Artigo do domingo — Tempo (e dinheiro) perdido

A persistência da memória - Salvador Dali
“A persistência da memória”, óleo sobre tela de 1931, de Salvador Dali

 

 

Por Ricardo André Vasconcelos(*)

 

Com a sucessão de 2016 às portas, a palavra de ordem no califado da Lapa é recuperar terreno perdido no desgaste de sete anos de uma administração que vinha superando a falta de criatividade com abundância de recursos. Com a nova realidade imposta pela queda dos preços do petróleo e a recessão iminente com a paralisia do governo Dilma, o dinheiro jorra com menos intensidade, mas como eleição não espera, tem data certa e o projeto político do grupo que retomou a Prefeitura em 2008 passa, obrigatoriamente, pela manutenção do poder, é preciso fazer alguma coisa.

Para isso, o governo Rosinha & Garotinho está saindo dos gabinetes e mostrando a cara nas ruas, organizando ações itinerantes, como vem fazendo há semanas a secretaria de Educação com ações nas escolas aos sábados. Da mesma forma, há movimentação nos 18 condomínios onde foram assentadas cerca de 6 mil famílias no projeto batizado de “Morar Feliz”. Em nenhuma das novas comunidades — algumas com até oitocentas famílias — foi instalada creche, escola ou posto de saúde, mas o “Viver Feliz”, que é  uma espécie de “prefeitura itinerante”, vai levar a essas comunidades, serviços como segunda via de carteira de identidade, plantio de árvores, preparação de currículos…. Tudo com custo perto de zero, muita gente na rua, o indispensável foguetório e algum serviço à população. Melhor que nada.

Além disso, outras áreas como as fundações dos Esportes e Jornalista Oswaldo Lima, estão sendo cobradas a implantar projetos simples, baratos e de grande repercussão. Na falta de dinheiro para grandes shows, a cobrança é por criatividade. Tirar o assento dos gabinetes refrigerados e enfrentar o mormaço de outono é a ordem geral. Daqui para frente a cobrança será mais contundente e aguente quem quiser contracheque no final do mês. Quem se banqueteou com as carnes, agora se contente com os ossos. E com um sorriso sincero na cara, mesmo para aqueles que tiveram redução de salário na reforma administrativa confirmada pelo decreto 088/2015, publicado na última sexta-feira.

A decisão de botar o governo na rua é a marca da volta do Garotinho ao comando efetivo da tropa. Ele avalia, com a concordância geral de qualquer um que preste a mínima atenção ao paquidérmico governo Rosinha, que na falta de recursos para obras, a solução é compensar com a presença física da administração nas ruas. Pelas contas alardeadas pelo próprio secretário de Governo e prefeito em exercício de fato, a Prefeitura de Campos deve arrecadar menos R$ 1 bilhão em relação ao ano passado neste ano de 2015 e no próximo, o ano da eleição, a perspectiva é tão sombria quanto. Contas feitas com mais isenção apontam que, na verdade, a redução existe e o tamanho dela é o suficiente para uma economia agora para gastar na hora certa (certa para eles!). Se o preço é ver pais mendigando, pelas redes sociais, assistência médica para suas crianças enfermas, remedia-se, se der tempo.

E a receita para atravessar a crise é a de sempre: militância do contracheque na rua e mídia aliada generosamente paga no rádio e TV trombeteando o que o governo fez ou pretende fazer, além da velha cantilena dirigida aos antecessores. A novidade é a tentativa de intimidar os que têm coragem de discordar dessa turma. Ameaçam jornalistas e blogueiros com processos (aqui, aqui e aqui), como se a Justiça fosse — a exemplo da Câmara Municipal — também um apêndice do Centro Administrativo da Prefeitura, um puxadinho do Cesec. Enganam-se: vocação de indústria dos processos é a falência.

Os motivos para o desgaste vão além dos sete anos de governo. Tem a demissão de cinco mil terceirizados, obras paradas (outras arrastadas), além de um trabalho de uma oposição em ascensão que soube explorar alguns pontos fracos da administração Rosinha como a falta de transparência, gastança generalizada e sucateamento da Saúde. Isso tudo no governo que teve mais recursos na história de Campos. A decantada experiência de dois ex-governadores no comando da prefeitura foi demolida pela realidade. Em sete anos passaram pelas suas mãos cerca de R$ 15 bilhões de reais  (soma dos sete orçamentos) sem que nenhuma obra estruturante fosse realizada pensando a cidade para as próximas décadas.

Excetuando obras como os bairros legais (que sempre precisarão de outras obras de manutenção e reformas) e as casas populares (6 mil das 10 mil previstas estão prontas), o que se viu foi uma gastança desenfreada nos últimos sete anos: Sambódromo de R$ 100 milhões para seu utilizado uma vez por ano; enfeite milionário da Beira-Valão e a Cidade da Criança (orçada em R$ 10 milhões e já está em R$ 16 milhões), são apenas alguns exemplos das prioridades de uma administração mais preocupada no alarido imediato que no futuro. O que interessa, para eles, é o voto na próxima eleição e não a cidade que teremos na próxima década.

Quando fizerem um balanço histórico dos últimos anos do século XX e os primeiros deste, serão debitados na conta do garotismo muitos dos males que assolarão as gerações futuras como reflexo das ações não realizadas enquanto havia recursos de sobra.

O julgamento da história é implacável.

 

(*) Jornalista e autor do blog Eu Penso Que…

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Marcia

    Parabens ao jornalista.
    Perfeita análise de um tempo perdido.
    Que pena…

  2. Sandra Maria santos

    Isso Márcia. Disse tudo

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