Guilherme Carvalhal — A Cabeça Falante

Carvalhal 16-06-16

 

 

Quando anunciaram a mais fantástica invenção desde a lâmpada elétrica, o público da quermesse se dispôs à frente daquele homem de cartola e vestimenta mística. Entre eles havia uma mesa coberta e cobrou 10 reais de cada um para apresentar algo capaz de mexer com a fé do mais fiel dos homens. Amealhou as notas e descobriu a mesa, revelando uma cabeça humana que se mexia e falava.

Todos riram daquela peça, evidenciando que por baixo da toalha se escondia alguém cuja cabeça apontava para fora pela parte superior através de um buraco. Todos fizeram perguntas e interagiram, muitos se sentindo tapeados por um truque barato e  reclamando seu dinheiro de volta. Diante da sensação geral de ludibrio, o homem da cartola arrancou a toalha que cobria a parte de baixo, entre as pernas da mesa, e ali se viu o vazio. Não havia ninguém escondido e a cabeça falava por si só, sem estar presa a corpo algum. O pânico tomou conta da maioria, que saiu correndo em desespero querendo se distanciar dessa bruxaria. O homem da cartola, previamente ciente do pânico a acometê-los, gargalhava, a parte do seu espetáculo em que encenava o feiticeiro a espantar os tolos com seus poderes aprendidos nos círculos herméticos de Karnak.

Posteriormente à debandada, sobraram alguns ainda reticentes com a paranormalidade daquela cabeça. Palpitavam tratar-se de tecnologia moderna, questões de transistores, chips ou nanotecnologia, apta a produzir uma inteligência artificial que movia uma cabeça inorgânica articulada. O homem da cartola então os desafiou:

— Descrentes, somente a erudição antiga da pedra filosofal e da cabala é capaz de um fenômeno desses. Não há nada de tecnologia aqui, apenas elementos alquímicos muito além de seu conhecimento. Se duvidam, coloco-os à prova: quaisquer dúvidas que tiveram, basta fazê-la, pois a cabeça falante consultará de Dagon a Tutatis para responder e provar a extensão de sua sabedoria.

Ninguém, à exceção de um, ousou dar um passo em frente, alarmados e reticentes quanto às profecias que a cabeça poderia revelar. Gideão se posicionou temerário à dianteira, intentando mostrar sua superioridade em relação aos demais:

— Diga-me então, cabeça — perguntou incrédulo e com voz empostada de deboche — minha esposa está de caso com outro homem? — e virou-se confiante aos espectadores.

— Sim — disse a cabeça para espanto geral — Ela encontra-se sorrateiramente com Aderval em rápidas aventuras amorosos quando o senhor sai para caçar. Estão há oito meses nessa, desde uma noite em que a deixou sozinha e ele passou pela sua janela e foi convidado a entrar.

O olhar de pasmo no rosto de Gideão transparecia a sucedânea de conjecturas traçadas em seu pensamento. Lembrou-se de momentos suspeitos flagrados entre a esposa e Aderval, como trocas de sorriso mais íntimas do que mera amizade ou umas visitas inesperadas dele, frutos da vontade de se aproximar de sua senhora. Então, absorveu o relato daquela misteriosa cabeça, que jamais havia tido contato algum com as pessoas dessa cidade e jamais saberia mencionar as relações existentes entre seus moradores, e tornou aquilo algo tateável, a prova de um crime entregue em um envelope, perdendo o aspecto galhofeiro e embarcando em uma jornada interna.

Enquanto muitos se seguravam para rir da pilhéria e do adultério exposto publicamente, ele pôs-se em correria para casa. O homem da cartola desafiou mais algum dos restantes, porém todos deram para trás aturdidos com a possibilidade de alguma verdade escondida vir à tona.

Poucos instantes depois, quatro estalos de tiros originados da lateral da igreja chegaram aos ouvidos. O povo correu para perto e lá encontrou Aderval e sua suposta amante caídos ao chão mortalmente baleados por Gideão, este com seu revólver na mão e ar de perdido, meio aliviado, meio arrependido.

A turba então se voltou furiosa contra o homem da cartola. Culpando-o pela tragédia e pelas mentiras propagadas só para gerar o caos entre aquela boa gente, partiram para cima dele e o apanharam entre seus gritos de aflição; surraram-no e deixaram-no ferido ao chão:

— Espere — disse um dos homens ao terminarem de linchá-lo — Temos que nos livrar dessa cabeça dos demônios.

Todos rodearam a mesa e assistiram à expressão assustada da cabeça. Seu rosto todo se fechou com o semblante de uma pessoa encarando o destino fatídico, vivenciando seus últimos momentos quando a morte se expressa abertamente:

— Não, por favor, eu não fiz nada — ela implorava — Eu apenas respondi a uma pergunta. Não fui eu quem matou o casal. Por favor, tenham compaixão de mim. Sou inocente. Eu não fiz nada.

Jeremias se aproximou com seu martelo de demolição. Levantou-ou com toda sua força após a aglomeração liberar espaço. Nesse instante, a expressão da cabeça pedindo clemência chegou ao ápice e muitos esconderam o rosto não querendo presenciar esse espetáculo. Seus pedidos continuaram e caso houvesse lágrimas em seus olhos, ela choraria. O golpe fluiu rápido, explodindo a cabeça e espalhando pedaços de crânio e cérebro sobre as pessoas em volta. Atônitos, todos voltaram para casa com as mãos sujas de sangue e a lembrança daquele uivo horrorizado emitido pela cabeça em seus segundos finais.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. SÉRGIO PROVISANO

    As pessoas perdem a cabeça e sempre culpam não a si próprias, mas ao outro, ou aos outros, a culpa nunca é nossa, é a metáfora da negação em si. A pobre cabeça sempre será a culpada dos males do mundo, mas nunca nós – a gente sempre é inocente, por mais que sejamos culpados, e nunca os somos – a culpa está nos outros, a verdade sempre estará fora de nós, mas conosco… E eu, Guilherme Carvalhal, fiquei preso, enredado com o relato e minha cabeça começou afalar, a falar, a falar…

  2. Savio

    Metáfora forte, mas realista!

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