Ocinei Trindade — Os governantes já condenados pela opinião pública

Ocinei 22-11-16 (1)

Ocinei 22-11-16 (2)

      Milagres, dizem, acontecem.  Alguns chegam a surpreender. Em uma mesma semana, dois ex-governadores do Rio de Janeiro foram presos por crimes relacionados à esquemas de corrupção, suborno ou propina. Anthony Garotinho é acusado de comprar votos através do cheque-cidadão, programa assistencial do governo de sua mulher, Rosinha Matheus.  Já Sérgio Cabral é o novo indiciado da operação Lava-Jato, acusado de desviar dinheiro público, cobrança de propinas em obras públicas superfaturadas, enriquecimento ilícito. Os dois inimigos políticos foram parar no complexo penitenciário de Bangu. Com medo, Garotinho esperneou, alegando que seria morto por traficantes na cadeia. Surgiu um infarto, manobras judiciais, internação em hospital particular, cateterismo e, sabe-se lá o que mais virá depois. Cabral ainda está preso. Mas, por quanto tempo?

 

       Dizem que o Brasil está mudando. Será que os políticos desonestos estão com dias contados? Infelizmente, ainda não. Para termos políticos que não dão golpes financeiros se apropriando do dinheiro público, é necessário que nós, cidadãos e eleitores, façamos o mesmo. A democracia brasileira é tão jovem e frágil. No país dos golpes, quase tudo de ruim é possível acontecer. Os episódios envolvendo os dois políticos e suas famílias que há tempos se relacionam com gente poderosa e influente de diversos setores, parecem cenas de uma série de televisão, onde dinheiro, poder e traição são o fio condutor da narrativa. Há muita violência e ameaças no roteiro, nem todas explícitas. Entretanto, há também muito humor e sadismo com os dois acontecimentos. A população e os adversários dos dois ex-governadores demonstraram regozijo nas manifestações públicas e nas mídias sociais. Muitos desejam o pior em termos de castigo para Garotinho e Cabral. E você?

 

        O Rio de Janeiro virou um estado assombrado por dívidas, muita violência banalizada, corrupção e dois ex-governadores presos em Bangu. Dá para comemorar o que exatamente? Bem, somos um castelo em ruínas faz tempo, mas no país do carnaval, futebol e jogos olímpicos, impunidade e uma pausa para fotos e encenações diante de uma câmera e microfone ligados, a gente dá um jeito de fazer quase sempre. As cenas de Garotinho resistindo em sair do quarto do hospital, obrigado por policiais federais na transferência para o presídio; a gritaria de sua filha e sua esposa dizendo que ele estava doente e que não era bandido; depois, na entrada da ambulância, quando Garotinho deitado de olhos fechados resolve levantar-se como quem ressuscita do túmulo e ataca com fúria os seus algozes; e Clarissa e Rosinha dizendo que queriam ir juntas com ele, entraram para a história de 2016. Foi um momento patético, tragicômico e impagável. Campos também tem seu castelo abandonado e é uma terra da fantasia, ilusões e mentiras imperdoáveis. Mas, havendo arrependimento e confissões de políticos criminosos dá para perdoá-los e deixá-los livres? Há cadeia suficiente para todos os criminosos do Brasil? Em qual categoria de crimes estaremos enquadrados?

 

       Eu acho que posso me compadecer do ser humano Garotinho ou Cabral,  mas não sinto pena do político Garotinho ou Cabral acusados de crimes, e nem dos que cometem crimes premeditada e conscientemente. Há várias pessoas comovidas com a humilhação pública que os dois ex-governadores vêm passando. Dizem que brasileiro tem coração mole. Porém, a punição ainda nem começou, apenas há prisões preventivas. Sabe-se lá o que os advogados e os tribunais tratarão para livrá-los de julgamento e condenação na cadeia. Em outra época, a solução seria mais radical com o uso da guilhotina em praça pública. Houve, ainda, a utilização de cavalos amarrados em pernas, braços e pescoço do criminoso, cada um disparando em direções distintas dilacerando o corpo do condenado como forma exemplar de punição. Eram práticas comuns, e se eram injustas e bárbaras, cada juiz ou vítima poderá avaliar e discordar. Vigiar e Punir, livro de Michel Foucault para os ex-governadores do Rio seria uma dica de presente natalino e de leitura nestes dias de condenação, quem sabe. É mais brando que guilhotina e cavalos furiosos estraçalhando os condenados, sem dúvida.  Abandonarem a política voluntariamente, seria um milagre e tanto.

 

    Refletindo com o escritor  Machado de Assis e comparando um de seus  textos com as prisões de nossos ex-governadores Sérgio Cabral e Anthony Garotinho, além da sanha dos que se deliciaram com suas humilhações em público transmitidas por todas as mídias, e ainda sobre aqueles que os apoiam e os defendem, fico analisando sobre o que escreveu o bruxo do Cosme Velho: “Imagino que o pior que há na necessidade não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitórios, porém essa escravidão moral, que submete o homem aos outros homens”. Postei esta reflexão em minha conta no Facebook, e que contou com alguns comentários como este de Gustavo Oviedo: “Há uma outra escravidão moral, aquela que coloca o cidadão comum em desigualdade econômica e legal em relação aos políticos. Talvez por isso se comemore a prisão de um poderoso. Ainda mais quando, como comprovamos hoje no caso de Garotinho, eles contam com a rápida assistência de desembargadores e ministros”.

 

      Em um diálogo com Gustavo Oviedo que se tornou público, cheguei à seguinte constatação: “Dizem que não há pena de morte no Brasil, mas todas essas canalhices dos políticos com o dinheiro público, seus desvios e mentiras já nos penalizam, os cidadãos comuns e sem dinheiro. Temos sido condenados e sentenciados e executados por gente assim em todas as esferas de poder”. Ainda acho que todas as acusações que envolvem políticos brasileiros parecem tramas de ficção, mas não são. A realidade é tão chocante que soa inverossímil. Ainda acho que Garotinho se tornou um personagem que beira à ficção. Dramaturgia não lhe falta nestes tempos de novos escândalos envolvendo o seu nome e de sua família. Mais discreto, Cabral ainda não teve chance de se pronunciar, mas ele também merece ser caricaturado.  Se a realidade política inspira a ficção cinematográfica e televisiva, temos acompanhado ultimamente uma modalidade peculiar de reality show envolvendo governantes e parlamentares, advogados, juízes e promotores, além de ministros dos tribunais superiores. É a espetacularização do que há de pior nos seres humanos que roubam, matam, mentem e se vingam como se não houvesse amanhã. Mas, dizem, há milagres legais até para punir e eliminar políticos inescrupulosos de nossas vidas.  Oremos, pois.

 

       Dependemos dos homens sempre, sejam nos governos, parlamentos ou nas instâncias judiciais. Pesam sobre todos eles suspeitas de corrupção e descumprimento de leis que só existem para proteger a sociedade da barbárie e do individualismo ameaçador. Dentro dos sistemas corrompidos ou comprometidos, há ainda homens que lutam pela ordem, pela justiça social e pelo equilíbrio de convívio na sociedade. Sabemos que os políticos brasileiros têm se mobilizado contra juízes e promotores acusando-os de abuso de autoridade ou arbitrariedade. Haveria razões? Estamos em guerra, faz tempo. Trata-se de uma guerra do “salve-se quem puder”. Não deixa de ser significativo na semana em que se comemorou 127 anos de República (mas que ninguém se lembrou, a não ser do feriadão de 15 de novembro), valores republicanos sendo praticados com a prisão do ex-governadores Garotinho e Cabral. Se eles serão condenados ou não pela justiça do país, uma coisa é certa: eles e outros políticos já estão condenados pela opinião pública. 

 

     Semanas antes, nas eleições municipais, a enorme quantidade de votos brancos, nulos e abstenções já demonstra o quão insatisfeita está a população, principal responsável em manter ou não os políticos no poder. Estamos mudando? Há alguma esperança para o Brasil que é potência econômica mundial se tornar de fato um país de potência em dignidade humana? O voto é importante, mas não resolve tudo. Se não houver entendimento coletivo sobre nossos deveres e direitos, pressionar e denunciar os políticos ruins, o atraso social  só vai se arrastar. Mudar é preciso, sem dúvida, a começar por cada um de nós sobre o que é corrupção (não somos santos e honestos tanto o quanto queremos que os políticos sejam). No reality show envolvendo Garotinho, Cabral, Rosinha, Lula, Pezão e todos os políticos incriminados por algum motivo, há ainda muitos episódios eletrizantes para serem assistidos pelo público. Difícil é escolher quem é o pior perdedor, além do povo brasileiro.

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