Opiniões

Crítica de cinema — Espírito zangado: do espectador

Caixa de luzes

 

 

Poltergeist

 

 

Mateusinho 2POLTERGEIST – O FENÔMENO — Há filmes capazes de influenciar o comportamento humano, mundialmente e muito além das telas. Quem, por exemplo, entrou no mar da mesma maneira após assistir “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg? E a partir de “Poltergeist – O fenômeno” (1982), quem olhou do mesmo modo para uma tela de TV ligada em chuvisco numa madrugada insone, após o encerramento da programação da emissora?

Dirigido por Tobe Hooper, que já trazia no currículo “O massacre da serra elétrica” (1974), outro clássico do cinema de terror, “Poltergeist” se baseia numa estória de Spielberg, que a roteirizou junto a Michael Grais e Mark Victor, atuando também como produtor do longa. De fato, a ingerência do Midas de Hollywood no filme foi tanta, que Hooper até hoje nega sua direção, atribuindo-a de fato a Spielberg.

Independente da autoria, o fato é que o filme de 1982 foi um estrondoso sucesso de bilheteria, ajudando inclusive a fundamentar o próprio conceito de blockbuster (“arrasa quarteirão”). Mas esse remake de 2015, em cartaz nos cinemas de Campos, faz jus original? Sem sustos ou suspense, a resposta é simples: não!

A típica família de classe média estadunidense está lá, novamente de mudança para uma casa de subúrbio tipificada desde a Idade da Pedra, na animação “Os Flintstones”. O que mudou foram os significados.

O que era motivo de prosperidade nos anos 1980, se tornou sinônimo de decadência financeira nos dias atuais, após o estouro da bolha imobiliária nos EUA em 2007, que mergulhou o mundo inteiro numa crise econômica sentida até hoje e agravada no Brasil pelo péssimo primeiro governo Dilma Rousseff. Mas no país recolocado nos trilhos por Barack Obama, as assombrações são outras…

Desempregado, o pai Eric (o bom ator Sam Rockwell) leva para a nova casa sua família. Só que os Freeling do primeiro filme são agora substituídos pelos Bowen, compostos ainda da esposa Amy (Rosemarie DeWitt) e os três filhos: a adolescente Kendra (Saxon Sharbino), o garoto Griffin (Kyle Catlett) e a menina Madison (Kennedi Clements).

Na parapsicologia, os casos de poltergeist (em alemão: polter = desordeiro + geister = espírito) são fenômenos físicos sobrenaturais, como lançamento de objetos, barulhos e luzes surgidos do nada, lâmpadas estourando, brinquedos funcionando sem pilhas, onde o espírito via de regra faz conexão com uma criança na fase da puberdade, geralmente do sexo feminino e de grande sensibilidade.

Como sabem todos os que acompanharam o “Poltergeist” original e suas duas continuações de qualidade inferior, a menina, antes chamada Carol Anne, é Madison. No papel, a sardentinha Kennedi substitui bem a inesquecível Heather O’Rourke, falecida precocemente aos 12 anos, logo após estrelar “Poltergeist III – O capítulo final” (1988), de Gary Sherman.

E tanto no original de 1982, quanto em seu remake de 2015, não é apenas um espírito que se liga à menina, mas uma legião deles, na pretensão de usá-la como guia à Luz, da qual ela mesmo não poderá voltar. Todavia, sem isso seus novos “amigos” continuarão todos agonizando na escuridão do cemitério cujos corpos foram deixados para trás, sob a terra em que foi construído aquele subúrbio, por quem mudou apenas as lápides “para um bairro melhor” — como é dito e redito no filme atual.

Mas se a revelação desse final estragaria o filme original para quem não o viu (há alguém?), não causa nenhuma espécie ao espectador do remake, já que nele a existência do cemitério é revelada logo no início. E este é o maior problema desse novo “Poltergeist”: há muito terror, mas quase nenhum suspense.

A bem da verdade, o único susto que o filme se mostra capaz de provocar acontece no confronto entre o menino Griffin e seu palhaço “possuído”. Todavia, mesmo sem os recursos ilimitados da computação gráfica pós-“Avatar” (2009, de James Cameron), essa cena é bem melhor (e assusta muito mais) no filme de 1982.

Em outra diferença emblemática, não só na tecnologia, mas sobretudo no talento para se utilizá-la, se dá entre o carrinho de controle remoto, que abre o filme original, numa cena rasgadamente “spielberguiana”, e o drone com câmera filmadora que o substituí na versão atual, tão fora de contexto quanto pode ser um bicho desses voando materialmente entre as almas de quem já bateu as botas há muito tempo.

“Poltergeist” não foi o primeiro clássico do cinema de terror dos anos 1980 revirado na tumba pela profanadora sanha de refilmagens do cinema atual. Quem teve sua geração também marcada pelo original “A hora do espanto” (1985), de Tom Holland, e viveu para conferir seu remake homônimo de 2011, dirigido por Craig Gillespie, só pôde se espantar com a inexpressão do resultado mais recente.

Embora aproveite (ou tente) o enredo de Spielberg para o “Poltergeist” de 1982, esse de 2015 opta por seguir o ritmo narrativo da insossa série “Atividade paranormal” (2007, 10, 11 e 12), cuja paródia na comédia “Inatividade paranormal” (2013), de Michael Tiddes, dá de mil nos quatro filmes “sérios” originais.

Como os túmulos, pretender construir sobre clássicos do cinema, pode deixar muito espírito zangado.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

 

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