúde, gaze e esparadrapo nos Postos de Urgência e quem sabe até professores bem formados e bem pagos na rede pública.

E nenhuma das citações acima são referentes a “registro de preço” e sim despesas efetivamente realizadas, no caso dos shows, e referente ao aluguel dos palcos trata-se de extrato do contrato 098/2013 para ser executado em 60 dias por R$ 501.215,00 pela empresa WORKING EMPREEDIMENTOS E SERVIÇOS LTDA, a mesma que aluga banheiros químicos para as festas, reforma escolas e até fornece abrigos de passageiros.

Portanto, este Blog pode até equivocar-se, mas não neste caso e não “omite” opinião. Pode até emitir, mas fundamentalmente divulga informação que é pública, mas inacessível à maioria. E, quanto à possibilidade de equívoco quando se interpreta como um único evento, que tal dar transparência e discriminar todos os eventos atendidos pelo aluguel de equipamentos de todos os contratos? A transparência não é só vacina contra interpretações mal feitas mas também evita eventuais desvios de funcionalidade dos recursos públicos.

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Presidente da FCJOL continua sem esclarecer contratações da banda do marido

Conheço o Fabiano Venancio desde os anos 80, quando ele já era repórter da Folha e eu, ainda um garoto. Posteriormente, nosso contato se estreitou, comigo já atuando na redação do jornal e ele, durante alguns anos, na gerência da rádio Continental. Nessa convivência, desenvolvi apreço pelo homem e respeito pelo jornalista. Não por outros motivos, tomo a liberdade de externar meu estranhamento ao fato da entrevista feita por ele e publicada aqui, em seu site Campos 24 Horas, com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patricia Cordeiro, em meio às 10 perguntas feitas e respondidas, não ter reservado nenhum espaço à indagação sobre as denúncias das contratações, bancadas com dinheiro público municipal, da banda A Massa, cujo percursionista Lucas “Cebola” é marido de Patricia.

Já que a pergunta permanece tabu na política cultural de Campos, sem ser feita e sobretudo respondida, inevitável o espaço escancarado a outra indagação lógica: como o entrevistador frisou que a entrevistada estava tão munida de documentos para fundamentar suas versões, será que ela esqueceu de levar aqueles relativos às contratações da banda do marido, que já foram inclusive alvo de denúncia no Ministério Público Estadual?

Também blogueiro, o advogado e competente fuçador das publicações do Diário Oficial Cláudio Andrade também fez outros questionamentos acerca da entrevista, que podem ser conferidos aqui. Especificamente sobre a banda A Massa e o mistério insolúvel das suas contratações pela Prefeitura de Campos, o professor, poeta e ator Artur Gomes deixou aqui suas observações sempre irreverentes, na democracia irrefreável das redes sociais.

Em respeito ao contraditório (mesmo quando se escolhe o que se pretende contradizer) e na defesa da reforma administrativa da prefeita Rosinha (PR), que concentrou toda a administração da cultura pública do município sob a presidência da FCJOL, movimento abertamente criticado em entrevista não apenas pelo Artur (aqui), como também pelos professores Adriano Moura (aqui), Deneval de Azevedo Filho (aqui), Arthur Soffiati (aqui) e Cristina Lima (aqui), além de mais recentemente pelo diretor de teatro José Sisneiro (aqui), o blog pede a licença devida para republicar abaixo a íntegra da entrevista dada por Patricia ao Fabiano…

Presidente dispara: “Todas as vertentes da cultura estão sendo contempladas”

Por Fabiano Venâncio, em 25-08-2013

Ela chegou para a entrevista munida de vários documentos e, em algumas perguntas, manuseava um ou outro, mostrando que tinha convicção do que falava. A presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro, critica algumas pessoas envolvidas em mídia que não sabem, sequer, ler e interpretar o que está publicado no Diário Oficial do Município, principalmente, quando se trata de licitação na modalidade registro de preço, o que, por vezes, causou comentários em rede social, mas “só por quem lê e não entende o que está escrito e interpreta do seu jeito”, afirma Cordeiro. Quanto a fusão dos órgãos municipais de cultura, ela classifica como boa e no meio da conversa explica porquê. No momento se dedica, entre outros, as Semanas Vinícius de Moraes e Nelson Rodrigues, respectivamente, em setembro e novembro.

Patricia Cordeiro (foto: Campos 24 Horas)
Patricia Cordeiro (foto: Campos 24 Horas)

Campos 24 Horas – Vamos começar pelos shows na cidade, a maioria considerado caro. O que você pode falar sobre isso?

Patrícia Cordeiro – Olha, quase sempre a Fundação faz bons negócios e pelo que constatamos através da mídia, os valores pagos aos artistas aqui, são bem menores do que os pagos na região. Para isso, a gente busca a logística do artista, como por exemplo, o momento que ele está em turnê na região Sudeste e, especialmente, nas cidades próximas. Isso e outros detalhes acabam barateando os custos.

C24H – E por falar em shows, lembro do Cepop, que continua sendo visto pelas pessoas como elefante branco…

Patrícia – É preciso lembrar inicialmente, que vários eventos de grande porte já são realizados no Cepop, como Bienal do Livro, Carnaval, Desfile de 7 de Setembro e outros, não precisando mais usar a estrutura qwue usávamos, Mas o Cepop tem estrutura complexa no seu funcionamento e não se pode chegar, ligar uma tomada e tudo funcionar como a gente quer.Ele demanda de som projetado para o espaço, alimentação de energia suficiente e por aí vai. E cada evento que a gente faz ali, consolida o espaço e sua funcionalidade. Não são todos eventos culturais que são concebidos para um espaço como o do Cepop, assim como acontece também no sambódromo, no Centro de Convenções de Manaus e outros.

C24H – Além desses eventos que você citou, o que mais, então, pode dá para fazer no Cepop?

Patrícia – É o que eu estou te explicando, é um local de grande porte, para eventos também de grande porte. Não fica bem para uma pequena produção, proporcionalmente falando.Vou adiantar um evento que está sendo estudado para ser desenvolvido no local: gravação de um DVD. E tem, ainda, a formatura de alunos de uma faculdade da cidade, onde iremos alugar o espaço, agora no final do ano. Também os eventos institucionais, estão migrando para o Cepop, como a Agricultura Familiar e alguns na área de esporte.

C24H – Você tem sido muito criticada ultimamente, podemos dizer até que é a bola da vez. Como recebe essas críticas?

Patrícia – Tem coisas que quando eu leio vejo que a pessoa está totalmente desinformada. Tem gente que lê, por exemplo, o Diário Oficial, não interpreta o que está escrito e, mesmo assim, omite opinião. E, aí, claro, de forma equivocada. Vou dar um exemplo: Publicação de licitação na modalidade de registro de preço, que é interpretado como se fosse para um único evento e que não é. E quem entende desse mecanismo, sabe como funciona.

C24H – Neste contexto está a discutida história de um palco?

Patrícia – Sim. Mas a prefeitura de Campos tem palco próprio, mas não tem um que atenda toda a demanda. Dai a necessidade de licitação de registro de preço para palco e acessórios de palco, que são muitos. Entende?

C24H – Vamos falar da fusão dos órgãos municipais, que fortalece por demais a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima…

Patrícia – Hoje, com a fusão, a gente trabalha mais em consonância com as outras secretarias do que antes, inclusive, nos aproximou mais da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte. E por isso há um alcance maior das ações, porque todos pensam juntos, decidem juntos e o resultado é levado a todos. E os setores da cultura são completos, cada um tem excelência na sua área, o nível de diálogo é bom e elevado, ou sejam todos trabalhando em cima dos projetos da Prefeita Rosinha, que é audacioso.

C24H – Polêmicas à parte, como você vê a cultura em Campos?

Patrícia – Todas as vertentes têm sido alcançadas pelos projetos desenvolvidos e, para começar, posso citar o Festival de Bandas de Garagem, que neste último teve registro de mais de 70 bandas inscritas com os vencedores se apresentando no projeto Aumenta que Isso é Rock in Roll; as Casas de Cultura com cursos de artes e ofícios; o Festival Literário, as Oficinas Literárias; o Curso Livre de Teatro; o Projeto Farol de Todas as Estações já com preparação para o da primavera em parceria com as secretarias de Desenvolvimento Econômico e de Trabalho e Renda, com festival de petiscos e com choro e jazz; os Cafés Literários Antônio Roberto Fernandes, uma pessoa que eu sempre admirei e respeito muito; as aulas de balé e capoeira; os festivais que fazem parte do calendário de festas da cidade e muito mais.

C24H – É verdade que você se reuniu com os artistas, mas que a reunião foi solicitada por eles?

Patrícia – É verdade. E foi muito proveitosa, vários equívocos foram esclarecidos e eles levaram solicitações que nos foram muito bem vindas, como a otimização da agenda do Teatro de Bolso, que vai agora passar por reforma e adequação para acessibilidade, modernização dos equipamentos e por aí vai.

C24H – Teve discussão sobre o sonhado Fundo Municipal de Cultura?

Patrícia – Há tempos que o governo municipal estuda essa questão. Agora temos a consolidação do Fundo que, por determinação da`Prefeita Rosinha, terá recurso destinado, oriundo do orçamento da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. Isso vai proporcionar abertura de editais. Um verdadeiro avanço no município.

C24H – Antes de começar a entrevista, você já disse que queria muito falar sobre três consolidações. Quais são?

Patrícia – Claro, não posso deixar de falar na consolidação da nossa Orquestra de Música e no nosso Corpo de Baile, além do nosso Museu Histórico de Campos, importante que tudo isso é de nós campistas, envolvidos com talentos da nossa terra. Inclusive a orquestra vai para Portugal, para uma série de concertos e, quanto a dança, dia 26 Campos vai abrigar um Congresso, que este ano é internacional. Quanto ao museu, totalmente reformado e restaurado, além de guardar os ciclos sociais, culturais e econômicos do município, tem também espaço para exposições temporárias. O mesmo museu que em pouco mais de um ano concorreu a prêmio nacional, o Rodrigo Melo Franco, sendo escolhido no estado do Rio, na categoria governamental, ficando em terceiro lugar. Ele hoje é realidade, já tendo sido visitado por mais de 30 mil pessoas.

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José Sisneiro: “O dinheiro da Prefeitura funciona como cabresto”

Curto na maioria das respostas, José Sisneiro foi também “grosso” numa delas, em definição própria, ao analisar a reforma administrativa da prefeita Rosinha que concentrou plenos poderes da cultura pública do município na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL): “Abaixo a concentração de poder!”. Com 64 anos e militando no teatro desde os 18, o diretor, dramaturgo, ator e iluminador de teatro, natural de Sergipe, mas campista por adoção, tem acompanhado a discussão sobre os rumos e desrumos da cultura de Campos, mais a partir das suas reverberações também no Rio, onde é diretor-tesoureiro do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated).

(Foto de Ricardo Avelino/ Folha da Manhã)

Folha Dois – Vivendo nos últimos anos entre o Rio e Campos, como tem acompanhado a discussão sobre a cultura da planície, a partir da denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon, por supostos motivos religiosos da prefeita Rosinha (relembre o caso aqui e aqui, que ganhou mídia nacional aqui e aqui)? Ela repercutiu no meio teatral carioca?

José Sisneiro – Há alguns anos atrás, falei para algumas pessoas que o avanço de outras religiões no Brasil iria acirrar a disputa pelo poder, usando o domínio das massas. Esse domínio já chegou a Campos, com dinheiro e um pouco de fundamentalismo religioso, influindo de forma definitiva no processo eleitoral. Esse modelo é perfeito para o nosso rico município. Quanto à repercussão do caso, eu sei o que chegou através de renomados artistas do Rio de Janeiro, capital.

Folha – Em entrevista à Folha, o professor Arthur Soffiati afirmou (aqui) que o debate importa menos do que os motivos que o geraram. Concorda?

Sisneiro – Na verdade, vejo que a “censura” abriu as glotes dos que se manifestaram. Mas não sei mensurar neste momento, por não estar participando do foco do debate.

Folha – A última peça que você encenou na planície foi “Conselho de classe”, de Adriano Moura, em 2010. Por que está há três anos fora dos palcos de Campos? Há outro motivo além da sua militância na diretoria do Sated-RJ?

Sisneiro – Há muitos anos, participo da existência de grupos como o “Boa Noite, Amor”. A militância no Sated-RJ me coloca politicamente num furacão maior. Por estar no Rio, participei de algumas vitórias para o interior. No Sated-RJ sou sempre apresentado como representante do interior. Além disso, o Sated-RJ, no qual obedeço expediente através de prestações de serviços, ajuda-me na minha provisão.

Folha – Como produtor cultural você esteve na Prefeitura desde o primeiro governo Anthony Matheus, em 1989, até a última gestão Arnaldo Vianna, em 2004. Conhecendo os dois lados da moeda, qual a sua visão sobre a política pública de cultura praticada ao longo dos anos em Campos?

Sisneiro – O Sr. Anthony sempre foi estrela. O Dr. Arnaldo Vianna sempre foi tiete. Sempre achei que a política do evento só seria salutar se fosse um motivador do desenvolvimento artístico local. Os grandes eventos são produtores de atividades econômica em todo mundo. Todos reconhecem essa importância. Mas temos que priorizar o desenvolvimento do ser humano local, em todas as áreas. Durante o tempo mencionado, a diferença existiu na generosidade e no prazer real do segundo.

Folha – Soffiati e Adriano (aqui) afirmaram que as políticas públicas de cultura, atreladas a um projeto político de poder, são as mesmas em Campos desde 1989. O primeiro citou o pensador francês Abraham Moles para classificar essa política cultural como “populista” e “autoritária”. Por sua vez, o professor Deneval de Azevedo Filho afirmou (aqui): “A ‘garotização’ da cultura foi péssima para Campos”. Como alguém que chegou a participar diretamente desse processo, qual a sua opinião?

Sisneiro – Acho que o populismo é um “ismo” como outro qualquer. não gosto de ser orientado pelos “ismos”, mas, já que eles existem, o domínio através da formatação da ignorância aliada das fantasias religiosas, ou não, geram idiotização. Batemos palmas, ou não, mas sem ao menos saber o por quê.

Folha – Já a professora Cristina Lima, com quem você trabalhou nas duas gestões dela à frente da FCJOL, disse (aqui) ter visto com preocupação a recente reforma administrativa da prefeita Rosinha que extinguiu a secretaria de Cultura e as fundações Trianon e Zumbi dos Palmares, concentrando toda administração da cultura pública de Campos na Fundação restante. Partilha dessa preocupação?

Sisneiro – Serei  curto e grosso: Sim, me preocupo; e muito! Abaixo a concentração de poder! Já vivemos a imposição de idéias, durante a ditadura militar no Brasil, e foi um tempo que não deixou nenhuma saudade em ninguém, sobretudo entre os artistas. A secretaria de Cultura foi a grande perda.

Folha – Os artistas também foram alvo de crítica. Se Adriano ressalvou que “o artista não é apenas uma vítima no meio disso tudo”, Soffiati foi além: “Ele (o artista) está no poder não para atender ao público, mas para realizar suas ambições pessoais e para ter uma fonte de renda”. O que pensa a respeito?

Sisneiro – Todos estão com razão. Não vejo, porém, que só os artistas de Campos sofram desses problemas. A luta pela provisão tem que ter um certo controle. Se não a violência a que nós estamos sujeitos geram bichos incontroláveis.

Folha – Adriano e Soffiati também afirmaram que a polarização política de Campos se reflete entre seus artistas, com o governo defendido por aqueles que com ele estão, tendo como críticos os que ficaram de fora, mas querem entrar. Funciona assim mesmo?

Sisneiro – Tenho percebido que, em toda movimentação política em volta do poder, há aquele sentimento pequeno e mesquinho de “agora é a nossa vez”, “ agora vamos armar o nosso esquema”. Não há verdade dirigida ao coletivo. Em Campos, onde está jorrando dinheiro, precisamos valorizar  “o ser”. Os arcos da Beira Valão não dão nenhuma espécie de alimento interior, mesmo que haja sobra de dinheiro.

Folha – Soffiati propôs a formulação coletiva de uma notícia-crime ao Ministério Público para se investigar o suposto superfaturamento dos shows. O que acha?

Sisneiro – A transparência resolveria. O trabalho artístico não tem tabela.

Folha – Cristina confirmou existir na planície a política do “pires na mão” dos artistas em relação ao poder público, mas ressalvou que seria assim em todo lugar. No Rio, por exemplo, é assim que a banda toca?

Sisneiro – Não gosto de comparar. O fato é que o artista cria com pequenos custos ou com grandes custos. Porém, no ato da criação, o que tem que prevalecer é a realização desse artista, então ele procura recursos materiais e financeiros onde imagina haver possibilidade. Campos não tem indústrias e seus comerciantes não veem nos seus artistas os seus embaixadores sociais. Por isso, o dinheiro da Prefeitura funciona como cabresto. O último espetáculo que fiz para a Prefeitura foi em 2007 e não recebi até hoje.

Folha – O poeta Artur Gomes afirmou (aqui) que a categoria artística de Campos está “acomodada” e “anestesiada”. Já Adriano lembrou que poucos artistas locais buscam soluções alternativas para mostrar seu trabalho, antes de recorrer à Prefeitura. Você está prestes a reencenar “Conselho de classe” no Rio, na cara e na coragem. Como se arriscar no próprio talento pode ser regra?

Sisneiro – O dicionário me informou que a palavra profissão significa: “formados academicamente ou os que sobrevivem de”. O que na verdade ocorre, é que se a ligação formada for química, ela facilita a liberdade na opção artística, por eliminar a violência da luta pela provisão que nos traz. O “Conselho de classe”, mesmo no Rio, é um desafio campista.

Folha – Depois de reapresentar a peça de Adriano no Rio, tem planos para trazê-la de volta a Campos?

Sisneiro – O meu maior objetivo é expor o Adriano Moura em todos os lugares possíveis.

Folha – Uma coisa que parecem unânime entre os artistas da planície é a necessidade de implementação do Fundo Municipal de Cultura, aprovado desde o fim do governo Mocaiber, mas empurrado com a barriga já há cinco anos. Esse deve ser o eixo da discussão?

Sisneiro – Para nós, brasileiros, o mais importante é o investimento em educação. A boa educação tornará as artes uma grande necessidade de consumo. Isso fará diminuir o poder das farsas controladoras. Newton disse que “para que consigamos enxergar longe é preciso estarmos apoiados em ombros de gigantes”. Esses dias estava lendo um livro, em que vi e anotei uma outra citação, mas sem guardar o autor, que dizia: “Os artistas não devem se afastar de seu tempo, eles devem se jogar na luta e ver o que podem fazer de bom ali. Em vez de manter uma distância segura dos fétidos pântanos dos valores do mundo, devem mergulhar de cabeça neles e agitar as coisas”. E nem importa mesmo quem tenha dito, afinal a verdade é a verdade.

Publicado na edição impressa da Folha Dois de hoje (25/08/13).

Atualização às 16h01 de 26/08 para inserção do crédito na foto.

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André e Gisele Coutinho — Lembranças das águas

BRIEFING
Eventos em Campos sobre o centenário de Wilson Baptista
26/04 – Desfile do Bloco Psicodélicos, no Campos Folia, com o enredo Dos lampiões de Campos, à boemia carioca, em homenagem a Wilson Baptista
27/04 – Desfile do Bloco “Rapaz Folgado”
INFORMAÇÕES: https://www.facebook.com/events/167572930058155/ Panorama completo sobre o evento, com links e postagens sobre os preparativos, o desfile e a repercussão do bloco.
22/06 – O samba carioca de Wilson Baptista, com Rodrigo Alzuguir e Claudia Ventura, no Trianon (ESPETÁCULO CANCELADO)
03/07 – Seria o início da exposição sobre Wilson Baptista no Museu de Campos.
http://www.fmanha.com.br/cultura-lazer/centenario-passa-em-branco
03/07 – Gincana Conversa Literal Papo Reto (Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte) e Homenagem a Wilson Baptista, no bar Dona Baronesa
INFORMAÇÕES:
Gincana: http://www.campos.rj.gov.br/exibirNoticia.php?id_noticia=19359
Gincana e Homenagem no Dona Baronesa: http://www.odiariodecampos.com.br/campistas-homenageiam-wilson-baptista-1997.html
08/07 – Show/tributo ao centenário de Wilson Baptista, com Chico de Aguiar, Maria Fernanda Crispim e Sebastião Oliveira
INFORMAÇÕES: Só encontrei este link: https://www.facebook.com/maria.f.crispim/posts/4457511814199
Parece-me que, este ano, Chico organizou (ou participou de) outro evento dedicado a Wilson, se não me engano no SESI.
19/07 e 20/07 – “Eu sou assim…” Show de Lene Moraes em homenagem a Wilson Baptista
INFORMAÇÕES:
http://www.odiariodecampos.com.br/mais-honras-ao-mestre-wilson-baptista-2550.html
27/07 – Palestra sobre o centenário compositor campista Wilson Baptista, com Marcelo Sampaio
INFORMAÇÕES: https://www.facebook.com/events/478004145621522/
19/08 – Entrevista com Rodrigo Alzuguir e Claudia Ventura, atores do musical O samba carioca de Wilson Baptista, em No ritmo da folia, programa de Marcelo Sampaio na TV Litoral
O QUE ESTÁ POR VIR
Na reunião de Patrícia Cordeiro com os artistas do Nelson Censurado, quando Simone Pedro perguntou à presidente da FCJOL se a Prefeitura não homenagearia Wilson Baptista neste ano, teve como resposta que haveria:
o show de Lene Moraes (“Eu sou assim…”: já ocorrido; ver acima);
uma apresentação do Centro Cultura Musical de Campos, da qual Simone participaria
um evento organizado por Luciano de Paula, da Superintendência da Igualdade Racial, que contaria com Marcos Rodrigues, o ator que interpretou Wilson Baptista na gincana Conversa Literal Papo Reto, na homenagem ao compositor no Dona Baronesa e no show “Eu sou assim…”

Sobre as águas do nosso tempo

Nada prova mais que o tempo realmente passa por nós do que quando, sem nenhum aviso prévio, ele já não passa mais para quem o dividiu conosco. Sobretudo, se esta comunhão se deu em momentos aprazíveis, de confraternização descompromissada, daquelas embutidas na memória e que, como só sabe quem caminhou à beira do seu próprio tempo, são tudo que conta quando nossa hora finalmente chega.

Sendo ele e eu filhos de dois grandes amigos, cujos tempos de vida excedemos, conhecia André Coutinho há muitos anos. Foi, contudo, através da fraternidade construída na juventude com um dos seus irmãos, Maurício, e já em idade madura com outro deles, Gel, que nossa convivência se avizinhou. No correr dos anos, meu filho, Ícaro, ainda se tornaria amigo de João Marcelo, filho de Marcelo, outro irmão de André, no entrecruzamento natural em que a amizade parecia destinada a ficar presa às malhas de uma mesma rede.

Introspectivo no primeiro contato, André talvez fosse o mais afável dos cinco filhos de Geraldo e Audrey, numa prole unida, liderada por Tina. Se era reservado de início, tratava-se de biombo tão facilmente removível quanto a franja que vivia a ajeitar com a mão, quando o topete invariavelmente lhe escorregava à fronte, enquanto se permitia aprofundar amistoso em qualquer conversa, com qualquer um.

Responsável pelo apelido de “Professor Pardal” dado pelos irmãos, outra característica pessoal de André era sua vocação às invenções, particularmente às náuticas, responsáveis por outra alcunha conferida em família: “Comodoro”. Numa balsa que ele mesmo projetou e construiu, há alguns anos, tive talvez o dia mais agradável dos que passei na usina Paraíso, propriedade da família. Saindo de um canal próximo, navegamos, bebemos, jogamos conversa fora, fizemos escambo de cachaça por tilápia, entre cascos de madeira e fibra de vidro, com os pescadores em suas canoas, fritando o peixe fresco na cozinha que André concebeu em sua criação sobre as águas, naquela tarde achada dentro da Lagoa do Jacaré.

Por sorte, a cachaça não foi toda mercadejada em pescado, pois no caminho de volta a balsa acabou agarrada, já com a noite caída, na vegetação do canal. Enquanto esperávamos um trator da usina chegar para rebocar a embarcação e romper à força do diesel o enlace das plantas, a anestesia do destilado de cana foi minha única defesa contra as esquadrilhas ruidosas de mosquitos investindo em ondas cegas da escuridão. Além de aliviar o tormento da caça alada por sangue, não deixava de reconfortar a ideia efêmera de vingança, formulada entre goles queimando a garganta, por deixar aqueles algozes também embriagados pelo que bebiam das minhas veias.

Depois dali, sempre que nos encontrávamos, lembrávamos entre risos e brincadeiras da aventura, combinando reeditá-la numa nova embarcação que o Comodoro tinha projetado e estava construindo a partir da experiência da primeira. Mas não tivemos tempo de levar a ideia a cabo. Ontem, em caminhos de asfalto mais duros que os das águas, André foi um dos tantos cujo tempo a BR 101 não deixou mais passar. Tinha ao lado sua esposa, Gisele, companhia de vida da qual quase nunca se separava.

Diante à tragédia de duas aventuras de existência precocemente abreviadas, pares até nos mesmos 48 anos, pouco ou nada resta a dizer. Solidarizo-me com os irmãos de André, com seus três filhos, Andrezinho, Karina e Mariana; mas sobretudo com sua mãe, Audrey. Afinal, pai curtido da orfandade de pai, como era também André, sei que nada, neste e em qualquer outro tempo humano, pode doer mais que a crueldade antinatural de se perder um filho.

Gel tem uma sentença da qual gosto muito e, volta e meia, com o crédito devido, repito: “Se você não é bom filho, não é bom em mais nada”. Pois André foi um bom filho que soube navegar com serenidade a confluência das águas como irmão, marido, amigo e pai. Infeliz do homem, no confronto inexorável com o fim do seu próprio tempo, que desejar mais.

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Todo mundo na vida pública rouba?

João Ubaldo Ribeiro, escritor
João Ubaldo Ribeiro, escritor

Formigas na rapadura

Por João Ubaldo Ribeiro

Acho que todo mundo lembra o que disse num discurso o presidente Kennedy: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país.” Eu estava lendo os jornais e aí me ocorreu, como já deve ter ocorrido a muitos de vocês, que nossa prática política se orienta por uma atitude oposta a essa exortação. Ou seja, queremos saber o que o Brasil pode fazer por nós, mas não alimentamos muita curiosidade sobre o que podemos fazer pelo Brasil. Isso se expressa no comportamento de nossos governantes, que não disputam nada pensando no país, mas em abocanhar ou manter o poder, aqui tão hipertrofiado, abarrotado de privilégios e odiosamente infenso ao controle dos governados.

Para que mais, a não ser desfrutar desses privilégios, não se sabe, porque não existe projeto, além da cantilena sobre justiça social, saúde para todos, educação de qualidade e outras generalidades com as quais todos concordam. Que modelo de estrutura socioeconômica queremos, que Estado queremos, que país queremos, como chegaremos lá? Que propostas concretas são oferecidas? Ninguém diz — e os programas partidários, como os próprios partidos, causam constrangimento, pela ausência de ideias e compromissos sérios. O negócio é se eleger e se abancar, depois se vê o que se pode fazer, conforme a necessidade e a serventia para a permanência no poder. Na pátria, como se falava antigamente, ninguém se mostra muito interessado.

Tudo o que se faz hoje é visando às eleições, ou seja, a continuação no poder ou ascensão a ele. Descobriram agora essa lambança das concorrências em São Paulo, que não é propriamente inédita na história nacional, e grande parte da reação parece do tipo “viu, viu? nós rouba, mas cês também rouba!” Todo mundo na vida pública rouba, o que pode não ser uma afirmação justa, mas já virou axioma na descrição de nossa realidade e um dado importante em qualquer equação política. Invoca-se o princípio da falcatrua consuetudinária. Ou seja, se é ilegal, mas costumeiro, prevalece o costume e é considerado sacanagem e falta de coleguismo fazer denúncias ou querer punições. Que outras novidades têm para nos segredar? Quem não aposta que nada vai dar em nada?

O Estado às vezes parece ter as pernas bambas. Recomeçou o dramalhão do julgamento do mensalão e muita gente não entende mais nada, a começar por esse singular minueto processual, através do qual o Supremo Tribunal Federal vira penúltima instância, dia sim, dia não. Todo mundo quer saber se as sentenças emanadas do Supremo eram à vera ou não eram, devia ser simples de responder. Essa novela vai por aí, se arrastando já há não se sabe quanto tempo, todo dia aparece uma notícia inesperada e creio que nenhum de nós se surpreenderá se, esta semana, for noticiado que a decisão final do Supremo estará condicionada à resposta a uma consulta feita pela Câmara de Deputados, ou coisa assim, o que, com a gripe que atacou um ministro, o impedimento de outro, e o atraso de outro, leva o caso, para que tenhamos certeza de uma decisão justa, para depois do recesso do Judiciário, no próximo ano.

Vimos também a cena envaidecedora em que nosso ministro das Relações Exteriores se manifestou, conforme ouvi num noticiário, “com dureza”, sobre a espionagem cibernética americana, numa fala dirigida em pessoa ao secretário de Estado John Kerry. Disse umas verdades na cara do gringo, que o escutou com atenção, cortesia e respeito, para logo após retrucar que nos devotava desmesurado amor e descomedida amizade, mas continuaria a espionar e, acreditássemos, era para o nosso próprio bem. Se não gostarmos, claro, temos todo o direito de nos queixar ao bispo, ele compreende.

Esse mesmo ministério, aliás, deve estar às voltas com o perdão de dívidas milionárias que alguns países africanos têm com o Brasil. Comenta-se que isso é por causa do esquerdismo do atual governo, notadamente em sua política externa. Comenta-se também que o perdão dessas dívidas possibilita que os governos beneficiados fechem novos contratos com empreiteiras brasileiras. É o que dá o envolvimento com setores notoriamente de esquerda, como nossas empreiteiras, essa linha avançada do socialismo. Há apenas um ligeiro embaraço na coisa, pois se sabe que as empreiteiras, com toda a certeza, vão receber o dela, mas os financiadores, ou seja, nós, vamos contribuir mais uma vez para os crimes e as contas bancárias de déspotas, genocidas e saqueadores de riquezas nacionais

No cada vez mais fugidio setor de grandes realizações, a complexa coreografia governamental se tem exibido em torno do trem-bala, que o pessoal lá do boteco deu para chamar “trem-bala perdida”. O trem-bala é um exemplo notável de aumento de custos recordista, talvez sem precedentes em todo o mundo, porque já perdemos a conta de quantas vezes esses custos foram revisados para cima. E agora li não sei onde, maravilhado com os nossos mecanismos de distribuição de renda, que, mesmo que se venha a desistir do trem-bala, o custo dele já terá sido mais ou menos um bilhão de reais. Não entendi direito, mas não se pode deixar de manifestar admiração.

Diante dessa sarabanda agitada e da luta para não largar o osso, lembro-me de quando eu era menino em Itaparica, punha um pedaço de rapadura no chão e ficava esperando formigas brotarem do nada, várias espécies que só tinham em comum gostar de açúcar. Umas ruças, grandalhonas, eram minhas favoritas, porque ficavam frenéticas e não paravam um segundo, para lá e para cá, em cima da rapadura, apesar de que, volta e meia, uma parecia se saciar e caía imóvel — dura para trás, dir-se-ia. Eu não sabia, mas estava vendo o Brasil, só que as formigas não se saciam e quem cai para trás somos nós.

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PT quer Serra fora do PSDB e com Dilma no 2º turno

Fora, Serra

O presidente do PSDB, Aécio Neves, e a presidente Dilma têm interesse direto em ver José Serra deixando os tucanos. Aécio quer Serra fora do partido porque deseja tirá-lo do caminho e consolidar sua candidatura. Dilma quer que ele saia porque deseja enfraquecer a candidatura de Aécio. Os petistas acreditam que, em caso de segundo turno, Serra poderia apoiar Dilma.

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Cristina Lima: “Concentrar poder na cultura de Campos é temerário”

“Entristece-me que tenham sido extintas a secretaria de Cultura e as fundações Trianon e Zumbi dos Palmares. Concentrar poder e recursos num só lugar é temerário por muitos motivos”. Em oposição à última reforma administrativa da prefeita Rosinha (PR), que submeteu toda a política cultural do município à administração da presidência da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), a advertência em nome da diversidade foi feita por quem, além de ex-presidente da mesma Fundação, é também filha daquele que a batiza: Cristina Lima. Embora tenha evitado responder se seu pai, Oswaldo Lima, aprovaria o que hoje é feito na Fundação que leva seu nome, ela não se furtou em dialogar com vários pontos polêmicos levantados nas entrevistas anteriores, publicadas neste caderno, com os professores e escritores Artur Gomes, Adriano Moura, Deneval de Azevedo Filho e Arthur Soffiati, nas quais têm sido debatida a política cultural de Campos. Esta, para Cristina, teria que ser sobretudo democrática, podendo até atender à “baianização” dos trios elétricos, ou aos shows de nomes nacionais, mas desde que também valorizasse aquilo que é produzido aqui, como as centenárias bandas locais, atualmente “alijadas da programação oficial”.

Folha Dois – Nem todos que falam da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima sabem quem foi a pessoa cujo nome a batiza. Como era ele, como homem de cultura, jornalista e pai?

Cristina Lima – Meu pai era um homem formidável, que amava, sobretudo, três coisas: a família, a cidade de Campos e o Liceu. Viveu para os três e para os livros, que era a forma que tinha de ganhar o mundo. Foi diretor do Monitor Campista por muitos anos, secretário de Educação do antigo Estado do Rio e, quando morreu, em 1973, era presidente do Conselho Municipal de Cultura. Como pai, eu resumiria numa frase: foi a pessoa mais simples e mais importante das vidas de quem o conheceu de perto.

Folha – Acha que ele aprovaria o que é feito hoje na Fundação que leva seu nome? Por quê?

Cristina – Antes é preciso explicar por que a Fundação leva o nome de Oswaldo Lima. Quando Rockfeller de Lima foi prefeito, entre 1971 e 1972, e iniciou a obra do Palácio da Cultura onde era a antiga Praça da Bandeira, meu pai foi radicalmente contra a extinção da praça e, de sua máquina de escrever Olivetti cinza, fez campanha pela manutenção da praça, alegando a necessidade de preservar um espaço verde em frente a um hospital, a Santa Casa. Derrotado em sua campanha, quando Zezé Barbosa assumiu o poder, em 1973, numa provocação a Rockfeller, que tinha deixado muitas contas da obra a pagar, deu o nome da Fundação criada para funcionar no prédio de Oswaldo Lima. Se ele aprovaria ou não a “política cultural” deste ou de qualquer governo é temerário opinar porque as épocas são diferentes, os parâmetros outros.

Folha – Em entrevista à Folha, o professor e poeta Adriano Moura, em relação à política pública municipal adotada pelo grupo que comanda em Campos desde 1989, disse (aqui) “Outras instituições tiveram à frente a filha de ‘fulano’, a amiga de ‘sicrano’”. Acha que ser filha de Oswaldo Lima contribuiu para que Anthony Matheus, então prefeito recém eleito, convidasse você para presidir a FCJOL?

Cristina – Muitas vezes já ouvi chamar até a fundação de “pai dela”. Isso nunca me incomodou porque sei da complexidade que envolve a área cultural, suas sutilezas, interesses, paixões e, principalmente, vaidades. O artista, seja ele de qualquer área, é vaidoso por natureza, como Narciso. Em 1989, acredito que o convite de Anthony para que eu assumisse a Fundação Cultural ocorreu porque ele entendeu que meu nome representava aglutinação de diversas correntes.

Folha – Também poeta e professor, Artur Gomes lembrou (aqui) do primeiro verão do governo Anthony Matheus, naquele hoje distante 1989, no qual Campos promovia mais cultura com muito menos dinheiro. Você admitiu ter saudades daquele tempo. Entre o saudosismo natural de um passado mais romântico e a realidade, acredita que algo se perdeu de lá para cá? O quê?

Cristina – É verdade. Tenho saudades do idealismo daqueles tempos, das dificuldades que desembocavam na criatividade. Muito dinheiro numa área tão complexa quanto a da cultura, pode redundar numa obra fantástica ou num desastre irreparável. No primeiro governo de Anthony tudo era novo, tudo era desafio. Havia praticamente tudo a ser feito. E, naquele verão de 1989, houve uma profusão de ideias que fomos colocando em prática até instintivamente, como varal de poesia, gincana cultural e muitas outras atividades que fizemos na casa que servia aos prefeitos anteriores e que, naquele verão, virou uma casa da cultura. E tinha uma equipe empenhada, idealista e competente que, muitas vezes, até fome passava porque a Prefeitura não tinha nem crédito nos restaurantes da praia. A máquina da PMCG não estava na praia como se viu nos anos posteriores. O próprio Artur, que você citou, foi um valoroso companheiro que permaneceu em nossa equipe como diretor da Divisão de Literatura até que, por um problema administrativo no antigo Cefet, onde ele tinha um vínculo com dedicação exclusiva, precisou se desligar. Se não dá para comparar o tempo de Oswaldo Lima com os de hoje, também 1989 e 2013 são dois pontos dispersos no ar. Outras são as prioridades , as diretrizes e as próprias demandas da população.

Folha – Artur também citou o maior evento daquele verão no Farol, com Moraes Moreira, que a Folha havia contratado para um show em Atafona, bisado de graça no balneário campista. Ali começou a se formar a opção por shows de nomes nacionais, em detrimento da fomentação da cultura local, como outro professor e poeta, Arthur Soffiati, ressaltou (aqui) em entrevista ser o norte da política pública de cultura até hoje em Campos?

Cristina – Acho, sempre achei, que há uma ambiguidade quando se fala em cultura e entretenimento. Em alguns momentos o gestor político opta pelos grandes eventos, como forma de juntar espectadores. É a obsessão pelas multidões. Isso sempre existiu e não só em Campos. A diferença é que, gerindo uma área complexa como a da cultura, é preciso investir nas brechas e frestas para incentivar iniciativas de médio e longo prazos como formação de plateias para teatro, dança, música e artes plásticas. Me lembro que, de 1989 até mais ou menos o ano 2000, Campos tinha, anualmente, festivais de teatro infantil e universitário. A área era tão efervescente que chegamos a sediar festivais estaduais e até um nacional de teatro. Na música, a gênesis da atual ONG Orquestrando a Vida, esse trabalho fantástico do maestro Johny William Villela Vianna, está lá atrás nos Festivais de Música de Inverno, que eram realizados com patrocínio da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. Hoje, vejo com tristeza nossas bandas centenárias alijadas da programação oficial das festas tradicionais, enquanto naquela época elas tocavam todas as semanas dentro do projeto “Pra ver a banda passar”.

Folha – Soffiati não teve papas na língua para afirmar que essa opção por shows de nomes e cachês nacionais, também teria como objetivo a prática de ilícitos financeiros. Como se deram essas contratações enquanto você esteve à frente da FCJOL, por oito anos?

Cristina – Posso falar apenas pelo tempo em que estive à frente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. Além de ter tido muito menos recursos que os presidentes posteriores, contratávamos muito menos shows e por preços de mercado, sem que tivéssemos uma única denúncia e nem mesmo notificação do Tribunal de Contas. Volto a lembrar que os tempos são outros e quando presidi a Fundação no último ano, em 1996, o orçamento do projeto “Verão do Farol” ficou em torno de R$ 190 mil. O orçamento da Prefeitura de Campos também era muito menor. É preciso mensurar as coisas porque o aumento da arrecadação com os royalties foi mais intenso a partir de 1997/1998.

Folha – Alguns apontam o fenômeno dos shows bancados com dinheiro público municipal, sobretudo nos verões do Farol, como um processo gradativo de “baianização” e, mesmo, de “mediocrização” da cultura campista. O que pensa a respeito?

Cristina – Não dá para resumir só nisso. De novo vamos discernir cultura e evento. O que convencionou-se chamar de “baianização” é o excesso de trios elétricos, mas até 1996 tínhamos um trio para o verão todo e só aos sábados e domingos. Hoje são vários trios, indo e vindo e vários dias por semana e não só no verão do Farol. Dias atrás, vi na blogosfera que a PMCG alugou, por dois meses, um trio elétrico por R$ 120 mil. Aqui, aparece um dilema para o gestor público da área cultural: atender o que se acredita ser a demanda do público por esse tipo de entretenimento ou ser autoritário e impor outro tipo de infraestrutura para projetos de teatro, poesia, dança, cinema, música erudita, ópera? Eu penso a cultura de maneira mais abrangente, num universo em que convivem evento e iniciativas de médio e longo prazos, principalmente para informar aos mais jovens da existência de outras manifestações culturais, além das que a mídia massifica e não abre espaço para questionamentos. Na gestão da minha equipe à frente da Fundação, guardo com muito orgulho os festivais de teatro, de poesia, concursos de contos, salões contemporâneos de artes plásticas, mas também de eventos memoráveis como a apresentação da Orquestra Sinfônica Nacional em plena Praça do Santíssimo Salvador e a encenação do balé “O Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, com o corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com Ana Botafogo. Ambos os eventos foram apoteóticos. Ou seja, as pessoas têm o direito de conhecer manifestações diversas para saber se gostam ou não. É a democracia cultural.

Folha – O que destacaria como maior legado do seu período à frente da FCJOL, na primeira gestão Anthony Matheus e na seguinte, de Sérgio Mendes? Em sua visão retrospectiva apontaria também alguma falha, algo que deixou de fazer ou hoje faria diferente?

Cristina – Na gestão de Anthony (1989-1992) praticamente foi inaugurada uma nova era na cultura campista. Até mesmo porque o município passou a ter recursos financeiros que os antecessores não tiveram. Além disso, o jovem prefeito vinha do teatro e com ideias revolucionárias para a época. Tudo era desafio, novidade, utopia e satisfação. Com Sérgio foi uma continuação, uma consolidação já em bases mais sólidas. Há uma injustiça histórica com Sérgio Mendes sobre o Trianon. É verdade que Anthony Matheus foi quem sensibilizou o Bradesco a dar US$ 1 milhão para iniciar as obras do Trianon, mas o governo de Sérgio prosseguiu as obras e, segundo levantamento que fizemos à época, entre 1993 e 1996, Sérgio fez mais de 30% da parte de construção civil do teatro. Sobre o que não fizemos é difícil dizer porque um inventário de uma gestão pública deve sempre ter mais débitos do que créditos. Faltou, por exemplo, um bom programa de bibliotecas nas escolas municipais com seus círculos de leitura. Faltou levar cinema às comunidades.

Folha – Seria capaz de estender essa análise crítica sobre aqueles que a sucederam na FCJOL, chegando até os dias de hoje? O que destacaria como principais erros e acertos de quem veio depois?

Cristina – O processo é evolutivo, graças a Deus. Gosto muito de lembrar da Bienal do Livro, criadas nas gestões de Lenilson Chaves e Fernando Leite. Me alegra ver o Museu de Campos restaurado e sendo indicado a um prêmio nacional, mas me entristece que, depois de estruturados os organismos culturais, tenham sido extintas a secretaria de Cultura e as fundações Trianon e Zumbi dos Palmares. Concentrar poder e recursos num só lugar é temerário por muitos motivos, inclusive pelas escolhas das atrações.

Folha – Desde a entrevista com Adriano, passando por Deneval Azevedo e, sobretudo, Soffiati, os artistas de Campos também sofreram críticas. Baseada na experiência que teve diretamente com a categoria, por quase 10 anos, até que ponto falta à maioria a capacidade de também analisar e discutir criticamente o seu papel na sociedade?

Cristina – A diversidade da gente que faz cultura é o grande barato de estar nesse meio. É dessa miscelânea, desse caldo de culturas, que se extrai a cultura de um povo. Com esse conceito, sempre transitei em todas as áreas e todas as mais diferentes e díspares correntes que integram o cenário cultural de nossa Campos dos Goytacazes. Cada um deve saber o seu papel e desempenhá-lo no palco da vida. Sinto muita falta de artistas locais no palco do Trianon recebendo o apoio que os artistas de fora recebem, mas que a qualidade do espetáculo justifique o apoio. Daí, minha obsessão pela formação de novos públicos e novos artistas a partir dos festivais de teatro nas escolas. É na educação, acredito como acreditava meu pai, que está a solução para todos os males da cidade e do país.

Folha – Existiu ou existe entre os artistas locais a cultura do pires na mão? Ela interessa mais a quem paga ou a quem recebe?

Cristina – Essa é uma realidade daqui e de qualquer lugar. A questão é se a cultura deve ser subsidiada pelo Estado, pelos governos, ou não. É uma discussão complexa e com matizes ideológicos diversos. Eu, pessoalmente, acho que é obrigação do Estado investir em cultura, mas como escolher entre as mais diferentes formas de manifestação cultural e entre os mais diferentes representantes delas, qual apoiar sem ser autoritário?

Folha – Concorda com o que disse Deneval (aqui): “Há muito amadorismo na cultura campista”? Por quê?

Cristina – O “amadorismo” pode ser uma conseqüência da opção preferencial pelos eventos que atraem grandes públicos em detrimento de políticas de formação cultural. Mas não podemos nos esquecer de que os agentes culturais que estão aí, como Orávio de Campos Soares, Maria Helena Gomes, João Vicente, Kapi e o próprio Anthony Matheus, são originários do teatro amador. Portanto, são exemplos do amadorismo positivo, mas se Deneval refere-se à falta de profissionalismo, concordo, mas torço pela iniciativa dos artistas, de todas as áreas, em procurar profissionalização e que o poder público disponibilize mecanismos para tal.

Publicado hoje (18/07) na versão impressa da Folha.

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