Por Aristóteles e Descartes, não há lógica no Brasil de Lula e Dilma

Denis Lerrer Rosenfield, professor do Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Denis Lerrer Rosenfield, professor do Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

O marciano, o Brasil e Aristóteles

Por Denis Lerrer Rosenfield

Um marciano desembarcou no Planeta Terra e, desta vez, optou por conhecer o Brasil. Há muito tempo atrás, antepassados seus, tinham visitado a Grécia clássica. Lá tomaram conhecimento da filosofia de Aristóteles que os apaixonou. Levaram, inclusive, os manuscritos mais elaborados para seu planeta, deixando para os terráqueos o duro trabalho de edição de suas obras por séculos a fio.

Particularmente, tinham sido atraídos pelo princípio de não contradição, que passou a ser ensinado em todas as escolas. Mais especificamente, qualquer político deveria fazer provas duríssimas, aplicando esse princípio aos assuntos públicos. Afinal, tratava-se de algo maior: a prevalência do bem comum.

Nosso amigo marciano ficou, então, surpreso com o que estava ocorrendo em nosso país, pois tudo o que via percebia como uma infração às regras mais elementares da lógica e, neste sentido, de como entendia a política. Nas manifestações da última quinta feira, anunciada como “greve geral” ou como “dia nacional de lutas”, ele não conseguia compreender o que bem podia significar uma “greve” de movimentos sociais “organizados”, como CUT e MST, aparelhados pelo PT e financiados pelos governos petistas, contra o próprio governo petista. Traduzindo em miúdos, isto significa uma “greve” do PT contra o PT. O princípio de não contradição estaria sendo infringido!

Como podia acontecer que, no décimo terceiro ano de um governo petista, o PT se sentisse tão incomodado com o seu próprio governo. Cansado de si mesmo? Desorientado consigo? O que diriam, então, os cidadãos confrontados com tal confusão? Como pode alguém fazer oposição a si mesmo?

Ficou particularmente intrigado com uma expressão de muito uso no governo do ex-presidente Lula e posta à prova no da presidente Dilma. Trata-se de uma tal de “herança maldita”. Não conseguia bem perceber o que significava. Em sua formação intelectual, além de Aristóteles, tinha lido muito Descartes, quando de outra incursão de seus antepassados ao Planeta Terra. Tinha aprendido com o filósofo francês um critério de verdade baseado na clareza e distinção das ideias. Lógico como era, tratou de aplicar esse critério à expressão “herança maldita”.

Ora, qual não foi a sua estupefação ao constatar que o que o ex-presidente Lula considerava como herança “maldita” de seu antecessor tinha sido “bendita”, assegurando-lhe o êxito de seu primeiro mandato. Ficou sabendo que o primeiro governo petista tinha mantido as linhas básicas de sua política econômica e, mesmo, social. Tinha tucanado. A lógica do governo teria sido uma, a retórica outra. Ou seja, fazia uma coisa e dizia outra. Não há princípio de não contradição que resista, além do problema de ordem propriamente moral de não reconhecimento.

Perseguindo ainda a clareza e a distinção das ideias, terminou por compadecer-se com a presidente Dilma, pois ela se encontrou em uma sinuca de bico. Do ponto de vista moral, teve uma atitude digna ao qualificar a herança de seu antecessor como “bendita”, quando, na verdade, ela é “maldita”. Está agora recolhendo os seus frutos que crescem nas ruas em manifestações autônomas. O seu discurso está, neste sentido, impregnado de contradições, apesar de ter, no início de seu mandato, mantido a coerência ao ter reconhecido o legado do ex-presidente Fernando Henrique. Aliás, de sua própria iniciativa, fez uma “faxina ética”, tendo depois recuado ao seguir novamente o seu antecessor.

Contudo, os dilemas de nosso marciano não pararam por aí. Seus princípios e critérios não cessavam de ser postos à prova — e que provação! Não conseguia entender o que o governo e o PT entendiam por “movimentos sociais” quando confrontou duas manifestações, a monstro de duas semanas atrás e a esquálida desta última quinta, tendo sido esta uma caricatura daquela.

Ele próprio, apenas poucas décadas atrás, tinha entrado em contato com outro grego, naturalizado francês, de nome Cornelius Castoriadis. Em privado, era chamado Corneille, porém isso também o confundia por lembrar o célebre dramaturgo francês. O problema, porém, não era esse. O que estava em questão era a distinção feita por esse filósofo entre “autonomia” e “heteronomia”.

Autonomia designava movimentos populares autônomos, genuínos, que brotavam da sociedade por ela mesma, lutando contra governos que os oprimiam ou não atendiam às suas reinvindicações. Heteronomia, por sua vez, significava movimentos controlados por aparatos partidários e burocráticos, de uso corrente na esquerda, cujo objetivo consistia precisamente em substituir e aniquilar uma manifestação independente da sociedade civil.

Ora, as manifestações de duas semanas atrás se caracterizaram, precisamente, por serem autônomas, nascidas do próprio seio da sociedade civil, ultrapassando qualquer “aparelho” que tenha procurado controlá-las. Foi um espetáculo de liberdade. Uma expressão da mais legítima indignação com distintos governos de diferentes partidos, sejam eles do PT, PMDB ou PSDB, tanto no nível federal, quanto estadual e municipal.

Em uma manobra de grande inabilidade, o governo federal e o PT, em vez de procurarem atender a uma indignação generalizada dos cidadãos brasileiros, partiram para a cooptação e a burocratização de movimentos autônomos. Colocaram em pauta a heteronomia. Sindicatos financiados com recursos públicos e movimentos sociais organizados como o MST, também financiados pelo governo, usurparam a bandeira da liberdade e da moralidade. O resultado foi um fiasco total. Ruas comparativamente vazias, burocratização das marchas, uniformização dos discursos e indignação fingida.

A presidente, com humildade, deveria ter reconhecido desde o início os seus erros e os de seu antecessor, resgatando o princípio de não contradição e a clareza e a distinção de ideias. Poderia ter aberto um novo caminho. Nosso amigo marciano, por sua vez, confuso, preferiu voltar ao seu planeta. Pelo menos lá reina a coerência e a racionalidade.

0

Artistas de Campos se reúnem hoje, às 18h, na praça do Liceu

Manifestação dos artistas de Campos, na última quinta, na praça São Salvador, contra a denúncia de censura a Nelson Rodrigues (foto de Valmir Oliveira)
Manifestação dos artistas de Campos, na última quinta, na praça São Salvador, contra a denúncia de censura a Nelson Rodrigues (foto de Valmir Oliveira)

No final da tarde de hoje, às 18h, os artistas de Campos voltam a se reunir, na segunda mobilização depois da polêmica da denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues, que teria sido cancelada sob alegação de razões pessoais e religiosas da prefeita Rosinha (PR), segundo denunciou aqui e aqui, em mídia nacional, os integrantes do grupo teatral carioca “Oito de Paus”, que encenaria o texto no Trianon, em 10 de agosto (relembre o caso aqui e aqui). Se a primeira reunião foi na praça São Salvador, na última quinta, dia 11, que terminou após passeata de protesto até o Trianon, a de hoje será na praça do Liceu. Na pauta, a convocação da Conferência de Cultura do Município, no próximo sábado, dia 20, no Museu Histórico de Campos, marcada na reunião do Conselho de Cultura realizada na manhã do último sábado, dia 13, na primeira reação do governo municipal após a denúncia de censura à obra Nelson. Antes da Conferência, os artistas programam outro protesto, desta vez em frente ao Palácio da Cultura, onde funciona a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. A intenção é tentar uma audiência com sua presidente, Patricia Cordeio, que até agora não se pronunciou oficialmente sobre toda a polêmica.

0

Deneval: “Patricia Cordeiro é despreparada para dirigir a cultura de Campos”

… ORDINÁRIA, NÃO!

Por Luciana Portinho, em 10-07-2013 – 19h01

CENSURA A NELSON RODRIGUES: BONITINHA SIM, MAS ORDINÁRIA, NÃO!

ft. Google
ft. Google

Acabei de saber que barraram uma peça do Nelson Rodrigues no Trianon. Se isso é verdade, a situação é pior do que eu imaginava. Mas também, o que esperar de uma cidade governada pelo Antigo Testamento? Teatro lotado pra ver “Kiko: O verdadeiro”. (Adriano Moura, poeta, in Facebook, 09/07/13, às 22h13)

O que dizer de um povo que permitiu que demolissem o Trianon e construíssem uma caixa d’água de vidro? (Vilma Arêas, campista, escritora e Professora Titular da UNICAMP, em entrevista e este articulista)

Coisa feia, gente! Seria cômico se não fosse trágico, chavão muito usado, mas que cabe bem aqui. Estou em Campina Grande (PB), mas não posso deixar de me manifestar ante a censura à peça “Bonitinha, mas ordinária”, do famoso dramaturgo e cronista brasileiro Nelson Rodrigues, gênese do teatro moderno brasileiro, imposta pelo desgoverno de Campos dos Goytacazes. Soube, pelas redes sociais e blogs, ontem à noite, que a Fundação Teatro Municipal Trianon foi extinta e muitas outras coisitas, até ler o blog da Luciana Portinho, que falava da censura à peça do Nelson Rodrigues. Fui para o face e não se falava em outra coisa.

Pensei: Meu Deus, pode isso? Não será castigo para o povo campista, um povo já amaldiçoado por ter a frente do seu governo uma “Cantora Gritante”?

Pode sim. Vejam algumas preciosidades críticas que li no facebook:

1) “Os sete gatinhos”, de Nelson Rodrigues já foi confundida com peça infantil. Agora barram “Bonitinha, mas ordinária”. Quem sabe deixam passar “Álbum de Família” achando que é uma peça Gospel? (Adriano Moura, poeta);

2) “O Trianon Tem Dono? Quando se é dono de algo vc permite ou não. É um teatro particular e eu não sabia.”(Fernando Rossi, Diretor teatral e escritor);

3) “E Valsa N. 6 já foi confundida como peça de debutante, kkkk” (Guilherme Freitas);

4) “De repente ela libera a montagem de ”A mulher sem pecado”. É só falar que é uma homenagem a ela… : D”(ELA se refere à Prefeita de Campos)

Bem, ficaria aqui todo o dia enumerando a revolta dos mais chegados à cultura campista, dos diretores de teatro, produtores culturais entre outros tantos. Já faz tempo que digo que a cultura campista anda desgovernada e capenga. Corre a boca miúda que a Presidente do Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima é totalmente despreparada para dirigir a cultura em Campos dos Goytacazes. Está no cargo por ser uma pessoa ligada à música, ou melhor, a uma banda cujo dono tem um estúdio e tralálálálálá. O fato é que as pessoas já se manifestam: “Sabe pq aconteceu isso? Pq colocarm Patrícia Cordeiro, uma pessoa totalmente despreparada culturalmente para aprovar o que não entende. Kd Orávio de Campos? Será que alguém o consultou? Garanto que não pois esse sabe distinguir um clássico teatral.Cada macaco no seu galho, gente!!!!” (Mario Cesar, em comentário no Blog de Luciana Portinho). Orávio de Campos Soares, ex-secretário de Cultura, tanto faz como tanto fez! E agora? A boca miúda não se cala.

Luciana Portinho, ex-presidente da Fundação Cultural Oswaldo Lima e entusiasta da cultura, atualmente, atuando na área de cultura da Folha, posicionou-se: “Um vexame para Campos e para todo o Brasil . A PMCG, segundo publicado em redes sociais e blogs locais como o de Claudio Andrade, aqui, e em outros da Folha Online como aqui e aqui, suspendeu a apresentação da peça teatral “Bonitinha, mas Ordinária” do renomado teatrólogo Nelson Rodrigues. Iria se apresentar no Teatro Municipal Trianon.Se próximo estávamos de Sucupira, agora caímos nas graças do Feliciano.”

Rodrigo Vahia, integrante do Grupo Teatral Oito de Paus, que encenaria a peça censurada postou: “Liberdade? Que liberdade? De expressão, então… Não costumo postar textos de desabafo por aqui, porque particularmente acho que os problemas de cada um devem ser resolvidos na sua intimidade. Mas o ocorrido está além da minha, ou da intimidade de um grupo de artistas, do qual eu faço parte. Mas de todo um coletivo que acredita na livre troca de informação, produção de ideias e reflexões. Que acredita, mais do que na liberdade de escolha, no direito a escolha. Que acredita na liberdade de expressão. O fato que vou relatar aqui é GRAVE. Não pelo aspecto financeiro ou pelo descomprometimento. Mas pelo coronelismo e pelo cerceamento ao direito individual de liberdade. Além de, grosseiramente falando, ainda termos pessoas despreparadas e imbecis opinando e interferindo sobre políticas culturais, quando na verdade não deveriam nem estar varrendo rua, que é para não ofender os garis. Mas o fato é que o meu grupo de teatro teve a peça “Bonitinha, mas Ordinária” CENSURADA em Campos, pela Fundação Trianon, após a troca da sua presidência que resolveu rever os projetos já contratados. Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica. Em pleno século XXI? Roubo, corrupção, lavagem de dinheiro através de ONGs, isso não ofende a atual prefeita, não é… Coitada, ela não deve saber dessas coisas… Ou deve rezar bastante e seu Deus a perdoa. Afinal, dinheiro não falta para pagar a própria redenção. Mas aí já não cabe a ninguém… Já que trata da individualidade dela. A questão é quando a individualidade de um governante interfere nas escolhas referentes ao coletivo. E é na minha opinião, a menos que eu esteja realmente ficando louco, INADMISSÍVEL, uma peça ser censurada porque pode desagradar esse ou aquele político!!! SE ALGUÉM CONCORDA COMIGO, POR FAVOR, COMPARTILHE ESSA MENSAGEM ATÉ QUE ELA CHEGUE À FUNDAÇÃO TRIANON EM CAMPOS. Não porque eu queira fazer a peça lá agora, porque sinceramente perdi a vontade. Mas porque acho digno mostrar também a essas pessoas que não vivemos mais em um regime absolutista e que não se faz política, nem muito menos arte, com a opinião ou aprovação de quem quer que seja. Nem de Deus. Quiçá de uma rosa.”

Pois é. “Um galo sozinho não tece a manhã;/ Ele precisará sempre de outros galos/ De um que apanhe esse grito que ele/ e o lance a outro; de um outro galo/ que apanhe o grito de um galo antes/ e o lance a um outro […] (João Cabral de Melo Neto).

Para não chorar, moral da história: Qual o esporte preferido das cantoras? Lançamento de discos! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!

Texto de autoria do Dr. Deneval Siqueira de Azevedo Filho. Professor Associado de Teoria e História Literária. Departamento de Línguas e Letras. Centro de Ciências Humanas e Naturais. Programa de Pós-graduação em Letras – Doutorado e Mestrado em Estudos Literários. Universidade Federal do Espírito Santo.

0

Na frase da semana que se encerra, o bicho pelego da CUT

Neste domingo que se encerra, uma das frases que marcaram a semana, dita pela Viviane Araújo, de 18 anos, que disse ter sido contratada por sindicato ligado à CUT para participar da manifestação da última quinta, dia 11:

“Eu recebi R$ 30 para vir aqui. Eles pagaram nosso transporte e disseram que o dinheiro era para a gente comer aqui”.

0

Nildo avisou: “Vou ser oposição até o fim”

Por Rafael Vargas, em 13-07-2013 – 17h02

Em seu blog (aqui), Gustavo Matheus deixa no ar a possibilidade do vereador Nildo Cardoso (PMDB), líder da bancada de oposição na Câmara de Campos, aderir ao mundo rosáceo. Neste caso, o vereador mais votado da atual legislatura estaria deixando de lado uma promessa que foi feita em seu primeiro discurso no Legislativo (aqui) em fevereiro. “Vou ser oposição até o fim. Se Deus permitir estarei aqui, com esse mesmo posicionamento até o último dia do meu mandato. Pode constar isso em ata”, destacou.

Agora, cinco meses depois, será que Nildo Cardoso continua com a mesma opinião?

Atualização às 15h16: Leia mais sobre assunto aqui, no blog da jornalista Suzy Monteiro.

0

A rapaziada é #, a pelegada é $


As diferenças: a rapaziada é #, a pelegada é $

Excluídas das passeatas de junho, as centrais sindicais e seus penduricalhos (UNE, MST, PT, PCdoB, PDT e etcétera) organizaram o seu próprio ‘Dia Nacional de Luta’. Isso foi ótimo. Ajudou a explicar por que a rapaziada refugou a ‘solidariedade’ da pelegada partidário-sindical. São muitas as diferenças entre os dois movimentos. A principal delas é a forma como os dois grupos se relacionam com os cofres públicos. Um entra com o bolso. Outro usufrui. Vai abaixo uma tentativa de distinguir o novo do antigo:

(Foto de Aguirre Talento/Folha de São Paulo)
(Foto de Aguirre Talento/Folha de São Paulo)

A rapaziada é #. A pelegada é $.

A rapaziada é o bolso. A pelegada é imposto sindical.

A rapaziada é coxinha. A pelegada é pastel-de-vento.

A rapaziada é sacolejo. A pelegada é tremelique.

A rapaziada é YouTube. A pelegada é videoteipe.

A rapaziada é Facebook. A pelegada é assembléia.

A rapaziada é máscara de vingador. A pelegada é cara de pau.

A rapaziada é viral. A pelegada é bactéria.

A rapaziada é chapa quente. A pelegada é chapa branca.

A rapaziada é sociedade civil. A pelegada é sociedade organizada.

A rapaziada é banco de praça. A pelegada é BNDES.

A rapaziada é a corrida. A pelegada é o taxímetro.

A rapaziada é asfalto. A pelegada é carro de som.

A rapaziada é horizonte. A pelegada é labirinto.

A rapaziada é fumaça. A pelegada é cheiro de queimado.

A rapaziada é explosão. A pelegada é flatulência.

A rapaziada é o público. A pelegada é a coisa pública.

A rapaziada é combustão espontânea. A pelegada é ignição eletrônica.

A rapaziada é luz no fim do túnel. A pelegada é beco sem saída.

A rapaziada é pressão popular. A pelegada é lobby.

A rapaziada é farinha pouca. A pelegada é meu pirão primeiro.

A rapaziada é terra em transe. A pelegada é cinema novo-velho.

A rapaziada é o desejo de futuro. A pelegada é o destino-pastelão.

A rapaziada é namoro. A pelegada é tédio conjugal.

A rapaziada é grito. A pelegada é resmungo.

A rapaziada é algaravia. A pelegada é palavra de ordem.

A rapaziada é poesia. A pelegada é pedra no caminho.

A rapaziada é dúvida. A pelegada é óbvio ululante.

A rapaziada é Fora Renan. A pelegada é o bigode do Sarney.

A rapaziada é abaixo a corrupção. A pelegada é a perspectiva de inquérito.

A rapaziada é mistério. A pelegada é indício.

A rapaziada é a alma do negócio. A pelegada é o segredo.

A rapaziada é novidade. A pelegada é o mesmo.

A rapaziada é anormalidade. A pelegada é vida normal.

A rapaziada é impessoal. A pelegada é departamento de pessoal.

A rapaziada é decifra-me. A pelegada é devoro-te.

0

Artigo do domingo — O outro que somos

Seja em versão impressa ou virtual, jornalismo é sempre trabalho coletivo. Não por outro motivo, neste domingo no qual ainda não habito, mas para o qual escrevo, para espargir as trevas envolvidas na denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues (1912/80), que seria encenada em 10 de agosto no Trianon, por conta de alegadas razões de ordem pessoal e religiosa da prefeita Rosinha Matheus (PR), segundo denunciou em mídia local e nacional o diretor Luís Fernando Perinei, do grupo teatral carioca “Oito de Paus”, nada mais producente do que buscar o olhar do outro.

Quando verdadeiros, é o que o pretendem o jornalismo e a arte, como foi o que fizeram os artistas de Campos na manifestação da última quinta-feira, dia 11, mobilizados na democracia irrefreável das redes sociais, para ecoar as palavras de Nelson em protesto contra qualquer tipo de censura, na democracia ancestral das praças. Como sentenciou o poeta estadunidense Walt Whitman (1819/92), criador do verso livre, sem rima ou métrica, e pai de todo o Modernismo: “I believe in you my soul… the other I am” (“Acredito em você, minha alma… O outro que sou”).

Como na ágora da Antiga Grécia, da qual Nelson tanto bebeu, berço e conceito imutável da democracia, no coro entre os atores e a plateia, passemos a palavra para:

Talita Barros, jornalista e pesquisadora da obra de Nelson:

“Acho, sinceramente, que em nosso atual contexto nacional de protestos contra todo tipo de absurdo praticado pelos políticos, não é admissível que em Campos a atual gestão caminhe debochadamente ao encastelamento. Já foram quatro cancelamentos na programação cultural da cidade, três deles só esta semana. Houve uma centralização no setor cultural. Mas por onde andará Patrícia Cordeiro, presidente da Fundação Cultural Jornalista Osvaldo Lima (FCJOL), que agora centraliza todos os outros órgãos, para falar SATISFATORIAMENTE sobre o assunto e também para explicar o funcionamento desse novo organograma da prefeitura? É preciso que esteja disponível para além da rádio Diário. Não é um político ou gestor público quem deve escolher onde e quando falar à sociedade. Nós, cidadãos, é quem temos o DIREITO de definir, de colocar o pau na mesa. Os artistas ontem (na quinta) protestaram e onde está o Poder Público para ouvir essas vozes da rua? Tá certo que o grupo era pequeno. E daí? Em tempos de pós-modernidade, viva as minorias! Desrespeito e desmando é o que denominam a política em Campos… Ah, e aturar jornalista puxa-saco é FODA!”

Artur Gomes, poeta e ator:

“Aqui em canibália city me chega a notícia de que em campos ex-dos goytacazes e agora dos cordeiros evangélicos, a peça de teatro de Nelson Rodrigues — ‘Bonitinha, mas Ordinária’ — foi proibida de ser exibida no Teatro Trianon, por ordem da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro.

“O esdrúxulo da estória, é que a peça, já estava na grade de programação do referido teatro para ser encenada no dia 10 de agosto. Segundo o superintendente da Fundação Trianon, Sr. João Vicente Alvarenga, a motivação da censura não seria por questões religiosas, e sim por falta da documentação necessária para a sua encenação, o que não convence nem a Cristo.

“É bom lembrar que a maioria das ditaduras, sempre tiveram em sua retaguarda, e quase sempre ainda tem, algum segmento religioso, e em Campos isso não é diferente, muito pelo contrário, lá o governo municipal é totalmente apoiado pela igrejas evangélicas, estando a ele integrado vários bispos e pastores.

“É bom lembrar que a ditadura militar teve ao seu lado o segmento mais reacionário da igreja católica, a TFP.

“É incrível isso acontecer em nossos dias, numa terra onde nasceram figuras ilustres da arte, cultura e política nacional tais como Wilson Batista, José Cândido de Carvalho, Nilo Peçanha, José do Patrocínio e Benta Pereira.

“Não é à toa que o ator Tonico Pereira, que nasceu em Campos, costuma frisar que Campos não é uma cidade, porque cidade é uma outra coisa”.

Leniéverson Azeredo, jornalista e ativista católico:

“‘A religião deve ser questão de fundo individual, nunca permear os interesses e os espaços públicos, até porque a sociedade é composta por indivíduos ateus, budistas, católicos, islâmicos, umbandistas, e todos merecem respeito’.

“Vou aproveitar esse comentário para dizer uma coisa interessante, muitos estão aproveitando o fato, que eu concordo ser um absurdo, para criar uma campanha contra pessoas que tem fé e evangelizam nas ruas, nas praças, nos estádios, etc. Religião não é algo de foro individual, é de foro coletivo, onde as pessoas, através do artigo 5º da Constituição Federal tem o direito inalienável de externar. Muitos aqui estão confundindo estado laico, com estado ateu. O Brasil foi fundado por cristãos portugueses, Campos dos Goytacazes teve sua história fortemente ligada a religiosidade, e mais, tanto Campos, quanto o resto do Brasil, são formados por cristãos. Bom, como eu disse, a censura é equivocada, a Fundação Teatro Trianon é gerida por alguém sem perfil técnico e acho que tinha de ser trocada. Creio que isso deve ser feito, mas, como eu disse acima, tem de ser tomar cuidado para que a discussão não culmine num debate anticristão”.

Adriano Moura, professor, poeta e dramaturgo:

“O que há em Campos é mais que perseguição a Nelson Rodrigues ou a qualquer outro tipo de arte. É estupidez mesmo; é gente burra, despreparada, insensível, cafona, ignorante que, por ser ‘amiguinho’ de A ou B, é indicada para administrar setores aos quais desconhece. Gente incompetente demais para tomar a atitude correta. Gente ‘careta e covarde’ que só sabe servir de mico de circo pra quem está no poder. Desde 1989 que a cidade vive nessa indigência, na dança das cadeiras dos poderes que insistem em permanecer na República do Chuvisco. Não adianta, caros senhores. Enquanto alimentarmos com nossos votos esses ‘zumbis’ viveremos nessa indigência. A sorte deles é que estupidez não paga imposto. E se pagasse dariam um jeito de sonegar”.


Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

0

Leniéverson Azeredo: “Protesto contra censura não pode virar debate anticristão”

Leitor e comentarista assíduo do blog, o também jornalista e blogueiro, além de ativista católico, Leniéverson Azeredo fez aqui um comentário sobre a polêmica gerada pela denúncia de censura no Trianon à peça “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues (1912/80), por supostas razões de ordem pessoal e religiosa da prefeita Rosinha (relembre o caso aqui e aqui), segundo alegou em mídia nacional (aqui e aqui) o diretor Luís Felipe Perinei, do grupo teatral carioca “Oito de Paus”. Até porque Leniéverson, com base em sua fé e em sua garantia na Constituição, tece algumas ressalvas pertinentes ao caminho trilhado por algumas das críticas laicas à denúncia de censura religiosa, o blog pede licença para republicá-la abaixo, com a relevância maior de post…

Leniéverson Azeredo, jornalista, blogueiro e ativista católico
Leniéverson Azeredo, jornalista, blogueiro e ativista católico

“‘A religião deve ser questão de fundo individual, nunca permear os interesses e os espaços públicos, até porque a sociedade é composta por indivíduos ateus, budistas, católicos, islâmicos, umbandistas, e todos merecem respeito’.

“Vou aproveitar esse comentário para dizer uma coisa interessante, muitos estão aproveitando o fato, que eu concordo ser um absurdo, para criar uma campanha contra pessoas que tem fé e evangelizam nas ruas, nas praças, nos estádios, etc. Religião não é algo de foro individual, é de foro coletivo, onde as pessoas, através do artigo 5º da Constituição Federal tem o direito inalienável de externar. Muitos aqui estão confundindo estado laico, com estado ateu. O Brasil foi fundado por cristãos portugueses, Campos dos Goytacazes teve sua história fortemente ligada a religiosidade, e mais, tanto Campos, quanto o resto do Brasil, são formados por cristãos. Bom, como eu disse, a censura é equivocada, a Fundação Teatro Trianon é gerida por alguém sem perfil técnico e acho que tinha de ser trocada. Creio que isso deve ser feito, mas, como eu disse acima, tem de ser tomar cuidado para que a discussão não culmine num debate anticristão”.

0

A Santa Casa vive litígio, denúncias e risco de interdição

Por Gustavo Matheus, em 12-07-2013 – 17h35

O hospital Santa Casa de Misericórdia, entidade filantrópica que por essência deveria ser sem fins lucrativos, conveniado com o Sistema Único de Saúde (SUS), não vem oferecendo estrutura e condições de trabalho para os médicos que por lá trabalham, e o fato resultou numa confusão sem fim. Uma verdadeira bola de neve.

O administrador da Santa Casa, o senhor Benedito Marques, para piorar toda situação, demitiu os médicos quando estes fizeram uma denúncia à secretária de Saúde, cobrando, desesperadamente, uma solução. Os plantonistas estão agora em litígio com a Santa Casa, com uma audiência marcada para próxima quinta-feira, às 17h, com o Ministério do Trabalho, no fórum. Juntamente dos administradores da entidade, estarão os médicos e membros da secretaria de Saúde.

Informações constatam que a Prefeitura estaria em dia com o repasse da verba, mas, pelo o sistema hoje em dia ser o Pleno (quando o repasse é feito diretamente aos administradores, os deixando responsáveis pelo pagamento das distribuidoras, funcionários e empresas), de alguma maneira os pagamentos não estão sendo realizados, segundo a denúncia de um dos funcionários. Até mesmo os equipamentos básicos de atendimentos médicos estão em falta. Um comunicado foi liberado por uma empresa responsável pela distribuição de marca-passo, dizendo que o pagamento está atrasado e que infelizmente não poderá entregar mais o aparelho. Alguns médicos estão revoltados com a situação, pois há pacientes com necessidade do mesmo no local.

O secretário de Saúde e vice-prefeito Chicão (PP) disse que o importante, para a Prefeitura, é que a Centro de Terapia Intensiva (CTI) não pare e que os atendimentos sigam ocorrendo. Chicão, que também é médico, ainda disse que a secretária fez tudo o que pôde ser feito.
“Olha, realmente temos uma audiência marcada para próxima quinta, mas já fomos informados pela Santa Casa, oficialmente, que a troca da equipe será realizada em breve. Portanto é oficial. Nosso papel é evitar qualquer interrupção no atendimento. A CTI não pode parar. Somente tomaremos alguma medida indesejável se não houver opção. Quanto à questão da demissão dos profissionais, está fora da minha alçada”, disse Chicão.

Foto: Edu Prudêncio
Foto: Edu Prudêncio

Quem também falou sobre o caso foi o presidente do CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro) Makhoul Moussalem (PT), que acredita que a postura dos administradores da Santa Casa é digna de interdição, caso seja comprovado o déficit estrutural alegado pelos médicos. “O que vem ocorrendo é inadmissível. Como você troca uma equipe médica e mantém as mesmas condições desumanas de trabalho. O que eu posso fazer é realizar uma fiscalização e, se for constatado o conteúdo da denúncia, interditar a Santa Casa”,

A administração da entidade informou que o Dr. Sérgio iria assumir a CTI, mas não forneceu sobrenome ou maiores informações.

0