Por Aluysio Abreu Barbosa
— Relação com mulher é presidencialista, percebe? Relação com menina é parlamentar — sentenciou Aníbal à mesa do botequim dividida com o velho amigo de data recente.
— Como assim? — indagou Jorge, com a dúvida ainda molhada do gole de cerveja gelada.
— Depois que a gente passa dos 30, a relação com alguém da nossa idade é entre você e a pessoa. Pode até ser complicada. Mas são vocês que resolvem entre os dois. É uma relação presidencialista.
— Até aí tudo bem. E a parlamentar? — indagou, ainda sem matar a segunda analogia.
— E se você for se relacionar com uma menina mais nova? E se ela ainda morar com a família? Pais, irmãos, amigos se acham no direito de também opinar. Aí a sua relação deixa de ser presidencial e passa a ser com um parlamento.
Jorge sorriu, sinalizando apenas na expressão da face sua compreensão integral e concordância com a distinção do amigo. À deixa muda, Aníbal tomou um gole longo de cerveja e emendou:
— Depois de certa idade, a gente não tem mais de saco pra lidar com parlamento. E vai que tem aquele cunhado pedante que você não votava nem pra servir cafezinho frio à oposição? A paciência acaba depois dos 30. E a gente já tá com mais de 40.
— Tem coisas que só o tempo. Família é importante. Talvez a coisa mais importante da vida. Mas cordão umbilical é patologia — diagnosticou Jorge.
— A menina pode até ser madura. Mais do que eu ou você, na idade dela. Mas tem coisa que não dá pra pular.
— Tipo?
— Tipo, ela é de confiança, aquela pessoa que você poderia confiar até sua vida. Confiaria cegamente.
— Então qual é o problema?
— Mesmo sendo de confiança e madura para a idade dela, ela tem a idade dela. E, pela falta de cancha, fala tudo com a mãe. E a mãe fala tudo com o mundo. Nem é por mal. Só a força de um hábito que você nunca teve.
— É o que falei do cordão umbilical. Dá pra imaginar bem como é…
— E aí você acorda um belo dia e vê que seu parlamento virou o mundo. Abriu o olho ainda com remela e bochecha marcada da dobra da fronha do travesseiro. E deu de cara com a corte do Luís XIV dando palpite na sua vida a dois — descreveu Aníbal, antes de virar o restinho de cerveja no fundo do copo.
— É, deve ser um susto. O mundo é muita gente. Com os regimes, o presidencialismo deveria evoluir ao parlamentarismo. Com as relações talvez seja o contrário — filosofou Jorge.
— Aí você enche o saco e toca fogo no Reichstag. Você até chegou a gostar da menina, não do entorno. Afinal, a gente fica seletivo com a idade. E o que acontece? O parlamento não aceita perder poder e trabalha pra te derrubar. Tá destinado a virar uma Dilma ou um Collor.
— Melhor a gente não desviar o rumo da prosa. Política, no Brasil de hoje, é assunto mais passional que relação.
— Sem entrar nessa outra política, foi por isso que troquei de sistema de governo.
— Sim, depois de certa idade, o presidencialismo é menos complicado.
— Um poeta amigo meu disse que é fácil saber quando a relação está condenada pela imaturidade: qualquer erro lírico ganha proporções épicas.
— Resumiu a ópera! Ninguém melhor que um poeta para fazer o libreto.
— A gente é macaco, bicho de bando. Todos temos nosso parlamento. Mas só viramos adultos depois que evoluímos o suficiente para pendurar a placa de não perturbe na maçaneta do outro lado da porta da relação. Quem é seguro de si deixa o resto do mundo gramando, lá fora!
— E que coma capim até a barriga ficar verde!
— Menina sempre idealiza um príncipe. Mulher vê o homem… ou a outra mulher.
— O príncipe não virou um chato?
— Que dá no saco real e imaginário!
— Grande Cássia Eller! — saudou Jorge, enquanto ia levantar um brinde, até notar vazios o copo do amigo e a garrafa comum.
— Sabia que Cazuza e Frejat fizeram essa música para a Angela Ro Ro? Mas ela disse que não gostou. Aí apareceu a Cássia, gravou e virou o que virou.
— Malandragem! Literalmente!
— Amigão, vê mais uma cerveja e dois bolinhos de feijoada? Mas bem sequinhos, valeu?! — ressalvou Aníbal ao garçom que passava ao lado da mesa do boteco.
Publicado hoje (04) na Folha da Manhã
Maravilhosa crônica! E verdadeira.
Crônica de domingo no clima do dia… Despretensiosa tocando questões relevantes!
Muito bom o texto . Dá pena de acabar de ler.
Delícia de crônica. A gente se sente na mesa do bar e no meio da conversa.