Expectativa
- Autor do post:Aluysio Abreu Barbosa
- Post publicado:20 de setembro de 2011 - 10:00
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Independente da área de atuação, poucas vezes é dado a dois grandes homens as possibilidades de tempo e espaço para o encontro pessoal. E, quando este acontece, imprevisíveis são as consequências. Podem ser irrelevantes, como parece ter sido quando o italiano Cristóvão Colombo (1451/1506) voltou da sua descoberta da América, em 1492, no comando de uma missão espanhola e, obrigado a aportar primeiro em Lisboa no regresso à Europa, por conta de uma tempestade, foi recebido no cais do rio Tejo pelo almirante português Bartolomeu Dias (1450/1500), que havia descoberto o caminho para às Índias pelo outro lado do mundo, quatro anos antes, após contornar a África.
Todavia, eventualmente esses encontros podem também servir para elevar o nível dos envolvidos. Pode ser através da competição pura e simples, como nas diversas vezes em que Leonardo da Vinci (1452/1519) e Miguelangelo Buonarroti (1475/1564) se cruzaram na Florença do Renascimento.
Por outro lado, a competitividade pode dar uma trégua e baixar um pouco a guarda à colaboração, caso feliz em áreas tão diversas quanto o de Pelé e Garrincha (1933/83) no futebol, de Michael Jordan e Magic Johnson no basquete, de Vincent Van Gogh (1853/90) e Paul Gauguin (1848/1903) na pintura, de Sigmund Freud (1856/1939) e Carl Jung (1875/1961) na psicanálise, de Wolfgand Amadeus Mozart (1756/91) e Ludwig van Beethoven (1770/1827) na música erudita, de Charlie Parker (1920/55) e Miles Davis (1926/91) no jazz, ou de Tom Jobim (1927/94) e Chico Buarque na MPB.
Mas raras vezes na História, tais encontros titânicos, sobretudo quando se dão apenas uma única vez, renderam descrição tão generosa e precisa quanto a que o escritor e filósofo cretense Nikos Kazantzákis (1883/1957) deixou do poeta grego (embora nascido e criado em Alexandria, no Egito) Konstantinos Kaváfis (1863/1933).
Mais conhecido fora da Grécia pelas adpatações de dois de seus romances ao cinema, “Zorba, o grego” (clássico da sétima arte na interpretação antológica de Anthony Quinn) e “A última tentação de Cristo” (pelas mãos de ninguém menos que Martin Scorsese), Kazantzákis assim descreveu o encontro com aquele que, ao seu lado, foi o maior nome do modernismo grego…
“À meia-luz de sua morada senhorial, eu tentava distinguir seu rosto. Entre nós há uma mesinha, cheia de copos com licor de lentisco de Quios e de whisky — e nós bebemos. Falamos sobre grande número de pessoas e de idéias, rimos, calamos, e a conversa recomeça, com certo esforço. Eu luto para esconder no riso minha emoção e a alegria. Eis diante de mim um homem íntegro, que realiza a proeza da arte, orgulhosa e silenciosamente, um chefe solitário que submete a curiosidade, a ambição e a sensualidade, ao ritmo severo de uma ascese epicuréia…
“Distinguo na obscuridade, sobre o divã, sua figura — ora ele é todo expressão mefistotélica e ironia; seus belos olhos negros brilham logo que cai sobre eles um pequeno raio da luz das velas; ora inclina-se novamente, todo fineza, decadência e fadiga.
“Sua voz é cheia de denguices e colorida — e encanta-me que sua velha alma pecadora, ornamentada, pintada, cheia de galanteria, e astuta se exprima com tal voz.
“Como o vejo pela primeira vez esta noite e o escuto, compreendo quão sabiamente uma tal alma, complexa, sobrecarregada, da sagrada decadência, conseguiu achar sua forma na arte — a forma perfeita que lhe convém — e subsistir.
“O verso de Kaváfis, aparentemente improvisado, mas sabiamente elaborado, sua linguagem deliberadamente antimônica, sua rima despretensiosa formam o único corpo que podia fielmente envolver e revelar sua alma.
“Corpo e alma em seus poemas constituem uma unidade. Raramente na história da nossa literatura houve uma tal unidade tão organicamente perfeita. Kaváfis é uma das últimas flores de uma civilização. Com pétalas duplas, descoradas, e um longo pedúnculo fraco, sem semente.
“Kaváfis tem todos os traços típicos de um homem extraordinário da decadência — sábio, irônico, hedonista, sedutor, rico de memória. Vive como um indiferente, como um ousado. Estendido numa poltrona fofa, olha pela janela, esperando que os Bárbaros apareçam. Segura um pergaminho com elogios finamente caligrafados, está vestido de roupas de festa, pitando cuidadosamente e espera. Mas os bárbaros não vêm, e, perto da noite, ele suspira tranquilamente, e sorri ironicamente da sua alma a esperar.
“Contemplo-o nesta noite e admiro esta corjosa alma que lentamente se despede, passivamente, sem vigor e sem covardia, da Alexandria que ele perde”.
Mais raro que dois homens de todos os tempos se cruzarem em dado momento das suas vidas, é quando quatro o fazem para se moldar em sequência, como Sócrates (469/399 a.C.), Platão (428/348 a.C.), Aristóteles (384/322 a.C.) e Alexandre (356/323 a.C.), numa linha direta que conduziu a civilização grega ao seu zênite. E se este foi seu ponto mais alto, de tudo aquilo que raiou na aurora de Homero (séc. VII a.C.), Kaváfis foi do crepúsculo o último raio de sol…

Ítaca
Quando partires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o irascível Poseidon, não os encontrarás,
se não os levas em tua alma,
se tua alma não os ergue diante de ti.
Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
pára em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.
Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias a caminho.
Nada mais tem a dar-te.
Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,
já deves ter compreendido o que significam as Ítacas.
1911
(Tradução de Ísis Borges da Fonseca)
Ιθάκη
Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,
αν μεν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.
Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωϊά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους,
να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ’ έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά,
σε πόλεις Αιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.
Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί ειν’ ο προορισμός σου.
Αλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει
και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στο δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.
Η Ιθάκη σ’έδωσε τ’ ωραίο ταξείδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.
Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δε σε γέλασε.
Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες οι Ιθάκες τι σημαίνουν.
O ano era 1994. Tentava retomar a carreira acadêmica abandonada em Campos. Morava no Rio, junto com meu irmão, Christiano. Sua namorada de então, Eliana, fazia psicologia na Universidade Santa Úrsula (USU), curso que teve um dos alunos, Luiz Alberto Barbosa Gomes Angeiras (1968/1994), assassinado aos 25 anos, por dois PMs, com dois tiros pelas costas, em troca de um relógio e uns trocados, no município de São Pedro da Aldeia, em fevereiro daquele ano.
À época, ainda em Campos, soube do caso pela repecussão na mídia. Meses depois, a lembrança foi resgatada quando descobri, já morando no Rio, que o Beto Angeiras, como era mais conhecido, era poeta, e dos bons, grata influência assumida do paranaense maldito Paulo Leminski (1944/1989).
Eliana ganhou na USU um exemplar do livro “Idos Gemidos”, coletânea dos poemas de Beto reunida e editada por seus amigos, e me presenteou, provavelmente pelo fato de eu ter vencido, dois anos antes, o FestCampos de Poesia Falada — prêmio que voltaria a conquistar, mais maduro, em 2007.
O fato é que, desde que ganhei e devorei o livro, guardado com carinho até hoje, fiquei impactado não só pela jovem vida desperdiçada por motivo tão banal e torpe, como por aquilo que nunca saberemos da continuidade do poeta ainda promissor — daquilo que seu colega de ofício português Fernando Pessoa (1888/1935) tão bem definiu como “a história do que poderia ter sido”.
Pelo jovem poeta que Beto sempre será, que tanto marcou aquele que fui um dia, o blog selecionou três dos seus poemas, todos sem título, para a publicação neste domingo.
O primeiro, fruto do amor desabusado pela vida, quando um homem encontra na mulher, em generosa comunhão de carne, seu abrigo ao menino. O segundo, em todas as suas metades-migalhas, como consta aqui, no blog Asazul, da Vilma, é, não sem motivos, o preferido inteiro da mãe do autor, Maria Regina.
Todavia, é do terceiro que talvez se possa extrair a melhor lição, sobretudo neste 11 de setembro em que o mundo pára para refletir sobre a violência que tanto o marcou há exata uma década. Mesmo diante do assassínio a traição, seja por duas balas ou dois aviões, de um ou de tantos: “Deixa que a poesia,/ ela própria,/ corrige a vida”.

Tenho o estômago forte
e as veias alargadas, avenidas por onde corre
querosene, álcool,
gasolina.
E a faísca que se produz entre tuas pernas.
No teu cio alagado,
nos teus músculos contraídos,
nos teus dentes na minha carne.
Que teu gozo venha sempre primeiro,
feroz e feminino.
Incendiando o desejo,
desatinando os sentidos
e me convidando a ser homem, antes de,
menino,
procurar teu abrigo
Tua falta, metade fita,
É metade lenda,
Distinta farsa
Tua falta é quase nada
É metade linda
Metade faca
Tua falta, quase tudo
Vento que espalha
Gota, migalha
Impossibilidade
Vai, vai fazer fazer poesia,
vai cada ano rimando,
medindo, apagando.
Vai.
Vai enquanto a peste
mata negra e raivosa
um a um de sua aldeia.
Vai.
Vai fazer poesia,
Que beleza não tem hora
e nem tem dia.
Vai.
Deixa que a poesia,
ela própria,
corrige a vida.

Vitória dos idiotas (*)
Contabilizar mortos, feridos e prejuízos. Identificar os autores do atentado, usando de todos os recursos de perícia e investigação existentes no mundo… Retaliar!
Independente dos fatores, o produto será sempre o mesmo: homens comuns serão conduzidos, matarão, morrerão… Vencerão os idiotas!
Cinéfilo, tenho “Lawrence da Arábia”, de David Lean, Peter O’Toole de protagonista, como melhor filme já feito. Lendo, há cerca de dois anos, em caderno dedicado à Literatura, descobri que tinham reeditado no Brasil “Os Setes Pilares da Sabedoria”, escrito pelo próprio Thomas Edward Lawrence, oficial britânico que comandou a Revolta Árabe contra o Império Turco, no Oriente Médio da 1ª Guerra Mundial (1914/18). Mulçumanos contra mulçumanos, guiados por um cristão numa aventura real, vitoriosa sob condições amplamente adversas, que li com pena de acabar.
Até então, embora já conhecesse relativamente bem os textos bíblicos, as religiões nascidas no Oriente Médio — Judaísmo, Cristianismo e Islamismo — eram-me temas desinteressantes, caros aos alienados. Como a brasilidade que descobri a partir de Euclides da Cunha com seu (nosso!) “Os Sertões”, o guerreiro, historiador, arqueólogo, pragmático e poeta T.E Lawrence, Hamlet do Hedjaz, me transmitiu a certeza de que alienado, pelo menos no Ocidente, é quem, crente ou ateu, não se sabe o fruto social dos padrões sociais morais ditados por Javé, Deus de Abraão, revelado aos homens por Móshe (Moisés), Yeshua (Jesus) e Mohammad (Maomé). Tudo que se possa ler sobre História, Arqueologia, Antropologia e Teologia — Paleontologia, nesses casos, é só para idiotas — endossa o útero comum entre as três grandes religiões.
Em língua prática, um judeu, um cristão e muçulmano crêem no mesmo Deus. Se brigam, o fazem com três flamenguistas que lutassem, até a morte, porque um prefere o Flamengo de Zico, outro o Flamengo de Romário e o terceiro, o Flamengo de Petkovic. Os craques, assim como os reveladores e sua leituras teológicas, são importantes, mas não mais cores comuns do clube, não mais que a irmandade em Deus.
Se os ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington, usando aviões de passageiros sequestrados, matando milhares de pessoas, foi realmente obra de extremistas islâmicos, foi estupidez. Não apenas pelo ato vil, covarde, ignóbil, mas pelo contexto em que o mesmo se deu.
Depois de décadas insistindo nas armas como caminho da auto-afirmação, os muçulmanos pareciam ter aprendido que a abertura gradual e o diálogo entre distintos, que assumir, sem vergonha ou orgulho, o papel de vítima, formavam a conduta mais frutífera para sobreviver num mundo ditado pela mídia. Pela primeira vez, EUA e Israel — o primeiro governado por um incapaz (George W. Bush), o segundo por um genocida (Ariel Sharon) — passavam à condição de algozes, após terem abandonado a Conferência Internacional contra o Racismo, promovida pela ONU, em Durban, na África do Sul, onde se condenava a política sionista de ocupação em territórios palestinos.
Apelar à força, à covardia, quando conversar, mostrando-se vítima da covardia, começa a surtir efeito, é atitude de idiota. E os idiotas continuarão a vencer se houver retaliação, e a retaliação da retaliação, e a retaliação da retaliação da retaliação, e… A vitória da qual ninguém sobreviverá: a vitória suprema dos idiotas!
Os traços de choque e terror que, ontem, nas TVs de todo o mundo, habitavam rostos correndo apavorados nas ruas de Nova York, eram os mesmos das crianças irlandesas acossadas entre católicos e protestantes, os mesmos dos garotos palestinos que enfrentam tanques israelenses com pedras, os mesmos das faces descarnadas pela peste e pela fome na África, os mesmos de um judeu num campo de concentração nazista, os mesmos do brasileiro entre o tráfico e a miséria na favela da sua cidade. Sensibilizamo-nos e reproduzimos em nossas próprias faces os mesmos sentimentos, os mesmos traços, porque, seja em Deus ou na Ciência, em Adão ou na molécula protêica que a tudo gerou, somos todos irmãos!
(*) Artigo publicado na Folha da Manhã, em 12 de setembro de 2001