Ocinei Trindade — A separação, a (in)dependência e as ilusões

(foto: reprodução)
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O Reino Unido pediu para sair da União Europeia e está aprontando as malas, apesar da surpresa de muitos que votaram e que não votaram. Uma das alegações para a saída: ameaça do emprego dos britânicos. Em 1822, o Brasil se separou de Portugal. Recentemente, o Sul do Brasil também teve ou tem vontade de separação. O Nordeste já sinalizou algumas vezes. O Acre saiu, mas deixou foi a Bolívia há um século e se anexou ao Brasil por meio de compra e venda. Mato Grosso e Goiás se dividiram e tem funcionado, apesar das deficiências e mazelas todas brasileiras. Em fatos mais regionais, no norte fluminense, Italva e Cardoso Moreira deixaram de pertencer a Campos e se tornaram municípios autônomos. Os distritos de Guarus, Santo Eduardo e a Baixada Campista também já cogitaram virar cidades independentes. Assim foi em Rio das Ostras que se desligou de Casimiro de Abreu, além de Arraial do Cabo e Búzios que deixaram Cabo Frio e, por fim, Quissamã e Carapebus que não pertencem mais a Macaé faz anos. Tanto no Reino Unido, como nos municípios citados, um plebiscito decidiu a vontade da maioria. Pergunto se a separação de um território é que nem divórcio; há garantia de felicidade, realização, soberania e independência? Nem no Reino Unido há.

A aldeia global, expressão cunhada pelo filósofo canadense Marshall McLuhan nos anos 1960, se tornou mesmo pequena sob as óticas tecnológica e comunicacional, é verdade. A Internet vem se popularizando cada vez mais e as proliferações de ideologias, opiniões, imagens, discursos e palavras pela rede são quase impossíveis de impedir. Todavia, a desigualdade e a violência entre as nações, regiões e cidades do mundo afora e do Brasil adentro se acentuam a cada estação. A cultura do lucro e do descarte empurra um número reduzido de pessoas poderosas e blindadas pelo capital para cima e uma imensa maioria de pobres e miseráveis para baixo ou para fora. A expulsão se dá pelas vias econômicas, onde desempregados crescem como poeira;  das guerras sangrentas que não cessam; das perseguições religiosas que ainda apavoram; da sanha da dominação de homens que ainda exploram e escravizam outros homens, sejam estes de sua terra natal ou estrangeiros por inúmeros motivos. Aliás, ser forasteiro ou estrangeiro é crime ou ameaça para algumas sociedades. A xenofobia e a intolerância humana se fundem e confundem dentro e fora de qualquer território.

Em 1998, estive em Londres durante quatro dias. Uma realização estar na terra da rainha mais pop e reinante de todos os tempos que desbanca qualquer Madonna, Lady Gaga ou Beyoncé. Vemos que Elizabeth II reina absoluta desde 1952,  mesmo sem mandar em nada na política. Ela chegou muito bem aos 90 anos de idade, e está firme em meio a todos os escândalos e fofocas de sua família. A rainha viu o império britânico e o mundo se transformarem de diversas formas. Sobreviveu para ver o Reino Unido entrar e se desligar de um projeto ambicioso: unir o continente europeu econômica e politicamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Logo após a minha visita à Inglaterra, veio a adoção da moeda única para os países da UE, o euro. Só que o Reino Unido permaneceu com sua tradicional, valorizada e cara libra esterlina. Eu tive que suar e economizar bastante para sobreviver por quatro dias na caríssima Londres. Imagina um sujeito sair do Parque Guarus, periferia de Campos dos Goytacazes, bater no portão do Palácio de Buckingham e tentar entrar na Abadia de Westminster, Conto de fada adaptado para proletariado terceiromundista rende aventuras e boas histórias, pelo menos.

Cresci vendo a Inglaterra pela televisão, filmes e livros de história. Desde meus nove anos de idade, Margaret Thatcher era “minha” primeira-ministra e Elizabeth II “minha” rainha (acho que muitos habitantes do planeta se identificam com ela e se sentem um pouco seus súditos, afinal mania de grandeza é o que não falta entre nós brasileiros), e uma outra mulher me deixava fascinando com as histórias que enviava de lá, a ex-correspondente da TV Globo, a jornalista Beth Lima. Quando lá estive, não consegui ver a rainha Elizabeth,  mas a repórter Elizabeth, sim. E fiquei bem feliz em poder conversar um pouco com quem entendia tudo de Londres e realeza britânica, uma cronista de moda e cultura que muito me ensinou como telespectador e repórter de televisão. Beth Lima é autora do livro Londres, modo de usar, dona de um texto enxuto, irônico e refinado. Eu queria imitá-la, e às vezes conseguia. A capital inglesa me encheu os olhos não só pelos monumentos, parques e jardins impecáveis, transporte público de primeira e gente educada, pubs and teas mas pela diversidade humana. Um caldeirão cultural maravilhoso,

Naquela época, o século XX quase se despedia em uma Londres cosmopolita e agregadora. No mesmo vagão do metrô eu viajava com  punk tatuado e casais gays; com o indiano, o paquistanês e o sikh com turbantes enormes; com negros de variados tons de pele e penteados vindos das colônias e ex-colônias;  árabes típicos, judeus ortodoxos e muçulmanos conservadores; latinos como eu querendo um lugar na bruma (já que sol por lá é coisa rara), todos os ruivos nativos, além de velhinhos engravatados e velhinhas ultramodernas fashionistas. Lembro de uma especialmente que poderia ser avó da Vivienne Westwood, coberta de estampas diferentes de xadrez, saia colorida, meias pretas, cabelo vermelho armado com algumas mechas verdes, chapéu vindo direto de alguma página literária da obra de Lewis Carrol e um baita piercing no nariz. Creio que Elizabeth II, ao se encontrar com esta velhinha feliz e livre com argola nas narinas, descolada no modo de ser e de se apresentar em público, a monarca acenaria com olhar atento e um discreto sorriso nos lábios. Há alguns dias, nacionalistas britânicos idosos estão rindo escancarados, enquanto a outra metade da população jovem chora e se aflige com o futuro que pode ser sombrio devido à saída do Reino Unido do bloco comum.

Fico pensando sobre as vantagens em fazer parte do Mercosul, por exemplo, um acordo que nunca vi funcionar na prática para o cidadão comum, a não ser poder entrar nos países membros sem passaporte utilizando a carteira de identidade brasileira. A Unasul é outra organização que inventaram por aqui e que não vejo benefício para quem é sul-americano. Contudo, a livre circulação para os cidadãos da União Europeia, a possibilidade de se instalar em qualquer cidade dos vinte e sete países membros, ter uma moeda única, ter oportunidades de emprego e estudos iguais parecem interessantes e atraentes. Mas, e quem não nasceu nessa Europa de aparência branca e loura anglo-saxônica-caucasiana teria o mesmo direito e privilégios? Os refugiados de guerras e imigrantes muçulmanos vêm assustando essa Europa “rica e segura” mesmo em crise econômica. Pouco mais da metade do Reino Unido pareceu se incomodar ainda mais com estrangeiros e preferiu a ilha só pra si. Mas, contraditória e curiosamente, os londrinos dão lição de vanguarda e jovialidade ao elegerem em maio último, seu primeiro prefeito muçulmano, o trabalhista Sadiq Khan de 45 anos, filho de um motorista de ônibus paquistanês. Resta saber como será sua gestão.

Se e o futuro da Grã-Bretanha é incógnito, o futuro do governo do Brasil ainda é um mistério também. Se isso nos incomoda do lado de cá da aldeia, em outras partes do globo há aqueles investidores inquietos com dinheiro, ávidos para aplicar aqui e obterem lucros intercontinentais. Políticos também querem lucrar. Crise e rupturas podem ser oportunidades nos negócios, nos governos e na vida pessoal. Thatcher teria dito uma vez sobre o Brasil: “Parece-me bem claro que o Brasil ainda não teve um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa da liberdade, sob o império da lei e com uma administração profissional”. Se ela estivesse viva, talvez não se surpreendesse ao saber onde o Brasil descambou nesta segunda década do século XXI. Entretanto, para brasileiros, britânicos e povos de qualquer nacionalidade, o lendário premiê Winston Churchil afirmou: “A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela”. Democracia produz até alguma independência e e novas ideias, dizem.

Nos início dos anos 1980, ainda sob o regime militar, a cantora Elba Ramalho gravou a canção “Nordeste Independente”, de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova, que foi censurada pelo governo brasileiro, pois estaria fazendo apologia ao separatismo do território nacional, pondo em risco a soberania do país. Eu era adolescente quando ouvi a canção pela primeira vez, já no governo Sarney. A cantora que é uma excelente intérprete deu voz a uma ideologia que faz parte da história de diversos povos e nações, a possibilidade de se tornar independente de governos opressores, injustos , corruptos ou equivocados. O primeiro verso da extensa letra diz: “Já que existe no sul esse conceito que o Nordeste é ruim, seco e ingrato, já que existe a separação de fato, é preciso torná-la de direito. Quando um dia qualquer isso for feito, todos os dois vão lucrar imensamente, começando uma vida diferente da que a gente até hoje tem vivido, imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente…”

O Brasil é uma República Federativa, os 27 estados possuem constituições próprias, deveriam ser autônomos social, política e economicamente, mas  vivem com pires nas mãos, reféns de verbas e cargos oriundos do governo central em Brasília. Se os estados são assim, imaginem os 5570 municípios. Uma contradição. O mesmo não ocorre nos Estados Unidos, onde cada unidade da federação americana vive com o máximo de autonomia, independentemente do que pensa o presidente do país. Imaginemos, pois, se os 27 estados brasileiros ou as 50 unidades federativas estadunidenses resolvessem se tornar soberanos e independentes. Como seriam nossa realidade e o o nosso futuro? Bem, por aqui, na terra brasilis, a começar por nossa educação como eleitores, já estaríamos bem mal, pois se somos ruins como pessoas-cidadãs, dificilmente elegemos representantes superiores a nós. É muita pretensão queremos políticos honestos e nobres quando somos desonestos em maior ou menor grau. Já nos Estados Unidos e em muitos lugares da Europa, votar nem obrigatório é. Quando o bolso está cheio de dinheiro, não costumamos nos preocupar com o coletivo e as necessidades alheias. Não deveria, mas assim é. País bom de se viver é onde tem trabalho, liberdade e segurança. Contam-se nos dedos lugares assim, cá entre nós. Uma ameaça surge com homem-bomba explodindo ou epidemias de vírus letais se espalhando. E às vezes, uma sociedade  e políticos descontentes ou ambiciosos querendo separatismo.  É complexo o modo de sobrevivência globalizado,

Ao visitarmos os municípios vizinhos que se emanciparam, constatamos uma coisa comum em todo o Brasil: a pobreza e as limitações nas áreas da saúde, educação e segurança pública são bastante expressivas, crescentes e preocupantes. A corrupção parece se multiplicar e a dependência dos serviços de outros municípios e de verbas estaduais e federais para se manterem só aumenta. Sendo Campos dos Goytacazes o maior município em extensão territorial do estado do Rio de Janeiro, tendo recebido bilhões de dólares (ou reais) nos últimos anos em royalties do petróleo, dispondo de tanto ou mais dinheiro que cidades petrolíferas como Dubai, nos Emirados Árabes, já pensou se Campos decretasse sua soberania e separação do resto fluminense e da nação, se tornando uma cidade-estado? Poderia ser um principado feito Mônaco, Liechtenstein, San Marino ou o Vaticano. Bem, soberanos já temos, barões na política e em negócios monopolizados, feudos que seguem sob o chicote escravocrata; “barões, príncipes e reis” com bastante poder e influência nas favelas e agremiações religiosas. Somos uma quase tonta  monarquia anglo-luso-africana-ortodoxa-goitacá. Falamos português, mas nos comunicamos e nos entendemos muito mal. Também gastamos muito mal o dinheiro público que é de todos. Aliás, nossos governantes gastam mal.  Queremos independência?

Cada distrito e bairro do extenso município de Campos tem suas lideranças ora omissas, ora suspeitas de relações perigosas. O direito de ir e vir garantido pela Constituição Federal, na prática, não funciona muito bem, nem tranquilamente. A cidade está sitiada nos condomínios e prédios de luxo armados sob vigilância particular, ou nos guetos e comunidades cada vez mais envolvidos em crimes, assassinatos, queimas de arquivo, comércio de drogas. Refém, a polícia também não dá conta. Os palácios do Executivo, Legislativo e Judiciário também andam cercados e com difícil acesso para o cidadão comum e desinformado. Entre poderosos e influentes, interesses pessoais parecem ter mais importância que os interesses coletivos. Se nos sobram “monarcas”, autoridades e justiceiros, faltam-nos líderes e heróis como pais conscientes, professores e educadores reconhecidos e comprometidos com uma verdadeira revolução. Nenhum Sergio Moro por aqui brotou até então para nos dar sensação de limpeza da impunidade. Independência ou sorte, já que mortos estamos quase todos,

Na última estrofe da canção interpretada por Elba Ramalho, segue uma reflexão sobre a sugerida separação nordestina do Brasil: “Eu não quero, com isso, que vocês imaginem que eu tento ser grosseiro. Pois se lembrem que o povo brasileiro é amigo do povo português. Se um dia a separação se fez, todos os dois se respeitam no presente. Se isso aí já deu certo antigamente nesse exemplo concreto e conhecido, imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”.  Observo que pertencer a um lugar ou deixar de pertencer a ele não é uma coisa simples e confortável. Faz tempo que constato a divisão do mundo entre ricos e pobres apenas. Ou entre opressores e oprimidos. No Brasil então, a opressão é ainda mais cruel e cínica, pois há uma Suíça minúscula dentro do território nacional, cercada e ocupada em sua maioria esmagadora por toda a miséria da África, Ásia e América Latina.

O Brasil continental é um disparate descomunal em termos de desigualdade. Para quem não conhece bem o país, basta visitar a cidade de Campos para refletir sobre o que acontece desde a ocupação e possessão portuguesa. A Ilha de Vera Cruz ainda não evoluiu o bastante para garantir soberania ao seu povo. Continuamos optando por vivermos ilhados, separados em tribos de ricos e pobres, senhores e servos, negros e brancos, mouros e cristãos. Mistura eventual e tolerada talvez somente no Carnaval. A Grã-Bretanha não é aqui, mas poderia ser um dia, no futuro ou no passado de reinos desunidos que teimam resistir. A monarquia brasileira foi extinta no fim do século XIX, mas há em vigor um império de novos reis travestidos de democratas e homens de bem a nos roubar e a nos exterminar. Imaginem nos livrarmos disto um dia. Ilusão ou utopia, viver não tem garantia, mas há quem aposte na esperança de dias melhores. God save the World. 

 

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Este post tem 2 comentários

  1. sergio

    Excelente , maravilhoso , real , profundo ,instigante , reflexivo , contudente , e muito etc do bem … Este texto deveria serlido obrigatoóriamente por todos…… Parabéns ao autor……

  2. Ocinei

    Muito grato, Sérgio! Compartilha quando puder ! Um abraço !

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