Neivaldo Paes Soares, o “Bambu”, está desaparecido desde domingo na foz do Paraíba

Neivaldo Paes Soares, o “Bambu”, está desparecido na foz do Paraíba do Sul, entre o  rio e o oceano Atlântico, desde o último domingo
Neivaldo Paes Soares, o “Bambu”, está desparecido na foz do Paraíba do Sul, entre o rio e o oceano Atlântico, desde o último domingo (facebook de Neivaldo)

 

Está de desaparecido, desde o início a noite do último domingo (21/06), o comerciante campista Neivaldo Paes Soares, de 54 anos. Conhecido como “Bambu”, desde que passou a morar e tocar seu bar junto à foz do rio Paraíba do Sul, primeiro no Pontal de Atafona, em São João da Barra e depois na Ilha do Peçanha, que pertence a São Francisco de Itabapoana, ele foi visto pela última vez no domingo, dentro de sua canoa a motor, nas imediações do tradicional Restaurante do Ricardinho, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Penha.

Segundo informações de quem estava no local, ele não estaria usando colete salva vidas e teria chegado a cair do barco quatro vezes, tendo depois dificuldades também para ligar o motor de popa, antes de iniciar a travessia da foz do rio até a Ilha do Peçanha. Na manhã do dia seguinte, aua canoa foi encontrada com o motor ligado, rodando em círculos por pescadores do rio Paraíba, que conduziram a embarcação e a amarram na Ilha da Convivência. Dentro da canoa, aparentemente abandonada, havia uma churrasqueira, carne de churrasco já assada, rede e iscas de pescas, uma garrafa e algumas latas de cerveja vazias, cigarros de palha fumados pela metade e um saco plástico com mantimentos: farinha de mandioca, café e açúcar.

Na manhã de hoje, o fiscal de meio ambiente de São João da Barra, Luiz Henrique Araújo, o “Lulu”, foi até o local, encontrou a canoa de Neivaldo nas mesmas condições e conversou com os pescadores que a encontraram. Depois, Lulu seguiu até à ilha seguinte do Peçanha, foi a casa de Neivaldo, que estava com a porta da frente só encostada, aparentemente nas mesmas condições em que seu dono a deixara quatro dias antes.

Irmão de Neivaldo, o também comerciante Élvio Paes Soares, o “Estranho”, esteve hoje oficializando o desaparecimento junto à 145ª Delegacia de Polícia (DP) de São João da Barra, para dar início as buscas, que começaram, lideradas por Lulu e pelo pescador e mergulhador Juliano Alcântara, antes mesmo das autoridades.

 

Atualização às 16h30: Os boatos de que um corpo humano teria sido encontrado na foz do Paraíba não são verdadeiros. Um corpo foi, sim, achado boiando no local agora há pouco, mas era de um cavalo.

 

Atualização às 18h05: Com a chegada da noite, as buscas foram interrompidas para ser retomadas amanhã pela manhã, quando contarão com mergulhadores do 5º Grupamento de Bombeiro Militar (GBM) de Campos.

 

Atualização às 19h02: Foi no bar (e residência) de Neivaldo, instalado na antiga casa de barco da família Aquino, proprietária do Grupo Thoquino, que no verão de 2010 foi encenada pela primeira vez a peça “Pontal”, num grande sucesso de público e talvez último momento de brilho de um lugar que o mar não tardaria em reaver aos seus domínios. Com concepção e direção de Antônio Roberto de Gois Cavalcanti, o Kapi, falecido em abril deste ano, o espetáculo reuniu poemas de Aluysio Abreu Barbosa, Artur Gomes, Adriana Medeiros e do próprio Kapi, trazendo no elenco Yve Carvalho, Sidney Navarro e Mairus Stanislavski, depois substituído por Artur. Dois anos depois, em julho de 2012, com o novo avanço do mar e a destruição da antiga construção no Pontal, Neivaldo se mudou à outra margem da foz do Paraíba, para um casa que já havia comprado na ilha do Peçanha. Lá ele passou a receber os amigos e conhecidos, na informalidade que comungava novamente casa e bar.

 

Atualização às 0h59 de 26/06: Texto de post de Neivaldo publicado aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, em 25 de março de 2013:

“Para que todos tenham uma bela noção do que é a ilha à qual eu moro, eu preparei um discurso o qual vocês transformarão em imagem e venham me visitar.

As ilhas do terceiro maior delta do Brasil ao nosso alcance.
Transporte-se para as ilhas, viaje por inúmeros canais.
Junior barqueiro, oficial do delta, com ótima segurança, leva você a qualquer ilha e as praias de São Francisco de Itabapoana.
Com bela parada na ilha do Peçanha, no restaurante da ilha. Lagoas salgadas e doce. Do nascer ao pôr-do-sol, o mangue seco, água potável, sem nenhum produto químico, brota da terra ao alcance das mãos, NATUREZA VIVA.
Descubra este paraíso, ouça os pássaros, a sinfonia dos ventos, a força do mar e a calmaria do nosso rio paraíba do sul, DESCUBRA A PAZ.

Serão todos otimamente recebidos, mas ligue antes, viver com a natureza, não é sempre muito fácil, até o paraíso é preciso de um trabalho.

Com carinho e amizade para todos”

 

Atualização às 11h25 de 26/06: Três lanchas, um jet ski e um quadriciclo do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil de São João da Barra e da Capitania dos Portos do município, estão desde às 8h da manhã em busca de Neivaldo Paes Soares, o “Bambu”. As embarcações maiores estão na foz do Paraíba do Sul, onde Neivaldo teria desaparecido no último domingo (21/06), e contam com dois mergulhadores dos Bombeiros, que não foram à água pela falta de referencial mais preciso numa área muito extensa. O jet ski está percorrendo o litoral pelo lado esquerdo da foz, até São Francisco de Itabapoana, enquanto o quadriciclo percorre a faixa de areia do lado contrário, até a praia do Açu. Se nada for encontrado, o trabalho das equipes de busca segue até o cair da noite.

 

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Crítica de cinema — Longa cumpre seu papel de entretenimento

Bagdá Café

 

Qualquer gato vira-lata 2 (1)

 

Mateusinho 3QUALQUER GATO VIRA-LATA 2 — “Qualquer gato vira-lata tem a vida sexual mais sadia que a nossa”, espetáculo montado em 1988 e escrito pelo ator Juca de Oliveira, deu origem às duas versões do filme “Qualquer gato vira-lata”, lançados, respectivamente, em 2011 e 2015. Em cartaz nos cinemas de Campos, o segundo longa-metragem, dirigido por Roberto Santucci e Marcelo Antunez, traz, novamente, o triângulo amoroso entre Tati (Cléo Pires), Conrado (Malvino Salvador) e Marcelo (Dudu Azevedo), com novas tramas e desfecho esperado — que, apesar da obviedade do enredo, consegue entreter os espectadores com boas doses de humor.

Durante viagem a uma ilha do Caribe, ao preparar o pedido de casamento para Conrado e ver seus planos ruírem depois de o namorado dizer que precisa um tempo para pensar, Tati une-se à ex-esposa do homem para provocar ciúmes nele. A visita de Marcelo, seu ex-namorado, é oportuna para a ocasião. Enquanto Tati e Ângela ficam contra Conrado, ele e Marcelo brigam pela protagonista.

Em cena, com elenco formado, também, Rita Guedes, Mel Maia — cuja maturidade artística é notada no filme —, Álamo Facó, Letícia Novaes, Fábio Júnior e Stella Miranda, o embate entre homem e mulher, masculino e feminino, macho e fêmea prevalece, tanto nas conquistas quanto na necessidade de demonstrar força sobre o adversário. Em entrevista recente, o autor da peça, Juca de Oliveira, afirmou que “as mulheres deixaram de ser caça para se tornarem caçadoras”. Em “Qualquer gato vira-lata 2”, a frase do também ator torna-se ainda mais evidente.

A relação humana, tanto no primeiro quanto no segundo longa-metragem, é interpretada a partir do reino animal — visto que Conrado é professor e estuda o comportamento de jovens namorados com o de diferentes espécies. A forma como o homem compreende os vínculos animais e a dificuldade com que vivencia suas próprias relações levam o público ao riso, com humor ora dosado, ora exagerado.

Em certos momentos, como na festa da tequila, “Qualquer gato vira-lata 2” remete quem assiste à lembrança outros filmes brasileiros de comédia, como “Muita calma nessa hora”, cujos personagens se reúnem na praia, com bebidas para comemorar o aniversário de uma das personagens, e a sequência do casamento em “Se eu fosse você 2”. No entanto, apesar das cenas de festas, tal como ocorreu em “Entre abelhas”, há momentos de drama.

A chegada do pai de Tati ao resort onde a moça está hospedada modifica o roteiro brevemente. O homem, interpretado por Fábio Júnior, conversa com a filha sobre casamentos e vida. O aspecto dramático prevalece, principalmente, devido ao contexto em que se encaixam não apenas os personagens, mas também os atores. A encenação, durante a sequência, ultrapassa a barreira da ficção.

A emoção e as trocas entre pai e filha deixam transparecer a realidade. Enquanto dialoga com Tati/Cléo, o pai — personagem e ator — fala sobre a importância e a saudade que sentiu da moça. A pedido dela, canta uma canção e envolve, também, o público, que, brevemente, se esquece do lado cômico que precede a bela sequência.

As últimas cenas de “Qualquer gato vira-lata 2” deixam, no público, a expectativa de um terceiro filme da franquia. Aos diretores, produtores e atores, resta a sabedoria para não deixar que o possível novo longa-metragem perca o humor, que, até o momento, foi conseguido nos dois primeiros momentos, e cumpra o seu papel.

 

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Crítica de cinema — Fora do tempo e do lugar

Cinematógrafo

 

jurassic world

 

Mateusinho 3JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS — Steven Spielberg foi muito feliz no casamento de ciência e cinema em Jurassic Park, em 1993. A concepção que os cientistas tinham dos dinossauros tanto foi bem representada no livro homônimo de Michael Crichton quanto no filme. Suas continuações, embora orientadas pelo mesmo Spielberg, não alcançaram o mesmo sucesso.

De 1993 para 2015, ou seja, em 22 anos, a ciência e as tecnologias do cinema avançaram, mas a concepção média dos dinossauros continua a mesma. Hoje, a ciência considera que a crise do Mesozoico, há cerca de 65 milhões de anos, não extinguiu todas as linhagens de dinossauros. Um grupo sobreviveu à crise por ser constituído de espécies pequenas e contar com temperatura corporal autorregulável.

Esse grupo mais próximo dos extintos dinossauros é representado pelas aves. Assim como muitas espécies de dinossauros reproduziam-se por ovos e tinham o corpo revestido por penas, assim também são as aves. Levando esse princípio a consequências mais radicais, pode-se dizer que os mamíferos também são descendentes dos dinossauros. Este grupo internalizou o ovo e sistematizou a viviparidade e o aleitamento.

As pesquisas científicas mostram que o velociraptor era, de fato, um dinossauro carnívoro, mas tinha o tamanho de um peru e o corpo coberto de penas. De fato, ele era um grande predador, mas de animais pequenos. Nunca um velociraptor poderia ser usado como cão de caça feroz contra um grande animal também predador.

Por sua vez, o brontossauro, mostrado no filme de 2015 como tendo cabeça grande, contava com caixa craniana pequena. E o galimimmus parecia-se com um avestruz, e não com um lagarto grande. Difícil admitir que se possa fabricar o maior dinossauro de todos os tempos, como o “Indominus rex”, que nunca existiu, com múltiplos remendos de material genético. Difícil admitir também que este grande animal acabasse devorado por um mosassauro.

Acontece, porém, que as salas de cinema ficaram lotadas e que a maioria dos espectadores é formada por leigos, não por paleontólogos. Assim, um filme com dinossauros correspondentes ao conhecimento atual que se tem deles seria um fracasso.

O problema de “Jurassic World: o mundo dos dinossauros”, agora dirigido por Colin Trevorrow, mas ainda com supervisão e produção de Spielberg, é a previsibilidade. Enquanto “Jurassic Park” representou uma surpresa, “Jurassic World” é perfeitamente previsível: um enclave de dinossauros criado pelos Estados Unidos na América Central, um casal que se bica mas acaba junto, dois irmãos perseguidos pelos bichos, um casal de classe média em crise matrimonial, os bons e os maus, os erros dos técnicos e a vitória final dos dinossauros. Esta é a quarta tentativa de criar um parque com dinossauros, para atração turística, que malogra. Creio que já é hora de mudar de rumo. Talvez um filme colocando os trilobitas em evidência, como desejava Richard Fortey, um novo ciclo.

Contudo, há um ensinamento filosófico a extrair dos quatro filmes sobre dinossauros iniciados com o de 1993. No fim, eles mostram que a natureza sempre vence e o projeto humano de domesticar, que a Modernidade nos legou, sempre acaba derrotado. Nos quatro filmes, os heróis são sempre os dinossauros. Por esse prisma, nossos empreendimentos de domesticar os rios, as lagoas, os mares, o clima resultam sempre em fracasso. Fica o recado subliminar de que é muito perigosa a ciência sem consciência.

 

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O adeus, os meninos e seus ídolos

Zico e Carlinhos 2
Na essência do futebol e tudo que o transcende, um menino e seu ídolo

Já escrevi que nada dá a sensação de que o tempo está passando por nós como quando ele já não passa na vida de quem nos servia de referência. Como o jornalista (e rubro-negro) Cilênio Tavares anunciou aqui, em primeira mão na blogosfera local, o ex-volante e ex-técnico do Flamengo Carlinhos morreu hoje, aos 77 anos, de insuficiência cardíaca. Nascido em 1972, não pude acompanhá-lo nas décadas de 50 e 60 do século passado, quando ficou conhecido como “Violino” pela classe que desfilava nos campos em seus tempos de jogador. Mas foi com ele como técnico que assisti, nas arquibancadas do Maracanã, ao Flamengo ser campeão brasileiro duas vezes: em 1987, ainda sob a regência de Zico dentro das quatro linhas; e 1992, com Júnior assumindo a função e a alcunha de “Maestro”.

O Brasileirão de 87 foi a conquista do talvez último grande time do Flamengo. Além de Zico, trazia Leandro e Andrade como remanescentes da inigualável, mas já envelhecida geração campeã da Libertadores da América e do Mundial de Clubes, em 1981. Isso sem contar o Tri brasileiro em 80, 82 e 83. Para repetir o título em 87, o Flamengo teria o reforço de jovens talentos como Bebeto, Zinho, Jorginho, Leonardo e Aldair, que depois dariam a base da Seleção Brasileira Tetracampeã do Mundo, na Copa do Mundo de 1994.

Cria do clube também como técnico, vindo das suas divisões de base, Carlinhos foi fundamental para fazer a ponte entre essas duas brilhantes gerações, usando da elegância para cadenciar a passagem do tempo, como antes fazia com a bola no meio de campo. E se em 87 sua virtude foi achar o equilíbrio entre grandes jogadores, incluindo outros craques como Renato Gaúcho e Edinho, no Brasileiro de 92 pode se dizer que o treinador fez milagre. Jogador de exceção, o Flamengo só tinha mesmo Júnior, que voltara à Gávea após anos pela Itália. Ainda assim, o time foi campeão sobrando nas finais com o Botafogo, incluindo o último jogo, no qual desabou parte da amurada da antiga arquibancada de um Maracanã superlotado, matando pessoas e gerando pânico a poucos metros de mim.

Quem viu Carlinhos jogar, o coloca entre Dequinha e Andrade como um dos mais clássicos volantes da história do Flamengo. Como não me foi dada a chance de conferir pessoalmente os dois primeiros, resta-me dedicar a mesma fé às palavras de quem viu e contou, que espero ter do leitor mais jovem ao meu testemunho: Andrade foi um craque de bola!

Do coração do meu coração, na bola roubada do príncipe da Dinamarca, agradeço a Carlinhos pelo que foi como técnico. Quando tinha 15 e 20 anos, vi ele levar meu time à conquista de dois Brasileiros, enquanto gritava seu nome das arquibancadas, junto à massa retribuída pelo aceno da mão, no mesmo gesto elegante e sutil que sempre atribuí em minha imaginação aos seus pés nos gramados.

Para imaginar o que Carlinhos pode ter sido como jogador, talvez baste saber quem o destino escolheu para escudá-lo na sua despedida dos campos, em 1969, carregando as chuteiras descalças, aposentadas como instrumentos do Violino. Aquele rapazote de 16 anos, mas aparentando menos, por baixo e franzino, de cabelos louros, com os olhos brilhando como qualquer garoto lado a lado do ídolo em apoteose, no mesmo Maracanã que ainda reservaria tantas glórias a ambos, era Zico.

Por todos os meninos e seus ídolos, adeus, Carlinhos!

 

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Crítica de cinema — Emoções animadas para toda a família

Colyseu

 

 

Divertida mente

 

Mateusinho 4DIVERTIDA MENTE — A vida apresenta constantemente situações que obrigam a pessoa a lidar com suas emoções. Há eventos mais carregados emocionalmente do que outros, mas mesmo eventos simples do cotidiano são tonalizados emocionalmente. O desenvolvimento da habilidade para regular as próprias emoções é uma consequência da socialização, sendo essencial para que a criança possa aderir aos valores e padrões de convivência social. Diversas pesquisas constataram que a conversação sobre experiências emocionais entre os pais e a criança pequena tem uma função estratégica no desenvolvimento de sua habilidade para identificar, compreender e expressar emoções. Resultados de pesquisas têm mostrado que a criança desenvolve um modelo para avaliar sua experiência, aprende a lidar com as emoções que a acompanham e desenvolve uma compreensão sobre si mesma durante o relembrar conjunto com seus pais das experiências vividas por ela.

Passa por aí o argumento do novo longa-metragem (94 min.) de animação da Pixar Animation Studios, “Divertida mente” (“Inside Out”, originalmente), lançado na última quinta-feira (18/06). O filme da mega produtora de animação digital  da Walt Disney Company chegou para amenizar um pouco o desgaste com as críticas de que só realizavam ultimamente produções menores e continuações de antigos sucessos.

Com argumento e roteiro muito interessantes desenvolvidos pelo trio Peter Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley, com direção da dupla Peter Docter (Oscar com “Up — Altas Aventuras”) e o estreante Ronaldo Del Carmen. O filme gira em torno da mente de uma garota pré-adolescente (11 anos), Riley, tendo como grandes protagonistas as cinco emoções responsáveis por conduzir sua vida: Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho. Cada emoção possui cor e temperamentos próprios, claramente infantilizados para facilitar a compreensão do público menor, mas ainda assim com um tanto de profundidade. Desenvolveram a personalidade de cada uma delas, e buscaram meios para tornar concreto e viável algo que não é palpável. E conseguiram com muita criatividade.

Na trama a pré-adolescente norte americana, nascida e criada em uma pacata e tranquila cidade de Minnesota, onde adora jogar hóquei no gelo, é obrigada a se mudar com o pai e a mãe para uma metrópole como São Francisco, repleta de casas monocromáticas, antigas e malcuidadas.

A partir daí entra em cena uma espécie de central de emoções para tentar ordenar sua vida com a estrela Alegria (Amy Poehler/Miá Mello), que comanda o restante das emoções e cuida para que nada saia errado, a lágrima Tristeza  (Phyllis Smith/Katiuscia Canoro), a chama Raiva (Lewis Black/Léo Jaime), o brócolis Nojo (Mindy Kaling/Dani Calabresa) e o nervo exposto Medo (Bill Hader/Otaviano Costa). A dublagem para português na animação, quando bem realizada, não faz tanta falta o som original.

Com destaque para o relacionamento entre a Alegria e a Tristeza, a animação é muito prazerosa de assistir. Uma ótima oportunidade para toda família, na medida em que não é profundo demais para as crianças e nem tão infantil para os adultos.

Não foi à toa que foi o filme mais aplaudido após a sessão no Festival de Cannes 2015.

 

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Artigo do domingo — Não é cristão quem persegue ou agride por causa da religião

Sangue de Cristo

 

 

Jornalista e blogueiro Arnaldo Neto
Jornalista e blogueiro Arnaldo Neto

Não se pode julgar o todo por um, pela parte

Por Arnaldo Neto

 

O Brasil é o país da diversidade cultural. Talvez, atrás de “o país do futuro”, esse seja o chavão mais utilizado para definir a terra tupiniquim. A liberdade religiosa é, pelo menos no papel, plena. Alguns fatos recentes vêm por em xeque o direito de expressar a crença, principalmente se ela não for de alguma das ramificações que têm como base o cristianismo. Os seguidores das religiões de matrizes africanas são as principais vítimas de intolerância. Dois casos recentes e distintos exemplificam isso: uma menina de 11 anos que levou uma pedrada na cabeça quando saía de um culto de candomblé no último domingo, no Rio de Janeiro; e uma menina de 7 anos que morreu supostamente durante um rito de umbanda em Campos.

No Rio de Janeiro, a intolerância religiosa ficou explícita quando um grupo saía de um rito de candomblé e foi agredido — a pedradas — por dois homens que supostamente traziam Bíblias nas mãos. Eles acertaram a cabeça de uma menina de 11 anos. A perseguição seria “em nome de Jesus”. O contraditório nisso é que o maior líder da história da humanidade, Jesus Cristo, segundo relatos da própria Bíblia que os agressores traziam nas mãos, livrou uma pecadora do apedrejamento e pregava o amor ao próximo como um dos maiores mandamentos.

Em Campos, a vida de uma menina teria sido ceifada durante um rito de umbanda, como aponta a investigação, em andamento, da Polícia Civil. O fato é lastimável, inadmissível. Assim que o inquérito apontar os culpados, eles devem pagar pelo crime. Não existe ritual religioso que possa justificar a morte de alguém, ainda mais de uma criança. No entanto, a forma como o caso foi explorado por alguns veículos midiáticos alimenta o ódio pela religião e causou revolta em seguidores da crença. De ritual macabro a sacrifício satânico, a suspeita de a morte ter ocorrido em um terreiro, durante uma celebração, ganhou todo tipo de qualificação e pré-julgamento.

Se comprovada que a morte aconteceu dentro do terreiro, durante algum rito executado de forma inexplicável para os que conhecem a umbanda, é natural que a revolta popular recaia sobre os envolvidos. Isso aconteceria com seguidor de qualquer religião, ou até de um ateu, que tirasse a vida de uma criança. É um fato que comove, que normalmente revolta. O que não pode acontecer é se utilizar da circunstância para alimentar qualquer tipo de intolerância religiosa.

Dizer que todo “macumbeiro” — expressão chula para definir qualquer seguidor da umbanda ou do candomblé —, espírita ou seguidor adepto a qualquer crença que não seja cristã é ligado a rituais malignos, é assumir contra a própria religião que os clichês “padre pedófilo” e “pastor ladrão” são verdadeiros, quando não os são. Não se pode julgar o todo por um, pela parte.

É inadmissível que exista perseguição religiosa neste país. Os extremistas islâmicos, por exemplo, matam e perseguem devido a uma crença. E não é disso que o Brasil precisa. Mas o que se assiste é a morte misteriosa de um líder espírita no Rio de Janeiro, na última sexta, e a depredação do túmulo de Chico Xavier em Uberaba, Minas Gerais. Por outro lado, o arcebispo do Rio, cardeal Dom Orani Tempesta, deu exemplo ao receber a menina de 11 anos que foi vítima de intolerância para um café da manha, junto a líderes candomblecista. Dom Orani decretou o que todos deveriam saber: quem persegue e agride por causa de religião, não pode ser considerado cristão.

O Brasil é um Estado laico, graças a Deus. E que permaneça assim sempre — com o respeito à diversidade cultural e à liberdade religiosa —, se Deus quiser.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Poema do domingo — O mundo é sortido, Senhor, como dizia meu pai

Ensaios fotográficos

 

Talvez só após a morte de Manoel de Barros (1916/2014), tenha percebido (aqui) o quanto a obra do poeta influenciou a minha, desde que a conheci a primeira vez, em 2000, a partir da publicação naquele ano do livro “Ensaios fotográficos”. Nele, alguns anos antes do tema diversidade ficar tão em moda, um dos poemas que mais me marcou foi “O aferidor”. Seja numa açucena, no nome de Deus ou num homem sentado nas pedras da própria ruína, entre tantas outras fugas de Bach passíveis de reflexo nos olhos das criaturas, sábio (e saudoso) será o pai que ensinar seu filho a aferir o sortimento do mundo.

 

Atafona, janeiro de 2015
Atafona, janeiro de 2015 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

O Aferidor

 

Tenho um Aferidor de Encantamentos.

A uma açucena encostada no rosto de uma criança

O meu Aferidor deu nota dez.

Ao nomezinho de Deus no bico de uma sabiá

O Aferidor deu nota dez.

A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura

O Aferidor deu nota vinte.

Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada

sentado nas pedras de suas próprias ruínas

O meu Aferidor deu DESENCANTO.

(O mundo é sortido, Senhor, como dizia meu pai.)

 

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