Opiniões

De quando a mediocridade do campista quer ser (e roubar) o espetáculo

Quem já conhecia o texto de Adriano Moura por seus poemas, suas peças teatrais e, mais recentemente, por seu romance e seus artigos na Folha Dois, publicados toda terça, não surpreende que esse artista e educador goitacá venha fazendo tanto sucesso nas redes sociais, desde que resolveu se modernizar e nelas também verter seu texto sempre primoroso em forma e contundente no conteúdo. Abaixo, a blog pede licença para reproduzir sua crítica cirúrgica, feita aqui, a uma característica tão latente na deseducação do campista, fruto do narcisismo mais medíocre e da carência do aparelho imaginário definido pelas professoras do primário como “desconfiômetro”, que tanto incomoda a quem é capaz de ver o mundo além das bordas do próprio umbigo, seja nos cinemas, teatros ou shows mais intimistas, que não abarquem multidões, desta planície parida e cortada pelo Paraíba do Sul…

Inferno digital

Máquinas fotográficas e celulares deveriam ser recolhidos na entrada dos teatros, como ocorre nos concursos públicos, e só deveriam ser devolvidos no final da prova, ou melhor, da sessão. É inútil o aviso no início dos espetáculos de que não se pode filmar nem fotografar. Basta a luz da plateia se apagar para a miríade de vaga-lumes digitais começar seu pisca-pisca incessante. A situação se agrava quando, além de fotografar, a pessoa quer postar a foto ou vídeo em tempo real no facebook, mas não sabe como e pede ajuda ao acompanhante. O que se vê é o bebê luminoso no colo comprometendo, algumas vezes, o efeito da luz que emana do palco. Os obcecados não conseguem esperar o fim da peça para dizer aos demais “facebookianos” que eles estão ali, vendo o artista “X”. Tudo tem de ser em tempo real. Assisti a uma peça teatral durante a qual um casal editou as fotos que tirou para colocar no instagram. A impressão que dava era de que estavam ali apenas para ter o quer mostrar aos seus patrícios internautas. Mais trágico ainda é quando, depois de tantos avisos, o celular de alguém toca (geralmente é uma musiquinha do tipo “show das poderosas”). Mas a situação beira mesmo a catástrofe quando o mal-educado resolve atender, e o restante do público precisa de um esforço redobrado para ouvir o que se diz no palco. É preciso entender que espetáculo dentro de um teatro não é igual a show na Pecuária. Luz e barulho fora do tom atrapalham não apenas o artista, mas também os espectadores que estão ali pelo espetáculo, não para o exercício narcísico da autoimagem.

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Este post tem 3 comentários

  1. Sei que na planície goitacá temos várias peculiaridades, mas esse “inferno digital” ocorre em todo o mundo, dias atrás a cantora Jeniffer lopes em show nos EUA, chamou a atenção de um espectador pedindo pra ele aproveitar o show e esquecer da camera, que ela estava ali perto dele cantando para ele. Infelizmente as pessoas não entendem o quanto estão se tornando refem das mídias sociais com suas “postagens”,e com isso enriquecendo seus acionistas. Acorda gente!! Esqueça o mundo digital e viva o mundo real!!

  2. Crítica correta e honesta. É por isto que não vou mais aos espetáculos, tanto de teatro quanto de músicos, aqui em Campos!

    Não é por menos que alguns artistas já interromperam as suas apresentações. No passado, Taiguara. Além de ter reclamado do piano desafinado, interrompeu a apresentação devido ao ruído na platéia. Idem, o violonista Baden Powell. Numa performance de “Eu sei que vou te amar”, algumas pessoas começaram a cantar a música. Ele parou e avisou que a apresentação pretendia mostrar “uma leitura própria”. Mal recomeçou, e duas senhoras, bem desafinadas, diga-se de passagem, começaram a cantar!

    Ele levantou-se e retirou-se do palco. E ainda houve quem não compreendeu e danou a berrar no auditório, ofendendo o intérprete!
    No caso do Taiguara, a coisa foi pior! Ele fora agredido, e teve que sair sob proteção policial.

    O público precisa entender quando o artista solicita a sua participação! Num show com Djavan, no Trianon, o artista não conseguia cantar “só”!

    Em resumo, com honrosas exceções, o campista é mal acostumado, para não dizer “mal educado” nas apresentações públicas! Esta coisa do “celular”, é mais aberrante ainda! Seja em apresentações teatrais, seja em cultos, missas e até em velório!

    Talvez exatamente por isso, tantos “artistas” populescos e de tremendo mau gosto se apresentam por aqui! Como o caso recente, de 40 mil pessoas que foram a um determinado “show” na cidade. Se formos avaliar a questão cultural à partir de tal “fenômeno”, o IDEB vai dar coeficiente negativo! Êta Campos!!!

  3. Savio,

    Essa do Taiguara e do Baden Powell foi aqui em Campos??????

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