Opiniões

Artigo do domingo — O jogador e a jogada

Didi, gênio dos passes oblíquos e dissimulados, como os olhos de Capitu

 

Nos preparativos para a Copa de Suécia, em 1958, o meia direita reserva Moacir arrebentava nos treinos. Isto aliado ao fato de ser jogador do Flamengo, clube de maior torcida no Brasil, desde antes de lá até aqui, fazia com que parte da imprensa cobrasse a escalação do rubro-negro no lugar do craque campista Didi (1928/2001), então jogador do Botafogo e titular da posição no scratch nacional desde a Copa do Mundo anterior, em 1954, na Suíça, quando ainda atuava pelo Fluminense. Apelidado por Nelson Rodrigues (1912/80) de “príncipe etíope”, pela elegância em cada gesto dentro do campo e fora dele, Didi respondia laconicamente à cobrança por Moacir: “Treino é treino, jogo é jogo”.

É a frase que outro campista, Anthony Garotinho (PR), tem usado desde o início deste mês anterior às eleições de outubro, quando ainda liderava as pesquisas do primeiro turno ao governo fluminense, embora sua grande rejeição já indicasse que a vaca poderia ter o brejo por destino no segundo turno. Como nem tudo que começa bem, acaba da mesma maneira, na comparação com as três últimas consultas Ibope divulgadas em 2 (aqui), 9 (aqui) e 23 de setembro (aqui), Garotinho patinou, respectivamente, entre 27%, 25% e 26%, ao passo que Luiz Fernando Pezão (PMDB) saiu de 19% para 25%, até chegar aos atuais 29%, num impressionante crescimento de 10 pontos percentuais.

Considerado que, nas mesmas três consultas, Crivella ficou estático nos 17%, enquanto Lindberg Farias (PT) caiu progressivamente de 11% para 9%, até aos 8%, não é preciso ser grande leitor de pesquisas para concluir que, neste mês anterior à eleição, o único candidato que cresceu pelo Ibope foi Pezão. E dois dígitos de crescimento em apenas um mês é capaz de impressionar em qualquer campanha eleitoral do planeta.

Isso se formos falar de primeiro turno, pois no segundo as coisas se tornaram ainda mais dramáticas ao político da Lapa. No Ibope divulgado em 2 de setembro, mesmo ainda líder folgado no primeiro, Garotinho não conseguia ir além do empate exato com Pezão (35% cada) ou com Crivella (34% cada) no segundo turno. Na amostragem seguinte do instituto, ele já perdia o turno final para Pezão por 33% a 40%, enquanto empatava tecnicamente com Crivella, em 34% a 33%. Mas no último Ibope, já ultrapassado no primeiro turno, Garotinho viu aumentar assustadoramente suas chances de derrota no segundo, tanto para Pezão (33% a 43%), quanto para Crivella (36% a 34%).

Critério chave para a definição do segundo turno, a grande rejeição de Garotinho parece ser sua maior dificuldade eleitoral. No Ibope, o número de eleitores que não votariam nele sob nenhuma circunstância era de 34% e subiu para 36%, onde se manteve. E qualquer especialista em pesquisa vai dizer que é muito difícil alguém acima dos 30% de rejeição conseguir se eleger num pleito em dois turnos.

Mas se o quadro é ruim para Garotinho em quaisquer números das últimas amostragens do Ibope, eles não parecem melhores nas três últimas consultas Datafolha, divulgadas em 4 (aqui), 10 (aqui) e 26 de setembro (aqui). Muito pelo contrário, comparando-as, Garotinho só fez cair suas intenções de voto, saindo de 28% para 25%, até chegar aos atuais 23%, oito pontos percentuais atrás de Pezão, que usou a mão oposta para sair dos 23%, passar aos 25%, até atingir os 31% divulgados anteontem. Ou seja, enquanto o primeiro perdeu cinco, o segundo ganhou oito pontos em menos de um mês, nas intenções de voto para daqui a menos de uma semana.

Ainda pela Datafolha, Crivella (18%, 19% e 17%) e Lindberg (11%, 12% e 12%) tiraram o mês de setembro para patinar no gelo das intenções de voto ao primeiro turno. Já em relação ao segundo, Garotinho sempre perdeu nas três pesquisas, tanto para Pezão, quanto para Crivella. Para este último, a derrota garotista de 33% a 45% inicialmente manteve seus índices, para subir aos atuais 30% a 49%. Se parece ser uma diferença insuperável neste menos de um mês até de 26 de outubro, o que dizer então da projeção entre Pezão e Garotinho, que começou em 45% a 36%, subiu para 47% a 35%, até chegar ao vareio eleitoral de 54% a 30%, quase o dobro na diferença de votos a favor do governador no turno final?

Assim como no Ibope, também pelo Datafolha é a rejeição que explica as projeções de desempenho tão desastrosas de Garotinho, caso ele consiga chegar ao segundo turno. Entre os eleitores fluminenses ouvidos pelo instituto paulista, inicialmente 44% não votariam em Garotinho de jeito nenhum, percentual que subiu para 46%, até atingir os atuais 49%, praticamente uma derrota imposta pela maioria desde o primeiro turno e apenas postergada ao segundo.

Na velha questão entre o ovo e a galinha, do cachorro perseguindo o próprio rabo a girar a roda da dúvida entre causa e consequência, nada indica que as reações sempre destemperadas, ressentidas e acusatórias de Garotinho vão mudar alguma coisa, pelo menos não para o melhor de si ou dos seus. De qualquer maneira, com quem padece de ideação persecutória, recomenda-se cuidado na hora de se lembrar que o mundo certamente tem coisas mais importantes para fazer do que pensar ou tentar ferrar um único indivíduo. Neste delírio do “eu contra o mundo”, responderia o mundo, acaso se importasse: “Inclua-me fora!”

O mundo foi o que o Brasil conquistou naquela Copa de 1958, contra a Suécia, com Didi como titular, líder e craque do início ao fim da campanha. Quando os suecos abriram o placar do último jogo e despencou sobre os ombros brasileiros todo complexo de vira-latas acumulado oito anos seguidos, desde a derrota dentro do Maracanã contra o Uruguai, na final da Copa de 1950, foi Didi quem buscou a bola no fundo das redes. Após colocá-la embaixo do braço, foi caminhando vagarosamente ao meio de campo, com toda a elegância que Deus lhe deu, enquanto serenava os ânimos dos demais jogadores, falando a todos de maneira calma, mas grave: “Acabou a brincadeira. Agora vamos enfiar bola nos ouvidos desses gringos”.

O placar final daquele jogo, do qual sairíamos, de virada, com nossa primeira Copa do Mundo de futebol: Brasil 5 x 2 Suécia.

E, a propósito, diferente do que Garotinho postou na sexta em seu blog, ao lembrar mais uma vez a frase “treino é treino, jogo é jogo” para descer a botina sobre a nova pesquisa Datafolha (aqui), Didi nunca foi conhecido como “folha seca”, apelido na verdade dado ao seu chute de perna direita, que fazia a bola descair como folha na última hora, num efeito criado por ele para enganar o goleiro. Pode até parecer detalhe prosaico, e é, mas quem confunde o jogador com a jogada sempre corre o risco de pisar na bola.

 

Publicado hoje na Folha

 

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