Universitários conservador e socialista debatem direita e esquerda na Folha

 

Na bipolaridade política em que o Brasil se divide desde 2014, com acirramento em 2018, é possível o diálogo civilizado entre direita e esquerda? Após 21 anos de ditadura militar (1964/1985), para que a nossa democracia jovem de 36 anos sobreviva, é necessário que sim. Ainda mais jovens, os universitários Eraldo Duarte, que cursa Ciências Sociais na UFF-Campos, e Gilberto Gomes, estudante de Administração Pública na Uenf e secretário de Comunicação do PT de Campos, provaram que é possível. Se, ao criarem a democracia cinco séculos antes de Cristo, os gregos antigos expunham suas posições e mediavam suas diferenças na ágora, esta teve como palco na manhã de ontem o Folha no Ar, da Folha FM 98,3. No programa da rádio mais ouvida da região, o socialista Gilberto e o conservador Eraldo falaram de Lula e Bolsonaro, de Forças Armadas e perigo de golpe, de pandemia da Covid-19 e sua politização ao custo da vida de centenas de milhares de brasileiros. Em nome da democracia, o bolsonarista e o lulopetista falaram até da possibilidade de convergência. Como grande poeta da música, a despeito das suas posições políticas, Chico Buarque saudaria: “Evoé, jovens à vista”!

 

Socialista Gilberto Gomes e conservador Eraldo Duarte (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Entrevista de Lula a Reinaldo Azevedo

Eraldo Duarte – Vou ter que confessar que não assisti à entrevista, só fiquei sabendo ontem à noite. O Lula é um (pré-)candidato, já foi presidente, é um presidenciável de peso. O encontro dele com um jornalista que já foi muito crítico ao PT, escreveu livros, cunhou o termo “petralha”, como o Reinaldo Azevedo, que até pouco tempo se colocava no espectro político conservador brasileiro, tem a capacidade de gerar interesse, justamente por concentrar indivíduos tão antagônicos; apesar de um ser político e outro, jornalista. Claro que eu quero assistir. De fato, Lula é muito carismático, consegue ter essa comunicação até muito melhor que o Bolsonaro, no sentido de trazer simpatia.

Gilberto Gomes – Eu pude acompanhar quase toda a entrevista. Ela mostrou a disposição de Lula de dialogar de maneira muito franca e honesta com as pretensões do PT nestas eleições. Como o Eraldo destacou, o fato de ser uma entrevista que reúne duas figuras antagônicas tende a chamar a atenção. E o Reinaldo Azevedo tem tido um papel muito importante nos últimos anos em relação à Lava Jato. Ele foi um dos primeiros jornalistas a questionar os métodos da operação, antes mesmo de a gente ter acesso às mensagens que foram reveladas o hacker de Araraquara (Walter Delgatti) e pelo The Intercept, com (o jornalista) Glenn Greenwald. Destacou o fato do Reinaldo Azevedo de fato ter se demonstrado um jornalista ético e conseguiu conduzir uma entrevista em que Lula mandou vários recados: para os empresários, para o centro, rebateu o argumento da polarização, em que tentam colocar em um extremo que ele nunca ocupou.

 

 

 

Bolsonaro e as Forças Armadas

Gilberto – É sem dúvida uma das maiores crises militares dos últimos tempos. Ela destaca que Bolsonaro está disposto, sim, a tensionar a atuação das Forças Armadas nos mais diversos contextos. A gente não tem muita clareza, mas diversos analistas políticos indicam que pode ser mais uma movimentação que ameace a democracia, pode ser uma tomada de posição de Bolsonaro que ameace o lockdown nos estados que estão adotando medidas de restrição. A figura de Bolsonaro não é nem quista por diversos setores das Forças Armadas, pelo alto generalato, que são figuras muito mais intelectuais, que têm alta formação e não estão dispostos a tensionar a democracia, a adotar a posição de golpe neste momento. Eu acredito que eles têm muita confiança na posição do Mourão (PRTB, general da reserva) como vice. Sem poder sobre as Forças Armadas, eu creio, a gente teve agora o caso da Bahia (o PM Wesley Góes teve um aparente surto em Salvador, foi baleado e morreu no último domingo, após atirar contra colegas), as forças das Polícias Militares tendem a ser usadas como massa de manobra em uma eventual crise mais intensa do governo Bolsonaro, inclusive até numa derrota em 2022.

Eraldo – Os militares têm uma centralidade no Brasil que vem desde o fim da Monarquia, que se deu por um golpe do Exército, que logo instalou a República da Espada (1889/1894), com os marechais Deodoro (da Fonseca) e Floriano Peixoto. De lá para cá, os militares sempre foram o fiel da balança na República, como já estavam no final do Império. A História do Brasil é uma história de golpes militares, ou de golpes apoiados pelos militares. Acho isso muito ruim, porque os militares são uma corporação que tem os seus interesses também. Eles exercem pressão sindical e, como não podem fazer greve, eles de algum modo vão entrar na política. O presidente Bolsonaro fez esses acenos aos militares, que o aceitaram e embarcaram com uma série de generais no governo. A saída dos comandantes (das Forças Armadas) é algo ruim de fato, porque passa que houve um desgaste entre o presidente e, em especial, o general (Edson) Pujol (comandante do Exército exonerado junto aos da Marinha, almirante Ilques Barbosa; e da Aeronáutica, brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez). É um movimento que acontece no Banco do Brasil também (o presidente do seu Conselho, Hélio Magalhães, apresentou sua carta de demissão na última quinta, por não concordar com as ingerências de Governo Federal na instituição). O presidente Bolsonaro tem essa característica de ficar gerenciando as instituições, tanto o Exército, quanto as empresas de capital misto, Banco do Brasil, Petrobras, que causam um desconforto em suas cúpulas. Eu vejo isso mais como um problema da pessoa do presidente, de querer gerenciar as pautas, e se o indivíduo não o agrada muito, ele tira; do que como um risco à democracia. Bolsonaro não tem consenso para um golpe entre as várias camadas das Forças Armadas.

 

Politização da pandemia no Brasil

Eraldo – De fato, a pandemia foi completamente politizada. E aí, tanto por fatores que independem da ação do presidente da República, quanto pelas ações dele. Bolsonaro chamou muito para si a responsabilidade em algumas falas sobre a questão da vacina, ao chamar de “gripezinha”, na questão da aglomeração, ao falar do uso de máscaras. E como ele é o chefe da União, ele acaba politizando, porque ele é um agente político. E essa politização excessiva acaba escondendo a letalidade do vírus, vidas humanas estão sendo perdidas. E acaba colocando o presidente como principal responsável pela questão, pelas falhas, pelas mortes. Enquanto a gente sabe que há uma pactuação entre os entes federativos, governos estaduais e municipais. As medidas de contenção e relaxamento foram feitas na cidade, tanto pelo (ex-)prefeito Rafael Diniz (Cidadania), quanto pelo atual prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Houve em Campos a tentativa de se fazer um Hospital de Campanha (pelo governador Wilson Witzel, PSC, que nunca foi concluído ou entregue, em meio a denúncias de corrupção que levaram ao seu afastamento), que o Tribunal de Contas da União (TCU) vai investigar. Isso aí é um ônus que os outros governantes também têm. Mas pelo presidente Bolsonaro, de maneira desastrada, ficar dando declarações todo o dia, só sai a cara do bendito como o principal responsável. Eu acho que o presidente deveria deixar o ministro da Saúde (o médico cardiologista Marcelo Queiroga, quarto a ocupar o cargo durante a pandemia) falar mais e aparecer mais.

Gilberto – Bolsonaro não somente politizou por acaso, ele politizou de maneira consciente no início da pandemia, vendo ali uma possibilidade clara de afastar diversas crises do governo. Agora, isso tem um custo para a sociedade gigantesco. Quando ele relativiza o uso da máscara, quando ele vai nadar na praia em plena pandemia, aglomerando centenas de pessoas, ele está legitimando as pessoas que querem fazer o mesmo. Quando o Eraldo fala que ele (Bolsonaro) traz para si, não é por acaso. E aí a gente vai pegar desde o começo, quando ele falou que era uma “gripezinha”. E se não fosse o campo progressista, da esquerda, atuando principalmente no Congresso, a situação da pandemia estaria muito pior. A gente não teria um auxílio emergencial no valor de R$ 600 (na verdade, o Governo Federal propôs incialmente em R$ 200, o Congresso aumentou para R$ 500 e Bolsonaro subiu para R$ 600), que atenuou em muito a pandemia e conseguiu deixar algumas pessoas em casa. A gente não teria vacinas se não fosse a pressão do Congresso e das forças de oposição; a gente não teria tido o lockdown, muito provavelmente, porque ele era rechaçado desde o início. Tem a politização do discurso de medicamentos sem comprovação científica, que não só eram, como ainda são estimulados por forças políticas ligadas ao Bolsonaro. O fato do Bolsonaro ser colocado como figura central de todo esse caos que a gente está vivendo, não é só pelo que ele fala, mas é porque o bolsonarismo representa isso. E é representado por diversas outras figuras políticas, ligadas ao Bolsonaro e legitimadas pelo Bolsonaro. A gente tem que observar como essas forças políticas estão politizando desde o início o lockdown, estão politizando os hospitais de campanha que o Eraldo citou. Antes mesmo dos escândalos de corrupção aparecerem sobre os hospitais de campanha, já havia manifestações aqui em Campos pedindo o fechamento do Hospital de Campanha, dizendo que aquilo ali era desperdício de dinheiro. E o Hospital de Campanha estaria hoje ajudando muito a nossa cidade. A própria politização do lockdown é feita por grupos bolsonaristas, dizendo que ele prejudica o trabalhador, que ele vai passar fome, vinda de um grupo que jamais se preocupou com nenhuma política social.

 

Convergência possível entre direita e esquerda

Gilberto – A direita democrática existe no país; eu não tenho dúvida disso. Que pode, sim, convergir com a defesa da democracia. Agora, essa direita precisa estar disposta a romper com o que nós temos aí hoje. Precisa romper com o negacionismo, precisa romper com o bolsonarismo que ameaça muitas vezes a democracia. Pode não fazer isso de maneira objetiva, mas faz em várias falas que colocam a democracia em xeque. A própria família do presidente, ameaçando dissolução do STF, ameaçando fechar Congresso, AI-5. Como eu disse, não é só Bolsonaro, mas é o bolsonarismo com um todo. Essa direita precisa estar disposta a romper com isso, para que possa haver um consenso na defesa da democracia. Nós temos um inimigo em comum, que não é só a figura do Bolsonaro, mas é um projeto político que a gente se opõe dentro da democracia. E a gente tenta utilizar todas as ferramentas possíveis para isso. Eu acho que sim: é possível a direita e a esquerda convergirem na defesa de interesses democráticos para preservar o país, que tem enfrentado tantas crises, como jamais o Brasil viveu desde a redemocratização (em 1985, após 21 anos de ditadura militar).

Eraldo – Sempre que eu vejo para essa questão de direita e esquerda, eu procuro olhar com aquela perspectiva que o Karl Popper (filósofo austro-britânico) coloca no livro “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”: que há dois projetos, tanto de uma sociedade aberta, quanto de uma sociedade fechada. E há franjas na esquerda e há franjas na direita que vão defender um modelo de sociedade fechada, totalitária, autoritária. Como vai ter também uma esquerda e uma direita que vão apoiar a liberdade, a pluralidade. Quando elas apoiam a sociedade aberta, que culmina com a própria questão da democracia, eu imagino que possam, sim, convergir para um projeto mais transparente, no sentido de aparar as arestas do governo Bolsonaro. Isso surge muito, por exemplo, no Centrão, que vem tentando domar essas atitudes que eu acho prejudicais em um certo sentido retórico à democracia. Até pela maneira como ele se estrutura, o Centrão é um defensor da democracia. Não há como ter um Centrão antidemocrático, porque em um regime autoritário não haveria Centrão. Grupos que tem compromisso com uma sociedade aberta, eles devem se unir quando há uma ameaça ao regime democrático. Alguns indivíduos podem defender um misto entre uma sociedade aberta e uma sociedade fechada. Bolsonaro, eu acho que de certa maneira ela pode ter uma perspectiva um pouco mais autoritária. Não acho que ele seja um antidemocrata, mas acho que ele tem uma perspectiva que causa um pouco de estranhamento nos principais players da democracia. Eu às vezes faço críticas, mas espero o Bolsonaro melhore, afinal eu votei nele e provavelmente votarei na próxima eleição. São críticas de alguém que deseja que o presidente se enquadre melhor nas regras do jogo e continue no projeto que é uma cabeça de ponte para uma perspectiva mais tradicional e conservadora do Brasil.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos do debate sobre direita e esquerda realizado no Folha no Ar, da Folha FM 98,3, entre os universitários Eraldo Duarte e Gilberto Gomes, no início da manhã de sexta (02):

 

 

 

 

Página 2 da edição de hoje (03) da Folha da Manhã

 

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