Artigo depois do primeiro turno — No fotochart e na foto grande

 

 

Prevaleceram as pesquisas. Como adiantou (aqui) a coluna Ponto Final de ontem, a definição do segundo turno presidencial foi no fotochart. O recurso fotográfico é usado para definir o vencedor de uma corrida quando os atletas cruzam quase ao mesmo tempo a linha de chegada. Mas, nas raias ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro (PSL) chegou com a mesma diferença sobre Fernando Haddad (PT) que o velocista Usain Bolt costumava impor aos adversários. O fotochart só foi usado para definir o segundo turno. Com imensa desvantagem ao petista, sua largada foi dada desde a noite de ontem à chegada daqui a três domingos.

A força eleitoral demonstrada por Bolsonaro não foi suficiente para elegê-lo no primeiro turno. Mas serviu para fazer os votos dos brasileiros arderem sobre o lombo da esquerda, numa coça humilhante em quase todo o país. No Estado do Rio, após receber o apoio da família Bolsonaro, o candidato a governador e ex-juiz federal Wilson Witzel (PTC) surpreendeu com um dos crescimentos mais meteóricos na história da política fluminense.

Quando exibiu o 17 escrito na mão e pediu voto a presidente para Bolsonaro, ao final do debate do SBT de 19 de setembro, Witzel tinha apenas 1% de intenção de votos na pesquisa Datafolha mais recente. Exatos 16 dias após aquele debate, o candidato teve 17% dos votos válidos na última Datafolha antes do pleito. À sua véspera, o ex-magistrado apareceu empatado com Romário Faria (Podemos) na segunda posição, após ultrapassar Tarcísio Motta (Psol) e Indio da Costa (PSD). O avanço foi tão rápido que nem deu tempo à pesquisa para simular o segundo turno entre Witzel e o líder Eduardo Paes (DEM).

Encerrada a apuração do primeiro turno, menos de 24h depois, o avanço real do ex-juiz superou qualquer simulação. Ele teve impressionantes 41,28% dos votos do urnas do Estado do Rio. Eduardo Paes até foi ao segundo turno, mas com apenas 19,56% do eleitorado. Quase engolido pelo tsunami bolsonarista sobre o qual surfou Witzel, o ex-prefeito do Rio tinha uma eleição a governador aparentemente garantida em todas as pesquisas.

A explicação? Simples: mesmo cortejado pelo PT nacional, Paes escolheu a neutralidade presidencial. Candidato de Witzel, Jair Bolsonaro teve 59,79% do eleitorado fluminense. Com 15,22%, Ciro Gomes (PDT) ficou em segundo, à frente Haddad, que teve 14,70%. Somados, os dois presidenciáveis de esquerda tiveram a metade da votação do capitão no Estado do Rio. O mesmo que elegeu com folga seu filho Flávio Bolsonaro (PSL) como senador. À Câmara Alta, ele teve quase a soma de votos dos dois primeiros colocados a governador.

As consequências da força de Bolsonaro junto ao eleitor fluminense foram várias. Inclusive em Campos. Como o blogueiro Christiano Abreu Barbosa explicou ontem (aqui) em seu Ponto de Vista, hospedado no Folha 1: “A estupenda votação de Bolsonaro no Estado do Rio, puxou todos os candidatos do seu partido (…) conquistando 12 cadeiras para a Câmara de Deputados em Brasília. O 12º do PSL conquistou a vaga com 31.788 votos (…) A coligação de Marcão Gomes, PR e Podemos, tinha potencial para três a quatro deputados. Com a onda PSL, fez apenas dois, deixando de fora Marcão, com quase 41 mil votos”.

Ainda no Estado do Rio, o senador Lindbergh Faria (PT) foi varrido pelo voto conservador. E ganhou a companhia de outros fortes candidatos ao Senado do seu partido, como Eduardo Suplicy em São Paulo e a ex-presidente Dilma Rousseff, em Minas Gerais. Governador daquele Estado, o também petista Fernando Pimentel perdeu a reeleição ainda no primeiro turno, atropelado pelo candidato Romeu Zema (Novo), com apoio do PSL. No particular de Dilma, como lembrou ontem o jornalista Merval Pereira, ficou a irônica justiça dela ter sofrido pelo voto a punição que a Justiça sonegou em seu impeachment.

Apesar dos estragos causados à esquerda em todo o país, a imposição do segundo turno presidencial a Bolsonaro, contra Haddad, deveria servir de reflexão. À direita, pelos facínoras que ontem filmaram o voto ao capitão sendo teclado pelo cano das armas na urna, ou latiram nas redes sociais contra o Nordeste do país. À esquerda, pelo grito de “basta!” do voto popular contra quem se arrogava imune à autocrítica, em nome de uma fidelidade canina a Lula.

Salvo o imponderável, como a facada em Juiz de Fora, a vantagem para o dia 28 é toda de Bolsonaro. Sobretudo se os eleitores de Haddad propuserem insistir as próximas três semanas no diapasão “barbárie x civilização”. Além da simpatia dos já convertidos, deve surtir o mesmo efeito prático da mobilização das mulheres no “#EleNão” de 29 de setembro, responsável pelo avanço do capitão sobre o voto feminino. Mais do mesmo que transformou um deputado federal do baixo clero no pivô da separação entre a esquerda e a urna.

Se Haddad conseguiu chegar no fotochart ao segundo turno, deve à votação do Estado Bahia. E ao trabalho do seu ex-governador Jaques Wagner, eleito ontem senador. Ele foi um dos poucos que ousou questionar Lula pela aliança do PT com Ciro.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Edi cardoso

    Você não comentou, mas na queda de braço entre Marcão Gomes e Wladimir Garotinho, em Campos, quem ganhou foi o Wladimir.
    Termômetro está alto para a família Garotinho.
    Culpa da incompetência do atual prefeito, pela indiferença que trata os campistas.

  2. cesar peixoto

    Com a maquina na mão nem assim Marcão conseguiu se eleger, mesmo Garotinho sem prestigio como muita gente fala ele conseguiu eleger Wladimir e Clarissa

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