Opiniões

Poema do domingo — Nasço em nome da água

Rudá Sánchez no ponto alto do Sarau de Natal em Atafona, em 19 de dezembro de 2015 (foto de Diomarcelo Pessanha)
Rudá Sánchez aponta em direção ao Atlântico no ponto alto do Sarau de Natal em Atafona, em 19 de dezembro de 2015 (foto de Diomarcelo Pessanha)

 

 

No domingo passado, não publiquei nenhum poema no blog. Por contraditório que possa parecer, a poesia foi o motivo. Envolvido na noite de sábado com o Sarau de Natal em Atafona, junto de outros poetas já publicados aqui, como a Adriana Medeiros, o Martinho Santafé, o Artur Gomes e o Adriano Moura, mais o devido enterro dos ossos no dia seguinte, não tive tempo para manter no blog essa sua tradição dominical “de há séculos” — como versejaria o português Fernando Pessoa (1888/1935) pela pena do seu heterônimo Álvaro de Campos.

Capa da coletânea a poesia de Adonis pela Companhia das Letras
Capa da coletânea da poesia de Adonis pela Companhia das Letras

Num domingo ainda mais ao passado, em 22 de novembro, dia do inesquecível show do Pearl Jam no Maracanã, postei um texto extenso em prosa, em preâmbulo à poesia do sírio Adonis, nascido Ali Ahmad Said. A partir da contextualização da vida e obra daquele considerado o maior poeta moderno da língua árabe, o texto se alongou na tentativa de entender a Guerra Civil na Síria e seus reflexos diretos na morte do menino Aylan Kurdi (aqui), em 2 de setembro, e nos atentados dos facínoras do Exército Islâmico (EI) em Paris (aqui), em 13 de novembro.

No meio de tanta besteira dita e escrita sobre os dois lamentáveis fatos, por gente que ignora completamente história e presente da Civilização Islâmica, a tentativa talvez não tenha sido das piores. Se você ainda não leu, pode fazer juízo por conta própria aqui. Mas, independente do resultado, o fato é que a abertura em prosa ficou muito maior do que o curto poema “Canções para a morte”. Não por outro motivo, na reprodução da postagem do blog na democracia irrefreável das redes sociais, a Claudia Caetano observou aqui: “Ficou um gosto de quero mais”.

Assim, na desculpa pelo hiato do último domingo, sobretudo a você, leitor, que já se acostumou a buscar e encontrar poesia aqui neste dia da semana mais dado à contemplação, o blog mata duas dívidas. Em versos nascidos da água que nasceu em Adonis, traduzidos pelo também poeta Michel Sleiman, o pagamento se replica abaixo:

 

 

Vista da varanda em 25 de dezembro de 2015 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Campos, vista da varanda em 25 de dezembro de 2015 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Árvore do Oriente

 

Me fiz espelho

refleti tudo

mudei em teu fogo a cerimônia da água e da vegetação

mudei voz e apelo,

 

passei a te ver em dois

tu e esta pérola que nada em meus olhos

eu e a água nos fizemos amantes

nasço em nome da água

nasce em mim a água

eu

e a água

nos replicamos.

 

 

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Este post tem 9 comentários

  1. Sim, meu querido Aluysinho, alguém disse, acho até que fui eu, provavelmente me apropriando de algum Poeta ou Escritor, pois é público e notório que sou um corsário,m que pilha e saqueia, aqui, ali e acolá, versos, ideias, pensamentos de outrens, por entender que aos Poetas, principalmente, no momento em que publicizam suas poesias, podemos, temos o direito, de delas nos sentirmos donos sim. O mesmo digo em relação aos teus posts, eles são nossos, no momento em que são publicados… Eu serei magnânimo, eu te perdoarei pela omissão passada, por entender que também, à Poesia, temos que dar um descanso, mínimo, é claro, mas que isso, esse descanso, não vire hábito, pois estou, estamos, ouso pluralizar, viciados em tê-la aqui, neste espaço. Fraterno e forte abraço.

    1. Caro Provisano,

      Já escrevi mais de uma vez que um poema só pertence ao autor enquanto este autora. Uso nisto a jurisprudência de Fernando Pessoa: “Sentir, sinta quem lê!”. E, se vale para a poesia, tanto mais à prosa que se presta a abrir-lhe as portas.

      Abç e grato pela chance da concordância!

      Aluysio

      P.S. Tomada sua analogia que faz dos leitores do blog “viciados” em poesia, a ausência do último domingo não foi por descanso dela, mas overdose… rs

  2. Esta é a vantagem da boa espera, a boa surpresa que sempre supera a expectativa. Agora, encomendar o livro, urgentemente, obrigado!

    1. Caro Savio,

      Ecomende, sim, o livro de Adonis pela Companhia das Letras. É um presente que, por merecimento, dará a si mesmo. E, se me permite, só reforço as outras indicações feitas anteriormente, para vc e qualquer um que pretenda conhecer melhor a cultura islâmica: 1) “Uma história dos povos árabes”, de Albert Hourani (1915/93); 2)“O canto da unidade: Em torno da poética de Rumi”, na compilação crítica de Marco Luchesi e Faustino Teixeira; e 3) “Falsafa — A filosofia entre os árabes”, de Miguel Attie Filho.

      Abç e grato pela generosidade de sempre!

      Aluysio

  3. Muito lindo .Amor puro

    1. Cara Sandra,

      Sim, o amor puro, como em Rumi (1207/1263), se replica na poesia de Adonis.

      Abç e grato pela chance de estender a concordância!

      Aluysio

  4. Outro dia, vi a pérola brotar do mar de Atafona…e não tem como não replicar poesia de lua e dívidas…

    1. Caro Ocinei,

      Da pérola à lua, dos versos de Adonis à prosa do seu comentário, nenhuma dívida se replica.

      Abç e grato pela chance da tréplica!

      Aluysio

  5. Obrigado. Sugestões já anotadas e em fase de pesquisa para compra.

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