Locaute dos caminhoneiros apoia intervenção militar

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (26) na Folha

 

 

Greve ou locaute?

A paralisação dos caminhoneiros e a crise de desabastecimento em todo o país são locaute? A palavra é a versão aportuguesada do inglês “lock out” (“trancar”), que no dicionário Aurélio é assim definida: “Qualquer paralisação de um setor ou unidade produtiva determinada pelos proprietários, como instrumento de pressão”. Pelo fato de não ter na pauta o aumento do preço do frete, apenas o subsídio federal ao diesel, muitos especialistas têm considerado como locaute o movimento que ontem entrou no quinto dia, mesmo depois do governo federal ter garantido na noite de quinta o congelamento do litro do diesel a R$ 2,10 por 30 dias.

 

Esquerda denuncia farsa

A paralisação dos caminhoneiros tem contado com a simpatia de setores da esquerda brasileira, pelos danos que causa ao moribundo governo Michel Temer (MDB). No entanto, uma das referências do pensamento de esquerda no país, o jurista e professor de direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Afrânio Silva Jardim foi categórico ao afirmar desde o início do movimento, no dia 21: “Na verdade, não se trata de greve de caminhoneiros e, sim, uma paralisação determinada pelas empresas que exploram este tipo de atividade econômica. Trata-se de um verdadeiro ‘Lock Out’”. E concluiu: “Vamos denunciar essa farsa!”.

 

Brasil 247 e O Globo

A opinião de Afrânio foi repercutida pelo site Brasil 247 — números que, somados, dão 13, em referência clara ao PT. E não é diferente do que ressalvou o jornalista Bernardo Mello Franco, em artigo publicado ontem na “mídia corporativa” d’O Globo: “A crise de desabastecimento não foi provocada por uma mera greve de caminhoneiros. Há participação explícita de grandes empresários de transportes na paralisação. Greve apoiada por patrões não é greve, é locaute. Nem sempre se limita a buscar vantagens financeiras. Pode embutir outros fins, como desestabilizar governos e tumultuar eleições”.

 

Intervenção militar (I)

Mello Franco contrastou em seu artigo o apoio à paralisação entre esquerda e direita: “Parte da oposição festeja o caos. A direita amalucada volta a pedir ‘intervenção militar’, um eufemismo rasteiro para golpe”. A esquerda que simpatiza com o movimento dos caminhoneiros parece desconhecer que eles também fizeram exigências políticas. A primeira reivindicação da União Nacional dos Transportadores Rodoviários e Autônomos de Carga é: “cumprimento integral da lei do voto impresso em urnas eletrônicas ou adoção do voto impresso em urnas de lona, com apuração a cargo das Forças Armadas”. E ameaçou: “em caso de descumprimento, nos somaremos ao clamor popular por intervenção militar”.

 

Intervenção militar (II)

Na verdade, os militares “defendidos pelos caminhoneiros foram o elemento de dissuasão da sua paralisação. Após fechar o acordo com representantes da categoria, na reunião de quinta, Temer ficou contrariado com a permanência da paralisação na sexta. E, em pronunciamento na TV, disse: “Para superar os graves efeitos comunico que acionei as Forças Armadas para desbloquear as estradas. Atendemos todas as reivindicações prioritárias dos caminhoneiros que se comprometeram a encerrar a paralisação”. Preocupados com conflitos entre soldados e caminhoneiros, os líderes destes ontem pediam a suspensão dos bloqueios nas estradas.

 

No quinto dia da paralização dos caminhoneiros, só ontem apareceu na BR 101 em Campos a faixa com apoio à intervenção militar (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Intervenção militar (III)

Apesar dos apelos pelo fim da paralisação, a reportagem da Folha ouviu ontem os manifestantes no trecho da BR 101 que corta o município. Eles informaram que 80% dos caminhoneiros, ali parados há cinco dias, são de Campos. E garantiram que, independente do que está sendo divulgado, eles irão aguardar o Exército, mas não pretendem entregar as chaves dos seus veículos a nenhum militar. Na contradição flagrante entre discurso e prática, ontem apareceu uma novidade no ato: um caminhão com uma faixa gigantesca escrito: “Queremos intervenção militar já!!!”.

 

Na saúde

Além do desabastecimento em todos os postos de combustível, supermercados, feiras, escolas, portos, aeroportos e transporte público do país, o quadro preocupa também na saúde. Os manifestantes afirmam que caminhões com remédios e insumos hospitalares são liberados, o que é impossível de ser fiscalizado. A secretaria de Saúde de Campos informou que não chegaram novas remessas esperadas para ontem. A situação real será averiguada em levantamento na segunda (28). Já de acordo com hospitais como Álvaro Alvim, Plantadores de Cana, Unimed e Beda, a situação por enquanto é estável. Resta saber até quando.

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

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Este post tem um comentário

  1. carlos heitor

    Fizeram intervenção militar no Rio ……. não serviu para (trecho excluído pela moderação) nenhuma….

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