Opiniões

Sem medo da rainha Dilma, jovens das ruas querem distância do antigo PT

Jornalista e escritor Nelson Motta
Jornalista e escritor Nelson Motta

Os Jovens do Restelo

Por Nelson Mota

Há dois meses, a presidente Dilma comparava os que criticavam o governo ao Velho do Restelo, de Camões, como símbolo do derrotista agourento. Hoje a rainha está nua. E ninguém ousa lhe contar. O mito da grande gestora ruiu: como mostrou a reportagem de José Casado, seu governo não conseguiu gastar em 2012 nem metade das verbas do orçamento para Saúde, Educação e Transporte — o que desmoraliza qualquer gestão. E também é a prova cabal de que não falta dinheiro para investir, mas capacidade de usá-lo em benefício da população.

Com os assessores e aliados que tem, que se borram de medo dela, a presidente não tem pior adversário do que seu temperamento autoritário, mesmo sendo uma democrata. Um exemplo é a recente sugestão, crítica jamais, do ministro Gilberto Carvalho à presidente, em reunião ministerial para aplacar os protestos: “Temos que estar mais junto dos movimentos sociais. Esta meninada que está nas ruas antigamente estava com a gente. Não está mais.”

Por que será? rsrsrs

Uma pista: 74% dos petistas consultados pelo Datafolha são a favor da prisão imediata dos mensaleiros condenados. Eles também se sentem traídos. Como estar mais junto de movimentos sociais espontâneos, sem lideranças nem manadas domesticadas, que não podem ser cooptados com verbas e cargos? Será que ele não entendeu que as jovens multidões estão contra os privilégios, a corrupção e a incompetência dos governos, do PT e dos demais partidos? Ou tem medo de dizer e a rainha gritar “cortem-lhe a cabeça”?

Na mesma reunião, a ministra Maria do Rosário diagnosticou que “houve um afastamento do governo das demandas dos movimentos sociais. O governo está longe do PT antigo”.

Mas os movimentos sociais da ministra estão longe das ruas, não estão demandando nada além do de sempre, se contentam com verbas e afagos do ministro Gilberto. A UNE, os sindicatos amestrados e os movimentos sociais estatizados não estavam na rua. Quem estava eram os Jovens do Restelo, a classe média, a antiga e a nova, que paga a conta. Para eles, do PT antigo de Zé Dirceu, João Paulo e Genoino, quanto mais longe, melhor.

Publicado hoje na edição impressa de O Globo.

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Este post tem 2 comentários

  1. “Ha algo podre no reino da Dinamarca”Algo não MUITO podre.

  2. Panela em que dois mexem…

    Já diziam os antigos, “panela em que dois mexem, desanda”. Era esse o meu receio quando o MPL chamou o populacho às ruas para manifestar-se contra o aumento de R$ 0,20 nas passagens de ônibus na capital paulista.

    O movimento prometia ser localizado, mas tornou-se maior do que o próprio MPL esperava e elevou seus líderes a celebridades contestadoras, tinham tudo para tornarem-se líderes nacionais de uma (ou muitas) mudança estrutural nacional.

    Retiraram bandeiras partidárias das ruas, o que foi uma grande jogada, levando-se em conta que o brasileiro médio não entende quais as funções de partidos e vê nas siglas partidárias nada menos do que sindicatos de bandidos. Maneira de ganhar a simpatia popular.

    Expulsos os partidos – e isso ficou ainda mais patente com a escorraçada que deram no bloco de petistas que, a mando do presidente do partido, resolveu assumir a paternidade da multidão na Avenida Paulista – a oposição recolheu-se. Era a grande oportunidade de que precisava para opor-se de verdade, ao contrário do arremedo de oposição que desenhou-se após a ascensão petista no primeiro mandato de Lula.

    Sob recomendação do próprio Lula e de seu lua parda, João Santana, Dilma apoiou as manifestações contra ela e seus cúmplices palacianos e congressistas. Recebeu aplausos da mídia pela iniciativa e retirou o MPL das ruas. Esvaziou o movimento que já havia se espalhado país a dentro.

    O mote “o gigante acordou”, gritado a pulmões plenos e repetido em caixa alta nas redes sociais foi perdendo o fôlego.

    Dilma, espertamente, propôs um pacto, prometeu mundos e fundos e pouquíssima gente percebeu que ela fazia promessas para que nós subíssemos de joelhos o Redentor. Nenhuma das medidas prometidas depende diretamente do Executivo, o Poder que tem em suas mãos o comando. Fez promessas a serem cumpridas pelo Legislativo e pelos executivos estaduais e municipais.

    A oposição sem voz, aquela que reverbera sem ser ouvida nas redes sociais e nos botecos, achou-se vitoriosa. Acreditou na imprensa que cantava a vitória do “povo”. Voltou à sua letargia histórica.

    Os chefinhos do MPL, Fist (de que nunca havia ouvido falar antes de ver suas bandeiras tremulando pela Paulista) e todos os demais “movimentozinhos sociais”, depois de recebidos no Planalto pela sua comandante-em-chefe, recolheram-se. As iminentes eminências desapareceram na velocidade com que surgiram, sabe-se lá às custas de que afagos presidenciais.

    O Senado, não amedrontado, apenas assustado, aprovou de afogadilho um projeto de lei que tornaria corrupção em crime hediondo, uma das promessas da presidente. Combinado ou não, dias depois a Câmara desaprova o mesmo projeto, fazendo com que corrupção fosse crime hediondo pelo tempo recorde de cinco dias.

    Coincidentemente ou não, o levante popular coincidiu com a Copa das Confederações. Estavam nas ruas cartazes, faixas e gritos comparando o maldito “padrão Fifa” dos estádios e de organização com o “padrão PT” de infraestrutura e cuidados deveras sociais, como saúde, educação e transporte. “Não precisamos de estádios, mas de hospitais”, “Não temos escolas, mas temos estádios”, “FIFA go home!” lia-se e ouvia-se em todos os lugares. E esta gritaria durou até domingo, dia em que o Brasil golearia a Espanha, tornar-se-ia campeão intercontinental e ufanismo, pela milionésima vez, seria confundido com patriotismo e o gigante que havia acordado foi ninado mais uma vez. Voltou ao seu berço esplêndido e espoliado.

    Plebiscito ou referendo ou reforma política ou constituinte… A proposta de constituinte lançada por Dilma foi desmontada nas primeiras vinte e quatro horas após feita. Juristas, OAB, imprensa uniram-se em uníssono contra esse engodo. Parte do populacho fez beicinho, sem entender ou querer entender as implicações legais, pecuniárias e cronológicas da medida.

    Reforma política, algo que tramita nas épocas de eleições, há mais de quarenta anos no Congresso, parece ser vontade geral. Parece! De fato os cardeais da política nacional, verdadeiros oligarcas como Sarney, Collor, Lula, Calheiros, os Braga do Amazonas e Acre, Íris Resende, Perillo, os herdeiros de Arraes e outros tantos, só aceitam uma reforma política se for para manter tudo como está e não correrem o risco de perderem um milímetro de seu poder para novos que possam aparecer.

    Restam plebiscito e referendo, duas formas de darem ao povão a oportunidade de tornarem-se cúmplices das bobagens fantasiadas de reforma política que hão de aparecer.

    Com imprensa na algibeira e mais o erário, o cheque e a caneta à sua disposição, governo e governistas terão os meios de comunicação e atores globais à venda, prontos para convencerem os mesmos eleitores tão politizados que elegem seus algozes e torcem por eles como torceram pela seleção brasileira contra a Espanha, que é sua vontade que está sendo aprovada nas urnas. Plebiscitos não são respeitados num país em que decretos presidencias viram leis, medidas provisórias caducam ou são negociadas em troca de obras, empregos ou favores pessoais. Plebiscitos mostraram-se arma poderosa dos governos bolivarianos congraçados anualmente nas reuniões do foro de São Paulo.

    Aquela molecada que saíra às ruas em mais de cem cidades protestando contra… contra… contra o quê mesmo?, não sabia se o que os jornais estavam falando, discutindo, dizendo e desdizendo é bom ou ruim. Virou discussão de gente grande. “Continuamos contra”, só não sabemos contra o quê. Alijaram o populacho do embate.

    Vem a segunda fase das manifestações. Aparecem em cena os sindicatos. Médicos contra médicos cubanos; caminhoneiros contra pedágios; bancários contra, ou melhor, a favor de aumentos salariais; meia dúzia de grêmios estudantis pedindo passagem grátis… As muitas mãos que mexiam a panela tomaram colheres diferentes e o governo seguiu à risca o secular ensinamento: dividir para conquistar.

    Dividiram a movimentação popular em vários movimentozinhos, mais fáceis de serem dominados. Mandaram a garotada, em pleno gozo de férias escolares, de volta para suas casas, para as férias na Disney, para a fazenda dos avós e para seus X-boxes. Alisaram as cabeças dos líderes dos “movimentos sociais”, como disse, sabe-se lá a que custas. Fizeram e fazem reuniões com os caciques políticos que fazem parte de seu clube particular. Ignoraram as propostas plausíveis de reforma política, como as feitas por Aécio Neves em seu primeiro discurso após o levante. Continuam a esconder os gastos com cartões corporativos em nome da segurança nacional, a despeito do discurso de transparência da maior gastadeira, a presidente…

    Tudo voltou a ser como antes, mesmo que os repórteres, ávidos por sensacionalismo para suas manchetes, insistam que o país mudou, que nada será como antes. E o povão, satisfeito com suas vitórias cantadas e recantadas, volta à sua vidinha de assaltado, como se não fosse com ele o problema.

    http://www.s-e-2.blogspot.com.br/2013/07/panela-em-que-dois-mexem.html

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