Crítica de cinema — Salva o filme enquanto salva o mundo

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Mateusinho 3O EXTERMINADOR DO FUTURO: GÊNSESIS — Um dos clássicos do cinema nos anos 1980, sobretudo para quem era adolescente, foi “O exterminador do futuro” (1984), roteirizado e dirigido pelo canadense James Cameron, que lançou ao estrelato e tornou pronunciável o nome do austríaco campeão de fisiculturismo Arnold Schwarzenegger, num papel à medida generosa do seu bíceps: um ciborgue programado para se infiltrar e matar, dissociado de qualquer emoção. Ele é um T 800, andróide coberto de pele humana, enviado do futuro pela Skinet, sistema de inteligência artificial que desencadeou uma hecatombe nuclear, dominou a Terra e escravizou os homens que restaram.

A missão do T 800 é exterminar Sarah Connor, uma garçonete aparentemente insignificante, antes que ela engravide, dê à luz e treine John Connor, futuro líder da rebelião humana contra as máquinas. Para tentar impedi-las, John envia do futuro o combatente Kyle Reese, que será seu pai, para proteger (e fecundar) sua mãe, naquele passado então presente de 1984. Mal acabou aquela década e o diretor Cameron abriria a seguinte dando endosso a uma das falas mais icônicas do cinema: “I’ll be back!” (“Eu voltarei!”).

Em 1991, “O exterminador do futuro 2: O julgamento final” foi outro retumbante sucesso. Primeiro filme da história a custar mais de US$ 100 milhões, não só deu lucro, como ainda levou quatro estatuetas do Oscar em categorias técnicas. Todavia, o êxito não seria nem de longe alcançado pelas duas sequências seguintes: “O exterminador do futuro 3: A rebelião das máquinas” (2003), de Jonathan Mostow; e “O exterminador do futuro: A salvação” (2009), dirigido por McG.

É com os dois primeiros sucessos que “Exterminador do futuro: Gênese”, ora em cartaz nos cinemas de Campos, tenta dialogar não como sequência, mas um remake do filme original, que tenta jogar na conta de realidade alternativa. Aos 67 anos, Schwarzenegger volta à pele envelhecida (por humana) do T 800, agora batizado de Papi pela Sarah Connor (a inglesa Emilia Clarke, mãe dos dragões na brilhante série televisiva “Game off thrones”) a quem foi enviado para proteger, não mais exterminar. Quem também está de volta é Kyle Reese, agora interpretado pelo australiano Jai Courtney, com a mesma missão de proteger Sarah, protegida desde criança pelo T 800 que a criou, após outro aparentemente ter causado a morte dos seus pais.

Inimigos no primeiro filme e agora aliados dedicados à função de proteger a mesma pessoa, Papi e Kyle se unem nessa refilmagem para enfrentar o Schwarzenegger jovem de 1984 e um T 1000 — versão mais moderna do exterminador, em metal líquido, capaz de assumir qualquer forma que consiga tocar, devidamente apresentado em “O exterminador do futuro 2”. Apesar das diferenças e dos ciúmes entre o protetor humano e o cibernético, ambos conseguem eliminar em tempo recorde as duas ameaças que, separados, levaram os dois primeiros filmes inteiros para dar conta.

A partir de então, a ameaça passa a ser o próprio John Connor, agora vivido por Jason Clarke, outro ator australiano. Logo após enviar o pai de volta no tempo para proteger a mãe, o líder da resistência é dominado pela Skynet, numa espécie de possessão eletromagnética que funde máquina e homem em seu corpo transformado. É nessa abdução que ele volta ao passado para tentar cooptar Sarah e Kyle. Caso não consiga, parece disposto a matar a mãe e o pai para proteger a Skynet, também repaginada como programa aplicativo multimídia em escala global, não mais um sistema de defesa nuclear dos EUA.

Entre tantas idas e vindas, no tempo e na trama, o roteiro da estadunidense Laeta Kalogridis e do canadense Patrick Lussier pode deixar as coisas um tanto embaralhadas, mesmo na cabeça de quem acompanha a franquia com atenção desde quando 1984 era presente. Afinado à frente de alguns episódios da já citada série de TV “Game off thrones”, o diretor estadunidense Alan Taylor não é nenhum James Cameron, mas diz a que veio, sobretudo nas cenas de ação, com destaque à perseguição sobre a ponte Golden Gate, cartão postal da cidade de San Francisco.

Ausente apenas no quarto filme da franquia, Schwarzenegger volta ao papel que o alçou à condição de estrela, há 31 anos. E talvez a grande virtude do filme seja liberar as emoções do ex-Mister Universo na única máscara onde ele demonstrou algum talento como ator: a comédia. Esquecida há algum tempo, tivera essa face revelada pelo diretor Ivan Reitman, outro canadense, em “Irmãos gêmeos” (1988), numa impagável dupla com Danny DeVito, e “Um tira no jardim de infância” (1991).

“Velho, não obsoleto”, como diz mais de uma vez na tentativa de criar um novo chavão, o velho brutamontes compõe bem o ciborgue humanizado pelo tempo, desejo da Skinet nunca alcançado, chegando a verter a lágrima que, ao fim de “O exterminador 2”, lamentou ser incapaz de derramar. Mas é quando força seu riso para extraí-lo naturalmente do espectador, que Schwarzenegger, quem diria, acaba salvando o filme enquanto salva o mundo.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Elza

    Horrível programação kinoplex… Francamente…

  2. Aluysio

    Francamente, Elza, arrisque sua sorte no Boulevard… rs

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