Opiniões

Ana Cristina Barreto Guimarães, aos 46, morreu de amor

Ana Cristina Barreto Guimarães

Já escrevi, mais do que gostaria, que nada evidencia o tempo passando por nós, do que quando ele deixa de passar a quem nos servia de referência. Alguém que você namorou sempre será uma referência. Ana Cristina Barreto Guimarães era uma referência boa na minha vida, em que buscava porto após atravessar os mares sempre tempestuosos da paixão. Tínhamos perdido contato nos últimos anos, nessas coisas da vida que acontecem sem você saber por quê. Ela faleceu na manhã de hoje, no Hospital da Unimed, com apenas 46 anos, em consequência de um AVC. Este, por sua vez, consequência da Covid que a acometeu em agosto e matou seus pais. O pai naquele mesmo mês, a mãe em setembro, com os quais morava desde que nasceu e dedicava sua vida.

Formada em Direito pela FDC, Ana Cristina não chegou a exercer a profissão. Mas teve atuação ativa na Câmara Júnior, instituição tradicional de Campos, da qual foi a primeira mulher presidente, em 2002, aos 28 anos. Foi então que a conheci, mulher grande, com porte de guerreira Valquíria e voz doce, jovem promessa de liderança da cidade. Através de amigos comuns, como o advogado Andral Tavares Filho, ex-presidente da OAB-Campos, além do falecido economista Irezê Mesquita, ambos também da Câmara Júnior, minha relação com ela se aproximou. A amizade e atração mútua se consumariam depois em namoro, logo após eu ter saído do meu segundo casamento. Este com a maior e, talvez, única paixão que tive na vida.

Era o ano de 2005, quando eu e Ana Cristina namoramos. E o fato dela lembrar muito fisicamente minha segunda ex-esposa, não de rosto, mas de porte, acabou minando qualquer possibilidade de sucesso do nosso namoro. Em algo involuntário, mas tremendamente injusto, buscava o que nela me lembrava outra pessoa. E não pude me focar na pessoa maravilhosa que Ana Cristina era por si mesma. Lembro muito das nossas conversas alongadas, já madrugada alta, dentro do meu carro, após sairmos juntos à noite, quando ia deixá-la para dormir na casa dos seus pais, no Parque São Caetano. Independente do tema do papo, a doçura era sempre sua principal característica.

No final de semana prolongado pelo feriado de 15 de novembro, que caiu na terça daquele ano de 2005, Andral e Irezê, junto ao petroleiro hoje aposentado Rubens Muniz Filho, alugaram uma casa na praia de Geribá, em Búzios. E convidaram a mim e Ana Cristina. Reunidos em quatro casais, passamos ótimos momentos juntos. Lembro de uma noite em que, após algumas doses de whisky — bebida que, naquele tempo, eu ainda consumia —, convidei a todos para comer escargot no Chez Bigitte, na Rua das Pedras. E com a maioria de nós já alterada pelo destilado escocês, e pouca intimidade com a arte de segurar a concha do caramujo com uma pinça para retirar com um garfo de duas pontas a lesma preparada à base de manteiga e ervas, reproduziam-se cenas muito engraçadas. Não raro, protagonizadas por um caracol catapultado do prato pela mesa, como se vivo e transformado em animal ligeiro na pegada errada da pinça.

Àquela época, eu ainda praticava caça submarina. E independente do quanto a noite a madrugada anterior tivessem se estendido, Ana Cristina não só atendia ao pedido de me acordar assim que o sol nascia, melhor horário para a prática do esporte, quando os peixes maiores do oceano ainda se sentem seguros em suas incursões noturnas à beira mar. Após me despertar, o que nunca era fácil, ele me acompanhava até a praia de Ferradura, fundo de mar que até hoje eu talvez melhor conheça. E de cima de uma pedra esperava paciente e solitária, por horas, até que eu regressasse das águas azuis mais ou menos abençoado de sorte, em peixes vazados de arpão e pendurados pela fieira atada à cintura. Sempre me recebia de volta do mar com uma toalha seca e um beijo molhado de orgulho.

Ana Cristina morreu hoje como prova viva do poder destruidor da Covid. Capaz de dizimar uma família inteira, não só pelo que provoca no corpo, mas na alma humana de quem sobrevive. Não por mim ou nenhum outro idiota com quem se relacionou, ela morreu pela mulher e o homem que lhe deram a vida.

Doce como era, Ana Cristina morreu de amor.

 

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Este post tem 8 comentários

  1. Eu sinto muito! Éramos companheiros de Cãmara Júnior!

  2. Belíssimas palavras que refletem a mesma impressão que tenho da Ana Cristina como mulher guerreira, dedicada e com uma grande personalidade. Estava eu como Presidente da JCI Brasil em 2003 quando recebi uma bela homenagem da JCI Campos dos Goytacazes planejada por ela desde 2002. Não sabia da perda dos pais. Que as almas estejam acolhidos pelo Espírito Santo e fique o conforto a quem aqui permanece. Nossos sentimentos a todos os familiares

  3. Lembro dela sim. Esteve em São Fidélis, quando promovendo a Câmara Junior, na cidade.

  4. Uma grande tristeza…

  5. Belo e emocionante texto. E o Ministro da Saúde (?) ainda argumenta que não entende o porquê da pressa pela vacina!

  6. Texto brilhante que fotografa com perfeição a alma gentil e carinhosa desta doce criatura;
    Conheci ainda menina em 1992 quando voltei a morar por alguns meses em Campos, após 5 anos em Niterói; nos embalos das saudosas noites do “Só na Brasa” de Marcelinho (hj sua loja de pneus) perto do Batalhão da PM, fizemos amizade pq eu tinha um “rolo” com uma amiga dela..
    Me lembro que neste tempo tive pneumonia e num sábado convalescendo em casa, a minha mãe entra no quarto com uma corbelha de flores e um cartão me desejando pronto restabelecimento, que foram entregues pessoalmente pela Ana Cristina; fiquei comovido pq dos altos dos meus 30 anos nunca havia recebido flores na vida..
    Em vários outros encontros em Campos, e tb já morando no Rio a partir de 93, ela sempre aparecia com sua alegria e generosidade no trato com as pessoas..
    Que Deus a receba e o Céu possa ficar ainda mais fraterno com a sua presença..
    Descanse em Paz!

  7. Era minha prima, seus pais e ela sempre vinham a minha casa para visitar meu pais, minha mãe era prima da mãe dela. Estamos todos chocados pelo acontecimento, estamos sem acreditar ainda nessas perdas. O pai, a mãe e agora ela. Um doce de menina, uma família cercada de amor um pelo outro, o cuidado dela e da mãe com o pai era de dar inveja a muitas famílias. Sempre que ia lá na casa deles eu assistia admiravelmente o comportamento amoroso entre eles. A ultima vez que a vi foi no seu ultimo aniversario. Saímos varias vezes juntas para rodeio de Toni Nascimento. Uma perda grande. Sentirei falta. Agora só as lembranças ficarão na memoria. Que sua alma e de seus pais descansem em paz.

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