Opiniões

Crítica de cinema — Golpe na expectativa

Quadros por segundo

 

 

golpe duplo

 

Mateusinho 2Golpe duplo — Quando Will Smith aceitou protagonizar “Golpe Duplo” (“Focus”, 2015), uma história sobre um grupo de vigaristas escrita e dirigida por Glenn Ficarra e John Requa, parecia o prenúncio de uma guinada em sua carreira, composta principalmente por bons moços, impressão reforçada por sua escalação como o Pistoleiro de “Esquadrão Suicida” (“Suicide Squad”), que reunirá vilões dos quadrinhos da DC Comics no cinema — ele já havia feito Hancock, um super-herói alcoólatra, e o controverso boxeador Muhammad Ali, mas o primeiro é isto, um super-herói, e o segundo, uma lenda, o que dilui questionamentos acerca de seu comportamento. O ator, porém, evita passear pelas áreas mais cinzas do comportamento humano, e seu personagem jamais tem seus atos colocados em perspectiva.

Na trama, dividida em duas partes, Nicky Spurgeon (Smith) é renomado no submundo por ser herdeiro de uma estabelecida tradição de golpistas, que começou com seu avô, passando por seu pai. Carismático e cheio de truques, ele sabe como manipular homens e mulheres e tirar deles dinheiro, jóias, relógios e quaisquer outras coisas de valor comercial. Com sua equipe, que age com organização empresarial, Mellow, como é conhecido a contragosto, identifica alvos, se instala em locais estratégicos, aplica golpes pequenos e grandes, vende o espólio, apaga todos os rastros e desaparece apenas para reiniciar o ciclo. Sua sorte, porém, muda quando precisa recrutar e preparar uma novata (Margot Robbie) para um serviço envolvendo um milionário chinês durante o Super Bowl, em Nova Orleans.

Ecoando Neil McCauley, personagem de Robert De Niro em “Fogo contra Fogo” (“Heat”, 1995), outro metódico ladrão (neste caso, de bancos) da ficção, Nicky segue até aquele momento, uma regra importante: afeto não tem espaço no ramo. Mas, ao criar laços que não consegue “abandonar em 30 segundos”, o golpista nega a lição de Neil, em sua fuga do policial Vincent Hanna, encarnado por Al Pacino no clássico de Michael Mann. Ao fim do embuste, Nicky se separa dolorosamente de sua nova companheira, apenas para encontrá-la três anos mais tarde, quando o amor não curado o levou ao fundo do poço e a um novo esquema, que o coloca a serviço de Rafael Garriga (Rodrigo Santoro), o perigoso dono de uma escuderia da Fórmula 1.

A primeira metade de “Golpe Duplo” é dinâmica e bem editada. Mostra com eficiência o modus operandi do grupo de golpistas e estabelece de maneira suficientemente clara quem é Nicky. Porém, ainda que a dinâmica criada por Smith e Robbie funcione, o romance de seus personagens é rápido e superficial. Além disso, a dupla consome todo o tempo de tela, não sobrando qualquer espaço para que outros membros do bando sejam desenvolvidos — a maior parte sequer tem nome. Já a segunda metade, embora apresente um ator brasileiro como antagonista e se passe em Buenos Aires, capital argentina, conhecida por muitos dos espectadores nacionais, perde ritmo e apresenta reviravoltas artificiais, servindo somente para redimir, pelo amor, o casal de criminosos, que tem direito a final feliz.

Quem chegar à sala de exibição esperando um filme de assalto mirabolante, como aqueles dos tantos homens e segredos de Steven Soderbergh, ou um filme policial, que, como tal, necessariamente se estabelecesse como um conto moral, sairá decepcionado com uma película inofensiva dos pontos de vista crítico e criativo.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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