Com a divulgação do PIB (Produto Interno Bruto) de 2014 e a revisão dos resultados dos anos anteriores, o crescimento econômico no primeiro governo Dilma Rousseff atingiu uma média de 2,1% ao ano.
Trata-se do pior desempenho em um governo desde Fernando Collor, que ocupou o Planalto entre 1990 e 1992, antes de sofrer um processo de impeachment. Na época, o PIB encolheu 1,3% ao ano.
Se considerados apenas presidentes que concluíram um mandato inteiro, são os números mais baixos da história da República — mas essa comparação deve ser feita com cuidado.
O PIB começou a ser calculado em 1947. Para anos anteriores, há estimativas baseadas nos dados disponíveis sobre a produção do período, que era predominantemente agrícola.
Economias em estágio inicial de desenvolvimento apresentam naturalmente taxas de expansão mais elevadas. Nenhum dos presidentes pós-redemocratização está entre os líderes de crescimento.
Resultados piores que os de Dilma e Collor só podem ser encontrados no governo de Floriano Peixoto (1891-1894), que assumiu a presidência após a renúncia de Deodoro da Fonseca, nos primórdios da era republicana.
Cinderela — Em 1950, depois de oito anos sem estrear uma animação de respeito, os Estudos Disney lançavam o filme “Cinderela”, que resultou um sucesso de bilheteria de tal magnitude que salvaria a empresa da sua iminente falência. Com efeito, apesar de hoje venerados, filmes como “Pinochio” (1940), “Fantasia” (1940) e “Bambi” (1942), não retornaram o investimento almejado e, não fosse por Cinderela, provavelmente a Walt Disney Company tivesse encerrado suas atividades, ou, no melhor dos casos, teria se limitado à produção de filmes menos ambiciosos. Certamente, a Disneylândia e o Disney World não existiriam — imaginem só!
A questão é que, 65 anos depois, a Disney lança “Cinderela” em live-action, isto é, com atores ‘de carne e osso’. A personagem principal é interpretada por Lily James (do seriado Downton Abbey), e o príncipe pelo ator Richard Madden (de Game of Thrones). A direção fica por conta nada menos que de Kenneth Brannagh, o ator/diretor britânico que iniciara sua carreira cinematográfica adaptando as obras de Shakespeare “Henry V” e “Hamlet”, e quem em 2011 dirigira a megaprodução “Thor”, da Marvel.
Há de se dizer que Brannagh, em “Cinderela”, toma uma decisão curiosa. Ele mantém praticamente inalterada a história do filme original, com a inteligente iniciativa de excluir os segmentos musicais. Sendo assim, não há muita coisa a revelar em relação ao clássico conto de Perrault que o leitor já não saiba, a não ser um prólogo onde conheceremos a mãe e o pai de Cinderela e saberemos como ela fica órfã. Também veremos a chegada à casa da malvada madrasta (uma Cate Blanchett impactante, mas sem ofuscar o resto do elenco) e suas frívolas filhas, prontas para infernizar a existência da boa moça.
O filme até revela a origem do nome da personagem. Infelizmente, a explicação não será facilmente entendida pelas crianças brasileiras, dado que aqui nunca se traduziu ao português. Recomendo, leitor, caso você seja o encarregado de levar os pequenininhos ao cinema, que os ajude informando-lhes previamente que a palavra ‘cinder’ significa ‘cinza’ em inglês.
“Cinderela” impacta pelo seu visual. Tanto as locações quanto os figurinos são deslumbrantes, e em nada fica atrás em relação ao desenho de 1950 no que tem a ver com a recriação fantástica desse reino de conto de fadas (falando delas, a encarregada de aprontar a protagonista para que possa se apresentar no baile é Helena Bonham Carter, a ex mulher de Tim Burton). A cena da dança no palácio certamente fascinará as meninas com idades entre 3 e 70 anos.
Mas, dentre todos os aspectos positivos que o longa tem, eu destacaria um que, no presente ponto da nossa cultura cinematográfica, resulta completamente inovador: a sua completa falta de cinismo. Não há em Cinderela uma única referência metalinguística a nenhum aspecto da cultura contemporânea, como pareceria ser a regra nos atuais filmes infantis. Não há, também, nenhum comic relief que faça comentários mordazes. Tampouco veremos aqui o revisionismo irônico das estórias clássicas, à la Shrek, nem mudança no ponto de vista, como em “Malévola”.
O “Cinderela” de Kenneth Brannagh possui a pureza e a inocência dos contos que nos contam por primeira vez, naquele instante da vida onde não há lugar para parodias ou deboches, e onde os vilões são maus e os heróis, bonzinhos. Em outras palavras, “Cinderela” é tão cândido quanto uma criança deveria ser.
Poderia se pensar que um filme como este não funcionaria nos tempos atuais, em que os meninos deixam de acreditar em Papai Noel cada vez mais cedo. Mas nos Estados Unidos, onde estreou há duas semanas, já é um sucesso de bilheteria. Provavelmente o êxito também se repita no Brasil. Isso seria bastante auspicioso, pois indicaria que um simples e belo conto de fadas, sem a necessidade adereços sarcásticos, ainda é capaz de comover.
Por Pedro Venceslau, Daniel Carvalho, Daiene Cardoso e Bernado Caram
Em sua quinta passagem pelo Congresso Nacional em menos de um ano, a ex-presidente da Petrobras Graça Foster disse nesta quinta-feira, 26, aos integrantes da CPI que investiga a estatal que sente “muita vergonha” dos colegas que participaram do esquema de corrupção flagrado pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal. “Lógico que passo horas do meu dia pensando em tudo o que está acontecendo na Petrobras. Eu entrei aqui nas outras CPIs , em audiências, com muito mais coragem do que entro hoje. Podiam ter todas as suspeitas mas não tinham os fatos que estão aí. Eu tenho realmente um constrangimento muito grande por tudo isso, de olhar para vocês”.
Questionada sobre seu sentimento em relação aos diretores evolvidos no esquema, ela afirmou sentir “muita vergonha” e ter “decepção”. “Já passei por várias fases de sentimento. Eu tenho vergonha, muita vergonha”, afirmou. Ao falar do gasoduto Gasene, disse que “gostaria que tudo isso fosse mentira e que não tivesse tido propina alguma”.
A presidente da estatal chegou ao plenário 2 da Câmara às 10h20, escoltada por deputados petistas e acompanhada de ao menos quatro advogados, inclusive uma da Petrobras. Os parlamentares Sibá Machado (AC), Maria do Rosário (RS), Afonso Florence (BA) e Valmir Prascidelli (SP) se revezaram em elogios e defenderam Foster das críticas da oposição. O relator, o também petista Luíz Sérgio (RJ), fez longas perguntas.
Apesar da tentativa de blindagem, Foster foi pressionada por deputados de oposição a dizer se gostava mais do PT ou da companhia. “A Petrobras, mil vezes a Petrobras”. E fez uma autocrítica: “Certamente a Petrobrás merecia um gestor muito melhor do que eu. Não tenho a menor dúvida disso”. A ex-presidente negou que a perda de R$ 88,6 bilhões registrada no terceiro trimestre do ano passado seja referente à corrupção. “Esses R$ 88 bilhões representam o valor justo por conta de uma série de ineficiências, até mesmo por causa de chuva e outros, não são o número da corrupção”.
FHC. Quando inquirida sobre a declaração do ex-gerente da estatal Pedro Barusco, que afirmou ter recebido propina de forma isolada durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a ex-dirigente da empresa duvidou da versão. “Não consigo imaginar como pode ser verdadeira a fala do Barusco de que ele sozinho recebia propina. Não consigo entender isso de forma alguma”.
“Fico surpresa de saber que alguém pode ganhar alguma coisa no meio da estrutura sem ninguém de cima saber. Quando a gente vê o Barusco falando de si, a gente pensa que está em outro planeta”. O ex-executivo, que fez um acordo de delação premiada, disse à CPI que começou a receber propina de forma individual em 1997, durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Segundo o ex-gerente, porém, os pagamentos de forma organizada e envolvendo diretores da estatal e o tesoureiro do PT tiveram início em 2004, no mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Nunca soube de propina na Petrobrás. O esquema de corrupção se formou fora (da estatal)”, afirmou Graça. “Não fomos capazes de captar a corrupção na empresa”. Ela afirmou ser a Polícia Federal a responsável pela descoberta da corrupção na estatal. “Não tenho dúvida em relação ao bem que a Operação Lava Jato já vem causando à Petrobras”.
A ex-presidente negou que a corrupção na estatal tenha se tornado “sistêmica” durante a gestão do PT, como afirma Pedro Barusco. “A partir do momento em que eu não sabia, como diretora e como presidente, passei a ter informações depois da Operação Lava Jato, não posso caracterizar a corrupção como sistêmica e institucionalizada”.
Foster disse ter sido indicada pela presidente Dilma Rousseff tanto para a diretoria quanto para a presidência da Petrobras. Ela afirmou desconhecer os responsáveis pelas indicações de Nestor Cerveró, Paulo Roberto Costa e Renato Duque, ex-executivos investigados por envolvimento no esquema de corrupção. A ex-presidente disse nunca ter visto o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, acusado por Barusco de receber US$ 300 mil para a campanha presidencial de Dilma em 2010. Ela também disse já ter discordado do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e citou a localização de uma fábrica de fertilizantes como exemplo. “Cabe também desagradar o líder, dizer que isso dá ou não dá pra fazer”, afirmou.
Como em outras sessões, petistas e deputados de outras legendas protagonizaram bate-bocas. No momento mais tenso da sessão, o deputado Jorge Solla (PT-BA) questionou o porquê de supostos operadores do PMDB não terem sido convocados até o momento. Ele discutiu acaloradamente com o Delegado Waldir (PSDB-GO)
Para quem não gosta do PT e de Lula, Dilma Rousseff deveria ser um ídolo. Afinal, sob suas competentes mãos, estão sendo destruídos, simultaneamente, o “lulismo”, o “petismo” e as possibilidades de Lula se eleger em 2018. Daí, ironicamente, alguns dizerem: deixem a mulher trabalhar! Nada resistirá ao furacão de incompetência política do atual governo.
Sob a orientação esclarecida de Dilma, o Planalto destruiu a credibilidade fiscal e a credibilidade econômica; e ainda abandonou a prática do diálogo político e social. Mataram o lulismo e não o substituíram por nada. Antes, a destruição estava limitada ao governo. A popularidade da presidente resistia. Mas, agora, com a avaliação no chão e um apoio significativo para o impeachment, a situação mudou muito. De quebra, acabou o predomínio do Executivo no debate político.
Os repórteres Daniel Carvalho e Pedro Venceslau, do Estadão, acertaram em cheio ao afirmar que a crise que levou Dilma Rousseff a atingir o pior índice de popularidade para um presidente da República brasileira inverteu uma das principais características do presidencialismo nacional: o poder sobre a agenda política do país. Até então, cabia ao Executivo impor os temas de debate, argumentam eles.
Esse comportamento gerava reclamações de parlamentares, que se tornavam reféns do Palácio do Planalto. Agora, o jogo virou. Graças ao fortalecimento do Legislativo, é o Congresso que exerce o protagonismo. É na pauta em gestação no Congresso, encabeçada pelo PMDB, que se constata o fortalecimento do Legislativo, no que já é chamado no meio político, segundo os repórteres, de “parlamentarismo branco” e “presidencialismo congressual”.
Um bom exemplo: enquanto o governo se concentra na aprovação das medidas do ajuste fiscal, os parlamentares querem aprovar, em segundo turno, a PEC da Bengala, que eleva de 70 para 75 anos a idade para a aposentadoria compulsória dos ministros dos tribunais superiores e do Tribunal de Contas da União. Com a aprovação da PEC, Dilma deixará de indicar cinco ministros do Supremo.
Como disse Raymundo Costa, do Valor Econômico, a crise também afeta a imagem de Lula. A qualquer momento, quando começarem a fazer pesquisas eleitorais com seu nome, o estrago será comprovado. Outro fato inacreditável dos tempos atuais é a incompetência política do governo; tão grande que não deixa espaço para a oposição. Nada do que a oposição tentar fazer será grandioso o suficiente para se comparar aos erros do governo. Com uma gestão como essa, para que oposição? Como diria Churchill, lá vem um táxi vazio e dele desce o governo.
A revista britânica The Economist publicou um novo editorial sobre o Brasil na edição que chega às bancas neste final de semana. Intitulada “Lidando com Dilma”, a publicação aponta os motivos que deixam brasileiros “fartos” da presidente. Para a Economist, Dilma mentiu na campanha e os eleitores estão percebendo que foram vítimas de um “estelionato eleitoral”. “Mas um impeachment seria uma má ideia”, diz a revista.
“Não é difícil ver por que os eleitores estão com raiva”, afirma a publicação. “Ela presidiu o conselho da Petrobras de 2003 a 2010, quando os promotores dizem acreditar que mais de 800 milhões de dólares foram roubados em propinas e canalizados para os políticos do PT e aliados”, diz.
Além disso, a revista afirma que Dilma venceu as eleições presidenciais de outubro “vendendo uma mentira”. “De fato, como muitos eleitores estão percebendo agora, Dilma vendeu uma mentira”, diz o texto. A revista diz que os erros cometidos no primeiro mandato de Dilma levaram o Brasil à situação de crise atual, que exige corte de gastos públicos e aumento de impostos e juros. “Some-se a isso o fato de que a campanha de reeleição pode ter sido parcialmente financiada pelo dinheiro roubado da Petrobras. Os brasileiros têm todos os motivos para sentirem que eles foram vítimas de um equivalente político do estelionato”, diz o texto.
Apesar das palavras duras, o editorial da The Economist afirma que o impeachment pode ser “um exagero emocional“. “A legislação brasileira considera que presidentes podem ser acusados apenas por atos cometidos durante o atual mandato”, diz o texto. “E, ainda que muitos políticos brasileiros achem que a presidente é dogmática ou incompetente, ninguém acredita seriamente que ela enriqueceu. Contraste com Fernando Collor que embolsou o dinheiro.”
O editorial também afirma que as instituições estão trabalhando para punir os criminosos. “Um impeachment iria se transformar em uma caça às bruxas que enfraqueceria as instituições, que ficariam politizadas”, diz o texto, que pede que Dilma e o PT assumam as responsabilidades “pela confusão que ela fez no primeiro mandato, em vez de se tornarem mártires do impeachment”. “Ter Dilma no gabinete fará com que os brasileiros estejam mais propensos a entender que as velhas políticas é que são as culpadas, não as novas.”
Nos tempos em que recebia na Petrobras os “pleitos para atender a campanha da dona Dilma”, Paulo Roberto Costa até assinava na presidente, que assinava em Sergio Gabrilelli, enquanto Graça Foster observava tudo
Por Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo
O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, primeiro delator da Operação Lava Jato, disse que o doleiro Alberto Youssef, personagem central da trama de corrupção e propinas na estatal petrolífera, o procurou em 2010 e disse que o ex-ministro Antonio Palocci, da Fazenda, pediu uma contribuição de R$ 2 milhões para a campanha de Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Os relatos de Costa na delação premiada foram todos gravados em vídeo pela força tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.
Ao ser questionado sobre repasse de valores para a campanha de 2010 da Presidência da República, o ex-diretor da Petrobrás declarou. “Alguns fatos como esse específico, as pessoas falavam diretamente com o Youssef. Outros fatos, as pessoas falaram comigo. Ministro Lobão falou comigo. Pessoal aqui do governo do Rio falou comigo, não tem nada a ver com o Youssef. Senador Sergio Guerra, falecido, falou comigo.”
A ordem de investigação á amparada no depoimento de Costa. Ele disse que conheceu Palocci em 2004. Na ocasião, Palocci era membro do Conselho de Administração da Petrobrás. Dilma presidia o Conselho de Administração da estatal e ocupava o cargo de ministra das Minas e Energia.
Sobre o episódio em que cita Palocci, Costa declarou. “O Youssef me trouxe numa reunião que eu tive com ele. Ele falou: ‘ministro Palocci está pedindo aqui uma contribuição para a campanha da Dilma Rousseff em 2010 de R$ 2 milhões. Podemos dar? Pode, pode dar. Eu autorizei o Youssef a fazer. Mas quem me trouxe esse assunto foi o Youssef e quem operacionalizou foi o Youssef. Eu não tive nenhum contato nem com o Palocci e muito menos com a Dilma, sobre esse fato. Isso tudo veio pelo Youssef.”
“O Youssef falou comigo que o Palocci, não tenho certeza agora se foi o Palocci que falou com ele ou se foi um interlocutor, não posso te confirmar isso. Mas tinha esse pleito do ex-ministro Palocci para atender a campanha da dona Dilma Rousseff em 2010. ‘Paulo, pode fazer?’. ‘Faça’.”
Paulo Roberto Costa disse que não perguntou detalhes para Youssef sobre quem tinha mandado o Palocci fazer a solicitação. “Ele chegava com o pleito, fazia ou não fazia. Mas não entrava em detalhe, quem fez, como foi, tal.”
Os investigadores da Lava Jato perguntaram ao ex-diretor se as pessoas sabiam que Youssef trabalhava com ele. Ao responder essa pergunta Costa fez menção a outros quatro personagens emblemáticos da grande investigação sobre malfeitos na Petrobrás: João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, Renato Duque, ex-diretor de Serviços da estatal petrolífera, Fernando Soares, o Fernando Baiano, suposto operador do PMDB na Petrobrás, e Nestor Cerveró, ex-diretor de Internacional da Petrobrás – os últimos três estão presos.
“Notório. Como sabiam que o Vaccari trabalhava com o Duque, como sabiam que o Fernando Baiano trabalhava com o Nestor. Isso aí todo mundo sabia.”
Ex-ministro Antonio Palocci (foto de Dida Sampaio – Estadão)
Como foi feito o pagamento?, perguntaram os investigadores. ”Não sei. Não sei, porque isso o Youssef não me falava e nem eu perguntava para ele.”
Sobre o local da reunião em que Youssef falou sobre o pedido, ele disse. “Possivelmente em São Paulo.” Costa foi questionado se a presidente Dilma tinha conhecimento do esquema na Petrobrás quando exercia a função de ministra de Minas e Energia e também se Lula sabia, enquanto presidente. ”Não sei, não sei, não sei.”
Ele disse que nunca conversou sobre isso com Dilma e Lula. Também não conversou com Palocci sobre o assunto. Esse foi o único repasse para campanha presidencial que ele se recorda. Mas “não teve feedback” sobre o dinheiro, não soube se os R$ 2 milhões chegaram.
“Para mim, não. Era muito difícil alguém agradecer. O que normalmente acontecia era o cara não reclamar. O cara não voltar ao tema, mas agradecer, para ser sincero, não teve nenhum um caso.”
Paulo Roberto Costa disse que conheceu Palocci em 2004. Na ocasião, Palocci era membro do Conselho de Administração da Petrobrás. Dilma Rousseff presidia o Conselho de Administração da estatal e ocupava o cargo de ministra das Minas e Energia. O ex-diretor da Petrobrás, indicado para o cargo em 2004 pelo PP, afirmou que esteve em “várias reuniões” com Palocci, então ministro da Fazenda. Costa afirma que, em 2010, recebeu uma solicitação, por meio de Alberto Youssef, para que fossem liberados R$ 2 milhões do caixa do PP, para a campanha presidencial de Dilma.
Questionado sobre essas declarações do ex-diretor, que lhe atribuiu participação no caso, o doleiro Youssef foi taxativo. “Esta afirmação não é verdadeira.”
Para Batochio, a contradição põe abaixo a suspeita levantada contra o ex-ministro. “Palocci não conhece, nunca viu, nunca soube da existência de Alberto Youssef. Para ele a existência (do doleiro) era desconhecida.” Segundo o criminalista, Palocci “nunca conversou” com Paulo Roberto Costa.
Batochio destaca que Palocci, em 2004, como ministro da Fazenda, pertenceu ao Conselho de Administração da Petrobrás “seguindo a tradição de que todo ministro da Fazenda é membro do colegiado”.
“(Palocci) pode ter visto Paulo Roberto Costa lá (no Conselho), mas nunca tratou com ele assunto sobre campanha eleitoral, jamais, em tempo algum.”
A Polícia Federal iniciou na manhã desta quinta-feira, 26, a Operação Zelotes, que investiga crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, advocacia administrativa, tráfico de influência e associação criminosa no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), que é uma espécie de tribunal da Receita Federal. Investigadores acreditam que os desvios na Operação Zelotes podem superar os valores da Operação Lava Jato, estimados em R$ 10 bilhões.
Há suspeitas que os valores possam ultrapassar os R$ 19 bilhões, referentes a 70 processos investigados. Já foram apurados desvios de R$ 5,7 bilhões. Nas operações de busca realizadas durante a manhã em Brasília, São Paulo e Ceará, foram apreendidos R$ 1 milhão em dinheiro vivo e carros de luxo.
O termo Zelotes foi escolhido para descrever falso zelo ou cuidado fingido. Foram cumpridos mandados em dois gabinetes na sede do Carf, em Brasília. As investigações apontam para o suposto envolvimento do atual conselheiro Paulo Roberto Cortez e do ex-presidente do Carf em 2005, Edison Pereira Rodrigues. A PF cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços dos dois.
O Carf é um colegiado formado por funcionários do Ministério da Fazenda e representantes da sociedade, cuja função é julgar recursos em que contribuintes questionam a cobrança de tributos, multas e juros.
Segundo fontes informaram mais cedo, a organização atuava no órgão patrocinando interesses privados, buscando influenciar e corromper conselheiros com o objetivo de conseguir a anulação ou diminuir os valores dos autos de infração e da Receita, o que resultaria em milhões de reais economizados pelas empresas autuadas em detrimento do erário da União. Servidores repassavam informações privilegiadas para escritórios de assessoria, consultoria ou advocacia em Brasília, São Paulo e outras localidades para que realizassem captação de clientes e oferecessem facilidades no Carf.
Segundo notas divulgadas pela Receita e pela Corregedoria da Fazenda, “constatou-se que muitas dessas consultorias teriam como sócios conselheiros e ex-conselheiros do Carf”.
As investigações, iniciadas em 2013, apontaram que grupos de servidores estariam manipulando o trâmite de processos e o resultado de julgamentos no conselho. A investigação se estende sobre julgamentos suspeitos desde 2005.
Ao todo, foram expedidos 41 mandados de busca e apreensão e determinado sequestro de bens e bloqueio de recursos financeiros dos principais envolvidos. A Receita e a Corregedoria informaram que as operações se estenderam a escritórios de advocacia e a salas de conselheiros do Carf. A operação abrange Distrito Federal, São Paulo e Ceará, e conta com a participação de 180 policiais federais, 60 servidores da Receita e três servidores da Corregedoria Geral do Ministério da Fazenda.
Entenda — O Carf julga processos na esfera administrativa, em que contribuintes questionam a cobrança de tributos. É um colegiado formado por funcionários do Ministério da Fazenda e por representantes da sociedade. Ele é composto por três seções de julgamento, cada uma especializada em um grupo de tributos. Assim, por exemplo, a primeira seção julga casos relacionados ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Na segunda, vão os questionamentos sobre o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) e contribuições previdenciárias. Na terceira, estão os processos referentes ao PIS/Cofins, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto de Importação (II) e Imposto de Exportação (IE).
Joaquim Levy, ministro da Fazenda, e Renan Calheiros, presidente do Senado (foto de Antônio Cruz – Agência Brasil)
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
O novo eixo do poder em Brasília
Por Ricardo Noblat
Se alguém interessado em tomar o pulso da situação desembarcar por esses dias em Brasília não terá dificuldades em descobrir que mudou o eixo do poder dentro e fora do governo.
Dentro, o endereço mais privilegiado não está no terceiro andar do Palácio do Planalto, onde despacha a presidente da República. Muito menos no quarto andar onde funciona a Casa Civil.
Anote: Esplanada dos Ministérios, Bloco P, 5º andar. Esse é o endereço do gabinete do ministro Joaquim Levy, da Fazenda.
O que não passar por ali dificilmente contará com o aval de Dilma e, depois, com a boa vontade do Congresso.
Fora do governo, os endereços mais quentes estão no prédio do Congresso. A saber: os gabinetes dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Onde fica o gabinete do ministro responsável pela coordenação política do governo, Pepe Vargas (PT-RS)? No Palácio do Planalto. Mas, esqueça. Ele não tem importância.
Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil, ainda guarda alguma importância. Mas ele está mais para o Dilma da Dilma do que para uma espécie de primeiro-ministro.
O primeiro-ministro é Levy. E a centralizadora e arrogante presidente parece conformada com isso. Quando nada porque se ele resolver, de repente, ir embora, o governo dela desmoronará.
Em junho de 2013, quando milhões de brasileiros saíram às ruas e derrubaram pela primeira vez a aprovação de Dilma, ela prometeu muitas coisas, sendo a reforma política uma delas. Nada fez.
No último dia 15, quando milhões de brasileiros outra vez saíram às ruas e reduziram a pó a popularidade de Dilma, ela despachou para o Congresso o pacote de medidas contra a corrupção prometido em junho de 2013.
Na luta diária pelo poder não se admite espaço vago. Levy entrou no governo como a salvação da lavoura. Para aplainar um terreno cheio de buracos e de más elevações.
A fraqueza de Pepe, a crise de identidade de Mercadante e a falta de rumo de Dilma abriram espaço para que Eduardo e Renan batessem com o pé no chão e começassem a falar grosso.
Os dois estão envolvidos com o escândalo da Petrobras. O governo de Dilma também está. A avaliação do Congresso consegue ser pior do que a avaliação de Dilma, segundo a mais recente pesquisa Datafolha.
Mas Eduardo e Renan são ousados. Sabem o que querem. E estão fazendo por onde conseguir. Querem afirmar a autoridade do Congresso — e, por tabela, a deles mesmos. E aproximá-lo do que pede a voz das ruas.
Daí a reforma política possível, que os dois já dispararam. O ajuste fiscal possível, que negociam com Levy. E o reajuste da dívida de Estados e municípios, que discutem com Levy, governadores e prefeitos.
Enquanto isso, Dilma…
Enquanto isso, Michel Temer, o vice-presidente, vive a desejável atribulação de alguém que só cresce em prestígio na República. Toca em sintonia com Eduardo e Renan.
O primeiro governo de Dilma foi dela mesma e do PT. O segundo governo está sendo do PMDB até aqui.
Pelo segundo mês consecutivo, a taxa de desemprego subiu nas seis maiores metrópoles do país. Em fevereiro o índice foi de 5,9%.
Ele havia sido de 5,3% em janeiro, o que já era um aumento de um ponto percentual em relação a dezembro. Em fevereiro de 2014, a taxa foi de 5,1%.
O número é o resultado da PME (Pesquisa Mensal de Emprego) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apresentado nesta quita (26).
Esse resultado de 5,9% está acima das projeções de economistas compiladas pela agência Bloomberg.
A mediana (ponto central entre todas as estimativas, descartando as maiores e as menores) dessas estimativas apontava para uma taxa de 5,7%.
O número de pessoas ocupadas, 22,7 milhões, caiu 1% frente a janeiro e cresceu 0,9% se comparado com o mesmo mês de 2014.
Já o total de desempregados ficou em 1,4 milhão, com alta de 10% em relação a janeiro e com redução/aumento de 14,1% ante fevereiro de 2014.
Ao longo de 2014, a taxa de desemprego se manteve nas menores marcas da série histórica do IBGE, com uma média anual de 4,8%.
Em parte, isso aconteceu pela procura reduzida por trabalho, pois com a economia desaquecendo há um desestímulo à busca por uma vaga.
O crescimento da renda familiar nos últimos anos serviu como um “lastro” para que pessoas em idade para estarem economicamente ativas aguardassem oportunidades melhores e se dedicassem a outras atividades, como o estudo ou o cuidados da casa e dos filhos.
Quem deixa de procurar vaga não é considerado desempregado.
Até o dia 28 daquele mês, o trabalhador precisava ter permanecido no mínimo seis meses no emprego antes do desligamento para pedir o benefício.
A partir de março, só quem trabalhou durante pelo menos 18 meses consegue obter o seguro. Uma alta nos desligamentos pode ter influenciado o resultado.
Golpe duplo — Quando Will Smith aceitou protagonizar “Golpe Duplo” (“Focus”, 2015), uma história sobre um grupo de vigaristas escrita e dirigida por Glenn Ficarra e John Requa, parecia o prenúncio de uma guinada em sua carreira, composta principalmente por bons moços, impressão reforçada por sua escalação como o Pistoleiro de “Esquadrão Suicida” (“Suicide Squad”), que reunirá vilões dos quadrinhos da DC Comics no cinema — ele já havia feito Hancock, um super-herói alcoólatra, e o controverso boxeador Muhammad Ali, mas o primeiro é isto, um super-herói, e o segundo, uma lenda, o que dilui questionamentos acerca de seu comportamento. O ator, porém, evita passear pelas áreas mais cinzas do comportamento humano, e seu personagem jamais tem seus atos colocados em perspectiva.
Na trama, dividida em duas partes, Nicky Spurgeon (Smith) é renomado no submundo por ser herdeiro de uma estabelecida tradição de golpistas, que começou com seu avô, passando por seu pai. Carismático e cheio de truques, ele sabe como manipular homens e mulheres e tirar deles dinheiro, jóias, relógios e quaisquer outras coisas de valor comercial. Com sua equipe, que age com organização empresarial, Mellow, como é conhecido a contragosto, identifica alvos, se instala em locais estratégicos, aplica golpes pequenos e grandes, vende o espólio, apaga todos os rastros e desaparece apenas para reiniciar o ciclo. Sua sorte, porém, muda quando precisa recrutar e preparar uma novata (Margot Robbie) para um serviço envolvendo um milionário chinês durante o Super Bowl, em Nova Orleans.
Ecoando Neil McCauley, personagem de Robert De Niro em “Fogo contra Fogo” (“Heat”, 1995), outro metódico ladrão (neste caso, de bancos) da ficção, Nicky segue até aquele momento, uma regra importante: afeto não tem espaço no ramo. Mas, ao criar laços que não consegue “abandonar em 30 segundos”, o golpista nega a lição de Neil, em sua fuga do policial Vincent Hanna, encarnado por Al Pacino no clássico de Michael Mann. Ao fim do embuste, Nicky se separa dolorosamente de sua nova companheira, apenas para encontrá-la três anos mais tarde, quando o amor não curado o levou ao fundo do poço e a um novo esquema, que o coloca a serviço de Rafael Garriga (Rodrigo Santoro), o perigoso dono de uma escuderia da Fórmula 1.
A primeira metade de “Golpe Duplo” é dinâmica e bem editada. Mostra com eficiência o modus operandi do grupo de golpistas e estabelece de maneira suficientemente clara quem é Nicky. Porém, ainda que a dinâmica criada por Smith e Robbie funcione, o romance de seus personagens é rápido e superficial. Além disso, a dupla consome todo o tempo de tela, não sobrando qualquer espaço para que outros membros do bando sejam desenvolvidos — a maior parte sequer tem nome. Já a segunda metade, embora apresente um ator brasileiro como antagonista e se passe em Buenos Aires, capital argentina, conhecida por muitos dos espectadores nacionais, perde ritmo e apresenta reviravoltas artificiais, servindo somente para redimir, pelo amor, o casal de criminosos, que tem direito a final feliz.
Quem chegar à sala de exibição esperando um filme de assalto mirabolante, como aqueles dos tantos homens e segredos de Steven Soderbergh, ou um filme policial, que, como tal, necessariamente se estabelecesse como um conto moral, sairá decepcionado com uma película inofensiva dos pontos de vista crítico e criativo.
A tensão política só faz aumentar em Brasília, e reflete a disputa intestina dentro de um governo sem rumo e sem liderança. A coalizão governista, artificialmente montada, se desmonta a olhos vistos sem que exista alguém que possa dar um destino, um caminho, para a rearrumação da casa.
Há exemplos de desencontros por todos os lados, e necessariamente a presidente Dilma está no centro de todos eles, em vez de guia tornando-se descaminho. Pode ser que eu tenha perdido alguma coisa, mas há alguma explicação lógica para que uma decisão tomada em novembro do ano passado possa ser desautorizada quatro meses depois pelo mesmo governo?
A repactuação da dívida dos Estados e municípios foi feita durante a campanha eleitoral, e seria até normal que a presidente, para agradar cabos eleitorais importantes, tivesse prometido o que não poderia fazer. Eleita, porém, poderia simplesmente não sancionar o projeto, afirmando que os tempos eram outros. Seria mais um estelionato eleitoral, mas teria nexo.
Do jeito que foi feito, parece que só quando o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chegou ao governo é que os desmandos foram identificados. Nesse caso, a situação é mais grave do que parece. Se for verdade, Dilma estava convencida, até a chegada de Levy, de que a renegociação da dívida era perfeitamente possível, e que outras medidas que hoje o seu novo governo renega estavam certas.
Quando ela diz que fez tudo certo no primeiro mandato, não estaria mentindo, mas reafirmando convicções. Nesse caso, a continuação no cargo é um perigo potencial de repetição dos mesmos erros caso um dia a economia se recupere ainda em sua gestão.
E quando o ministro Joaquim Levy classificou de “brincadeira” a desoneração da folha de pagamentos de várias empresas, não estava fazendo uma metáfora, estava apenas revelando a qualidade das decisões econômicas tomadas pela equipe de Mantega e sua nova matriz econômica.
O que dizer do plano maquiavélico de usar mais uma vez o hoje ministro Kassab para criar um novo partido, o PL, que se fundiria ao PSD e assim permitiria que muitos deputados e senadores hoje no PMDB o deixassem, enfraquecendo-o na coalizão governista?
Como não são bobos, os líderes do partido viram longe a situação e começaram uma rebelião interna que não tem hora de acabar. Ainda mais quando detectam que a própria presidente Dilma participou diretamente da manobra, não sancionando a lei aprovada pelo Congresso que a impediria.
O tiro deve sair pela culatra, primeiro por que o PL acabou se inscrevendo no Tribunal Superior Eleitoral sem o número mínimo de assinaturas, prometendo remetê-las depois. Mas a impugnação da nova legenda, que parece provável, não apaga o fato de que o Palácio do Planalto continua tentando neutralizar a força do PMDB, que já sentiu para que lado o vento sopra e começa a saltar do barco, não como quem foge acovardado, mas como quem enfrenta os desmandos da capitã, afinal identificada como incapaz de levar o barco nessa tempestade que enfrenta.
A necessidade identificada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, de haver um plano econômico abrangente que possa dar um rumo à economia, e não apenas cortes de gastos que atingem os cidadãos mais desprotegidos e as empresas que geram empregos, é correta e vai ao encontro do que tem cobrado o presidente do PSDB, senador Aécio Neves.
Está também correta a exigência do PMDB de que o governo reduza para 20 o número de ministérios e corte os cargos em comissão de provimento direto, que são cerca de 25 mil DAS. Só que é uma ação populista, pois foi o mesmo Renan Calheiros, juntamente com Eduardo Cunha, que aceitaram que os partidos políticos mais que dobrassem a verba do Fundo Partidário, e aumentassem as verbas dos parlamentares.
É como diz o ditado: em casa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. No país desgovernado, faltam pão e quem dê o rumo.