Crítica de cinema — Reverência ao passado

Caixa de luzes

 

 

Mundo jurássico

 

Mateusinho 3JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS — Quando venceu uma intensa disputa em Hollywood para conseguir comprar os direitos de filmagem sobre o romance “O Parque dos Dinossauros”, do escritor e produtor de TV e cinema Michael Crichton (1942/2008), antes mesmo da obra chegar às livrarias em 1990, Steven Spielberg sabia o que estava fazendo. Se os efeitos especiais da Industrial Light & Magic já se destacavam pela criatividade desde 1977, na gênese da franquia “Guerra nas estrelas”, de George Lucas, a coisa foi elevada ao patamar do fantástico com o advento da computação gráfica. Foi ensejado por essa revolucionária tecnologia, no rastro da digitalização do mundo a partir dos anos 1980, que os dinossauros presentes no cinema desde 1914, com o inovador curta mudo de animação “Gertie the dinosaur”, dirigido pelo cartunista estadunidense Winsor McCay (1860/1934) — espécie de precursor de Walt Disney (1901/66) —, finalmente puderam ser transportados da pré-história à tela com a mesma aparência de realidade (ou mais) dos atores humanos.

A cara dessa revolução, “com a boca escancarada, cheia de dentes”, como cantou Raul Seixas (1945/89), foi “Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros”, que Spielberg dirigiu e lançou em 1993 para abocanhar a (até então) maior bilheteria da história do cinema, superando outro sucesso do mesmo diretor: “ET, o extraterrestre” (1982). Vencedor de três estatuetas do Oscar em 1994 — som, edição de som e, lógico, efeitos especiais —, “Jurassic Park” foi também um consistente sucesso de crítica. Uma das suas poucas ressalvas foi ao desenvolvimento das tramas humanas, aquém dos dinossauros que sempre fascinaram e apavoraram os humanos, numa tensão muito próxima à de quem, anos antes, havia sido apresentado ao cinema de Spielberg por “Tubarão” (1975).

De fato, desde “Tubarão”, apesar das excelentes atuações do trio Roy Scheider (1932/2008), Robert Schaw (1927/78) e Richard Dreyfuss, ninguém tem dúvida de que o protagonista não é humano, mas aquele que os devora. Assim como apesar do bom elenco de “Jurassic Park”, com Sam Neill, Laura Dern, Richard Attenborough (1923/2014), Jeff Goldblum e Samuel L. Jackson, a única incerteza que permanece até o final do filme é se o personagem principal se trata do titânico Tiranossauro rex ou dos astutos Velociraptores, questão definida a rugidos e dentadas, sem direito a recurso.

O mesmo tipo de protagonismo ocorreu nos dois filmes seguintes da franquia. Em “O mundo perdido: Jurassic Park”, de 1997, novamente dirigido por Spielberg e baseado em livro de Michael Crichton, num outro sucesso de público, embora nem tanto de crítica, não resta dúvida de que o protagonista é o Tiranossauro, que chega a tirar onda de King Kong em Nova York. Já em “Jurassic Park III”, de 2001, dirigido por Joe Johnston, com críticas desabonadoras e bilheteria bem abaixo do esperado, quem manda no pedaço é o Espinossauro, que na vida real viveu há mais de 65 milhões de anos onde hoje ficam o Norte da África e o nosso estado do Ceará.

Mais do que perder o toque de Midas de Spielberg na direção, que nunca deixou de estar presente na produção da série, o grande dilema desta parece ser exatamente o mesmo do Parque que ressurge reaberto já há 10 anos, em “Jurassic World: O mundo dos dinossauros”, lançamento ansiosamente aguardado e ora em cartaz nos cinemas de Campos: após o estrondoso impacto inicial, como continuar atraindo a atenção do público? No Parque, a resposta parece ser o Indominus rex, um híbrido geneticamente modificado, com base no DNA do Tiranossauro, mas também no de outras espécies extintas, assim como modernas, sobre as quais se faz segredo.

Já na franquia, a intenção é claramente reverenciar o filme inicial, lançado quando Colin Trevorrow, diretor do atual, ainda era um adolescente de 17 anos, embasbacado como tantos outros pelo mundo, com as gigantescas criaturas dos períodos Jurássico e Cretáceo revividas na tela por Spielberg. Por isso o retorno à fictícia ilha Nublar, palco de “Jurassic Park” e vizinha à igualmente ficcional ilha Sorna, onde se desenrolaram “O mundo perdido” e “Jurassic Park III”.

As crianças a serem salvas, elemento presente em todos os filmes anteriores, estão novamente lá, na pele dos irmãos Zach (Nick Robinson) e Gray Mitchell (o garoto Ty Simpkins, que tinha roubado a cena em “Homem de Ferro III”, de Shane Black), sobrinhos da típica executiva fria Claire Dearing (Bryce Dallas Howard, filha do bom diretor Ron Howard), chefe operacional do Parque. Ela compõe o casal romântico em conflito, outra marca registrada da franquia, com Owen Grady (Chris Pratt, na atuação mais convincente do filme), um ex-militar dedicado ao estudo dos Velociraptores, chegando a se relacionar com eles, assumindo a condição de macho alfa da espécie que, como o homem, pensa e age em bando.

Também como sempre, as medidas de segurança humanas não conseguem conter milhões de anos de instinto predatório acumulado, abrindo a temporada de caça ao público do sofisticado zoológico pré-histórico. Depois que mercenários armados até os dentes mais uma vez não dão nem para a saída diante dos assassinos profissionais da evolução, armados só de dentes, a solução é emblematicamente buscada no primeiro filme, numa associação improvável entre seus dois pro(an)tagonistas. Muito embora, na hora definir a parada, não caia mal a ajudinha do novo “colega” da turma — para quem o outrora temido tubarão de Spielberg é manjuba.

Como as recriações genéticas do filme não são os dinossauros do passado, nem o seriam na realidade, o jovem diretor Trevorrow nunca será Spielberg. Mas, em sua reverência em 3D ao passado, até que deu para o gasto.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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