Protesto em via de acesso ao Itaquerão deixa dois jornalistas da CNN feridos

Polícia entrou em confronto com manifestantes (foto de Rodrigo Abd - AP Photo)
Polícia entrou em confronto com manifestantes (foto de Rodrigo Abd – AP Photo)

 

Enquanto São Paulo se prepara para a abertura da Copa do Mundo nesta quinta-feira (12), os primeiros protestos contra os gastos no Mundial já começaram. Na manhã desta quinta, um grupo de 60 manifestantes entrou em confronto com a Polícia Militar ao lado da estação de metrô Carrão, na zona leste da capital paulista.

Ainda não há informação total de feridos ou detidos. No entanto, segundo a rede de televisão americana CNN, dois jornalistas ficaram “levemente feridos” no confronto.

A PM fez um cordão de isolamento para que o grupo não fechasse a Radial Leste, importante via de ligação à Arena Corinthians, palco da abertura da Copa. A PM também soltou bombas de efeito moral diante do grupo e deteve alguns manifestantes.

A polícia continua posicionada no local. Os manifestantes seguem na Rua Apucarana para tentar furar o cordão de isolamento e entrar na Radial Leste.

Os manifestantes fazem parte de movimentos sociais contra a Copa do Mundo no Brasil, que organizaram nas redes sociais este encontro perto do metrô com o objetivo de ir até o estádio de inauguração do Mundial.

Além do “Grande Ato Contra a Copa”, estão previstas para hoje manifestações em todas as cidades-sedes da Copa.

 

Manifestante detido pela PM ao tentar bloquear o principal acesso ao Itaquerão contra os gastos empregados na Copa 2014 (foto de Rodrigo Abd - AP Photo)
Manifestante detido pela PM ao tentar bloquear o principal acesso ao Itaquerão contra os gastos empregados na Copa 2014 (foto de Rodrigo Abd – AP Photo)

 

Fonte: Revista Época

 

Atualização às 14h18:

 

Atingida por estilhaços de uma bomba de efeito moral atirada pela PM para conter os manifestantes, a produtora da CNN Barbara Arvanitidis  pode ter quebrado o braço e teve que ser retirada de maca da Rua Apucarana, nas imediações da Estação Carrão, em São Paulo (foto de Darlan Oliveira - G1)
Atingida por estilhaços de uma bomba de efeito moral atirada pela PM para conter os manifestantes, a produtora da CNN Barbara Arvanitidis pode ter quebrado o braço e teve que ser retirada de maca da Rua Apucarana, nas imediações da Estação Carrão, em São Paulo (foto de Darlan Oliveira – G1)

 

Uma jornalista da CNN ficou ferida durante um confronto entre manifestantes e policiais militares em um protesto contra a Copa do Mundo em São Paulo, na manhã desta quinta-feira. A confusão começou cerca de 10 minutos após o início do ato, pouco depois das 10 horas (de Brasília).

De acordo com uma mensagem postada na rede social Instagram pelo correspondente esportivo e âncora da CNN Alex Thomas, a produtora Barbara Arvanitidis pode ter quebrado o braço. Ela foi atingida por estilhaços de bomba de efeito moral.

Segundo reportagem da TV Globo, a repórter correspendente da CNN Shasta Darlington também ficou levemente ferida no protesto. Ela e Arvanitidis, que teve que ser retirada do local de maca, estavam na Rua Apucarana, nas imediações da Estação Carrão.

O assistente de câmera do SBT, Douglas Barbieri, também foi atingido por estilhaços de bomba. Ele foi ferido no rosto, mas seguia trabalhando na cobertura do evento, com curativos.

Correria e bombas

Pouco depois da confusão inicial, a polícia voltou a jogar bombas para desbloquear a Rua Apucarana. Houve correria nas ruas laterais. Uma das bombas atingiu o pátio de um prédio residencial. Moradores do condomínio brigaram com os manifestantes.

O grupo não atendeu ao pedido da PM para se afastar da Radial Leste, via que será a principal ligação das delegações com a Arena Corinthians. A PM jogou bombas de gás e de efeito moral para tentar dispersar o grupo.

 

Fonte: G1

 

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Chegou a hora: Brasil abre hoje a Copa contra a Croácia

A descontração na coletiva de ontem não impediu o técnico Felipão ou o craque Neymar de falarem sério sobre o jogo de abertura de hoje, contra a Croácia: “Chegou a hora!” (foto de Jefferson Bernardes -V ipcomm)
A descontração na coletiva de ontem não impediu o técnico Felipão ou o craque Neymar de falarem sério sobre o jogo de abertura de hoje, contra a Croácia: “Chegou a hora!” (foto de Jefferson Bernardes -Vipcomm)

 

Desde 30 de outubro de 2007, quando o então presidente Lula comemorou como torcedor mais fanático a escolha do Brasil para sede da Copa em 2014, muita coisa mudou. Mas se ninguém mais acredita que o governo brasileiro atinja um dia o tal padrão Fifa, ou cumpra com sua população as promessas de um legado de infraestrutura para além de qualquer evento esportivo, estes últimos sete anos não foram capazes de alterar o amor do brasileiro pelo futebol. Após muita expectativa, protestos e debates, essa paixão finalmente entra em campo hoje, encarnada sobretudo nos pés de Neymar, quando o Brasil enfrenta a Croácia, a partir das 17h, na recém-construída arena do Itaquerão, em São Paulo, pontapé inicial da Copa do Mundo cuja festa de abertura terá início desde as 15h.

Mesmo com todas as dúvidas sobre os mandatários do Brasil, da CBF e da Fifa devidamente mantidas fora do campo, dentro dele a certeza por uma vitória brasileira diminuiu desde o último amistoso do time de Felipão, no qual derrotou a Sérvia pelo placar mínimo, com um gol sentado de Fred, no jogo duro do último dia 6. Como os sérvios são vizinhos dos croatas em território e no estilo de jogar futebol, todos reunidos até os anos 1990 na antiga Iugoslávia, as dificuldades encontradas no último amistoso do Brasil passaram a preocupar para a primeira partida oficial de hoje.

Bem verdade que a Croácia não terá em campo seu principal goleador e líder de assistências nas eliminatórias europeias: o atacante Mandzukic, suspenso no primeiro jogo da Copa por ter sido expulso na última partida oficial da sua seleção. O nome mais provável para substituí-lo é Jelavic, que não tem o mesmo nível do titular. O ataque será completo por Perisic pela direita e Olic pela esquerda. Mas a grande força da Croácia vem dos seus hábeis meias: Modric, titular inquestionável do Real Madri, e Raktic, contratado esta semana pelo Barcelona.

Após muita especulação sobre a entrada de Willian no lugar de Oscar, como seu meia ofensivo titular, Felipão optou pelo segundo ao confirmar a repetição da escalação do mesmo time que derrotou a Espanha, por 3 a 0, no final da Copa das Confederações, quase um ano atrás. A tática brasileira também será a mesma, marcando forte no campo do adversário, no começo da partida.

Se o gol brasileiro sair nessa pressão inicial, a exigente torcida paulista vai junto. Caso contrário, será fundamental não só paciência, como atenção à advertência de Paulo Vinícius Coelho, maior craque da crônica esportiva brasileira: “Se o Brasil repetir as mesmas chances que deu a Sérvia, dificilmente a Croácia deixará de marcar”.

Como Neymar e Felipão repetiram em coro na coletiva de ontem: “Chegou a hora!”

 

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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Brazuca de cristal e as chances de surpresa na Copa

 

A França do clássico meia Pogba, que bateu a Holanda num amistoso em março, é a maior candidata a surpresa da Copa
A França do clássico meia Pogba, que bateu a Holanda num amistoso em março, é a maior candidata a surpresa da Copa

 

Em artigo publicado no último domingo (aqui), disse que as seleções da Espanha, Alemanha, Argentina e Brasil eram mais cotadas para ganhar a Copa do Mundo que começa amanhã. Como não há novidade nisso, pois as quatro integram a lista de favoritos de qualquer um que entenda algo de futebol, embora em tempos de Copa todos achem entender, passemos às especulações que nos restam neste limbo passageiro entre o encerramento dos amistosos e a hora da bola rolar para valer: Qual time poderá surpreender? Que jogadores podem se destacar?

Ao falar do favoritismo espanhol, já havia listado no domingo o Chile como uma possível surpresa no mesmo Grupo B, composto ainda por Holanda e Austrália. Pessoalmente, por mais que o futebol chileno tenha evoluído, não apostaria na eliminação precoce de espanhóis ou holandeses em 2014, campeões e vice, respectivamente, em 2010. Mas se vier a ser, improvável que o Chile caminhe às oitavas sem ser pelos pés do seu jovem atacante Alexis Sánchez, concorrente de Neymar no ataque titular do Barcelona. De qualquer maneira, mesmo que o Chile passe em segundo lugar no grupo, pegaria nas oitavas o primeiro colocado do Grupo A — do também favorito Brasil, que tem os chilenos anotados e sublinhados no caderninho da freguesia mais fiel.

Sinceramente, se tivesse que apostar em “surpresa” nesse torneio curto, de no máximo sete jogos, sendo os último quatro eliminatórios (perdeu, volta para casa), empilharia minhas fichas sobre a França. Nas eliminatórias europeias à Copa, os franceses só ficaram em segundo na sua chave porque perderam o jogo de volta pelo placar mínimo diante da Espanha, após terem empatado o primeiro confronto em 1 a 1 contra os campeões do mundo.

Na fase de amistosos deste ano, “Les Bleu” venceram bem a Holanda (2 a 0) em março, antes de massacrarem a Jamaica (8 a 0) no último domingo, exorcizando o trauma pelo corte do meia-atacante Frank Ribéry, dois dias antes. Eleito terceiro melhor jogador do mundo em 2013, atrás apenas do português Cristiano Ronaldo (Real Madri) e do argentino Lionel Messi (Barcelona), o francês do Bayer de Munique faria falta em qualquer time do mundo.

Mas quem queria ver Ribéry no Brasil, aconselha-se prestar atenção no incisivo atacante Karin Benzema, do Real Madri, no e no clássico meia Paul Pogba, da Juventus de Turim. Com apenas 21 anos, este último tem sido o principal artífice do jogo técnico e eficiente apresentado pela França. Apesar de treinar a seleção italiana do maestro Andrea Pirlo (também jogador da Juventus), Cesare Prandelli não teve dúvida ao afirmar no último domingo ao jornal francês L’Equipe: “Pogba é o melhor meio-campista do mundo”.

E ninguém melhor do que o Brasil, favorito eliminado da Copa de 2006 pela conexão direta Zinédine Zidane/Thierry Henry, sabe os estragos que podem ser causados pela união de um meia elegante e um atacante matador numa seleção francesa. Ademais, a França caiu no grupo E, completo pela cabeça de chave Suíça, pátria da tática do “ferrolho”, além de Equador e Honduras. Foi uma sorte oposta à de outros três ex-campeões mundiais, reunidos no “Grupo da Morte” (o D): Uruguai, Inglaterra e Itália — com a Costa Rica a fazer-lhes figuração.

A Itália é sempre Itália. E ninguém, em nenhuma Copa, pode excluí-la do grupo de favoritos. Mas se Uruguai, Inglaterra, ou ambos chegarem à segunda fase, podem surpreender. Até porque o primeiro e o segundo do forte Grupo D, pegarão nas oitavas de final, respectivamente, o segundo e o primeiro do fraco Grupo C, composto de Colômbia (que perdeu o atacante Falcão García, sua principal estrela, por contusão), Grécia, Costa do Marfim e Japão.

Ou seja, quem do “Grupo da Morte” (o D) passar às oitavas, nelas enfrentará um time do “Grupo da Baba” (o C), para tentar o acesso às quartas de final. Com um time jovem, mais voltado à preparação para 2018, mas ainda tutelado pela experiência dos volantes Frank Lampard (Chelsea) e Steve Gerrard (Liverpool), além do atacante Wayne Rooney (Manchester United), a Inglaterra pode ganhar impulso numa ladeira das circunstâncias.

Já o Uruguai, pelo contrário, tem um time envelhecido, com uma defesa razoável, um ataque excelente e um meio de campo indigente. Caso o veterano atacante Diego Forlán (eleito melhor jogador da Copa de 2010) ainda tenha pernas, não lhe faltam inteligência e categoria para recuar ao meio e tentar municiar na frente os letais Edinson Cavani (Paris Saint-Germain) e Luizito Suárez (Liverpool) — este, recuperando-se de contusão. E se os uruguaios conseguirem sua difícil vaga às oitavas de final, com acesso em tese menos complicado às quartas, a própria torcida brasileira pode passar a ser assombrada (e até possuída) pela poderosa mística de 1950.

Das seleções que nunca ganharam uma Copa do Mundo, a Bélgica é a que chega ao Brasil mais credenciada a surpreender. Dificilmente ganhará o título, mas pode chegar longe o suficiente para eliminar alguns favoritos. Criou esta expectativa a partir das oito vitórias, seis empates e nenhuma derrota da excelente campanha nas eliminatórias europeias, que lhe concedeu a condição de cabeça de chave do Grupo H.

Da segurança do goleiro Thibaut Courtois (Atlético de Madri) à habilidade do meia-atacante Eden Hazard (Chelsea), os belgas têm um time jovem e equilibrado, capaz de resgatar seus melhores dias em Copas do Mundo, nos anos 1980 (4º lugar em 86, no México) e 1990, quando sempre deixaram boa impressão pela técnica e vocação ofensiva. E a impressão presente é que não terão dificuldades em se classificar às oitavas, num grupo ainda composto por Argélia, Rússia e Coreia do Sul.

Por fim, bom não esquecer que um time africano e/ou do Leste Europeu têm costume de revelar surpresas positivas nas Copas. Da África, pode ser a Costa do Marfim do famoso atacante Didier Drogba (Galatasaray) e do meia de exceção Yaya Touré (do campeão inglês Manchester City), assim como a Gana dos elegantes volantes Michael Essien e Sulley Muntari, ambos do Milan.

Já entre as seleções dos povos eslavos, pode errar grosseiramente quem menosprezar a Bósnia do meia Miralem Pjanic (Roma) e do excelente centroavante Edin Dzeko, temido artilheiro do Manchester City. Todavia, a maior promessa do Leste Europeu vem mesmo da Croácia. Menos mal que apesar dos habilidosos meias Luka Modric (Real Madri) e Ivan Rakitic (comprado há dois dias pelo Barcelona), os croatas não poderão contar amanhã com seu arisco atacante Mario Mandzukic (Bayer de Munique), suspenso do jogo de estreia da Copa, contra o Brasil.

Como não se pretende ser uma Mãe Dináh, até porque ela mesma nunca foi de acertar suas previsões, resta torcer para que role logo a bola. Mas a Brazuca, não a de cristal.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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Seleção da Alemanha cria no Brasil o Baêa de Munique

Palco do desembarque das caravelas de Pedro Álvares Cabral em 1500, o paradisíaco litoral sul da Bahia foi descoberto pelos alemães como sede para sua seleção de futebol nesta Copa do Mundo de 2014. Se a escolha trará bons resultados em campo, só saberemos depois da estreia da Alemanha diante de Portugal, na próxima segunda, dia 16, a partir das 13h, no estádio da Fonte Nova em Salvador. Mas, até lá, quebrando todos os esteriótipos da frieza germânica, dois dos seus principais jogadores, o goleiro Manuel Neuer e o volante Bastian Schweinsteiger, parecem já ter criado uma filial na simpática mestiçagem ariana em solo brasileiro: O Baêa de Munique!!!…

Bombando desde ontem na redes sociais do Brasil, da Alemanha e do mundo, confira o vídeo abaixo com o coro do hino do Sport Clube Bahia:

 

 

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Artigo do domingo — Copa do Mundo, lembranças e palpites

Neymar brilhará na Copa como no amistoso contra o Panamá?
Neymar brilhará na Copa como no amistoso contra o Panamá?

 

Sempre que alguém me pergunta qual trabalho mais tenho prazer de fazer em jornal, não tenho dúvida ao afirmar: cobertura de Copa do Mundo. Como simples espectador, acompanho Copas desde a de 1982 na Espanha. Como jornalista, passei a cobri-las, sempre pela TV e para a Folha, desde a realizada em 1990, na Itália.

Em 82, aos 10 anos, quando tudo nos parece maior, o encantamento do menino não foi superior ao do seu mundo adulto por aquele selecionado nacional, o melhor que já vi: o Brasil de Zico, Falcão, Sócrates, Júnior, Leandro, Luisinho, Telê e cia. Infelizmente, numa fatalidade que definiria o próprio futebol a partir dali, os deuses da bola nos brindariam com a “Tragédia do Sarriá” — nome de um estádio de Barcelona que não existe mais, como deixaria de existir o futebol-arte como estilo de jogo do Brasil. Nas quartas-de-final, com três gols do oportunista atacante Paolo Rossi, a Seleção Brasileira acabaria eliminada por 3 a 2 pela Itália, que soube impor seu tradicional estilo “Catenaccio” (na tradução: “porta fechada”) e ganhou o impulso necessário para vencer, não sem justiça, aquele Mundial.

Lógico, sempre ficará sem resposta a indagação do que poderia ter sido aquela partida, e o futebol do Brasil e do mundo depois dela, se o juiz israelense Abraham Klein tivesse marcado o pênalti claro de Claudio Gentile sobre Zico, cuja camisa foi rasgada pelo implacável marcador italiano. Mas é como versejou o poeta português Fernando Pessoa, pela pena do seu heterônimo Álvaro de Campos: “Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?/ Será essa, se alguém a escrever,/ A verdadeira história da humanidade”.

Na história “inverídica” do que foi, em 1990, quando a Itália sediou a Copa, quem colheu da sua semeadura pragmática de oito anos antes foi a consistente Alemanha (ainda só Ocidental) de Lothar Matthäus e Jürgen Klinsmann. Mas, aos 18 anos, a experiência de acompanhar profissionalmente uma Copa, de maneira detida e fria, para depois poder descrever cada jogo em texto, numa análise pormenorizada de cada atuação individual, enquanto quase todos que se conhece estão bebendo para festejar ou afogar as mágoas, foi uma experiência bastante enriquecedora; o oxímoro de uma paixão sóbria.

Dentro desta sobriedade, se tivesse que escolher o melhor jogo nestas oito Copas, duas como torcedor, seis como cronista, ficaria em dúvida sobre dois 3 a 2 válidos por quartas-de-final: o Inglaterra 3 x 2 Camarões (2 a 2 no tempo normal), em 1990, na qual os africanos liderados pelo veterano atacante Roger Milla perderam na prorrogação, após colocarem na roda de bobo os inventores do futebol; e o Brasil 3 x 2 Holanda, nos EUA, definido naquela bomba de Branco, na cobrança de uma falta que ele na verdade cometera, com direito a corta-luz de bunda de Romário, que pavimentaria nosso caminho ao Tetra em 1994.

Quanto à melhor atuação individual, também não teria como escolher entre as apresentadas em outras duas quartas-de-final. A primeira, de Diego Maradona, se deu no Argentina 2 x 1 Inglaterra de 1986, no México, quando depois de abrir o marcador com a “mão de Deus”, “El Pibe de Oro” depois driblaria meio time inglês para marcar seu segundo, considerado com toda justiça o gol mais bonito na história das Copas. Vinte anos depois, a outra exibição paralela seria anotada por Zinédine Zidane, no França 1 x 0 Brasil de 2006, na Alemanha, quando além de cobrar com perfeição a falta para o atacante Thierry Henry abrir (e definir) o placar, Zizou quebrou a espinha soberba dos brasileiros, humilhados aos olhos do mundo com dribles e lençóis desconcertantes.

Sobriamente, neste “ser-se ao meio-dia,/ que é quando a sombra foge/ e não medra a magia”, como advertia o entusiasta do futebol e poeta João Cabral de Melo Neto, impossível se prever o que acontecerá depois que a bola começar a rolar oficialmente nos gramados brasileiros, daqui a apenas quatro dias, na Copa deste ano da Graça de 2014. Se tivesse que apontar favoritos, diria que as melhores seleções, tecnicamente, são a da Espanha e da Alemanha. Mas acho que neste grupo também devem ser incluídos a Argentina e o Brasil.

Bem verdade que a atual campeã Espanha tem uma chave classificatória difícil, diante da força sempre respeitável da Holanda, sua vice em 2010, e um Chile em ascensão na promessa de surpresa. Ademais, o time que ganhou tudo desde a Eurocopa de 2008, está envelhecido. Entre seus maestros Xavi Hernández  e Andrés Iniesta, o primeiro, há algum tempo, tem aparentado decadência. Ademais, os espanhóis torcem pela recuperação do brasileiro naturalizado Diego Costa, vindo de contusão, para tentar resolver sua antiga carência de homens de área.

Problemas de contusão também rondam a Alemanha. Já preocupada uma lesão do seu maior craque, o volante Bastian Schweinsteiger, outro titular da equipe, o meia Marco Reus, foi obrigado a sair de campo no amistoso da última sexta, na goleada de 6 a 1 contra a Armênia, com uma contusão no tornozelo esquerdo. Além do que, a base dessa seleção, preparada desde a Copa que sediaram em 2006, precisa resolver sua aparente contradição: uma geração com talento acima da média, mas ainda sem mostrar a mesma determinação que sempre marcou os alemães no futebol, como em tudo mais na vida.

Livres até agora do fantasma das contusões, os argentinos e brasileiros têm suas próprias contradições a resolver. Nossos hermanos têm, talvez, a melhor linha de ataque do mundo, com Ángel di María, Gonzalo Higuaín, Lionel Messi e Sergio Agüero, mas uma defesa fraca. Se o problema não é novo, tampouco é recente o principal dilema do seu jogador mais importante: Messi, finalmente, conseguirá ser pela Argentina o que é no Barcelona?

Quanto ao Brasil, se é igual a dependência que a equipe tem da sua principal estrela, a contradição é ironicamente inversa: Neymar seguirá jogando mais pela Seleção Brasileira do que consegue fazer no Barcelona? A julgar por sua atuação brilhante nos 4 a 0 contra o Panamá, a resposta seria sim. Levado em consideração, no entanto, o amistoso seguinte e derradeiro, diante da Sérvia, quando o individualismo do jovem atacante esteve fora do tom, como seu amigo Thiaguinho ao cantar o hino nacional antes do jogo, poderemos ter problemas.

Quer Júlio César volte a exibir sua melhor forma, ou não; Thiago Silva e David Luiz endossem em campo o valor da zaga mais cara do mundo, ou não; Daniel Alves e Marcelo confirmem a vocação ao apoio, sem deixar buracos na defesa, ou não; Luiz Gustavo e Paulinho sejam capazes de marcar e manter a qualidade do passe, ou não; Oscar perca a posição de titular para Willian, ou não; Hulk consiga ir além da aplicação tática, ou não; Fred ache seus gols de centroavante, como soube encontrar contra a Sérvia, ou não; só nos pés de Neymar o Brasil poderá reencontrar a arte que já teve um dia. Ganhe a Copa ou não.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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