Fernando Leite — A melhor cidade do mundo

 

 

 

Não há cidade melhor do que aquela para qual a gente está sempre voltando. Não há outra que substitua a que “(…)não cresce tanto além das chaminés(…)” e que “(…)permita ao seu povo sentar-se à sombra e descansar os pés(…)”.

As cidades são vivas, se movimentam, pulsam, experimentam o frescor de tempos felizes, adoecem, amargam enormes tristezas e morrem também.

Reproduzem na superfície, os choques das placas tectônicas, em maior ou menor intensidade. Mas, intermitentemente, são moldadas pelo homem, que permite o avanço das chagas da miséria, o inchaço da especulação imobiliária, a paralisia urbana, resultante do trânsito desordenado a coletivização do mal estar.

As cidades são grandes casas comuns. Se bem cuidadas, generosas e confortáveis, se não, insuportáveis.

O gênesis das cidades, que à exemplo do criacionismo, foi “feita à imagem e semelhança do seu autor” e até onde a literatura alcança, a era paleolítica, a arquitetura das cavernas e sua interrelação, as aldeias nas florestas, os aglomerados humanos, se estruturaram, desde sempre, seguindo a lógica do Poder. Do centro para a periferia. Os centros se diferem, mas as periferias se igualam na desordem e na carência.

No feudalismo, os núcleos oligárquicos, urbanos, eram protegidos por muralhas, restando aos que não faziam parte dos limites do domínio, se arranjarem nas vilas, solução de moradias que originou o verbete “vilões” para os que moravam fora das fortalezas. Onde morar, como se vê, foi e é credencial.

“O mundo, vasto mundo” é a soma de todas as cidades, que se separam não, apenas, na distância geográfica, mas temporal. Nova Yorque está à muitas décadas de São Fidélis. Tóquio dista aproximadamente um século de São Gonçalo. Paris já atravessou há décadas para o terceiro milênio enquanto Assunção, no Paraguai, ainda se arrasta no desfecho do segundo milênio.

Reza a lenda que o arquiteto Oscar Niemeyer, que, com Lucio Costa, planejou Brasília, teria se arrependido de sua criação, em função dela ter se transformado no cenário oficial, no que há de mais sórdido na vida brasileira. A Brasília funcional, oficial, espaço público federal. Verdade ou mito, a questão atrai a discussão que interessa: a cidade é onde se vive, efetivamente. Onde se vai as compras, ao barbeiro, a banca de jornais, pela manhã, ao cinema, ao teatro, faz-se a caminhada, no final datarde. A cidade com seus espaços ocupados e vazios, que a equilibram e a ajudam a respirar. Viver não se resume a rotina enfadonha de só ir e vir ao trabalho. É um rito completo que inclui umatroca de afeto com a cidade natal, seja ela qual for.

Para reforçar a ideia, recorro a Linguística, para quem o meio influencia nos hábitos, na linguagem, nas relações cognitivas dos citadinos. O homem do litoral fala diferente do homem da montanha, que, por sua vez, fala com seu acervo próprio de expressões e sotaques. São as variações diatópicas. Aqui mesmo, na Planície soberana, temos uma queda pelo r (erre) em lugar do l (ele). Desfilam nas ruas, diariamente, milhares de “bicicRetas”. Vi esta cena “dijaojinha”, expressão própria da nossa mítica baixada da Égua, que com sua dialética influenciou um dos maiores escritores universais, José Cândido de Carvalho.

O histórico e a identidade cultural das cidades são grandes atrações turísticas e movem interesses diversos do turismo, do fluxo cada vez maior de pessoas, da inesgotável curiosidade, mas cidades são, antes, berços memoriais. Para onde estamos sempre voltando, não importa onde estejamos.

 

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