Fabio Bottrel — O Latim está Morto e Deus Também

 

Sugestão para escutar enquanto lê: George Winston – December

 

 

 

 

Criação do homem por Michelangelo, no teto da Capela Sistina (Foto: Reprodução)
Criação do homem por Michelangelo, no teto da Capela Sistina (Foto: Reprodução)

 

No início desse ano fui a uma palestra no IFF, onde uma das professoras que mais marcaram minha vida dissertava sobre o latim vivo entre nós. Refletindo sobre o assunto escrevi esse e-mail para ela com o que gostaria de ter questionado no momento, tomando Deus como parâmetro de existência a partir do pensamento de Heráclito para analisar a vivência do latim e segue o texto abaixo:

A ideia do latim estar vivo me remeteu ao conceito de semelhança a Deus de Heráclito, não a um Deus específico, mas ao conceito sociocultural de divindade. Seu pensamento, reinterpretado por Hanna Arendt em A Condição Humana, seguia: um homem só se assemelha a Deus ao buscar a fama imortal, quando deixa fatos imorredouros que lhe perpetuarão a existência. Tal como a divindade, não morre, pois transcende o seu próprio tempo, onde está a sua vida. Deus já existia antes d’eu nascer, existe enquanto vivo e continuará existindo após a minha morte, portanto se assemelharia ao ser transcendente quem alcançasse tal relevância, os outros, satisfeitos com o que a natureza lhes forneceu, viveram e morreram como animais. Desse modo, Gandhi e Einstein por exemplo, não morrem.

Dizer, hoje: o latim está vivo pelo seu legado, é ressignificar o pensamento contemporâneo de morte a um conceito filosófico pré-socrático. A ideia de morte na Roma Antiga era deixar de estar entre os homens, o que convém até hoje, pois a particularidade não existe ao mundo. Se eu me isolar da sociedade sem deixar vestígios em pouco tempo ninguém saberá da minha existência, estarei morto, por mais que meu corpo não padeça.

Nossa própria experiência é um excelente parâmetro para essa reflexão como explicou o mitólogo Joseph Campbell em o Poder do Mito. Imagine uma pessoa que estava próxima, viva, quente, conversando e agora está distante, deitada, fria e apodrecendo. Havia nela uma coisa que não está mais ali, essa coisa, estopim é o estopim do existir, combustível da vida. Os animais também passam pela experiência de ver seus companheiros morrerem, mas não há evidências de reflexão sobre isso. Agora, elevando essa reflexão além dos animais, à língua, como ela não permeia o ciclo biológico de nascimento, crescimento e morte física, é possível parcializar o conceito direcionado ao objeto de desejo adaptando da maneira que lhe convém mais relevância do que exerce atualmente.

Então onde está a existência, no legado ou na vivência? Se aceitarmos que está no legado muitos de nós não morreremos, escritores por exemplo. Mas se pensarmos que está na vivência, cumpriremos a ideia comum de vida: nascimento, crescimento, morte e deixaremos nossas representações para a posteridade, penso ser cabível. Eu vivo com a genética herdada do meu pai, mas quem vive sou eu e não ele. Penso no latim como o pai do português, quem vive é o português, e não ele. O que existe entre nós é o legado do latim impregnado no português e em outras, tal como a genética de nossos pais está impregnada em nós.

Seguindo essa linha de pensamento, Deus não pode morrer, pois nunca viveu. Falta-lhe o combustível da vida, a coisa viva esvaída do homem quente, agora jaz apodrecendo. Assim, Deus não teria alma, viveria pelo legado, representações do que lhe fora atribuído através de valores humanos.

Talvez a necessidade de criar um ser livre de constrangimentos para lhe atribuir a culpa da nossa existência seguindo o pensamento de liberdade e servidão em Espinoza, ou talvez o medo da imanência, o princípio e o fim em si, e a criação de um ser transcendente, eterno, para que oremos: a nossa vida também pode ser. Portanto o fim não existe mais, a morte é apenas um recomeço, muito mais bonito do que o silêncio do ponto final. Ou mesmo, a fraqueza em suportar a dor de ser humano e atribuir-lhe o fardo de suas incompetências seguindo o pensamento de Bertrand Russell.

Se o latim ressuscitar, então, Deus terá uma chance.

 

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Este post tem 3 comentários

  1. Mirian

    (Trecho excluído pela moderação)
    DEUS EXISTE E LINDO GALARDEADOR DOS QUE O ADORAM!!!!

    1. Paulo

      Eu nunca vi o nada criar alguma coisa. Porque nada é nada. SE tudo o que existe hoje, existe, logo alguém o deve ter criado. E diga-se de passagem, o microcosmos e o macrocosmos….um universo químico, físico, matemáticos, biológico. ..tudo tão arrumado… Eu creio em Deus, o arquiteto do universo.

  2. Mirian

    Seria muito bom e seguro pra vc , o autor desse texto, demonstrar respeito pelo Criador, de Deus não se zomba!!!
    (Trecho excluído pela moderação) ora faça-me o favor!!!!
    Affffffff!!!!

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