Guilherme Carvalhal — Faits Divers

Diante da coleção de recortes de jornais da vovó Margarida, Lucinha perguntou que que era aquilo e levou um tapa na mão do pai para que soltasse. Não, não deixaria as caduquices da velha afetarem a filha — influência do bicho ruim, explicou-lhe o pastor. Bom pai que era, não permitiria à sua pequena amaldiçoar-se pela coletânea de almas aprisionadas pelas palavras.
Bem, pelo menos assim ele interpretou. Captava naquelas descrições de homicídios, suicídios, acidentes e demais fatalidades histórias não concluídas de personagens não plenamente emigrados, permanecendo em um espaço fronteiriço entre vida ou morte. E sua mãe, com aquelas pastas pretas de folhas plásticas, impedia os fantasmas de alcançarem seu descanso — ou danação — eterno. Sua vontade era de tacar fogo, mas sabia como a mãe o condenaria, e sabia também que conjuração materna tinha poder do outro lado.
Ninguém entendia ao certo porquê Margarida começou a se interessar com afinco pelas notícias fatais nos jornais. Um dia a flagraram com a tesoura a destacar a notícia de uma mulher que tacou chumbinho na comida do marido ao descobrir sua infidelidade conjugal (anotada a caneta hidrocor com o número 1), e desse dia em diante compareceu religiosamente às bancas logo ao amanhecer para comprar uns quatro exemplares distintos, sem querer deixar escapar nenhum fato. Não lia quase nada dos jornais, apenas as notícias policiais e o obituário. O restante servia para embrulhar comida antes de guardar no congelador.
Os volumes se acumulavam e alguns curiosos pegavam para revirar, algo a orgulhar a senhora à semelhança de exibir medalha por algum feito. Ela recontava muitas das histórias existentes ali, criando uma epopeia pessoal a partir da reconstituição das muitas tragédias arquivadas. Narrava histórias de amor terminadas em morte (as preferidas), latrocínios (as piores por deixar a vida à mercê dos bens materiais), suicídios (os mais reflexivos, por querer entender o que leva alguém a esse ato de desespero), entre outras fatalidades. Uns levavam aquilo com graça diante de uma aposentada ocupando o tempo ocioso, outros entendiam como a construção de um museu mórbido e preferiam se distanciar. Ela apenas dava um passo atrás quando perguntada sobre o porquê dessa atividade; se esquivava e mudava de assunto rapidamente.
Pouco após aquele contato, Lucinha caiu com forte febre. Silvano se enfureceu e deixou de lado quais restrição e, à despeito das vontades maternas, catou aquela papelada toda, levou ao quintal e tacou fogo em tudo. A senhora veio desesperada chorando como se tivessem imolado um filho a fogueira. Ao tentar pegar água para reduzir o estrago, o filho tomou o balde da sua mão enquanto chamava o nome de Deus expulsando demônios.
Ela correu e se ajoelhou, queimando-se nas brasas. Chorava em desalento, chamando as pessoas inscritas em todas aquelas histórias. Saíam nomes e lamentos, Manoela, cuidado com o trânsito na Via Dutra, Sebastião, não beba dessa água, pois tem veneno, Lívia, sua operação de cálculo renal vai desencadear em graves complicações, e se debatia no chão desolada.
Silvano então se compadeceu e solidarizou. Arrependeu-se imediatamente, porém não havia tempo de voltar atrás. Admirou-a caída, suja de terra e cinzas, e apenas assim compreendeu que, em toda sua solidão na face da terra, ela acabou por encontrar apenas a morte por companhia.



