Opiniões

Artigo do domingo — Ou fica Dilma ou saem todos

Dilma legal

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo André Vasconcelos
Jornalista e blogueiro Ricardo André Vasconcelos

Por Ricardo André Vasconcelos

 

O país viu suas entranhas expostas nos últimos anos, como nunca antes vira, apesar de imaginar como seriam. Depois dos “mensalões” (do PT e do PSDB), que revelaram ao país os porões das campanhas eleitorais, o sucedâneo “petrolão”, com o fio puxado a partir da delação premiada do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa , não para de revelar ao país as sórdidas e milionárias transações com o dinheiro público. Pelo menos um ex-presidente da República já sendo investigado (Collor) e outro (Lula), vai pelo mesmo caminho; as contas da campanha da reeleição da presidente podem ter sido irrigadas com verbas desviadas das licitações fraudulentas da Petrobras e os presidentes da Câmara e do Senado estão envolvidos até os últimos fios de seus cabelos artificiais. E, no meio da trama, os donos das maiores empreiteiras do país estão presos, incluindo o presidente da mais poderosa de todas, a Odebrecht, que só em 2014, faturou R$ 107 bilhões, e o banqueiro André Esteves, o 13º homem mais rico do país, acusado de tentar interferir na delação premiada de um ex-diretor da Petrobras.

Se isso não bastasse, o presidente do Tribunal de Contas da União também é suspeito de se beneficiar das maracutaias na Petrobras, através de um filho, advogado e que venderia informações sobre os julgamentos da Corte. As suspeitas recaem sobre todos os poderes e, antes da última quinta-feira, a partir da decisão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aceitar um dos 34 pedidos de impeachment da presidente Dilma, seria possível um grande “acerto” para salvar a todos, algo do tipo imortalizado pelo jornalista Sérgio Porto, encarnado no pseudônimo Stanislaw Ponte Preta: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”

Talvez seja simplismo, mas cabe lembrar que os petistas que, há década e meia, se apoderaram da máquina pública como instrumento partidário, fazem o que seus opositores não fizerem e nem fariam diferente. Basta ler “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Júnior e “O Príncipe da Privataria”, do jornalista Palmério Dória; ou “Assassinato de Reputações”, de Romeu Tuma Júnior e “Mensalão”, de Marco Antônio Vila, para concluir que PT e PSDB são xifópagos separados na maternidade.

Depois da vendeta de Cunha, ao perder os três votos que do PT que garantiriam uma pena mais branda ou até absolvição no processo movido contra ele no Conselho de Ética, não dá mais para recuar. Mesmo que, ao contrário de Cunha, pilhado mentido na CPI da Petrobras sobre suas contas no exterior, não pese sobre a presidente da República nenhum crime de responsabilidade expresso no artigo 85 da Constituição Federal. Impeachment é um processo de julgamento político, mas que é deflagrado a partir de um fato jurídico, o que não parece ser o caso das “pedaladas fiscais”. À Cunha isso pouco importa. Depois de se garantir no cargo e mandato negociando com a oposição apoio em troca de uma promessa de iniciar o impeachment e prometer o oposto aos aliados do governo pelo mesmo apoio, caiu-lhe sua máscara. Falta perder o cargo, o mandato e a liberdade.

Iniciado o processo de impeachment há dois caminhos: ou a comissão especial que se instala nesta segunda-feira arquiva a representação dos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale e Janaína Paschoal ou aprovaria o prosseguimento do processo, que passaria para o Senado e presidido pelo ministro Ricardo Lewandowski, do STF. O governo prefere suspender o recesso parlamentar e matar a questão o mais rápido possível, enquanto a oposição quer adiar para março de 2016, quando a classe média poderia ser convocada para ir às ruas e influenciar o Congresso. Sem manifestação de rua não há impeachment. Na verdade, a crise política é menor que a crise econômica, sendo esta decorrente daquela e com consequências dramáticas no horizonte: recessão pré-depressão, desemprego perto dos 10% da população economicamente ativa e descontrole fiscal. E tudo numa roda viva, num círculo vicioso de desconfiança que não se sabe onde vai parar ou se vai parar.

Dependendo do desenrolar das investigações da Lava Jato — meia centena de deputados e senadores já é investigada — resta ver o que vai sobrar das lideranças políticas para construir algo mais ou menos novo. Minha aposta é que a saída da crise virá do Poder Judiciário, precisamente no TSE, onde tramitam alguns processos que poderiam redundar na cassação do diploma da presidente e do vice, Michel Temer (PMDB). Aprovado o impeachment, Temer assumiria, enquanto a cassação do TSE é da chapa, ou seja, são afastados presidente e vice. Nesse caso, assumiria o presidente da Câmara, Senado e do STF (nesta ordem), com convocação de eleições em 90 dias (artigos 80 e 81 da CF). Óbvio que não seria nem Eduardo Cunha nem Renan Calheiros e, portanto, o poder cairia no colo do ministro Ricardo Lewandowski, o presidente do STF, até a posse do(a) novo(a) eleito(a).

Essa tese, ainda não assumida por ninguém, interessa à aliança DEM-PSDB tanto quanto ao ex-presidente Lula, que disputaria a eleição dois anos mais moço que em 2018. De fato, Dilma não assumiu o segundo mandato, mas isso não é motivo para impedimento, porque foi eleita democraticamente, mas se tiver que ser sacrificada em nome da estabilidade política e econômica, que seja pelo TSE e com novas eleições em 90 dias.

Ou fica Dilma, ou saem todos.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Este post tem 5 comentários

  1. Dilma ficar é brincadeira de mal gosto…Sair o “resto” concordo plenamente!Só gostaria de observar que sempre existiu corrupção, isso é fato, porém o PT a institucionalizou tomando o estado de assalto literalmente,haja vista que em outros tempos não me recordo ter visto tanta gente graúda de um único partido, e esse do governo, PRESA. Quanto aos livros, só li o de Romeu Tuma Júnior,e se o que esta escrito lá for verdade, e tudo indica que sim, o PT e seus sequazes são muito pior do que parecem.
    Respeito a opinião do autor do artigo, bem como a de qualquer outra pessoa, afinal não sou PTista, contudo, partindo de sua analise, principalmente sua observação ao final,teremos, salvo mal entendido, que ficar afundando nesse mar de LAMA que o PT como nenhum outro partido( e não estou aqui defendendo nenhum ), esta a fazer com o Brasil ate que o supremo decida os processos que lá estão, ocorre que o Brasil não vai conseguir esperar, quebrado que já esta, virá a falência total enquanto espera.
    Minha modesta opinião:FORA DILMA, FORA LULA, FORA EDUARDO CUNHA, FORA RENAN CALHEIRO!!! O povo na rua e os movimentos democráticos ditarão aos que restarem o BRASIL que queremos e precisamos, eles terão que entender a voz das ruas, e já começaram, ou alguém tem dúvidas que a aprovação do voto aberto que culminou inclusive com a manutenção da prisão de Delcidio do Amaral não foi por causa da opinião pública?
    Saudações DEMOCRÁTICAS!!!

  2. O título do texto me faz lembrar a minha adolescência, quando eu chegava em casa contando aos meus pais que havia tirado nota baixa na escola, e, para tentar atenuar a bronca, dizia que muitos colegas de turma tinham ficado abaixo da média. É claro que isso não colava, porque eu tinha que cuidar da minha vida, esquecer os outros e “cair dentro” para tirar notas ótimas.
    Para o autor, a lógica é a mesma, se querem que a Dilma saia, todos que estão pedindo que ela seja afastada do poder, com mandato político partidário no legislativo, tem de sair também.
    Eis aqui um raciocínio primário, muito semelhante ao meu quando adolescente. Primário, porque reforça uma postura dialética comum em certos textos jornalísticos. A postura de tentar empurrar goela abaixo que o Impeachment é, nada mais, na menos que um duelo entre Cunha e Dilma. Uma ação fruto de um revanche. E se foi? Isso é relevante? Penso que não. O que é relevante é o conteúdo do pedido, que nem foi feito pelo Cunha, mas sim por três renomados juristas. Um pedido bem fundamentado. Pode-se não gostar, mas a peça jurídica é impecável.
    O grande problema é que muita gente na área de humanas, a qual jornalismo integra, quer que um líder de esquerda continue no poder, mesmo que seja ruim.
    A Direita? Essa é sempre satanizada. Ela, governar o Brasil? É um “pecado” mortal. Não, não é. A Argentina fez isso a algumas semanas e não vai doer.
    No Brasil também não vai doer, impichando ou cassando a Dilma. Todos irão sobreviver. Não será o fim do mundo.

  3. Concordo com a colocacao acima, a resposta virá das ruas. Do jeito que está não pode ficar, o País já parou a tempo.
    Manter esta terrorista no poder com a simples Desculpas que não cometeu nenhum ato ilícito é imoral e está na sua incapacidade de governar, conseguiu ser o pior governo de todos os tempos porquê não conseguiu nem esconder as sujeiras do seu antecessor e expôs a sua incapacidade (trecho excluído pela moderação) de governabilidade de uma burrice sem precedentes.
    Quanto ao que venha a acontecer ” no mínimo o impeachment” já é alguma coisa nesse mar de lama moral que o País se afundou.
    FORA PT, FORA LULA,DILMA FORO DE SÃO PAULO =CADEIA, EDUARDO CUNHA, RENAN CALHEIROS, TODOS OS QUE JÁ ESTÃO ENVOLVIDOS E INDICIADOS E PRESOS.

  4. Parabéns Leniéverson,
    sua opinião é irretocável, principalmente quando grafa:
    “Eis aqui um raciocínio primário, muito semelhante ao meu quando adolescente. Primário, porque reforça uma postura dialética comum em certos textos jornalísticos”. Algumas vezes é melhor ficar calado. Nem todo campista ´desinformado ou alienado!

  5. Parece que ficam discutindo nomes enqto
    temos que discutir todo o processo facilitador
    das raposas ,as quais, não deixarão de existir.
    Que medidas de prevenção e punição da
    corrupção sejam efetivamente colocadas
    em prática.Qua as instituições sejam fortalecidas
    em detrimento de seus próprios membros,aos
    quais não temos a ingenuidade de exigir imparcialidade
    mas RESPONSABILIDADE e COMPOMETI-
    MENTO institucional e quando necessário,que
    sofram as devidas punições num
    Brasil onde um juiz que comete um “malfeito” pode
    ser “punido” com aposentadoria .
    É deboche demais para com o povo brasileiro.

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