Ocinei Trindade — O mistério do choro que lacrimeja

Ocinei 08-11-16

 

 

 

Ao pensar no título desta crônica, me deparei com esses sentimentos de dúvida da escrita. A palavra “choro” pode ter o significado de chorar, com verbo conjugado na primeira pessoa do presente (acento aberto ou agudo no primeiro “o” sonorizando “chóro”), ou ainda o estilo musical “choro” que carinhosamente preferimos chamar “chorinho”. Acrescentei o verbo “lacrimejar” para fazer alusão ao ato de chorar, mas mesmo assim, a frase ou o título pode gerar duplo sentido. A música também pode fazer chorar. Poderia ter mudado o título para “O mistério do chorar”, ou apenas seguir a ideia original “O mistério do choro”. Na verdade, eu preferiria escrever “chôro” para diferenciar cada uma dessas expressões, acentuando do jeito que falo, “choro, chóro, chôro”, mas não sou léxico, gramático, deus da reforma ortográfica, esses trens da língua. Gosto de trens e de línguas. Idiomas, inclusive. Brincar com palavras é divertido.

 

Dei essa volta toda para dizer que tenho dificuldade de chorar.

 

Há uma diferença, me parece, pelo menos é assim que sinto, entre chorar e se emocionar. Eu tenho uma certa facilidade de me comover, mas dificuldade em chorar. Explico: filmes e músicas são capazes de me comover, assim como reportagens e documentários onde pessoas que sofrem por alguma razão dão testemunhos de suas agruras e desgraças. Sou capaz de chorar bastante por isto. A beleza também é algo que me comove e me faz lacrimejar com emoção. Hoje estava assistindo ao Globo Repórter que visitou a Noruega com a jornalista Dulcineia Novaes. Aquela beleza toda, além de ver um país que funciona em todas as suas necessidades básicas me causaram tremenda emoção. Chorei. Aliás, devo ter chorado de inveja, este que é um dos piores pecados humanos.

 

Faz uns meses, voltando para casa de noite, coloquei uma coletânea do Queen para tocar. Coisa boa carro com ar-condicionado, música de qualidade nas alturas e trânsito livre, combinação que, segundo a atriz e escritora Maitê Proença, é perfeita. Concordo com ela. Lembro que no dueto do Freddie Mercury com David Bowie na canção “UnderPressure” abri o berreiro ao dirigir. Mesmo não dominando fluentemente toda letra, foram as vozes e os arranjos instrumentais que mexeram com algum lugar do meu cérebro e memória me fazendo chorar repetidas vezes. Aliás, reproduzi  a canção umas cinco vezes. Precisava daquela carona na música para eu chorar pelas coisas que não consigo. Um verso de “UnderPressure” diz assim:

 

…Pois o amor é uma palavra tão fora de moda. E o amor te desafia a se importar com as pessoas no limite da noite. E o amor desafia você a mudar nosso modo de nos preocupar com nós mesmos. Esta é nossa última dança. Isto somos nós mesmos sob pressão, sob pressão, pressão”.

 

          Ontem, tarde da noite, voltando para casa, repeti o disco com a mesma canção, mas não chorei, nem me comovi. Faltou apertar algum botão em mim para tentar aliviar o cansaço e as pressões que atravesso. Não funcionou desta vez.

 

Quando meu pai morreu assassinado em 1985, lembro que levei uns três anos para chorar sua morte. Com a morte da minha mãe, há três anos, levou menos tempo: uns três ou quatro meses. Creio que até hoje não chorei o suficiente pela perda deles, assim como não chorei o bastante pela morte de amigos e amores que partiram. Pode ser um mecanismo de defesa. Parece que não dá tempo se descabelar com essas partidas, pois a vida é dura e exige de nós força para sobreviver e seguir adiante. Onde vai dar? Não sei exatamente, mas sei que no fim vai dar em nada. Ou melhor, vai dar na morte. Uma pena. Ou um alívio. Lembro da atriz Cristina Pereira fazendo uma peça de teatro em que  sua personagem ria ou gargalhava de todas as desgraças e mazelas que vivia. Assaltos, traições, salário atrasado, fila de banco errada, vizinho escroto, funk pornográfico arrebentando os ouvidos em carros na rua enquanto você tenta dormir. nada escapava das risadas da vítima. Ela dizia que se chorasse, não parava nunca mais. Sendo assim, ria.

 

Não consegui chorar de rir, nem chorar de lamentar a prisão da radialista e colega Linda Mara Silva, por exemplo. Acho lamentável essa situação e acusações de corrupção envolvendo ela e tantas pessoas de minha cidade. Apesar dessa degradação ser motivo para chorar, me vejo tomado pela apatia quase indiferente. Aliás, não há nada pior e desumano que a indiferença. Onde vamos parar? O sonho norueguês ou escandinavo parece cada vez mais distante desta terra goitacá ou de tupinambás e maracajás extintos. Sobraram uns parcos guaranis, mas o Estado Rio de Janeiro adora um extermínio de gente de todo tipo. Não dá vontade de chorar? Mas cadê lagrima?

 

Estava pensando em escutar “Se eu quiser falar com Deus”, do Gilberto Gil. Não sei se com ele ou com a Elis Regina. A interpretação da IthamaraKoorax também é tocante. Quem sabe, choro ou me comovo, talvez.

 

Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz…”  .   Honestamente, acho que o Gilberto Gil, esta maravilha de brasileiro, pode me ajudar.

 

 

 

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Este post tem 3 comentários

  1. Fátima

    Simplesmente demais como você escreve, me impressiona demais! “Puro êxtase “.

  2. Fátima

    Me desculpe à redundância, por favor escreva mais!

  3. ALEX

    PERFEITO PRO GAROTINHO !!!

    COMO SEI QUE VOCE VAI LER E SABER…

    REFLITA MUITO… VOCE MERECE MUITO MAIS, É QUESTÃO DE TEMPO

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