Ocinei Trindade — Entre a morte e o perdão

Ocinei 21-06-16

 

 

— Estava em Orlando me divertindo, na terra da magia e da fantasia. De repente, eu e um grupo de amigos, além de muitos desconhecidos amigáveis, decidimos entrar na Boate Pulse. Lugar daqueles que a gente vai para ser igual a todo mundo e ver se há alguém diferente para dividir os dias, pois sabe como é, né? Todos nós queremos alguém para viver uma eternidade, nem que seja por umas horas, uma noite, uma semana. Ah, tá bom, eu quero alguém sim pra chamar de meu. E se o amor da minha vida estiver na boate? Bem, caso não esteja, pelo menos a gente desfila e pega geral. Vai que dá certo? Fico enlouquecido quando toca Lady Gaga. Não sei o que me dá. No último dia 12, tinha um cara bem gato na boate. Não sei se era latino ou grego. Depois disseram que era do Afeganistão. Aí, lembrei daquele lugar cheio de gente doida, do Talibã, e daquelas mulheres vestidas de burca. Muito louco, né. Só sei que gostei do afegão, baby. Achei que ele também gostou de mim, mas assim, do nada, o cara surgiu com uma bazuca na mão (e que bazuca, honey). Depois o bofe-escândalo desatou a atirar. Gritei feito bicha histérica e corri. Tive que fugir, mas não sabia pra onde. Me deu uma tristeza, um vazio, uma solidão. Lembrei da minha família e dos meus amigos. Eu quis estar com eles — disse o jovem de vinte e dois anos.

— Nossa, eu tinha muita coisa para estudar, mas estava de saco cheio e meio deprimida. Faz um mês que terminei meu namoro com um guri. Pensei que a gente fosse voltar, mas que nada. Soube até que ele está ficando com uma talzinha aí. Me disseram que é bonita. Eu disse que não estava nem aí mais para aquele imbecil. Pior que eu menti. Se ele quisesse voltar, eu acho que não resistiria mentir por muito tempo. Então, voltando à conversa anterior, eu tinha prova de geometria supercomplicada no dia seguinte, mas optei dar um tempo e me fazer feliz por algumas horinhas. Minhas amigas me convidaram para ir na boate Kiss de Santa Maria, tinha uma banda que adoro, a Gurizada Fandangueira, e sei que meu ex também adora. Vai que eu encontrasse ele lá? Me produzi toda e fui mais linda possível, pois se ele estivesse com a periguete, eu não podia estar de baixo, veja só. Era janeiro de 2013. Lá pelas tantas, uma gritaria, uma confusão com fogo e fumaça na boate. Não entendi nada. — comentou a linda morena de vinte anos apenas.

— Já eu adoro o rock do Callejeros. O quê? Você não conhece a banda argentina? Hombre, tienes que conocir. Outro dia, nem faz tanto tempo assim, foi em 2005, fui assistir a Callejeros na boate República Cromagnon. Não sabe onde fica? Carajo, pelo visto você nunca esteve em Buenos Aires, não é? Melhor lugar da América do Sul, quiçá, de toda a América. Vivo na melhor cidade do mundo. Tierra de gente inteligente y guapa.  Buenos Aires é grandiosa. Temos os melhores vinhos, as melhores carnes, o melhor futebol, temos um deus que se chama Diego Maradona e agora um Papa. Hombre, Jorge Bergoglio é tudo de bueno, Temos a música mais envolvente, a dança mais apaixonante que é o tango, além do tango eletrônico, lógico. Somos evoluídos, o casamento gay é normal, plantar maconha em casa e fumar marihuana na rua é normal. Bem, só para lembrar que eu estava naquele exato dia na Cromagnon e algo estranho aconteceu. Também acho que sinais de fogo apareceram. Fue mucho loco — lembrou o portenho passional de dezenove anos.

— Eu tenho dezoito anos. Acho que já faz seis anos, se eu não me engano, era junho de 2008. Fui a ao aniversário de um amigo na Baronetti, em Ipanema, boate supermaneira, mermão. Pô, brother, tava cheio de gatinha naquela noite. Zuamo tudo, tá ligado? Pegamu xeral. Foi bem irado, alto astral. Me amarrei de montão. Aí, por volta das cinco horas da madruga, decidimos sair. Cara, pintou uma confusão de repente do outro lado da rua. Quando dei por mim, eu estava caído no chão apanhando. Levei muita porrada. De repente, o segurança da boate que era policial militar mas não estava de serviço, deu dois ou três disparos para apartar a galera. Cara, não vou te negar não, parada sinistra aquela. Demorei um pouco pra perceber que um dos tiros pegou em mim, mermão. Muito over aquela parada, um tiro bem no meio do meu peito — lamentou o jovem lindo e louro.

— Vocês são todos velhos. Eu tenho seis anos apenas, mas sou uma menina muito inteligente. Sei tudo o que gente grande fala em faz. Eu presto atenção em tudo. Nasci em Aurora, no Colorado. Onde fica? Well, well, let me say: United States of America, of course. Yes, I am American. Bem, eu gosto de fazer muita coisa. Gosto de brincar com minhas bonecas, jogar videogame com meu pai e adoro quando ganho dele. Sei que ele finge perder pra mim às vezes, mas é que ele não gosta de me ver triste. Como eu vim parar aqui? Isso eu não sei direito. Minha cabeça às vezes mistura fantasia e realidade. Sabe coisas da Disney, da Pixar, da Marvel? Então, é meio assim. Só sei que eu estava no cinema para ver Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Adoro o Homem-Morcego. Eu queria morar em Gotham City. Naquele dia, em julho de 2012, lembro bem o ano, um homem muito estranho entrou no cinema e atirou na direção de todo mundo. Eu contei direitinho: os tiros atravessaram doze pessoas. Saiu muito sangue e elas ficaram caídas no chão — contou a garotinha.

— Eu sou pedreiro. Nasci no Rio de janeiro. Não sei ler, nem escrever. Não sei ao certo minha idade. Meus pais tiveram doze filhos. Sou o sétimo. Nasci e cresci na Rocinha. Sou casado e tenho seis filhos. No dia 13 ou 14 de julho de 2013, mais de trezentos policiais fizeram operação na favela. Era pra prender bandido e suspeito de bandidagem. O tráfico de drogas come solto nos morros. Fizeram uma tal de UPP. Chamam de Polícia Pacificadora. Naquele dia me confundiram com traficante. Sabe como é. preto e favelado já não têm muito cartaz com a sociedade. E o pessoal da polícia parece ter mais raiva ainda de preto e favelado. Prenderam um bocado de gente, mas nem sei no que deu. A polícia prende, mas tem advogado pra soltar, aí já viu. A polícia no Brasil tem fama de violenta e corrupta. Mas como eu posso subornar policial se nem tenho onde cair morto? Só sei que eu desapareci. Não voltei mais pra Rocinha, nunca mais vi meus filhos e minha mulher. Eu sumi. É só o que me lembro. Eu sumi — relatou o perturbado pedreiro.

—  Voilá!  Très bien! Acho que sou o mais velho dentre todos aqui. Tenho 42 anos e sou francês. Nasci e sempre vivi em Paris. Trabalhava no prédio do jornal Charlie Hebdo. Não, eu não sou chargista, nem cartunista, nem jornalista. Eu cuidava da zeladoria do prédio onde funciona o jornal. Era tenso trabalhar ali. Havia muitas críticas às publicações. Religiosos de todo gênero torciam o nariz com as piadas que faziam. Ah, judeus, cristãos em geral, mas sobretudo os muçulmanos que não gostavam que criticassem o profeta Maomé.  Acho meio esquisito não poder fazer piada de um profeta, já que fazemos piada direto sobre Jesus Cristo, Santa Maria e do próprio Deus. Entretanto, não dá para saber o que passa na cabeça das pessoas. Havia um grupo extremista do Estado Islâmico que estava bastante furioso com o pessoal do jornal e fizeram ameaças. Nós franceses estamos mais que acostumados com a liberdade de expressão, mas tem árabes que não sabem o que é democracia, por exemplo. Só sei que no dia 7 de janeiro de 2015, bem recente, Paris ficou em choque. Terroristas entraram na sede do jornal e atiraram pra todo lado. A França e a Europa entraram em alerta. Disseram que mataram doze e feriram muitos — comentou o funcionário do edifício alvejado.

— Eu sou Ocinei Trindade. Tenho 46 anos, sou jornalista, estou fazendo pós-graduação para dar aulas futuramente na universidade, e tentar sobreviver no Brasil que está um caos política e economicamente. Estudar é preciso. Pensar e refletir idem. Estou sem trabalho fixo. Milhões de brasileiros também estão.  Eu escrevo para meu blogue quando estou inspirado e estou colaborando com a coluna Opiniões do jornal Folha da Manhã por uma temporadaEu converso com mortos. Sim, com mortos. Converso com Freud, Shakespeare, Machado de Assis, Clarice Lispector, Schopenhauer, Marx, Sócrates, Aristóteles, Platão e companhia. Converso até com meus pais, avós e amigos mortos. Eu penso muito. Sofro muito por pensar muito, mas sofro também quando a mente está vazia e não há inspiração para escrever. Bem, minha memória não cabe tudo e nem me lembro de tudo. Eu queria dizer a vocês sete que estão aqui nestes relatos, que eu não sei o nome de vocês com certeza, mas poderia dar um nome qualquer para que não ficassem no anonimato. Sei que de fato, vocês existem na frágil e falível história humana. Eu recorri à Internet para recriar alguns fatos marcantes dos últimos tempos, como incêndios em boates, atentados frequentes nos Estados Unidos, crimes bárbaros no Brasil, ataques terroristas na Europa e no mundo. Não deu pra falar de todas as atrocidades na Venezuela, Síria, África, América Latina. O mundo está bastante complicado, apesar dos avanços tecnológicos. Bem, quero dizer aos sete que, além de eu falar com mortos, eu invento e reinvento mortos. Vocês sete, por exemplo, não sobreviveram a essas tragédias. Vocês e outros tantos morreram, não existem mais. Vocês são mortos, por isso converso com vocês também. Mas há resquícios de memórias. Vocês deixaram famílias e amigos de luto. Alguns ainda choram a ausência de vocês.  A vida é muito curta e passa muito rapidamente. Quero dizer que a maioria da Humanidade não soube da existência, nem da morte de vocês. Milhões e milhões, bilhões e bilhões de pessoas morreram também, antes de vocês. Morreram por coisas mais estúpidas, como por exemplo, guerras e governos corruptos, organizações criminosas como tráfico de drogas, de mulheres e crianças. Morreram por doenças banais, fome, desnutrição, falta de comida, moradia e assistência médica. O pior é que em pleno século XXI, com todo o avanço e conquistas, milhões de pessoas continuam morrendo por esses mesmos motivos e por qualquer tipo de violência (sexual, inclusive) e imbecilidade. Ainda há gente sendo escravizada. Há intolerância e desrespeito de todo tipo. As pessoas continuam morrendo por falta de amor, respeito e compaixão. Holocaustos não cessam. Acho que a humanidade é um projeto que não tem dado certo há milênios, desde que aprendemos a escrever e a registrar a História. Pensando bem, eu não sei quem está em melhor situação. Se vocês que estão mortos, ou se nós que pensamos estarmos vivos. Tenho a sensação de que nós já morremos também, mas ainda podemos inventar histórias e sonhar com final feliz. Não sei bem a quem pedir perdão e a quem perdoar. Viver e morrer são coisas confusas e doloridas. Só sei que todos nós temos que seguir sobrevivendo. Até o fim.

 

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Este post tem 5 comentários

  1. SÉRGIO PROVISANO

    Sim, sim… conversar com vivos, conversar com mortos, conversar… conversar é necessário, escrever as conversas que conversamos em nossos interiores, é necessário, assim como ler o escrito do Ocinei Trindade, que li, de cabo a rabo, do título ao ponto final, pois se eu morresse antes de ter lido, eu não seria perdoado… Nem no dia do Juízo Final.

    1. Ocinei

      Grato, querido Sergio!! Mas acho que pode haver perdão para tudo, mesmo crimes graves, desde que haja arrependimento e mudança de vida e atitudes, o que é humanamente difícil, quase impossível. Quase. Não me ler não é motivo de condenação, kkk. Você está absolvido e perdoado, kkkk. Grande abraço, querido !!!

  2. Sandra Machado

    Ocinei em vez de apologia a um “servente de pedreiro”e sua família de traficantes , vc deveria fazer apologia às centenas de policiais mortos em serviço e suas famílias .

    1. Ocinei

      Sandra, não consigo ver apologia no texto. Porém, se houver, defendo a vida em geral e a chance do perdão. Não tenho nada contra serventes de pedreiro, nem policiais. Ao contrário. Não defendo são os criminosos (traficantes, inclusive), e infelizmente, há bandidos em todas as classes sociais, entre várias instituições e carreiras como a polícia, a política, a justiça, imprensa e a medicina, entre outras. Não faço apologia ao crime, mas tento defender sempre a vida e a legalidade. Estamos em guerra e reconheço muitos bons policiais que apesar do risco do ofício, salário mínimo ridículo como o dos professores, muitos ainda não se renderam à corrupção e defendem ainda a população. Abraço !

    2. Aluysio

      Cara Sandra,

      Não tenho procuração para falar pelo Ocinei, que já respondeu mt bem por conta própria. Todavia, li e reli o texto dele, sem conseguir enxergar nenhuma apologia desarrazoada — a não ser em seu comentário.

      Abç e grato pela chance da observação!

      Aluysio

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