Geraldo Coutinho (presidente municipal do PSDB) — “Repito a opinião que dei na primeira vez em que a prefeita foi cassada: A cidade sofre com essa insegurança jurídica. Neste momento, não cabe fazer avaliação de mérito, mas lamento que a Justiça não disponha dos instrumentos para fazer as correções no tempo adequado. Se Rosinha não tinha condições de concorrer, de se eleger, de assumir e, depois de cassada a primeira vez, de reassumir a Prefeitura, porque essa decisão só agora, já caminhando para a conclusão do terceiro ano de um mandato de quatro? Essa troca constante de prefeitos em Campos, que não começou agora, é extremanente prejudicial à população, gerando instabilidade e descontinuidade administrativa. Quem diz o contrário, está vendo apenas o próprio interesse. Quanto à aliança do PSDB com o PR, ela foi firmada pelo projeto eleitoral de Rosinha para 2012. Por ora, nada muda, até que a questão seja clareada nos próximos dias, semanas ou meses. Mas, a confirmar o que está apontado com essa decisão de agora, lógico que novas conversas serão necessárias”.
Independente da área de atuação, poucas vezes é dado a dois grandes homens as possibilidades de tempo e espaço para o encontro pessoal. E, quando este acontece, imprevisíveis são as consequências. Podem ser irrelevantes, como parece ter sido quando o italiano Cristóvão Colombo (1451/1506) voltou da sua descoberta da América, em 1492, no comando de uma missão espanhola e, obrigado a aportar primeiro em Lisboa no regresso à Europa, por conta de uma tempestade, foi recebido no cais do rio Tejo pelo almirante português Bartolomeu Dias (1450/1500), que havia descoberto o caminho para às Índias pelo outro lado do mundo, quatro anos antes, após contornar a África.
Todavia, eventualmente esses encontros podem também servir para elevar o nível dos envolvidos. Pode ser através da competição pura e simples, como nas diversas vezes em que Leonardo da Vinci (1452/1519) e Miguelangelo Buonarroti (1475/1564) se cruzaram na Florença do Renascimento.
Por outro lado, a competitividade pode dar uma trégua e baixar um pouco a guarda à colaboração, caso feliz em áreas tão diversas quanto o de Pelé e Garrincha (1933/83) no futebol, de Michael Jordan e Magic Johnson no basquete, de Vincent Van Gogh (1853/90) e Paul Gauguin (1848/1903) na pintura, de Sigmund Freud (1856/1939) e Carl Jung (1875/1961) na psicanálise, de Wolfgand Amadeus Mozart (1756/91) e Ludwig van Beethoven (1770/1827) na música erudita, de Charlie Parker (1920/55) e Miles Davis (1926/91) no jazz, ou de Tom Jobim (1927/94) e Chico Buarque na MPB.
Mas raras vezes na História, tais encontros titânicos, sobretudo quando se dão apenas uma única vez, renderam descrição tão generosa e precisa quanto a que o escritor e filósofo cretense Nikos Kazantzákis (1883/1957) deixou do poeta grego (embora nascido e criado em Alexandria, no Egito) Konstantinos Kaváfis (1863/1933).
Mais conhecido fora da Grécia pelas adpatações de dois de seus romances ao cinema, “Zorba, o grego” (clássico da sétima arte na interpretação antológica de Anthony Quinn) e “A última tentação de Cristo” (pelas mãos de ninguém menos que Martin Scorsese), Kazantzákis assim descreveu o encontro com aquele que, ao seu lado, foi o maior nome do modernismo grego…
“À meia-luz de sua morada senhorial, eu tentava distinguir seu rosto. Entre nós há uma mesinha, cheia de copos com licor de lentisco de Quios e de whisky — e nós bebemos. Falamos sobre grande número de pessoas e de idéias, rimos, calamos, e a conversa recomeça, com certo esforço. Eu luto para esconder no riso minha emoção e a alegria. Eis diante de mim um homem íntegro, que realiza a proeza da arte, orgulhosa e silenciosamente, um chefe solitário que submete a curiosidade, a ambição e a sensualidade, ao ritmo severo de uma ascese epicuréia…
“Distinguo na obscuridade, sobre o divã, sua figura — ora ele é todo expressão mefistotélica e ironia; seus belos olhos negros brilham logo que cai sobre eles um pequeno raio da luz das velas; ora inclina-se novamente, todo fineza, decadência e fadiga.
“Sua voz é cheia de denguices e colorida — e encanta-me que sua velha alma pecadora, ornamentada, pintada, cheia de galanteria, e astuta se exprima com tal voz.
“Como o vejo pela primeira vez esta noite e o escuto, compreendo quão sabiamente uma tal alma, complexa, sobrecarregada, da sagrada decadência, conseguiu achar sua forma na arte — a forma perfeita que lhe convém — e subsistir.
“O verso de Kaváfis, aparentemente improvisado, mas sabiamente elaborado, sua linguagem deliberadamente antimônica, sua rima despretensiosa formam o único corpo que podia fielmente envolver e revelar sua alma.
“Corpo e alma em seus poemas constituem uma unidade. Raramente na história da nossa literatura houve uma tal unidade tão organicamente perfeita. Kaváfis é uma das últimas flores de uma civilização. Com pétalas duplas, descoradas, e um longo pedúnculo fraco, sem semente.
“Kaváfis tem todos os traços típicos de um homem extraordinário da decadência — sábio, irônico, hedonista, sedutor, rico de memória. Vive como um indiferente, como um ousado. Estendido numa poltrona fofa, olha pela janela, esperando que os Bárbaros apareçam. Segura um pergaminho com elogios finamente caligrafados, está vestido de roupas de festa, pitando cuidadosamente e espera. Mas os bárbaros não vêm, e, perto da noite, ele suspira tranquilamente, e sorri ironicamente da sua alma a esperar.
“Contemplo-o nesta noite e admiro esta corjosa alma que lentamente se despede, passivamente, sem vigor e sem covardia, da Alexandria que ele perde”.
Mais raro que dois homens de todos os tempos se cruzarem em dado momento das suas vidas, é quando quatro o fazem para se moldar em sequência, como Sócrates (469/399 a.C.), Platão (428/348 a.C.), Aristóteles (384/322 a.C.) e Alexandre (356/323 a.C.), numa linha direta que conduziu a civilização grega ao seu zênite. E se este foi seu ponto mais alto, de tudo aquilo que raiou na aurora de Homero (séc. VII a.C.), Kaváfis foi do crepúsculo o último raio de sol…
Pôr do sol da Biblioteca da Alexandria
Ítaca
Quando partires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o irascível Poseidon, não os encontrarás,
se não os levas em tua alma,
se tua alma não os ergue diante de ti.
Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
pára em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.
Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias a caminho.
Nada mais tem a dar-te.
Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,
já deves ter compreendido o que significam as Ítacas.