A Pedro Otávio, de Luiz Carlos Sell

Com Pedro Otávio ao fundo, Sell fala do amigo e colega homenageado como “médico do ano”, pela Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia, no último dia 24 de janeiro (foto de Mariana Ricci)
Com Pedro Otávio ao fundo, Sell fala do amigo e colega homenageado como “médico do ano”, pela Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia, no último dia 24 de janeiro (foto de Mariana Ricci)

CARTA A PEDRO OTÁVIO

CAMPOS, 10 DE ABRIL DE 2012

Caro Pedrinho,

Aqui estamos nós te velando. Parece irreal. A sensação é a de que não aconteceu e que em alguns dias estaremos os dois sentados à mesa de um bar degustando uma “gelada” e botando a conversa em dia.

Muitos estão aqui conosco. Todos os nossos amigos e familiares estão ou estiveram aqui para as despedidas de ti.

Quão bonita, carinhosa e sensível a homenagem que te fazem com oração e canções. Ao fundo a voz de Milton Nascimento e a “Canção da América”: “Amigo é coisa para se guardar, no lado esquerdo do peito”…

E podes ter certeza que é o lugar que todos reservamos para ti. Quão bela a homenagem que nossos amigos Gilsinho e Ronaldo, voz e violão, fizeram para ti. Quanta emoção despertaram!

Fico aqui pensando se devo ou não me manifestar. Não é possível conter a emoção e assim as palavras vão por água abaixo.

Em um segundo plano, afinal o que posso eu mais a dizer a respeito, além de tudo de bom que representas. És unanimidade, destes o exemplo.

Tais pensamentos me remetem aos bancos escolares do meu curso secundário. Estudávamos literatura na disciplina de língua portuguesa. Lembrei-me então de um poema do grande Gonçalves Dias, em cuja obra enaltece a bravura do índio brasileiro. O poema chama-se canção do Tamoio, e se inicia assim:

“Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida

É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos

Só pode exaltar.”

Desde cedo a vida te impôs desafios. Obstáculos que com sofrimento e sacrifício, eu sei, vencestes com bravura, obstinação e dignidade. Rejeitastes a comiseração, enfrentaste a “luta renhida” e nos oferecestes a superação, certamente a tua melhor virtude e teu exemplo.

Hoje, aqui estamos para o sepultamento do teu corpo, que é carne e “ao pó voltará”, mas em cada coração aqui presente estás vivo, orgulhoso de ti mesmo pela missão cumprida. Em nossas lembranças, a tua morada.

Vai, guerreiro tamoio!

Estás agora no lugar a que fazes jus.

Enquanto estiveres vivo na minha memória, agradecerei ao Pai todos os dias, por Ele ter te colocado no meu caminho.

Com admiração e carinho, teu amigo,

Luiz Carlos Sell

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“O Artista” por Edgar Vianna de Andrade

Esperava que o Arthur Soffiati, alter ego do crítico de cinema Edgar Vianna de Andrade, reproduzisse em seu mural do face sua crítica sobre “O Artista”, em cartaz na tela local do Cinemagic, que foi publicada hoje, na versão impressa da Folha. Como Soffiati não o fez, peço licença a ambos para republicar virtualmente a crítica do Edgar, fazendo-o em sequência também no face…

Hollywood: homenagem ou saudosismo?

Por Edgar Vianna de Andrade

A festa do Oscar de 2012 premiou dois filmes que tratam de cinema. O grande vencedor foi “O artista”, escrito e dirigido pelo francês Michel Hazanavicius. George Valentin (Jean Dujardin), ator consagrado no cinema mudo, vê seu prestígio ameaçado com o advento do cinema falado.

O espectador desavisado não imagina quantas obras primas e quantos artistas talentosos foram produzidos e fizeram carreira nos quase trinta anos de cinema mudo. Desde os primórdios do cinema, houve várias tentativas de sincronizar som e imagem. Inserir trilha musical nos filmes não se constituiu num grande problema. A dificuldade estava em fazer as personagens falar. Mesmo assim, grandes obras foram geradas na era do cinema mudo, como os filmes de Georges Méliès, notadamente “Viagem à Lua” (1902); “O Nascimento de uma nação” (1915) e “Intolerância” (1916), ambos dirigidos por D. W. Griffith; os famosos filmes de Charles Chaplin e Buster Keaton, até hoje insuperáveis; “A queda da casa de Usher” (1929), de Jean Epstein; “O gabinete do doutor Caligari” (1920), de Robert Wiene; “Nosferatu” (1922) e “Phantom” (1022), de Friedrich Murnau; “Metrópolis” (1927), de Fritz Lang; “Um Cão Andaluz” (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali; e “O Encouraçado Potemkin” (1925), de Serguei Eisenstein, para só mencionar alguns.

Vários artistas se tornaram ídolos do público, talvez mais até do que atualmente. Entre eles, Douglas Fairbanks, Clara Bow, Charles Chaplin, Mary Pickford, Greta Garbo e Rodolfo Valentino, este o símbolo do cinema mudo e que é homenageado em “O Artista” na figura de Georges Valentin.

Foi em 1927 que a Warner lançou “O cantor de jazz”, considerado o primeiro filme falado em algumas partes da película. O apreciador desavisado também não pode imaginar o estardalhaço que a crítica fez em torno da mudança no cinema. Uma das mais ácidas críticas ao cinema falado foi escrita pelo pensador inglês Aldous Huxley. Até o compositor de música popular Noel Rosa fez um samba descrevendo os males causados pela fala no cinema. Quando a voz sincronizada à imagem foi conseguida, houve diretores que continuaram apegados ao cinema mudo, como Charles Chaplin, em “Luzes da Cidade” (1931) e “Tempos Modernos” (1936).

“O artista” não é um filme para agradar o grande público, que, viciado em produções repletas de efeitos de imagem e de som, não consegue compreender como houve também grande público para o cinema mudo. Até se pergunta como um filme em preto e branco e mudo conseguiu ganhar tantas estatuetas do Oscar. “A invenção de Hugo Cabret”, dirigido pelo consagrado Martin Scorsese, também se reporta às origens do cinema, retratando a vida de Georges Méliès, o verdadeiro pai do cinema comercial. No entanto, por ser em cores e com muito som de fala e de trilha sonora, cativa o público de todas as idades. Por outro lado, não enfoca o grande drama que foi a passagem do cinema mudo para o cinema falado, mas sim o declínio de Méliès com a Primeira Guerra Mundial. Em outras palavras, na era do cinema mudo, operaram-se mudanças, ascensões e decadências.

O tema abordado por Michel Hazanavicius não é novo. No clássico “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder (EUA, 1950), Norma Desmond (Gloria Swanson) é uma artista famosa do cinema mudo marginalizada pelo cinema sonoro. Wilder lança William Holden, representante da nova geração de atores, e recorre a celebridades do cinema mudo, como Cecil B. DeMille e Buster Keaton. DeMille foi um diretor que passou do cinema mudo ao cinema sonoro rapidamente e com sucesso. Gloria Swanson não teve a mesma flexibilidade. Num mundo em que o mercado manda quem não muda e se adapta está fadado à exclusão.

Se Billy Wilder mostra a decadência de uma atriz brilhante do cinema mudo, “O artista” e “A invenção de Hugo Cabret” parecem apontar para outra direção. Mais do que homenagem aos primórdios do cinema, é de se pensar se os dois filmes, conquanto ótimos, não se mostram nostálgicos numa Hollywood que parece ter esgotado sua criatividade.

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Pedrinho, “amigo-pai” na visão de uma mãe

Na edição de ontem da Folha impressa, além do meu texto (aqui) falando sobre a vida de Pedro Otávio Enes Barreto, falecido no último dia 9 de abril, publicado na página 8 do primeiro caderno, outro (belo) texto, também sobre Pedrinho, foi assinado pela professora Regina Tonelli, em seu espaço dominical, sempre à página 2 da Folha Dois. Regina é a mãe de Douglas, um dos tantos amigos dos filhos de Pedrinho, por ele indistintamente adotados, num convívio de igual para igual, sem pretensão a nenhuma condescendência, que tanta saudades deixou em todos.

Não por outro motivo, o blog pede licença à professora, para republicar abaixo sua visão de mãe, sobre a perda sentida desse “amigo-pai” do seu e de tantos outros filhos…

Filhos do coração

Por Regina Tonelli

Poucas pessoas têm a capacidade de amar incondicionalmente. É difícil controlar o egoísmo de querer, apenas para si, o que é melhor e não compartilhar emoções comuns, alegrias cotidianas, amizade e carinho desinteressados.

Poucas pessoas sabem dividir a vida familiar, a vida profissional e a vida pessoal. É difícil não se deixar levar pela lei da “oferta” e querer, apenas para si, tudo que está ao seu alcance, sem olhar para os lados, observando que existem tantos com tão pouco, alguns com muito e raros com o suficiente.

Poucas pessoas conseguem fazer dos amigos uma presença querida de verdade, dos filhos, amigos inseparáveis, da família, o que há de mais importante, do próximo, um irmão escolhido.

Tudo isso eu costumava ouvir daqueles que conheciam de perto Pedro Otávio, ou, o “tio Pedrinho”, ou o Dr. Pedro Otávio, sempre solícito, presente, prestativo, sempre olhando de perto aqueles que precisavam dele, confiantes na sua capacidade, na sua competência, na sua amizade, no seu desprendimento.

Íntegro, respeitado, “boa gente” de fato, foi um lutador. Venceu e tornou-se um grande homem, um profissional completo, um amigo como poucos. E passei a conviver, mesmo à distância, com esse pai que abraçou e adotou os amigos dos seus filhos, os “filhos do coração”, como ele mesmo dizia. “Tio Pedrinho” era uma alegria onde quer que estivesse. Bom papo, presença indispensável nas reuniões de família, nos churrascos dos finais de semana, sempre rodeado da “galera” jovem que o considerava uma espécie de “amigo-pai”, alguém que ria, contava piadas, tomava um chope com “todos” os filhos, muito querido, muito respeitado.

Resistiu bravamente à última batalha. Não se deixou abater e, até nesses momentos difíceis, foi exemplar. Estava sempre rodeado daqueles que soube cativar, daqueles que aprenderam a gostar dele gratuitamente. Os filhos “adotados”, filhos “do coração”, entre eles o meu, choraram a perda, sentiram profundamente a partida de alguém que era um companheiro, uma presença contagiante e que será uma saudade eterna.

Poucas pessoas conseguem ser tão especiais e inesquecíveis como o Dr. Pedro Otávio, como o “tio “ Pedrinho.

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Até outra mesa de bar

“Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”

Na voz de Milton Nascimento, a “Canção da América” ecoou no final da manhã da última terça-feira, no auditório da Faculdade de Medicina de Campos (FMC), entre amigos, parentes, colegas e pacientes de Pedro Otávio Enes Barreto, que lotavam o amplo recinto, reunidos ali, mais do que em torno de um corpo, por um sentimento prenhe de vida, cuja culminância era comungada com rara exatidão pela música. Tomado pelo pranto, com o rosto recolhido no ombro protetor da minha mãe, não vi a expressão da mesma emoção nas muitas outras faces. E nem precisei!

Enquanto ouvia a música entrecortada por meu próprio soluçar, escutava também o coro choroso de dezenas de outros, espocados de todas as direções, num anonimato que desenhava aos meus ouvidos, mesmo em minha cegueira materna e momentânea, a face inconfundível de uma coletividade, do sentimento ancestral de uma tribo a reverenciar a partida de um seu grande homem, que fez da própria vida um sacerdócio à preservação da vida do outro.

No velório e no enterro de Pedrinho, ouvi muitas histórias de e sobre seus pacientes, a maioria contada por pessoas que até então sequer conhecia: “Ele salvou a vida da minha filha!”, me disse uma; “Ele salvou meu pai!”, revelou outro; “Ele fez tudo que pode para salvar e amenizar o sofrimento da minha mãe”, lembrou um terceiro; “Quando fiquei mal de grana e não pude mais pagar a consulta, ele me atendeu de graça e ainda me arrumou os remédios”, confessou uma quarta.

Em meio a essas e tantas outras histórias que narravam o alívio de tanto sofrimento em tantas famílias, em dado momento do velório, na terça, fui obrigado a me preocupar com o ente mais querido da minha própria. Ao perceber que meu filho, Ícaro, de apenas 12 anos, não conseguia conter a forte emoção de que fora acometido desde o dia anterior, quando soube da morte do seu adorado tio Pedrinho, saí com ele do auditório da FMC para a varanda do prédio.

Lá, junto também a meu pai, tentei consolar meu filho, lembrando-o que muito mais forte do que a morte de Pedrinho foi a sua vida integralmente dedicada à preservação das outras, que ali prestavam sua última homenagem. Neste momento, um sujeito aparentando mais ou menos a minha idade, enternecido pela dor da criança, se aproximou, virou para Ícaro e disse: “Seu pai está coberto de razão! A vida de Pedrinho tem que ser lembrada pelas muitas que salvou, inclusive a minha, que já estava desenganado por outros médicos, sem nenhum diagnóstico conclusivo, até ele entrar no caso, me tratar e dar a chance de hoje estar aqui, vivo e bem, falando com você!”.

Mesmo após sua morte, numa cura de Pedrinho ainda a parir outra, Ícaro parou de chorar.

Num documentário sobre jazz, lembro do trompetista estadunidense Wynton Marsalis fazendo a ressalva: “Shakespeare não vai descer a você, Beethoven não vai descer a você. É você que tem que fazer o esforço de se elevar para tentar compreendê-los. E quando consegue, quando chega lá, tem o ganho dessa elevação a que se forçou, dessa nova visão que ganhou a partir de um ponto mais alto”.

Independente à questão da genialidade, a têmpera do grande homem só é forjada quando a atuação individual em qualquer atividade toca aquele ponto coletivo, imutável ao longo dos tempos, que o historiador francês Fernand Braudel chamou de “humanidade de base”, aquilo que o filósofo grego Sócrates frisava ser comum entre mim e você, leitor, entre todas as nossas muitas diferenças, mas fundamentalmente aquilo que nos faz homens e não bestas.

A partir da comoção geral pela morte de Pedrinho, é até natural que todos nós, familiares, amigos e admiradores, busquemos nos elevar a um patamar de humanidade superior, aproximando nossas vidas da dele, nos tornando momentaneamente melhores, mais pacientes, dedicados e sensíveis uns com os outros. Mas e quando passar o tempo, nesse processo de cura mais poderoso que o receituário de todos os médicos? Quando a morte de Pedrinho já não doer tanto, será que continuaremos nos pautando por seu exemplo de altruísmo?

Para quem ama Pedrinho e de fato o admira, o grande desafio, além de não passar a conjugação dos verbos ao pretérito, talvez seja o de manter seus valores vivos em qualquer tempo presente que o futuro reserve. É difícil, mas seria um erro se admirar Pedrinho por aquilo que ele era e julgamos inalcançável para nós mesmos, pois sua grande lição foi justamente ensinar aquilo que cada um de nós pode ser se realmente quiser.

Quem abandonar essa busca estará aceitando que o legado de Pedrinho — “de ética, superação e amor ao próximo”, como sua esposa, Luiza Helena, ressaltou a todos em seu túmulo — tenha deixado esta vida com ele. Quanto a mim, como irrelevante exemplo, por mais que minha arrogância, vaidade, impaciência ao erro alheio e pretensa autossuficiência ora afastem em um universo a minha vida da dele, pretendo sinceramente trabalhar para encurtar essas distâncias.

Longe de se tratar de uma tentativa tola de se “beatificar” ou “canonizar” Pedrinho, guardo com muito carinho todos os momentos que tivemos juntos, incluindo a última vez na qual ele bebeu cachaça, mais Guilherme Guitton e Betinho Vianna, no final do ano passado, na minha casa em Atafona; a última vez em que ele tomou uma cerveja, já no início do verão, junto também do seu filho Pedro Henrique, no Restaurante do Ricardinho, à margem direita da foz do Paraíba; e da sua última noite de vida, de domingo para segunda, já no quarto do Prontocardio em que faleceria algumas horas depois, onde no lugar de qualquer bebida alcoólica, virei aquela madrugada umedecendo seus lábios com uma gaze molhada, contando os segundos entre suas respirações e as gotas d’água que pingava lentamente em sua boca.

Enquanto minhas respirações durarem, tentarei manter vivo seu legado. Se conseguir, talvez mereça acesso à cadeira que ele guarda para mim numa mesa de bar. Afinal, “qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”…

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Mais para Buster Keaton do que para Charles Chaplin

Num mundo onde até monstros sagrados como Martin Scorsese já declararam que, doravante, só pretendem filmar em 3D, fazer um filme mudo foi sem dúvida uma aposta de risco do diretor francês Michel Hazanavicius. Todavia, como não é de hoje que os franceses têm no cinema e na música produzidos nos EUA, suas mais confessas admirações nas relações nem sempre de simpatia com aquele país, talvez não surpreenda tanto uma verdadeira ode de amor à era do cinema mudo de Hollywood, como é o caso de “O Artista”, ganhador de cinco estatuetas do Oscar deste ano, incluindo melhor filme, diretor e ator — Jean Dujardin, que já havia faturado o mesmo prêmio em Cannes.

Talvez para equilibrar o suposto obstáculo da mudez na grande maioria das cenas (embora não em todas), bem como para reforçar a paixão assumida pelo cinema estadunidense, os dois gêneros pelos quais “O Artista” transita não poderiam ser mais populares, nem mais tipicamente hollywoodianos: a comédia romântica e o musical — ainda que, no último caso, por motivos óbvios num filme mudo, com números restritos à dança. E ainda que essa mesma restrição não se repita no falado “Cantando na Chuva”, de 1952, é neste grande clássico dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, que o filme mais recente, também roteirizado por Hazanavicius, bebe desavexadamente para conceber sua trama.

Ambos retratam o mesmo dilema, entre as décadas de 20 e 30 do século passado. Em “Cantando na Chuva”, Gene Kelly é a estrela do cinema mudo Don Lockwood, que encontra grandes dificuldades para fazer a transição ao cinema falado. Mesmo crítica da sua maneira de interpretar, baseado em expressões faciais e gestos exagerados, a dançarina e candidata a atriz Kathy Selden, interpretada por Debbie Reynolds, acaba se apaixonando por Loockwood. E, transposta à tela, a parceria amorosa salva a carreira do astro decadente, ao mascarar sua deficiência nas falas com suas habilidades na dança, transformando seu novo filme, de um constrangedor épico romântico de capa e espada, num musical de sucesso.

Em “O Artista”, Dujardin (muito parecido com Gene Kelly quando jovem) é George Valentin, estrela do cinema mudo que faz sucesso em pares românticos de Hollywood ao lado de “louras burras”, assim como Lockwood em “Cantando na Chuva”. A novidade fica por conta do acréscimo original do pequeno cão Jack (na verdade, chamado Uggy), parceiro inseparável de Valentin na vida e nas telas.

Também como Lockwood, o personagem de Dujardin tem dificuldades na passagem para o cinema falado. E aqui, algumas outras diferenças, já que o ator é de cara descartado pelo estúdio nessa transição, tentando, por conta própria, bancar sua insistência no cinema mudo. Embora com resultado igualmente desastroso, pelo menos o personagem de Gene Kelly chega a tentar atuar falando, enquanto Valentin se nega terminantemente, numa recusa que ganha um caráter obsessivo e quase suicida, gerando algumas interessantes alucinações em contraponto com a mudez do filme.

Embora em “Cantando na Chuva” a consumação do romance real na vida e sua consequente transição em musical nas telas sejam mais rápidas, e menos sofridas, é também uma dançarina e atriz iniciante, elevada à condição de estrela com o cinema falado, que acaba salvando a carreira (e a vida) de Valentin. No caso, a interessantíssima Peppy Miller, interpretada pela bela franco-argentina Bérénice Bejo, esposa na vida real do diretor/roteirista (e homem de sorte) Hazanavicius.

Elencadas todas as “coincidências” (aquelas que o filósofo alemão Friederich Nietzsche dizia não haver) com o falado “Cantando na Chuva”, se tivéssemos que buscar um paralelo para o caráter cômico de “O Artista” dentro do próprio cinema mudo, poder-se-ia dizer que o ganhador do Oscar de 2012, por seu humor mais sutil, está mais para Buster Keaton do que para Charles Chaplin.

Para a grande maioria que não tem a menor ideia de quem foi o primeiro, vale inclusive como possível primeiro passo no interesse para uma fase do cinema na qual muita gente boa da vida real, assim como o Valentin das telas, segue até hoje afirmando terem sido realizadas as maiores obras de uma tal de sétima arte.

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